terça-feira, 11 de agosto de 2020

Brasil confirma hoje 102.034 mortes e contabiliza 3.068.138 infectados pela Covid-19.

Veja os números consolidados:

102.034 mortes confirmadas

3.068.138 casos confirmadas

Às 8h, de hoje o consórcio publicou a primeira atualização do dia com 101.936 mortes e 3.062.374 casos.

Na segunda-feira (10), às 20h, o balanço indicou: 101.857 mortes, 721 em 24 horas. Com isso, a média móvel de novas mortes no Brasil nos últimos 7 dias foi de 1.022 óbitos, uma variação de +2% em relação aos dados registrados em 14 dias.

Em casos confirmados, eram 3.056.312 brasileiros com o novo coronavírus desde o começo da pandemia, 20.730 desses confirmados no último dia. A média móvel de casos foi de 43.521 por dia, uma variação de -4% em relação aos casos registrados em 14 dias.

Progressão até 10 de agosto

No total, 8 estados apresentaram alta de mortes: RS, SC, MG, SP, MS, AM, TO e BA.

Em relação a domingo (9), SP, MS, TO e BA estavam com a média de mortes em estabilidade e, agora, estão subindo.

Subindo: RS, SC, MG, SP, MS, AM, TO e BA.

Em estabilidade, ou seja, o número de mortes não caiu nem subiu significativamente: ES, DF, GO, MT, AP, PE, PI e RN.

Em queda: RJ, AC, PA, RO, RR, AL, CE, MA, PB e SE.

O estado do Paraná não divulgou os dados até as 20h. Considerando os dados até 20h de domingo (9), estava em estabilidade (-2%).

Essa comparação leva em conta a média de mortes nos últimos 7 dias até a publicação deste balanço em relação à média registrada duas semanas atrás (entenda os critérios usados pelo G1 para analisar as tendências da pandemia).

Fonte: G1 / Globo News

Kamala Harris é escolhida candidata a vice-presidente na chapa de Joe Biden

Candidato do Partido Democrata fez anúncio pelas redes sociais. Se derrotarem Donald Trump, senadora será a primeira eleita vice-presidente dos EUA

A senadora Kamala Harris declara seu apoio ao pré-candidato democrata Joe Biden, durante comócio em Detroit, Michigan, em 9 de março — Foto: Jeff Kowalsky/AFP

A senadora Kamala Harris declara seu apoio ao pré-candidato democrata Joe Biden, durante comício em Detroit, Michigan, em 9 de março — Foto: Jeff Kowalsky/AFP

O candidato do Partido Democrata à Presidência dos EUA, Joe Biden, escolheu como companheira de chapa a senadora Kamala Harris, de 55 anos. Caso vençam Donald Trump nas eleições de novembro, ela será a primeira mulher eleita a ocupar o cargo de vice-presidente dos Estados Unidos.

Biden usou as redes sociais para anunciar o nome da vice nesta terça-feira (11). "Eu tenho a grande honra de anunciar que escolhi Kamala Harris — uma lutadora destemida pelos pequenos e uma das melhores servidores públicas do país — como minha parceira de chapa", escreveu.

O candidato a presidente mencionou o filho morto em 2015, Beau Biden, que também atuou como procurador. Segundo ele, os dois trabalharam juntos.

"Eu era orgulhoso deles, e agora sinto orgulho de tê-la como minha parceira nesta campanha", disse.

Quem é Kamala Harris

Senadora pelo estado da Califórnia desde 2017, Harris chegou a se apresentar como pré-candidata à Casa Branca e liderou algumas das pesquisas internas do Partido Democrata. No entanto, foi perdendo apoio até deixar de vez a corrida presidencial.

Harris nasceu de pais imigrantes: um pai jamaicano e uma mãe indiana, que, inclusive, se notabilizou pela pesquisa na área de câncer e como ativista de direitos civis.

Formada em direito e ex-procuradora do Distrito de San Francisco e do estado da Califórnia, a agora candidata a vice ganhou projeção nacional ao questionar duramente , em sabatinas no Senado, indicados por Trump para cargos de juiz da Suprema Corte e de Secretário de Justiça.

