quarta-feira, 3 de junho de 2026

Trump, em vez de unir o país, age cada vez mais como ‘bandido em chefe’ dos EUA

A perversão da presidência americana está minando a própria estrutura de alianças que venceu duas guerras mundiais e a Guerra Fria

A cada mês que passa de sua presidência, Donald Trump abre mão de seu papel de comandante-chefe para se tornar uma espécie de ‘bandido-em-chefe’.

Como assim?

Deixe-me enumerar as razões.

Somos uma nação em guerra hoje, com dezenas de milhares de soldados perto do Irã. Geralmente, quando nossa nação está em guerra, a principal prioridade interna do comandante-chefe é manter o país unido. Pois não há nada mais desmoralizante para as tropas americanas que lutam no exterior do que olhar para trás e ver nosso país se dilacerando internamente. E não há nada que incentive mais um inimigo a insistir em melhores condições para encerrar uma guerra com os Estados Unidos do que ver os Estados Unidos em guerra consigo mesmos.

E como Trump tem cumprido esse dever unificador de comandante-chefe? Ele não moveu um dedo para conseguir o apoio dos democratas à guerra. Em vez disso, priorizou agir como um “bandido em chefe”. No mesmo momento em que Trump pedia aos nossos homens e mulheres de uniforme que fizessem o sacrifício supremo, ele se envolveu em uma tentativa descarada e ostensiva de roubar o Tesouro dos EUA para beneficiar a si mesmo, sua família e seus aliados políticos, o que poderia incluir aqueles que atacaram o Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021. Foi tão ultrajante que nem mesmo alguns de seus bajuladores mais fiéis do Partido Republicano conseguiram aceitar.

Trump conspirou com seu próprio Departamento de Justiça, chefiado por seu ex-advogado pessoal, para usar o dinheiro dos contribuintes para criar um fundo secreto de US$ 1,776 bilhão, supostamente para indenizar os apoiadores de Trump que “sofreram com a instrumentalização da lei e a guerra jurídica” nas mãos de seu antecessor. Na verdade, como observou o conselho editorial deste jornal, isso “recompensaria os leais dispostos a desafiar a lei e cometer violência em nome do presidente”.

Felizmente, um juiz federal suspendeu temporariamente o esquema que ninguém descreveu melhor do que o ex-líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell: “Então, o principal responsável pela aplicação da lei do país está pedindo um fundo secreto para pagar pessoas que agridem policiais? Totalmente estúpido, moralmente errado — escolha você.” Diante de toda essa oposição, o procurador-geral interino de Trump, Todd Blanche, disse na terça-feira que estava retirando esse plano terrível.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assina uma ordem executiva no Salão Oval, em Washington Foto: Alex Brandon/AP

Se Trump tivesse um pingo de integridade, em vez de conspirar para reservar US$ 1,776 bilhão para potencialmente pagar esses falsos defensores da fronteira da liberdade — partidários que saquearam os corredores do Congresso —, ele instruiria o Congresso a gastar exatamente essa quantia para apoiar os verdadeiros defensores da fronteira da liberdade de hoje: o Exército ucraniano. Isso significa tanto resistir à tentativa de Vladimir Putin de esmagar a democracia da Ucrânia quanto minar a capacidade da Rússia de ameaçar os outros países livres da Europa. Deus abençoe os combatentes da Ucrânia.

Infelizmente, porém, Trump aparentemente quer dinheiro apenas para pessoas que tentaram derrubar nossa Constituição em casa, não para aqueles que querem imitar nossa democracia constitucional no exterior.

Além disso, o Departamento de Justiça dirigido por Trump inseriu discretamente, como um suplemento a esse acordo de fundo secreto, um documento de uma página assinado por Blanche afirmando que o governo estaria “PARA SEMPRE IMPEDIDO e EXCLUÍDO de processar ou perseguir” reclamações fiscais pendentes contra Trump, seus familiares ou suas empresas. Essa medida continua em vigor, disse Blanche na terça-feira.

O procurador-geral interino dos EUA, Todd Blanche, participa de uma audiência no Capitólio, em Washington Foto: Allison Robbert/AP

O presidente Trump tem outro apelido que sugere seus desafios éticos: “negociador-chefe”, como a Associated Press propôs recentemente. Por quê? Porque “os presidentes recentes evitaram negociar ações de empresas cuja sorte poderiam elevar ou arruinar com um simples traço de caneta, mas Donald Trump quebrou esse precedente no primeiro trimestre deste ano com mais de 3.600 ordens de compra e venda”, escreveu a AP, “muitas delas envolvendo empresas cujos lucros foram diretamente afetados por suas decisões como chefe do governo”.

Isso representou uma média de 50 transações por dia em ações que incluíam fornecedores militares dos EUA afetados pela guerra com o Irã. “Se ele fosse secretário de Defesa, estaria cometendo um crime”, disse Richard Painter, principal assessor de ética da Casa Branca no governo de George W. Bush, à AP. “Tecnicamente, ele pode fazer isso, mas é uma violação fundamental da confiança.”

Trump não apenas cortou praticamente toda a ajuda financeira dos EUA à Ucrânia, como também está reduzindo as tropas americanas em território dos países da Otan justamente quando Putin, sentindo que está perdendo a guerra, as ameaça cada vez mais.

Justamente quando os americanos começam a perceber que Trump está se tornando um predador do nosso sistema — tentando manipular o sistema judiciário para gerar dinheiro disponível para seus piratas de 6 de janeiro e imunidade contra as investigações em andamento sobre impostos para si mesmo e sua família — nossos aliados estão concluindo que a América de Trump está se tornando um predador perigoso para eles.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participa de um evento em Washington Foto: Eric Lee/NYT

De fato, algo está acontecendo com os aliados tradicionais dos Estados Unidos que eu jamais imaginei presenciar, nem nesta vida, nem na próxima. No período pós-Segunda Guerra Mundial, nós e nossos aliados abraçamos a doutrina da “dissuasão” contra a União Soviética e, posteriormente, contra a Rússia, para impedir qualquer tentativa do Kremlin de expandir sua influência à força no mundo livre ou de subjugar os países vizinhos.

Não mais.

Nossos aliados viram Trump ameaçar tornar o Canadá o 51º estado americano e anexar a Groenlândia da Dinamarca. Viram-no iniciar uma guerra com o Irã sem consultar a Otan e, em seguida, exigir que a Otan nos ajudasse a sair do caos que se instaurou. Viram-no cortar drasticamente a ajuda financeira americana à Ucrânia, colocar o agressor russo no mesmo patamar moral que aquele país e, para piorar a situação, impor tarifas imprudentes e mal concebidas a todos os nossos aliados.

Como resultado disso tudo, algo sem precedentes está acontecendo: “Deter a América de Trump está se tornando uma prioridade estratégica para nossos aliados, tanto quanto deter a Rússia era”, disse-me Nader Mousavizadeh, diretor executivo da Macro Advisory Partners, uma consultoria geopolítica, e ex-conselheiro sênior do Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan.

O presidente da França, Emmanuel Macron, cumprimenta o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, em Paris Foto: Ludovic Marin/AFP

E como poderia ser diferente? Ao observar como Trump castigou o Canadá com tarifas, é difícil não concluir que a pior posição para um país durante o segundo mandato de Trump “é ser o aliado mais próximo dos Estados Unidos e ter integrado sua economia, sistemas de energia e forças armadas aos dos Estados Unidos”, afirmou Mousavizadeh. Todos agora podem ver, acrescentou ele, que Trump “instrumentalizará a dependência de qualquer país em relação aos Estados Unidos e a usará para extrair tudo o que puder, na definição mais restrita, tática e transacional do poder americano”.

Não é de admirar que, após Trump intensificar sua retórica sobre a anexação da Groenlândia, os membros europeus da Otan — Alemanha, Suécia, França, Noruega, Holanda, Finlândia e Reino Unido — tenham anunciado planos para enviar pequenos contingentes militares à Groenlândia para reforçar as forças dinamarquesas.

Daniel Fried, ex-embaixador dos EUA na Polônia, observou em um ensaio para o Atlantic Council que, embora esses aliados da Otan tenham tentado justificar sua ação como necessária para reforçar a segurança no Ártico, eles também “usaram a palavra ‘dissuasão’. Para os europeus falarem nesses termos sobre os Estados Unidos, mesmo que implicitamente, é um ponto baixo, mas é necessário”.

O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, participa de uma coletiva de imprensa em Bruxelas (Foto: Jonathan Nackstrand/AFP)

Não podemos esquecer que, no início do governo Trump forçou a Ucrânia a conceder aos Estados Unidos acesso a minerais críticos em troca de ajuda americana contra um exército russo que tentava invadi-la. Esta é a verdadeira “Doutrina Trump”: Oponha-se aos Estados Unidos e eu lhe imporei tarifas; dependa dos Estados Unidos e eu o extorquirei.

A única resposta racional para nossos aliados é tentar “dissuadir e diversificar”, concluiu Mousavizadeh. E se Trump mantiver isso durante seus quatro anos de mandato, acrescentou ele, “nenhum líder da Otan poderá jamais concordar, de forma responsável, com o grau de dependência da tecnologia, dos sistemas de defesa ou dos sistemas financeiros dos EUA” que os países da Otan sempre consideraram como certo.

Estive em Portugal esta semana e fiquei chocado com o quanto os executivos europeus falam sobre terem perdido a fé nas instituições americanas e nos Estados Unidos como garantidor das normas jurídicas globais — algo que sempre consideraram garantido. É literalmente desorientador para eles, como excursionistas que perderam a bússola.

Em resumo, ter um presidente que se comporta como um bandido — e não como um comandante-em-chefe — está nos custando caro, tanto interna quanto externamente. Essa perversão da presidência americana está minando a própria estrutura de alianças que venceu duas guerras mundiais e a Guerra Fria e gerou um dos períodos mais longos de paz e prosperidade da história. A cada dia que toleramos tal comportamento, colocamos em risco o futuro de nossos filhos.