Fonte: G1 / Globo News

Os cheques para a primeira-dama

É preciso uma explicação muito diferente das que foram apresentadas até agora sobre o relacionamento da família Bolsonaro com o ex-policial militar Queiroz

O presidente Jair Bolsonaro deve ao País uma explicação convincente sobre os cheques depositados por Fabrício Queiroz, ex-policial militar e ex-assessor parlamentar do filho Flávio, em nome da primeira-dama Michelle Bolsonaro. As movimentações datam de outubro de 2011 a dezembro de 2016, em valores de R$ 3 mil e R$ 4 mil, alcançando a soma de R$ 72 mil. Revelado pela revista Crusoé, o detalhamento dos depósitos de Queiroz em nome de Michelle foi confirmado pelo Estado.

É preciso uma explicação muito diferente das que foram apresentadas até agora sobre o relacionamento da família Bolsonaro com o ex-policial militar Queiroz. Desde que foi revelada, no segundo semestre de 2018, a investigação envolvendo movimentações suspeitas de Fabrício Queiroz e os Bolsonaros, o que se ouviu foram relatos pouco convincentes que, com o passar do tempo, se mostraram insustentáveis. Bastou vir uma nova informação sobre o caso para que a explicação anterior se tornasse inverossímil. O País não merece versões parciais, especialmente de quem chegou ao Palácio do Planalto prometendo combater a corrupção.

A revelação dos depósitos de R$ 72 mil escancara, por exemplo, a insuficiência da explicação dada em dezembro de 2018, quando veio à tona relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), anexado aos autos da Operação Furna da Onça, que citava um cheque de R$ 24 mil depositado por Fabrício Queiroz em favor de Michelle Bolsonaro. A movimentação levantou suspeita, uma vez que não se encaixava nas atribuições funcionais do ex-policial militar que foi assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro até outubro daquele ano. 

Na ocasião, a explicação para a movimentação dos R$ 24 mil na conta de Michelle Bolsonaro não foi dada pela titular da conta. Foi Jair Bolsonaro quem apresentou uma razão para o tal depósito do assessor parlamentar de seu filho na conta de sua mulher. Segundo Bolsonaro, o valor de R$ 24 mil referia-se ao pagamento de um débito antigo que Fabrício Queiroz tinha com ele, Jair Bolsonaro.

Segundo Bolsonaro, o montante devido por Fabrício seria ainda maior, na ordem de R$ 40 mil. “Emprestei dinheiro para ele (Queiroz) em outras oportunidades. Nessa última agora, ele estava com um problema financeiro e uma dívida que ele tinha comigo se acumulou. Não foram R$ 24 mil, foram R$ 40 mil. Se o Coaf quiser retroagir um pouquinho mais, vai chegar nos R$ 40 mil”, disse Bolsonaro em dezembro de 2018 ao site O Antagonista. 

Como agora se sabe, os valores depositados não foram R$ 24 mil, tampouco R$ 40 mil. Foram identificados R$ 72 mil de Fabrício Queiroz para Michelle Bolsonaro. Por que essa movimentação de dinheiro entre Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar de Flávio, e a mulher de Jair Bolsonaro? E uma vez que foi Jair Bolsonaro quem deu a primeira explicação sobre essas movimentações – seria um antigo débito entre Jair e Fabrício –, cabe agora ao presidente dar um cabal esclarecimento sobre os repasses.

A explicação sobre os depósitos na conta de Michelle Bolsonaro também deve incluir outros depósitos um tanto esquisitos, para dizer o mínimo. Não apenas Fabrício depositou cheques na conta da primeira-dama, como também a mulher do ex-policial militar, Márcia de Oliveira Aguiar, repassou valores à mulher de Jair Bolsonaro. Foram identificados seis depósitos, num valor total de R$ 17 mil, em 2011 de Márcia na conta de Michelle Bolsonaro. A mulher de Fabrício Queiroz também trabalhou no gabinete de Flávio Bolsonaro.

As investigações indicam o ex-policial militar como o operador financeiro do suposto esquema de “rachadinha” instalado no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Quando foi preso em junho, Fabrício estava hospedado em residência de Frederick Wassef, advogado de Jair Bolsonaro. Atualmente, Fabrício e Márcia cumprem prisão domiciliar.