Thomas Friedman,o autor deste artigo, é colunista de assuntos internacionais do The New York Times e ganhador de três prêmios Pulitzer. É autor de sete livros, entre eles 'De Beirute a Jerusalém', que venceu o Prêmio Nacional do Livro. Publicado no Brasil por O Estado de S. Paulo, em 03.06.26

Ministro do TSE defende lista fechada nas eleições parlamentares e voto distrital misto

O ministro Floriano de Azevedo Marques Neto, do Tribunal Superior Eleitoral, defendeu, nesta terça-feira (2/6), que o Brasil adote um modelo de lista fechada nas suas eleições parlamentares, em contraposição à atual lista aberta. Ele também se posicionou a favor do voto distrital misto.

Ministro Floriano de Azevedo Marques Neto palestrou no XIV Fórum de Lisboa (Reprodução: Youtube)

No modelo de lista aberta das eleições proporcionais, o eleitor vota no candidato de sua preferência e os mais votados assumem as vagas conquistadas pelo partido. Já na lista fechada, o eleitor vota apenas no partido, que define uma ordem entre seus candidatos. Assim, conforme o número de vagas obtidas pela sigla, os primeiros candidatos da lista partidária assumem as cadeiras, independentemente dos votos individuais.

Já o voto distrital misto é um sistema em que metade dos parlamentares é eleita pelo voto majoritário e a outra metade pelo sistema proporcional. O eleitor apresenta dois votos: um para o candidato a deputado do seu distrito e outro para a legenda. Floriano, que vê esse modelo como ideal, defende uma lista fechada para a definição dos eleitos pelo voto na legenda.

Essas ideias de reforma política foram apresentadas pelo ministro durante o painel “Parlamentos na era digital, entre representação e desintermediação: é hora de reformar o sistema político?”, do XIV Fórum de Lisboa.

Para o magistrado, o modelo atual de lista aberta tem “várias patologias”, pois incentiva candidatos a se elegerem a partir de discursos radicais na internet e permite que influenciadores digitais sejam eleitos apenas por agradarem ao público, mesmo se não apresentarem qualquer proposta.

Na sua visão, isso enfraquece os partidos, que se veem obrigados a recrutar tais pessoas para obter votos e conquistar vagas no Parlamento. Além disso, representações corporativas são perdidas: “Cada vez menos são eleitos candidatos de sindicatos dos trabalhadores e patronais, de comunidades específicas etc.”.

Já na lista fechada, segundo Floriano, há “uma seletividade, uma hierarquização e um equilíbrio entre fenômenos eleitorais e fenômenos políticos”.

De acordo com o ministro, a partir do voto distrital misto com lista fechada, lideranças locais e comunitárias conseguem “furar a fila” das burocracias partidárias. Outra vantagem é aumentar “a velocidade da equidade de gênero”, pois candidatas mulheres conseguem combinar posições mais destacadas na lista do partido.

Também participaram do painel o senador Camilo Santana (PT-CE), o deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP), a deputada federal Amanda Gentil (PP-MA) e o ex-deputado Rodrigo Maia, hoje diretor de Relações Institucionais do BTG Pactual. A mediação ficou a cargo de Otavio Luiz Rodrigues Jr., professor de Direito Civil da Universidade de São Paulo.

Publicado originalmente no Consultor Jurídico, revista eletrónica, em 02.06.26.

Por que PIX incomoda tanto o governo Trump?

O governo dos Estados Unidos voltou a atacar o sistema de pagamentos Pix nesta terça-feira (02/06) ao concluir uma grande investigação sobre práticas comerciais do Brasil.


Tela de celular exibe página inicial do pix dentro do site do Banco Central (Crédito, Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Uma investigação comercial com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — um instrumento legal que permite a Washington apurar práticas estrangeiras consideradas injustas ou discriminatórias contra empresas e produtos americanos — concluiu que práticas comerciais do Brasil são "irrazoáveis" e "oneram ou restringem o comércio dos EUA".

Um dos alvos do documento americano — produzido pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) — é o sistema de pagamentos Pix.

"O Brasil tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas que favorecem seu campeão nacional, o Pix", afirma o documento.

O governo americano acusa o Banco Central brasileiro de exercer papel duplo no Pix — "como regulador e proprietário/operador" do Pix — criando um "conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas".

"O banco tem atuado como regulador para desfavorecer provedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA e privilegiar o Pix. Por exemplo, o Banco Central exige o uso do Pix por instituições financeiras com mais de 500 mil contas e requer que o Pix seja exibido na tela principal do aplicativo das instituições participantes com destaque igual ou superior a qualquer outra funcionalidade de pagamento ou transferência."

Além disso, há críticas pelo fato de o Banco Central exigir que o Pix seja ofertado sem taxas aos clientes. Segundo a conclusão da investigação, as autoridades brasileiras obrigam empresas americanas a promover o competidor brasileiro (Pix) sem compensações às instituições americanas.

"Os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial dado ao Pix são injustos e discriminatórios. É injusto exigir que os concorrentes ofereçam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e limites de taxas, e o Brasil discrimina os fornecedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA ao conceder essas vantagens apenas a seu campeão nacional do Brasil."

O que disse a imprensa internacional sobre ameaça de novo tarifaço de Trump: 'Instrumento para impor novas tarifas ao Brasil é alternativa mais duradoura após decisão da Suprema Corte'

Por ora, ainda não há definição sobre as consequências da conclusão das investigações americanas sobre as práticas comerciais e sobre o Pix.

O documento americano propõe tarifas retaliatórias de 25% a produtos brasileiros — mas essas medidas ainda não foram definidas e serão discutidas ao longo das próximas semanas.

Algumas datas já foram definidas:

O governo americano ainda está recebendo consultas do público até o dia 1º de julho sobre as medidas.

No dia 6 de julho, haverá uma audiência pública nos EUA.

O governo americano disse que estará em diálogo com o brasileiro até o dia 15 de julho, antes de anunciar qualquer decisão.

Em nota divulgada na noite de terça-feira, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) defendeu o PIX e disse que a conclusão da investigação dos EUA decorre de "informações incompletas" acerca dos objetivos e funcionamento do sistema financeiro.

"O Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos e consequentemente da atividade econômica. Trata-se de um modelo aberto e não discriminatório, com participação de bancos, fintechs, instituições financeiras nacionais e estrangeiras", afirmou a entidade.

A Febraban também destacou que o PIX é gratuito para pessoas físicas, podendo ser cobrado de empresas, sem qualquer discriminação entre companhias brasileiras ou estrangeiras.

"Para as empresas, o PIX ajuda na eficiência, facilitando o processo de recebimento e cobrança, em especial nas operações de baixos valores", acrescentou.

A entidade ainda pontuou que "não há qualquer restrição à entrada de novos participantes, de qualquer porte ou segmento da indústria financeira, desde que operem no mercado nacional".

"Temos boa expectativa de que, no âmbito do sistema de audiência pública, que continua aberto pelo USTR, as contribuições do Banco Central do Brasil (BCB) e dos integrantes do sistema bancário brasileiro, incluindo os bancos americanos, vão ajudar no esclarecimento das conclusões do órgão americano de comércio."

Mulher está pagando com celular por hamburguer que comprou em carrinho de comida. Ela aproxima o aparelho de uma maquininha de cartão. Especialistas apontam que o pix contraria interesses de big techs e de empresas de cartão. (Crédito: Getty Images)

Este não foi o primeiro ataque dos EUA ao Pix.

O Pix foi mencionado em outro relatório do USTR de 31 de março em que os EUA listam o que consideram barreiras comerciais de mais de 60 países contra empresas americanas.

Na ocasião, o governo brasileiro reagiu e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o "o Pix é do Brasil". "Ninguém vai fazer a gente mudar o Pix", ele declarou em entrevista na semana passada.

Até o presidente da Colômbia saiu em defesa do sistema de pagamentos brasileiro. Gustavo Petro elogiou o modelo e, em uma longa publicação nas redes sociais, pediu que o sistema fosse estendido a seu país.

Com a conclusão das investigações sobre o Pix, surge agora uma pergunta: o que os EUA podem fazer de concreto contra o sistema de pagamentos brasileiro?

As armas dos EUA

Os especialistas em comércio exterior e regulação econômica ouvidos pela reportagem frisaram que os EUA não têm jurisdição para agir diretamente contra o Pix.

As ferramentas à disposição dos americanos se concentram no âmbito comercial e estão descritas na própria legislação que foi usada para abrir a investigação contra o Brasil, a seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

Vão desde a suspensão de benefícios e acordos comerciais à restrição de importações de produtos e serviços ou imposição de tarifas sobre esses bens e serviços.

Ou seja, os EUA poderiam, por exemplo, dar início a um novo tarifaço sobre as exportações brasileiras com destino aos portos americanos ou retirar o Brasil do Sistema Geral de Preferências (SGP), um programa de benefícios tarifários instituído nos anos 1970 para países em desenvolvimento.

"Trata-se, portanto, mais de um mecanismo de pressão externa e econômica sobre o Estado brasileiro do que um poder regulatório sobre a infraestrutura de pagamentos em si", disse Camila Villard Duran, especialista em direito econômico e regulação do mercado monetário.

Duran destaca que no relatório de março do USTR a linguagem usada no capítulo do Brasil é semelhante à que descreve supostas "práticas desleais" no setor de pagamentos em diversos outros países que também são criticados pelos EUA.

"O caso brasileiro, nesse sentido, não é isolado, mas integrado a uma estratégia política mais ampla de contestação de práticas nacionais em serviços financeiros digitais", diz ela, que é professora associada de direito da ESSCA School of Management, na França, e cofundadora do Instituto Mulheres na Regulação.

"Assim, a consequência mais plausível não é uma medida direcionada tecnicamente ao Pix, mas sim alguma forma de retaliação comercial mais ampla", avalia Duran.

Nesse sentido, uma fonte brasileira próxima às negociações diz ser difícil arriscar dizer o que exatamente virá após a investigação.

Historicamente, pondera a fonte, os EUA pouco usaram o instrumento da seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e, no caso específico da investigação contra o Brasil, o escopo de temas analisados pelo USTR é amplo e vai bem além do Pix.

Também inclui, por exemplo, as tarifas a que os produtores de etanol americanos estão submetidos para acessar o mercado brasileiro e até o desmatamento ilegal, acusado de dar vantagem competitiva injusta às exportações agrícolas brasileiras.

Renê Medrado, sócio do escritório Pinheiro Neto Advogados, faz avaliação semelhante e exemplifica: ainda que os EUA por ventura optassem por uma retaliação comercial ampla, é difícil estimar se as eventuais tarifas seriam colocadas para uma lista ampla de produtos ou se seriam seletivas.

"E tem isso de que o governo americano às vezes fala que vai [fazer alguma coisa], depois volta atrás…", ele acrescenta, ao comentar sobre o desafio de se traçar possíveis cenários.

"O alcance dessas medidas dependerá muito mais da dinâmica da política bilateral e da eficácia da diplomacia brasileira", comenta a professora Camila Villard Duran.

O que está em jogo

Por que então os EUA estão atacando o Pix este ano? No relatório do USTR de março do ano passado, o sistema de pagamentos instantâneo brasileiro não havia nem sido mencionado diretamente, ao contrário do que aconteceu no deste ano.

Mesmo no documento em que formalizou a investigação contra o Brasil, a agência não citou o Pix nominalmente, apesar de ter feito referência indireta a ele ("O Brasil também parece se envolver em uma série de práticas desleais com relação a serviços de pagamento eletrônico, incluindo mas não se limitando a favorecer seus serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo", diz o texto).

A fonte ouvida pela BBC News Brasil que tem proximidade com as negociações comenta que uma das hipóteses para o endurecimento no tom agora foi o desfecho de uma reunião recente da Organização Mundial do Comércio (OMC) em que o Brasil bloqueou uma proposta dos EUA e outros países para estender a moratória de tarifas aduaneiras sobre transmissões eletrônicas, que inclui serviços digitais como streamings, softwares e jogos.

E há ainda a grande derrota que o tarifaço de Trump sofreu no judiciário americano em fevereiro deste ano, quando a Suprema Corte considerou que o instrumento que vinha sendo usado para embasar as medidas (a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, ou IEEPA, na sigla em inglês), na verdade não autorizava o governo americano a instituir as tarifas.

Em um artigo de março deste ano, duas analistas do centro de pesquisas americano Brookings Institute pontuaram que, diante desse revés, a Seção 301, usada na investigação contra o Brasil, pode entrar no cardápio do governo americano como opção para voltar a taxar seus parceiros comerciais.

Do lado do setor financeiro, a jurista Camila Villard Duran chama atenção para a expansão do Pix no Brasil, "que altera diretamente o equilíbrio competitivo para empresas americanas, como Visa e Mastercard", mas especialmente para o fenômeno mais amplo no qual ele está inserido, de transformação estrutural e reorganização da ordem monetária e financeira internacional.

"O Pix já não é apenas um sistema de pagamentos eficiente. Ele representa um modelo de infraestrutura pública, que reduz a dependência de redes privadas estrangeiras e concentra, no âmbito doméstico, o controle jurisdicional sobre dados e fluxos financeiros", destaca Duran

A professora aponta que, no relatório do USTR, os EUA fazem críticas semelhantes às feitas ao Brasil a países como Índia, Tailândia e Paquistão, "onde políticas públicas nacionais promovem sistemas domésticos de pagamento, impõem requisitos de localização de dados ou criam barreiras regulatórias à atuação de empresas estrangeiras".

"Em todos esses casos, o argumento dos EUA é semelhante: tais medidas seriam discriminatórias e restringiriam o acesso de empresas americanas a mercados nacionais", completa.


Post do Governo Federal em julho de 2025: gestão Lula tem procurado usar episódios para tentar melhorar imagem (Reprodução: X / Gov. Federal)

Da economia à política

Diante desse panorama, Duran avalia que a pressão sobre o Pix e sobre sistemas de pagamentos de outros países também está ligada a uma questão ainda mais ampla, de soberania.

O que está em jogo, diz ela, já não é apenas a concorrência entre empresas, "mas o controle sobre infraestruturas consideradas como críticas".

"Nas minhas pesquisas, tanto sobre a criação do euro digital como sobre os projetos de plataformas alternativas para transações financeiras transfronteiriças, noto que a ideia de 'soberania monetária' está se deslocando muito rapidamente da autonomia da política monetária para o controle jurisdicional sobre as infraestruturas de pagamento e dos dados monetários que elas geram", afirma Duran.

"A moeda, na economia digital, torna-se cada vez mais informação e, nesse contexto, o controle jurisdicional sobre esses dados passa a ser um elemento central do poder monetário estatal."

Daniel Gallas Role, da BBC News Brasil em Londres e Camilla Veras MotaRole, da BBC News Brasil em São Paulo. Publicado originalmente pela BBC News Brasil, em 02.06.26

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Os brasileiros em busca do sonho paraguaio

'A gente não está aguentando o Brasil'

"Bem-vindos ao Paraguai", repetia alto o chefe do serviço de imigração em Ciudad del Este, no Paraguai, enquanto caminhava entre cadeiras de praia, bancos de plástico e cangas. "Amanhã, às 7h, começaremos a distribuição de fichas. Às 8h, começa o atendimento para quem quer tirar residência."

A mensagem era destinada a centenas de brasileiros organizados em uma longa fila que faziam silêncio — pontuado por aplausos — para ouvir as orientações em espanhol, após um dia inteiro acampados sob o sol forte, no chão de terra vermelha da cidade paraguaia que faz fronteira com o Brasil.

Era noite do penúltimo domingo de março. Só dali a 12 horas começaria de fato o mutirão itinerante do governo paraguaio para agilizar a emissão de documentos para quem quer se mudar para o país.

A fila, porém, já quase dobrava a esquina, e os brasileiros ainda tinham pela frente várias horas extras de calor, chuva e mosquitos para garantir atendimento no dia seguinte.

Em 2025, o Paraguai bateu recorde ao conceder 40,6 mil autorizações de residência a estrangeiros. Mais da metade (23,5 mil) eram brasileiros, muito mais do que os argentinos (4,3 mil), que aparecem na segunda posição. Para 2026, a expectativa é que o número seja ainda maior. Só nos três primeiros meses do ano, foram emitidas 9,2 mil autorizações para brasileiros.

Os repórteres Vitor Tavares e Fernando Otto, da BBC News Brasil, acompanharam por três dias a fila do mutirão. Todos com quem a reportagem conversou disseram estar ali movidos por suas posições políticas e pela busca de uma vida com mais conforto e menos impostos.

Publicado originalmente por BBC News, em 05.05.26

quarta-feira, 11 de março de 2026

O lagarto venenoso e as canetas emagrecedoras

Perder peso é o sonho dos que estão acima dele. Até aqui, a medicina quase nada tinha a oferecer além do jargão "mais atividade física e dieta saudável".


(Crédito: Libero/Folhapress)

Cinquenta anos atrás, dispúnhamos de meia dúzia de drogas para moderar o apetite, mas os efeitos adversos eram de tal ordem que poucos conseguiam aderir ao tratamento.

Então surgiram os agonistas do receptor GLP-1, que se ligam a esse receptor presente na superfície de uma série de células do corpo humano. O impacto tem sido tão grande que, em entrevista à revista Nature, Timothy Carvey, professor de endocrinologia da Universidade do Alabama, afirmou: "Esta era do desenvolvimento de novas drogas para o tratamento da obesidade tem potencial para ser um marco na história da medicina, semelhante ao da descoberta da insulina, da penicilina e da vacina contra a poliomielite".

Tudo começou há 40 anos, com um lagarto preto com manchas alaranjadas pelo corpo, venenoso, que vive nos desertos do México e do sudoeste dos Estados Unidos. O interesse por ele veio da habilidade para regular o metabolismo e os níveis de glicose no sangue por longos períodos, mesmo na falta de alimentos.

Num exemplo da importância da pesquisa básica para o desenvolvimento da ciência, um grupo do National Institutes of Health isolou várias substâncias presentes no veneno. Uma delas, a exendina-4, estimulava o pâncreas do animal a produzir e liberar insulina.

Curiosamente, a exendina-4 apresentava configuração molecular semelhante à do hormônio humano GLP-1, que estimula a produção de insulina em resposta ao aumento da concentração de glicose na corrente sanguínea. Mas, enquanto a ação do GLP-1 dura minutos, a de exendina-4 se mantém por horas.

No diabetes tipo 2, a dificuldade para controlar os níveis de açúcar no sangue está ligada ao comprometimento da produção e da ação da insulina. Como a exendina-4 mimetiza a função do GLP-1, porém de modo mais sustentável, a lógica foi testá-la no tratamento do diabetes.

Depois da aprovação pelo FDA americano, o medicamento foi lançado com o nome de Byettta. Em 2006, a empresa que o produziu faturou US$ 430 milhões, vendas que cresceram 50% no ano seguinte.

Nos estudos que precederam o lançamento, ficou evidente que os pacientes perdiam peso.

Em paralelo, o laboratório dinamarquês Novo Nordisk seguia outra linha: sabendo que a ação fugaz do GLP-1 limitava o uso, a atenção foi voltada para o prolongamento de sua persistência na corrente sanguínea. Os estudos levaram ao licenciamento da liraglutida, o princípio ativo de dois medicamentos: Saxenda e Victosa, que ainda tinham o inconveniente de requerer a administração de injeções diárias.

No intento de reduzir a frequência das injeções, os pesquisadores da farmacêutica descobriram que a introdução de uma molécula de ácido graxo à de liraglutida aumentava substancialmente a duração do efeito. Essa versão do GLP-1 foi a semaglutida, comercializada com os nomes de Ozempic e Wegovy, para controle do diabetes tipo 2.

A observação de que os pacientes tratados experimentavam reduções significantes do peso motivou a companhia a iniciar o estudo Step 1, no qual participantes com IMC na faixa de obesidade foram tratados com injeções semanais de semaglutida durante 68 semanas. Em mais da metade, a perda foi acima de 15% do peso, contra 5% no grupo controle que recebeu apenas aconselhamento.

Estudos posteriores mostraram que os benefícios não se limitavam ao emagrecimento. A droga é capaz de reduzir o risco de complicações na insuficiência renal crônica e de eventos cardiovasculares fatais e não fatais, entre outros benefícios associados às alterações metabólicas causadas pela perda de peso.

Os investimentos financeiros nessa área intensificaram a busca de novas drogas. A própria Novo Nordisk lançou a tirzepatida, molécula dotada da propriedade de se ligar a dois receptores: o GLP-1 e o GIP, comercializada com o nome de Mounjaro. Em fase final de testes em outras companhias há medicamentos promissores: retatrutida, cagrilintida, bigramumabe, entre outros.

É inegável que essas drogas estão revolucionando o tratamento da obesidade, mas custam muito caro, provocam reações adversas e precisam ser mantidas por tempo indeterminado.

Compará-las à penicilina e à vacina da pólio é certamente um exagero.

Drauzio Varella, o autor deste artigo, médico cancerologista e escritor. Também autor, dentre outros livros, de “Estação Carandiru”. Publicado originalmente na Folha de S. Paulo, em 11.03.26

Camaradas ministros, limpem sua bagunça

Bajulação institucionalizada dá a autoridades falsa sensação de superioridade. Percepção equivocada contribuiu para erros de conduta de juízes do STF

Estátua da Justiça, em frente ao Supremo Tribunal Federal, em Brasília (DF) - Evaristo Sá - 19.mai.25/AFP

Numa coisa os comunistas tinham razão. Do mais reles cidadão soviético ao todo-poderoso secretário-geral do partido, eles se tratavam sempre por "camarada". A fórmula funcionava como um memento mori, lembrando os dignitários de que, de direito, ainda que não de fato, todos são iguais. O "citoyen" da Revolução Francesa tinha a mesma função.

A imagem mostra uma escultura representando a Justiça, com uma figura feminina de olhos vendados, segurando uma balança. A escultura está posicionada em primeiro plano, enquanto ao fundo há uma estrutura arquitetônica moderna com colunas e uma parede de vidro. O céu está claro e azul, e há uma parede verde visível ao fundo.

Por aqui, juízes se fazem chamar de "Vossa Excelência". Na mesma toada vão autoridades do Executivo e do Legislativo. Os presidentes da República, do Congresso e do STF (e apenas eles) ainda fazem jus ao superlativo: "Excelentíssimo Senhor Presidente...". Sim, essas questiúnculas estão regulamentadas por regimentos e portarias. Incrementalistas podem celebrar o fato de que o mais arcaico "meritíssimo" vai caindo em desuso.

Ouvindo fórmulas bajulatórias de manhã, de tarde e de noite, não surpreende que autoridades comecem a achar que são mesmo mais excelentes do que o restante dos cidadãos e a agir como se não devessem satisfações a ninguém. É nesse ponto que se encontram os ministros do STF.

Minha impressão é a de que não entenderam a escala da encrenca em que estão enredados. Até aqui são dois os ministros individualmente flagrados em situação incompatível com o cargo que ocupam, mas o dano é coletivo, afetando o Supremo como um todo e, por extensão, o Judiciário e as próprias instituições da República. Não vejo como se possa começar a esboçar um resgate de credibilidade sem que a corte se desfaça das peças problemáticas. Mas reconheço que fazê-lo não é simples.

Cortar na própria carne é difícil, daí que o remédio natural para esse tipo de situação é o impeachment. Quem mete o bisturi é um outro Poder e sob regras mais elásticas do que as de um processo penal. O problema é que, na atual conjuntura política, um impeachment de ministro do STF daria enorme alento à direita bolsonarista, que tem agenda anti-institucional e tenta deslegitimar a condenação dos golpistas, que foi correta.

Camaradas ministros, limpem a sua bagunça.

Hélio Schwartsman, o autor deste artigo, é Jornalista. Foi editor de Opinião da Folha de S.Paulo. Publicado originalmente em 11.03.26

Quando a democracia deixa de importar

Se não agirmos agora, sem eufemismos ou ambivalências, a democracia corre o risco de se tornar um período que nossos netos lerão com perplexidade nos livros de história.

Jorm Sangsorn (Crédito: Getty Images)

A democracia liberal parece ter chegado ao fim. Há vários anos, temos testemunhado seu declínio em todo o mundo. De acordo com o projeto V-Dem ( Variedades da Democracia ), em 2004, mais da metade da população mundial vivia em democracias. Vinte anos depois, três em cada quatro pessoas voltaram a viver em autocracias . O cenário está desequilibrado. Naquela época, 12 países haviam vivenciado episódios que ameaçavam a democracia, mas hoje esse número é quase quatro vezes maior. Pior ainda, em um estudo recente que publicamos com Jennifer Cyr e Nic Cheeseman, mostramos que, além disso, de cada dez democracias que sofreram esses reveses nas últimas décadas, nove não conseguiram se recuperar ao longo do tempo.

O contrato democrático enfraqueceu. Globalmente, observamos que organizações multilaterais como as Nações Unidas e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, e as coalizões globais que as apoiam, estão cada vez mais fracas, deslegitimadas e subfinanciadas. Particularmente paradoxal é o fato de os Estados Unidos e seus aliados europeus, outrora os principais impulsionadores de uma ordem global baseada na democracia liberal, estarem agora liderando essa capitulação. O governo Trump retirou-se de órgãos como o Conselho de Direitos Humanos da ONU e fechou por completo a agência de desenvolvimento USAID; os europeus reduziram drasticamente o financiamento para essas agendas, ao mesmo tempo que aumentaram seus orçamentos de defesa e segurança; e a agência canadense de desenvolvimento IDRC acaba de fechar sua divisão de democracia. A Rede de Financiadores de Direitos Humanos estima uma redução de 28% no financiamento nessa área este ano em comparação com 2023. Isso significa menos apoio para organizações da sociedade civil engajadas em litígios estratégicos, para ativistas ambientais, para jornalistas que denunciam injustiças, para uma distribuição mais equitativa de vacinas e muito mais. É preocupante que, pela primeira vez em muito tempo, nenhuma das grandes potências globais esteja promovendo uma ordem mundial baseada na democracia e nos direitos humanos. E se algum governo viola seus princípios, não há apelos urgentes por ação, nem represálias, nem condenações. Lembremos o que aconteceu recentemente na Venezuela. A palavra democracia estava visivelmente ausente

Mais doloroso ainda é constatar que o apoio popular também diminuiu substancialmente. Governos ou movimentos que atacam as democracias são cada vez mais populares. Aqueles que as defendem estão cada vez mais fracos e se encontram na defensiva. Falar de democracia hoje é falar de um conceito desgastado, quase anacrônico, incapaz de despertar entusiasmo ou mobilizar maiorias. Tornou-se sinônimo de superficialidade, parecendo inofensivo diante das urgentes demandas sociais por empregos, combate ao narcotráfico , guerras comerciais e desastres naturais. Às vezes, parece que desistimos dela.

Contudo, perder essa autonomia não é um luxo que podemos nos dar. Nossas sociedades pagaram um preço alto para construir acordos e instituições políticas que garantem que possamos eleger nossos representantes, circular livremente e nos reunir sem medo de perseguição, expressar nossas preferências políticas e lutar por sociedades mais justas. As contradições, os retrocessos e todas as deficiências não são uma desculpa para eliminá-la, mas sim para superá-la e avançar em direção a versões mais substanciais.

Acontece que as sociedades democráticas são objetivamente melhores. O ganhador do Prêmio Nobel, Daron Acemoglu, demonstrou, em um estudo que analisou 184 países entre 1960 e 2010, que os países que se democratizaram aumentaram seu PIB per capita entre 20% e 25% nos 25 anos seguintes, em comparação com o que teriam ocorrido se tivessem permanecido autoritários. Outro ganhador do Prêmio Nobel, Amartya Sen, destaca que nunca houve uma grande fome em uma democracia devido à pressão da imprensa e da oposição diante de tais crises. Durante o século XX, as transições para a democracia estiveram ligadas a um aumento médio de 3% na expectativa de vida em apenas dez anos após a democratização. Dados do Journal of Democracy mostram que as democracias reduzem a mortalidade infantil de forma muito mais drástica do que as autocracias, já que os gastos públicos tendem a priorizar a atenção primária à saúde em vez de construir elefantes brancos ou aumentar os gastos militares. De forma semelhante, na América Latina e no sul da Europa, o fim dos regimes autoritários nas décadas de 1970 e 1980 impulsionou o aumento do investimento em educação e a expansão dos direitos substantivos para as populações vulneráveis. Além disso, evidências empíricas mostram que as democracias são mais pacíficas entre si, pois priorizam os canais diplomáticos.

A questão fundamental é que precisamos de democracia para construir nosso futuro. Não há agenda de desenvolvimento possível sem democracia. Sem instituições democráticas fortes com apoio social, não temos mecanismos de controle e equilíbrio em um mundo que, apesar de estar cada vez mais rico, vivencia crescente desigualdade e exclusão. A transformação digital sem controle democrático se torna uma infraestrutura para vigilância em massa, extração e manipulação de dados. Não podemos vislumbrar um futuro para a Amazônia sem acordos globais vinculativos, especialmente quando ativistas ambientais são assassinados enquanto Estados que desmantelaram suas instituições de direitos humanos permanecem inertes. Tampouco podemos vislumbrar empregos de qualidade para nossos jovens quando os mercados são controlados por enormes corporações que, sem fiscalização, buscam apenas maximizar os lucros. Muito menos podemos elaborar políticas migratórias sustentáveis ​​se não priorizarmos os migrantes como sujeitos de direitos.

Não podemos ceder aos desesperançosos, e muito menos ao cinismo daqueles que buscam benefícios para uma minoria privilegiada. O voto, o protesto social, a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e a identidade não só têm valor intrínseco, como também são ferramentas insubstituíveis para a construção de sociedades mais prósperas, equitativas, inclusivas e igualitárias. É por isso que, se não agirmos agora, sem eufemismos ou ambivalência, a democracia corre o risco de se tornar um período que nossos netos lerão com perplexidade nos livros de história, um breve experimento na longa história da crueldade do poder.

Matías Bianchi, o autor deste artigo,  é diretor da Asuntos del Sur Global, um think tank dedicado à inovação democrática no Sul Global. Ele possui doutorado em ciência política pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris. @matiasfbianchi.  Publicado  originalmente no EL PAÍS,em 17.02.26


Seja uma boa pessoa

O princípio simples e universal da bondade tornou-se revolucionário.

Turistas e moradores passeavam pelo centro de Sevilha no final de dezembro passado.(Crédito: David Arjona (EFE)

Os ingênuos. Os frágeis. As almas inocentes. Aqueles que chamam de preguiçosos, mornos, bem-intencionados e coisas piores. Aqueles que não gritam. Aqueles que escutam . Aqueles que se colocam no lugar dos outros, mesmo daqueles que não conhecem. Aqueles que se importam e perguntam como você está com genuína curiosidade. Os honestos, diretos e francos. Aqueles que revidam mesmo quando criticados, porque sempre criticam. Aqueles que fazem o que acreditam que devem fazer.

Aqueles que duvidam, mas compreendem claramente a diferença entre o certo e o errado. Aqueles que questionam, mas permanecem neutros; aqueles que questionam justamente para evitar a neutralidade. Aqueles que poderiam dormir profundamente, mas permanecem acordados. Aqueles que sofrem e convivem com um mal-estar que não é apenas seu, mas também afeta os outros. Aqueles que ousam dizer: "Não estou bem, algo está errado". Aqueles que se preocupam com os rumos que o mundo está tomando. Aqueles que sabem onde reside a injustiça e se rebelam contra ela.

Aqueles que argumentam que os mais fortes e oportunistas sempre vencem. Aqueles que acreditam que seus pequenos gestos, seus gestos insignificantes que ninguém parece notar, fazem a diferença, e constroem ao seu redor um pequeno, porém seguro refúgio, um oásis sem algoritmos. Os discretos. Os que dançam. Os que riem. Os que não passam os dias com raiva, sufocados pela amargura de suas recriminações. Os que reconhecem seus rancores e sabem o que fazer com sua raiva. Os que sabem qual é o seu lugar e de que ponto de vista devem olhar para os outros com desdém.

Aqueles que tentam mudar algo, mesmo reconhecendo que o mundo globalizado é, na verdade, controlado por poucos. Aqueles que acreditam na humanidade e lembram que, mesmo após os horrores da Segunda Guerra Mundial, Camus escreveu sobre a solidariedade entre as pessoas e elogiou aqueles que cumpriram seu dever, independentemente de sua ideologia. Aqueles que estendem a mão amiga. Aqueles que não perdem a esperança porque distinguem o realismo da resignação.

Aqueles que ouvem os gritos e ainda assim acham que vale a pena. Aqueles que se lembram, agora mais do que nunca, que a alegria se tornou revolucionária, mesmo que não alcance o mesmo nível de outro princípio simples e universal: tentar ser uma boa pessoa.

José Luis Sastre (Alberic, 1983), o autor deste artigo, é licenciado em Jornalismo pela Universidade Autónoma de Barcelona (UAB), tendo-se graduado com distinção. Trabalhou como redator, editor, correspondente político e apresentador na rádio Cadena SER. Criador de vários podcasts, atualmente apresenta o programa "Sastre y Maldonado". É subdiretor do programa radiofónico "Hoy por Hoy" e colunista do jornal "El País". É autor do livro "Las frases robadas" (Plaza y Janés). Publicado originalmente no  EL PAÍS, em 11.03.26

sábado, 24 de janeiro de 2026

Trump e a estratégia do homem louco

     Presidente adota comportamento errático para tornar eventuais blefes mais críveis. Cientistas políticos são céticos em relação à eficácia dessa tática em relações internacionais

O presidente Donald Trump durante entrevista coletiva na Casa Branca - Nathan Howard - 20.jan.26/Reuters

Com suas investidas e recuos, Donald Trump se consagra como usuário da estratégia do homem louco na teoria dos jogos.

Mesmo que o Agente Laranja não esteja muito familiarizado com Von Neumann e Morgenstern nem com os formuladores contemporâneos desse ramo da matemática aplicada, ele já jogou pôquer e é razoavelmente parecido. A ideia por trás dessa estratégia é que, se você de vez em quando se comportar como louco nas interações com outros "players", mais fácil será fazer com que seus blefes sejam aceitos. Você conseguirá arrancar mais concessões com menos esforço.

Ex-presidente dos Estados Unidos fala gesticulando com o braço direito estendido e dedo apontando. Ele está atrás de um púlpito com o selo presidencial, veste terno azul escuro, camisa branca e gravata vermelha. Bandeira dos EUA está ao fundo à direita.


Mas será que essa estratégia funciona? Cientistas políticos tendem a ser céticos quanto à sua eficácia nas relações internacionais. Ela seria até meio perigosa, ampliando o risco de escaladas. A lista de líderes ilustres que a utilizaram inclui Richard Nixon, Nikita Kruschev, Saddam Hussein, Muammar Gaddafi, além de Trump, Putin e Kim Jong-un.

Ainda é cedo para falar dos três últimos, mas os anteriores não terminaram bem. A atitude errática não ampliou consideravelmente seu poder de dissuasão, e a mensagem que julgavam transmitir nem sempre era a captada pelos oponentes.

Meu filho, que é fã de teoria dos jogos expressa em longas equações, diz que, se analisada em contextos mais específicos, nos quais o objetivo do governante esteja claramente definido, a estratégia pode valer a pena. E o problema de Trump e de outros líderes de potências é que eles operam com vários objetivos ao mesmo tempo. Há a geopolítica, a disputa por território, acesso a matérias-primas, relações comerciais etc. Há ainda a questão dos prazos (quatro anos ou quatro décadas) e de quanto os interesses do dirigente se aproximam ou se afastam dos do país.

A minha impressão é que Trump, a fim de enaltecer a própria biografia, sacrifica os interesses mais permanentes dos EUA. Ele já afastou aliados, destruiu a ordem global sob a qual o país prosperou, reduziu a capacidade das universidades de atrair cientistas, entre outras loucuras.

Hélio Schwartsman, o autor deste artigo, é Jornalista. Foi editor de opinião da Folha de S. Paulo. Publicado originalmente na edição de hoje, 24.01.26.

O que é preciso para conter Trump? Não basta o ‘barulho político’

 Trump não se sustenta apenas nos radicais, mas numa coalizão real — republicanos, interior do país, parte do empresariado e eleitores que se sentem ignorados – que o torna resiliente

A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, ouve conversa do presidente Donald Trump com repórteres a bordo do Air Force One após deixar o Fórum Econômico Mundial, em Davos, rumo a Washington, na quinta-feira, 22 Foto: Evan Vucci/AP

Uma velha lenda indígena diz que, dentro de cada pessoa, moram dois lobos: um alimentado por empatia e prudência — o bem; outro, por medo, ressentimento e raiva — o mal. No fim, vence o lobo que a pessoa alimenta mais. Trump parece ter feito dessa disputa interna um método de governo.

Seu combustível não é apenas ganância — é status, dominação e a necessidade constante de conflito. Ele transforma adversários em inimigos, divergências em humilhação e política em vingança. E, como todo animal treinado para caçar, ele se fortalece quando o país inteiro entra na arena emocional que ele mesmo cria.

A despeito de todo esse aspecto negativo e contrário ao que se quis construir com o multilateralismo e diálogo, sua aprovação geral é de 41%, segundo Reuters/Ipsos. Trump não se sustenta apenas nos radicais, mas numa coalizão real — republicanos, interior do país, parte do empresariado e eleitores que se sentem ignorados – que o torna resiliente.

Afinal de contas, Trump é um mal ou um bem para a humanidade? Na perspectiva da paz ele alega que acabou com oito guerras em nove meses. Essa alegação é no mínimo exagerada — há intervenções e acordos parciais, mas “acabar com oito guerras” não se sustenta como fato estabelecido.

Na economia, elevou custos gerais, desorganizou cadeias e aumentou a volatilidade. Mas não devemos nos enganar que um discurso sobre ética ou tratar o que de bom ele poderia fazer para a humanidade vai tirá-lo da atual trajetória.

Trump é perigoso porque normaliza coerção e imprevisibilidade, recua quando precisa, mas insiste no objetivo. A única coisa que realmente o limita é o mercado e a economia real, tendo como ponto crítico a estrutura financeira dos EUA.

Hoje, os dados não mostram um cenário “derruba-Trump”. Pelo contrário, a inflação está abaixo de 3%, juro de longo prazo em torno de 4,25% e Bolsa perto de recorde. O que derrubaria Trump não é o barulho político, mas um tripé de ruptura com inflação explodindo, juros longos bem mais altos e Bolsa descendo de elevador.

Em resumo, Trump só fica vulnerável quando a dor do bolso vira real. Enquanto isso, o mundo ensaiou duas respostas. Mark Rutte, à frente da Otan, tentou domar a fera com pragmatismo, elogios e ganhos concretos. Lula seguiu pela via oposta: enfrentamento retórico e soberania — sem aceitar chantagem.

Derrubar Trump não é “ganhar dele”. É esvaziá-lo. É negar o combustível que o alimenta — medo, raiva e espetáculo. No fim, a fera cai quando deixa de receber comida.

Fabio Gallo, o autor deste artigo, é Professor de Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV - SP).  Publicado originalmente n'O Estado de S. Paulo, em 24.01.26

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A aula de civilidade de Eduardo Leite

Vaiado por militantes do PT em cerimônia oficial com o presidente Lula, o governador do Rio Grande do Sul cobrou respeito institucional e expôs a democracia de fachada do lulopetismo

Para surpresa de rigorosamente ninguém, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), foi vaiado por militantes do PT durante um evento institucional realizado nesta semana ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A reação do governador à violência retórica lulopetista no ato, no entanto, ofereceu a um país cansado de vandalismo político e analfabetismo cívico uma valiosa aula de civilidade e espírito público.

O episódio ocorreu em Rio Grande, no sul do Estado, durante cerimônia oficial do governo federal destinada à assinatura de contratos ligados à construção de navios para a Petrobras. As vaias começaram quando o nome de Leite foi mencionado pelo cerimonial, prosseguiram durante o discurso da prefeita da cidade, a petista Darlene Pereira, e se intensificaram quando o governador foi chamado ao microfone. Como se viu, Leite teve dificuldade para iniciar sua fala. E protestou conjugando serenidade e firmeza: “Este é o amor que venceu o medo? Não, né? Vamos respeitar, por favor. Estou aqui cumprindo meu dever institucional. Eu e o presidente fomos eleitos pelo mesmo povo. Somos diferentes. Mas a gente não precisa pensar igual”.

As manifestações hostis partiram de apoiadores do presidente e se repetiram ao longo da fala do governador, interrompendo seu discurso e constrangendo o ambiente – hostilidade dirigida a um chefe de Executivo estadual legitimamente eleito e convidado a participar de um ato que, em tese, deveria se ater aos limites republicanos da institucionalidade. A atitude de Leite, marcada pelo autocontrole e pela defesa do respeito às diferenças e à etiqueta republicana, contrastou com o mau comportamento de parte da plateia.

O episódio diz menos sobre o governador gaúcho do que sobre o estado de degradação cívica a que chegou parcela expressiva da militância política no Brasil, sobretudo a petista. O governador não foi vaiado por ter cometido um desvio administrativo, por afrontar a democracia ou por atacar adversários. Foi hostilizado simplesmente por existir politicamente fora do universo lulopetista, por representar uma alternativa que não se submete à liturgia do governismo militante. O constrangimento não foi do governador, mas de quem confundiu um ato oficial da República com um comício partidário.

O comportamento da militância do PT foi revelador. Ao hostilizar um governador em pleno exercício do cargo, num evento oficial, repetiu exatamente o padrão que o próprio partido diz combater: intolerância política, patrulhamento ideológico e tentativa de silenciar vozes dissonantes. Na prática, trata-se do mesmo impulso autoritário travestido de virtude moral, legitimado pela sensação de pertencimento ao campo “do bem”. Para o PT, democracia só vale quando se presta a aplaudir Lula.

Não deixa de ser sintomático que o próprio presidente tenha convertido o evento em palanque, exatamente o que Eduardo Leite disse que não deveria acontecer numa cerimônia estritamente institucional. Mas aí não tem jeito: trata-se da natureza de Lula. O presidente, ao contrário do governador, discursou em tom de campanha, recorreu a slogans eleitorais e falou diretamente à base militante. Fez, afinal, o seu comício de sempre. É verdade que o petista tentou contemporizar, fazendo algumas mesuras ao governador. E, não raro, tenta pregar a ideia de que a democracia exige convivência com quem pensa diferente. Seus gestos são protocolares diante de um discurso claramente eleitoral. Não se pode estimular a polarização como método e depois surpreender-se com seus efeitos colaterais. O tribalismo militante aprende pelo exemplo dos seus morubixabas, não pelas notas de rodapé.

O contraste entre os protagonistas é eloquente. De um lado, um governador que reafirma o valor das instituições, da civilidade e do pluralismo. De outro, uma militância que age como se a democracia fosse propriedade privada de um campo político.

Num Brasil exausto da política do grito e da permanente guerra moral, a atitude de Eduardo Leite aponta para uma alternativa cada vez mais rara: a de que é possível discordar sem destruir, competir sem desumanizar e fazer política sem transformar o adversário em inimigo. A lição está dada. Resta saber quem está disposto a aprendê-la.

Editorial / Notas e Informações, O Estado de S. Paulo, em 23.01.26

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O problema de Trump com a Europa não é geopolítico, mas psicológico

Ameaçar tomar a Groenlândia à força da Dinamarca gera uma fratura na Otan. Em vez de reforçar a posição americana no Ártico, isso apenas enfraquece

Depois de ameaçar os aliados europeus dos Estados Unidos com força militar e tarifas por causa da Groenlândia, e de um discurso virulento contra os valores da Europa, Donald Trump recuou e diz ter firmado um acordo sobre todo o Ártico “para sempre”, que “deixará todos felizes”.

A explicação para os movimentos aparentemente erráticos de Trump é simples: o problema dele com a Europa não é de ordem geopolítica nem econômica, mas cultural e psicológica.

“Com base em uma reunião muito produtiva que tive com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, formamos a estrutura de um acordo futuro a respeito da Groenlândia e, de fato, de toda a Região Ártica”, escreveu Trump em sua rede social, Truth Social.

Rutte desenvolveu uma habilidade singular e vital para os europeus perante os EUA sob Trump: bajular o presidente americano e lhe fornecer saídas honrosas para as situações nas quais ele mesmo se envolve, seja com relação à Ucrânia, seja agora com a Groenlândia.

Trump aparentemente já foi para Davos com um roteiro pre-estabelecido: atacar a Europa por uma suposta falência cultural e moral, recuar das ameaças militar e comercial e atribuir o “sucesso” de sua estratégia a um acordo com Rutte.

A história não tem consistência, entre outras razões porque o secretário-geral da Otan, que é holandês, não tem mandato para negociar a Groenlândia em nome da Dinamarca. Trump chegou a Davos com a visão de empresário do setor imobiliário, segundo a qual não basta “arrendar” bases militares na Groenlândia: é “psicologicamente” importante ser dono do território.

John Bolton, que foi conselheiro de Segurança Nacional no primeiro governo Trump, embaixador na ONU de George W. Bush, avalia que “ser dono da Groenlândia não é psicologicamente importante para ninguém além do próprio Trump”.

Quando Trump saía da reunião com Rutte, uma repórter da CNN perguntou: “O acordo ainda inclui os Estados Unidos terem a propriedade da Groenlândia?” O presidente hesitou um pouco e respondeu: “É um acordo de longo prazo. É o acordo definitivo de longo prazo. Acho que coloca todo mundo numa posição muito boa, sobretudo em relação a segurança, minerais e tudo mais”. A repórter insistiu: “Por quanto tempo?” A resposta: “Não há limite de tempo. É infinito. É para sempre”.

Diante do alívio do recuo, dificilmente um líder europeu ou canadense vai questionar a consistência do suposto acordo. Até porque a “solução” anunciada, um arranjo de segurança no âmbito da Otan, é o status quo desde pelo menos 1951, o começo da guerra fria, quando foi assinado o Acordo de Defesa entre os Estados Unidos e o Reino da Dinamarca, que concede aos americanos o direito de estabelecer, operar e manter bases na Groenlândia.

Os Estados Unidos chegaram a manter 17 instalações militares na Groenlândia nos anos 60. Elas foram desmanteladas por serem consideradas estrategicamente desnecessárias. Resta apenas uma, a Base Aérea de Thule. Agora, a defesa do Ártico certamente volta a ter importância. As mudanças climáticas causam o degelo do Ártico, que cria novas rotas marítimas.

A Rússia é o país mais bem posicionado para aproveitar essa nova realidade, com seus 42 navios quebra-gelo e entre 40 e 50 instalações militares na região. A China tem apenas 5 navios quebra-gelo mas está construindo mais, e ainda não possui bases militares no Ártico. O governo chinês cunhou o termo Rota da Seda do Ártico, define o país como um “Estado próximo ao Ártico” e mantém presença científica e logística limitada, com estações de pesquisa e acordos de acesso civil em países como Islândia e Noruega. Analistas ocidentais apontam potencial de uso militar, especialmente em comunicações, sensoriamento remoto e navegação.

Os Estados Unidos têm apenas 3 navios quebra-gelo, e também está comissionando outros. E mantêm hoje poucas bases permanentes, mas altamente estratégicas. Além da base na Groenlândia, há instalações importantes no Alasca, como Elmendorf-Richardson, Eielson e Clear Space Force Station, que integram defesa aérea, alerta antimísseis e projeção militar.

Então, a questão estratégica realmente existe, não foi inventada por Trump. O que não faz sentido é a solução por ele buscada até hoje. Ameaçar tomar a Groenlândia à força da Dinamarca gera uma fratura na Otan. Em vez de reforçar a posição americana no Ártico, isso apenas enfraquece.

Quanto ao interesse econômico, a riqueza da Groenlândia em minérios estratégicos, petróleo e gás é igualmente inquestionável. Entretanto, extrair essas riquezas de um território tão inóspito, 80% do qual é coberto permanentemente por gelo, é comercialmente muito menos viável do que outras partes do globo em que elas ainda não foram exploradas.

Em contrapartida, as tarifas de 10% a partir de fevereiro e de 25% a partir de junho que Trump anunciou na segunda-feira para punir os países que enviaram tropas para a Groenlândia em apoio à Dinamarca – Reino Unido, Alemanha, França, Noruega, Suécia, Finlândia e Holanda, os mais prósperos da Europa – teriam grandes consequências econômicas negativas.

Pouco antes do recuo de Trump, o Parlamento Europeu suspendeu a aprovação do acordo comercial acertado em julho com os Estados Unidos. Integrantes da Comissão Europeia haviam anunciado antes que poderiam ser adotadas sanções no valor de US$ 108 bilhões, assim como o bloqueio de importações de bens americanos e controle de exportações de serviços para os EUA, com base no Instrumento Anti-Coerção Econômica.

As tarifas e a reação europeia causaram na terça-feira quedas de 2,06 % no índice S&P, 2,39 % no Nasdaq, que reúne as empresas de tecnologia, e 1,76 % do Dow Jones.

Tudo isso demonstra que a estratégia de Trump não tem sentido econômico.

Entretanto, ameaçar tomar a Groenlândia e enfrentar os aliados europeus responde a dois estímulos fortes em Trump: um cultural e outro psicológico.

A liderança de Trump se baseia na rejeição dos valores das elites intelectuais, no ressentimento das camadas conservadoras e de baixo nível de instrução ao liberalismo e ao globalismo. A Europa é a representação desses valores, a inspiração do pensamento liberal e globalizado nas universidades.

Trump está psicologicamente comprometido com o objetivo de ser reconhecido como o presidente mais consequente da história dos EUA, se não do mundo. Nada pode ser mais consequente do que mudar a geografia.

Ele já citou como seu modelo William McKinley, presidente americano entre 1897 e 1901. McKinley usava as tarifas como forma de ampliar o poder econômico e geopolítico dos Estados Unidos, impulsionando, na visão de Trump, a sua industrialização.

Durante o governo de McKinley, os Estados Unidos conquistaram Porto Rico, Guam e as Filipinas na Guerra Hispano-Americana de 1898. No mesmo ano, os EUA anexaram o Havaí, consolidando a projeção americana no Pacífico.

Esses são os verdadeiros incentivos de Trump. Buscar um racional geopolítico e econômico em seus movimentos sempre levará à surpresa e confusão mental.

Lourival Sant'Anna, o autor deste artigo, é colunista d' O Estado sde S. Paulo e analista de assuntos internacionais. Publicado originalmente em 21.01.26

Eduardo Leite recebe vaias ao lado de Lula e protesta: 'Este é o amor que venceu o medo?'

Governador do PSD teve fala interrompida durante cerimônia do governo federal ligada a programa de investimento na indústria naval
Presidente cumpriu agendas nesta terça-feira (20) em Rio Grande (RS) e, durante discurso, falou sobre 'fábrica de mentiras da direita' e citou Trump


O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), foi vaiado na tarde desta terça-feira (20) quando participava ao lado do presidente Lula (PT) de uma cerimônia de assinaturas de contratos ligados a construção de navios para a Petrobras, em Rio Grande, no sul do estado.

As primeiras vaias ocorreram quando Leite teve o nome mencionado pelo cerimonial e depois no discurso da prefeita Darlene Pereira (PT), enquanto ela agradecia o governador pela parceria. Ao ser chamado ao microfone, as vaias ganharam corpo e Leite teve dificuldade para começar sua fala.

"É um ambiente institucional, não é um comício eleitoral", protestou ele, enquanto era interrompido pelo barulho da plateia, formada principalmente por trabalhadores ligados à estatal e integrantes de movimentos sociais.

"Este é o amor que venceu o medo? Não, né? Vamos respeitar, por favor. Estou aqui cumprindo meu dever institucional. Eu e o presidente fomos eleitos pelo mesmo povo. Somos diferentes. Mas a gente não precisa pensar igual. É importante que pensemos no Rio Grande do Sul, no Brasil, e é isso que fazemos quando trabalhamos de forma coordenada", disse Leite.

Homem de camisa branca fala em púlpito com dois microfones. Fundo colorido com tons de verde, amarelo e vermelho. Pessoa com óculos sentada ao fundo.
Eduardo Leite (PSD), governador do Rio Grande do Sul, é vaiado durante cerimônia do governo federal na cidade de Rio Grande (RS), nesta terça-feira (20) - Reprodução/Canal Gov/YouTube
Ao longo do seu mandato, Leite se manteve no campo da oposição a Lula, mas também não é considerado um aliado de Jair Bolsonaro (PL), como outros governadores do campo da direita.

O PSD de Gilberto Kassab prefere apoiar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para a disputa presidencial em outubro, mas nomes do PSD também se apresentaram como opção, como o governador do Paraná, Ratinho Júnior, e o próprio Leite.

"Na última eleição, o Brasil teve um presidente eleito por 50,8% dos votos, 49% da população votou em outro candidato. Se vocês desejam união e reconstrução, não simplesmente hostilizem quem pensa diferente. Isso não leva a lugar nenhum. A efetiva união que a gente quer para o nosso país envolve respeito, respeito às funções, às pessoas, aos ambientes", continuou Leite, tentando reduzir as vaias.

O governador disse que a postura da plateia leva a "incendiar na outra metade ainda mais ódio, rancor e mágoa, e nós não queremos isso". Ele também pediu atenção do governo federal para a região Sul.

"Fizemos um grande esforço para atrair uma montadora de veículos para o Rio Grande, mas infelizmente há um profundo desequilíbrio federativo que precisa ser corrigido. A Sudene [Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste] oferece 75% de redução de Imposto de Renda", reclamou Leite, em meio a vaias. "Não estou culpando o presidente. É uma distorção histórica", respondeu ele para a plateia.

Último a discursar na cerimônia, Lula não tratou diretamente do episódio das vaias, mas mencionou o governador por duas vezes, em tom amistoso.

Pré-candidato à reeleição, Lula aproveitou a plateia entusiasmada —que em determinado momento gritou "sem anistia"— e deu um tom eleitoral para o discurso. O presidente tem repetido que está preocupado com "a fábrica de mentiras" que circula nos celulares e passou a pedir que as pessoas enfrentem o problema. "Denuncie ou delete, não passe para frente."

"A direita tem uma indústria de mentir. Poderosíssima. Na campanha do [Donald] Trump, eles fizeram 2 milhões de mensagens contra a adversária dele, na última semana. Vai ser assim a campanha", disse o petista.

O presidente desembarcou pela manhã no Rio Grande do Sul e teve duas agendas na cidade de Rio Grande. A primeira foi uma cerimônia de entregas de moradias populares. Em seguida, a comitiva do petista seguiu para o Polo Naval, para uma visita ao Estaleiro Rio Grande, administrado pela Ecovix.

No Polo Naval, o presidente participou da cerimônia de assinatura de um contrato entre a Ecovix e a Transpetro, subsidiária da Petrobras, para a construção de cinco navios gaseiros no Estaleiro Rio Grande, além de outras 36 embarcações (18 empurradores e 18 barcaças).

Ao todo, o investimento é de R$ 2,8 bilhões e integra o programa Mar Aberto, de renovação da frota da Petrobras.

Durante a agenda, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, também confirmou que a estatal vai investir R$ 6 bilhões na transformação da Refinaria Riograndense na primeira biorrefinaria do país, com previsão de início das operações no segundo semestre deste ano.

No início da tarde, Lula participou da cerimônia de entrega do empreendimento Junção, um conjunto habitacional do programa Minha Casa, Minha Vida. Iniciado em 2016, o Junção reúne 1.276 unidades habitacionais e deve beneficiar mais de 5.000 moradores, segundo estimativa da Prefeitura de Rio Grande.

José Bruno Bratti - Rio Grande (RS) e Catarina Scortecci (Curitiba (PR). Publicado originalmente na Folha de S. Paulo, edição impressa, em 20.01.26, às 19h59.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Trump, 2026: Quem pode se opor ao presidente dos EUA?

Os protestos estão aumentando, juízes estão tentando bloquear a agenda da Casa Branca e a popularidade dos republicanos não está se recuperando. As eleições de meio de mandato em novembro serão cruciais para avaliar a resiliência dos democratas.

Uma pessoa se envolve em uma bandeira dos Estados Unidos durante um protesto contra o ICE (polícia de imigração) em Minneapolis na última sexta-feira. (Crédito: OLGA FEDOROVA EFE)

Exatamente um ano atrás, nos dias que antecederam a segunda posse de Donald Trump, uma frente fria que obrigou a cerimônia a ser realizada em um local fechado mergulhou Washington em um clima sombrio. Uma pergunta circulava por aquela cidade predominantemente democrata, agora repleta de apoiadores do MAGA ( Make America Great Again , o slogan de Trump), novos moradores que chegaram com a mudança de governo e bilionários ansiosos para fazer negócios ali: onde estaria a resistência ao presidente dos Estados Unidos desta vez?

Afinal, uma forte mobilização cidadã saudou Trump no início de seu primeiro mandato (2017-2021). No alvorecer de seu segundo mandato, e após 10 anos em que ativistas, celebridades de Hollywood, políticos democratas, a mídia tradicional e o próprio establishment tentaram, sem sucesso, impedi-lo, parecia que metade dos Estados Unidos havia decidido desistir diante da vitória inequívoca que ele havia conquistado nas urnas.

Doze meses após a posse, a resistência a Trump está um pouco mais viva. E ele enfrenta um ano crucial, no qual as eleições de meio de mandato, em novembro próximo, dividirão sua presidência em duas: perder o Congresso, que ele controla atualmente, complicaria muito a segunda metade de seu mandato. Enquanto isso, juízes federais em todo o país continuam a rejeitar e, às vezes, até mesmo bloquear sua agenda nos tribunais; alguns congressistas republicanos se opõem a ele com efeitos mais irritantes do que decisivos; e os democratas recuperam alguma esperança com vislumbres como o do novo prefeito de Nova York, o socialista Zohran Mamdani.

Trump toma posse novamente oito anos depois. E a resistência contra ele?

Os protestos também estão se intensificando nas ruas. Esta semana, emissoras de televisão por todos os Estados Unidos transmitiram incessantemente imagens dos protestos em Minneapolis contra o envio de agentes de imigração do ICE, um dos quais matou a tiros Renée Good, uma cidadã americana. Em uma sequência que vem crescendo constantemente , protestos semelhantes ocorreram anteriormente em Los Angeles, Chicago e Portland. Todas essas são cidades com tendência democrata para as quais o governo enviou a Guarda Nacional, assim como fez em Washington, D.C., onde os agentes ainda patrulham as ruas.

Soldados da Guarda Nacional em frente ao Centro de Detenção Federal de Los Angeles em junho passado. (CONTATO via Europa Press)

Juízes federais em todas essas jurisdições se opuseram às decisões do governo de mobilizar milhares de agentes, em mais uma demonstração de que a resistência a Trump, como previsto desde o início, desta vez também (ou principalmente) ocorre nos tribunais. Nestes 12 meses, Trump assinou 228 ordens executivas e decretos sem a aprovação do Congresso, três a mais do que nos seus quatro anos anteriores, e muitos deles acabaram nos tribunais. Esta semana, havia 253 processos judiciais ativos contra ações governamentais em tribunais locais, estaduais e federais, de acordo com cálculos da organização independente Lawfare. E não há indícios de que essa disputa vá diminuir.

A barreira legal às tentativas de Trump de expandir o poder executivo, no entanto, encontra uma brecha em seu ponto mais alto. A Suprema Corte, com sua maioria conservadora de seis juízes — três dos quais foram nomeados pelo republicano durante seu primeiro mandato — demonstrou lealdade inabalável ao presidente dos EUA durante o último período judicial. Eles decidiram a seu favor 19 vezes, com decisões emitidas sob procedimentos acelerados.

E quanto ao Poder Legislativo? Este primeiro ano do retorno de Trump à Casa Branca foi, especialmente em seu primeiro semestre, marcado pela paralisia do Congresso. Em seu primeiro mandato, o Partido Republicano se rebelou contra algumas de suas decisões. Neste segundo mandato, e após uma década de infiltração de apoiadores do MAGA em suas fileiras, o partido tem se curvado repetidamente aos desejos da Casa Branca.

É verdade que os democratas, que não controlam nenhuma das casas legislativas, têm pouca margem de manobra. Também é verdade que, abalados pela derrota eleitoral, desorientados e sem liderança, levaram meses para entrar em ação, apesar dos apelos do influente estrategista James Carville para implementar o que ele chamou de "a manobra política mais ousada da história do partido". Essa manobra, argumentava ele, poderia ser resumida da seguinte forma: "Recuar e fingir de morto, deixar os republicanos desmoronarem sob o próprio peso".

No outono, os senadores democratas forçaram a paralisação governamental mais longa da história, que durou 43 dias e atrasou a aprovação de uma lei que obrigaria o Departamento de Justiça a divulgar os documentos do milionário pedófilo Jeffrey Epstein que estão em sua posse.

Quando a moção foi finalmente colocada em votação, a decisão foi quase unânime; apenas um congressista conservador votou contra. O caso Epstein, envolvendo um amigo de longa data de Trump, também foi o motivo do rompimento do presidente com um grupo de congressistas dissidentes que, nos últimos meses, haviam se juntado à resistência contra ele em questões como as operações militares extrajudiciais contra supostos barcos de narcotráfico no Caribe. Trump os insulta repetidamente nas redes sociais e chegou a forçar a renúncia de uma delas, a ex-representante MAGA Marjorie Taylor Greene, que havia se tornado um rosto inesperado da oposição.

O líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, juntamente com Katherine Clark e Pete Aguilar, em 8 de janeiro no Capitólio. (Crédito: Evelyn Hockstein - REUTERS)

Antes disso, a paralisação do governo foi uma manobra arriscada para os democratas; o congelamento do financiamento afeta serviços essenciais para os cidadãos e deixa centenas de milhares de funcionários públicos sem salário. Mas valeu a pena para o partido, que se apresentou aos seus apoiadores, pela primeira vez desde o desastre eleitoral de Kamala Harris, como uma organização pronta para lutar. A paralisação terminou quando oito senadores da minoria concordaram com as condições para a reabertura do financiamento. Mas não por muito tempo: o próximo teste será no final de janeiro, e outro impasse não está descartado como tática de pressão para salvar certos benefícios de saúde.

Durante aqueles meses de inação democrata, seus estrategistas imploraram por paciência, mantendo os olhos voltados para as eleições de meio de mandato , nas quais toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado estarão em disputa. Bem, esse momento está agora mais próximo. Elas serão realizadas em 3 de novembro, a data mais importante do calendário de 2026, juntamente com 4 de julho, o 250º aniversário da independência dos Estados Unidos.

Presume-se amplamente que Trump, que afirmou esta semana que seria melhor se as eleições não fossem realizadas (embora a Casa Branca tenha esclarecido posteriormente que ele estava "brincando"), fará todo o possível para influenciar os resultados, redesenhando os limites dos distritos eleitorais, nomeando negacionistas das eleições entre os funcionários responsáveis ​​pela contagem dos votos e questionando a legitimidade do voto por correio. Mesmo assim, muitos analistas acreditam ser possível, a dez meses das eleições, que os democratas recuperem a maioria na Câmara dos Representantes, onde 435 cadeiras estão em disputa, mas apenas cerca de 60 são consideradas eleições competitivas.

Vantagem de quatro pontos

Os índices de aprovação de Trump estão baixos há mais de 300 dias. E, de acordo com uma pesquisa do Wall Street Journal divulgada neste sábado, que dá aos democratas uma vantagem de quatro pontos nas intenções de voto, a maioria dos americanos está insatisfeita com a situação da economia, considera o governo incapaz de conter o custo de vida e acredita que a Casa Branca está muito preocupada com a política externa.

A análise é complementada pelo fato de que as eleições de meio de mandato serão um evento com um número incomum de congressistas se aposentando, mais entre as fileiras republicanas (25) do que entre as democratas (21), o que aumenta a incerteza para o grupo conservador, que tem uma maioria apertada (218-213).

As eleições de meio de mandato costumam ser más notícias para o partido no poder, embora, de acordo com a pesquisa do Wall Street Journal , a perspectiva nesta época do ano fosse melhor para os democratas em 2018 do que é agora. Naquela época, Trump enfrentou seu primeiro teste eleitoral e fracassou de forma espetacular.

Se a Câmara dos Representantes mudasse de maioria, os democratas teriam mais poder para bloquear sua agenda, exceto pela parte que ele aprova por meio de decretos executivos. Eles também poderiam orquestrar um impeachment fraudulento para removê-lo do cargo, mas isso seria arriscado. Seria a terceira tentativa, e as duas anteriores, longe de derrubar Trump, apenas o fortaleceram.

Decidir se deve apostar tudo ou não é um dilema, mas não é o único que a esquerda americana enfrenta. Ela recebeu uma dose de otimismo em novembro passado, após uma temporada sombria, com vitórias eleitorais retumbantes em Nova Jersey, Virgínia e, sobretudo, na eleição para prefeito de Nova York. Uma estrela nasceu naquela cidade: o socialista Zohran Mamdani. Os democratas acompanharão de perto seu sucesso ou fracasso, já que ainda não têm um líder claro para 2028, e a ascensão de Mamdani evidenciou o conflito entre duas facções dentro do partido: moderados e progressistas.

O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, um democrata, em um comício na última sexta-feira.(Crédito: Anadolu via Getty Images)

Parece que todos aprenderam algo com o prefeito de Nova York : parte do seu sucesso derivou do foco no custo de vida, essa "acessibilidade" que ele até incorporou à retórica de Trump. Será mais difícil aprender com seu extraordinário talento para usar as redes sociais. Para se conectar com o eleitorado jovem, predominantemente masculino, que abraçou o MAGA na última eleição, figuras proeminentes como o governador da Califórnia, Gavin Newsom, um democrata, adotaram a tática de partir para o ataque e responder a Trump nas redes sociais com o mesmo veneno, usando piadas de mau gosto, memes e ataques pessoais. Resta saber se essa estratégia servirá a algum propósito além de canalizar a frustração de enfrentar um presidente que muitas vezes parece imparável.

Newsom é indiscutivelmente o mais bem posicionado para ser o candidato de seu partido na próxima eleição presidencial. Mas sua mudança de estilo, ou as vitórias do último outono, não são suficientes para declarar o fim da crise do partido, de acordo com David Plouffe, um estrategista democrata veterano que se tornou uma das vozes mais críticas do establishment que permitiu que Joe Biden se candidatasse novamente e foi um dos líderes da breve campanha de Harris.

“É muito mais fácil acreditar que a tempestade passou, que a profunda impopularidade de Trump e do movimento MAGA, e o caos que eles estão gerando, serão suficientes para colocar o barco nos trilhos”, escreve Plouffe no The New York Times. “Se ao menos fosse esse o caso. Mas para vencer eleições em territórios politicamente implacáveis, até mesmo hostis, o partido terá que reformular sua imagem desgastada e sua plataforma ultrapassada, promovendo novas figuras e novos líderes que prometam traçar um rumo em que um número suficiente de eleitores confie.”

Essa é a teoria. Na prática, quase certamente será muito mais difícil.

Iker Seisdedos, o autor deste artigo, é o correspondente-chefe do EL PAÍS nos EUA. Formado em Direito Econômico pela Universidade de Deusto e com mestrado em Jornalismo pela Universidade Autônoma de Madri (UAM) e pelo EL PAÍS, trabalha no jornal desde 2004, quase sempre na seção de cultura. Depois de trabalhar na seção de viagens, na seção Temptations e no El País Semanal, foi editor-chefe das seções de domingo, Ideias, Cultura e Babelia. Publicado originalmente em 20.01.26