O presidente Jair Bolsonaro deve uma explicação ao País sobre todos esses cheques. Não cabe penumbra em assunto tão sensível – movimentação de dinheiro de assessores parlamentares para familiares dos parlamentares.

Editorial - Notas & Informações, O Estado de S.Paulo, 11 de agosto de 2020 | 03h00

O governo fictício de Mourão

O vice-presidente discursa como se refletisse ideias e atitudes de um governo organizado, moderno e guiado por valores civilizados

Hamilton Mourão

O vice-presidente Hamilton Mourão Foto: Dida Sampaio/Estadão

Com palavras civilizadas, incomuns na atual diplomacia brasileira, o vice-presidente Hamilton Mourão discursou como representante de um governo imaginário, ao participar de evento ibero-americano organizado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Ele pode ter manifestado suas ideias, ao falar em compromisso com “parâmetros globais de sustentabilidade” e com o multilateralismo, mas esses valores têm sido rejeitados, de forma persistente, pelo presidente Jair Bolsonaro e por vários ministros. A noção de uma ordem multilateral é hoje igualmente execrada no Palácio do Planalto e na Casa Branca, endereço do guia e modelo do principal mandatário brasileiro. 

“Executamos medidas urgentes para conter o desmatamento e as queimadas e estamos construindo um planejamento para médio e longo prazos para a Amazônia Legal”, disse o vice. Ele usou a primeira pessoa do plural, mas faltou – detalhe importantíssimo – esclarecer a quem se refere o pronome “nós”.

Haverá nesse pronome uma referência ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles? Nesse caso, como dar conta de sua tentativa, há poucos dias, de baixar a meta de redução do desmatamento? Mais difícil, ainda, é explicar a posição do presidente da República, crítico das informações ambientais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), protetor do ministro Salles e apoiador de suas ações contra o Ibama.

Na Amazônia, admitiu o vice-presidente, o desmatamento em 2020 poderá ultrapassar o do ano anterior. Se houver necessidade, acrescentou, o governo poderá manter até 2022 a ação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), usando a força militar para proteção do ambiente.

Mas o general Mourão foi além, ao comentar a importância da preservação ambiental para o sucesso comercial do agronegócio. O aumento dos crimes ambientais, afirmou, expõe o agronegócio a campanhas difamatórias e a políticas protecionistas no exterior.

O problema é real. Essas campanhas, no entanto, são favorecidas por ações e atitudes do presidente e de outras autoridades, pormenores omitidos pelo vice-presidente. Mas ele mostrou realismo – virtude rara, no governo, quando se trata dessas questões – ao mencionar a importância, para as empresas, de apresentar boas “credenciais ambientais, sociais e de governança”.

Além do vice-presidente, só a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, tem mostrado percepção dos problemas criados pelo presidente, por ministros e por pessoas próximas da Presidência, quando defendem o afrouxamento da defesa ambiental ou ofendem parceiros comerciais.

Ainda falando em nome de um governo que não deveria ser imaginário, o vice-presidente mostrou pesar pela morte de mais de 100 mil pessoas pela covid-19. “São perdas irreparáveis, que colocam toda a nação em luto”, afirmou. O presidente só mencionou o assunto quando foi inevitável, nos últimos dias, sempre mostrando impaciência e logo passando a outro tema. “Vamos tocar a vida”, foi a frase de Bolsonaro, na quinta-feira, logo depois de comentar com o ministro da Saúde a proximidade do número 100 mil.

O general Mourão mencionou ainda os desafios da recuperação econômica e falou sobre prioridades da política econômica e sobre a pauta de reformas. Nessa altura, aproximou-se mais da realidade do atual governo. Isso em nada enriqueceu o discurso. Poderia tê-lo piorado, se o vice-presidente se dispusesse a defender, como há poucos dias, a criação de um tributo semelhante à CPMF.

Esse tributo será necessário, segundo o ministro da Economia, para permitir a desoneração da folha de pagamentos. O vice-presidente incorporou esse argumento. Não lhe ocorreram, aparentemente, duas perguntas simples e óbvias: 1. Por que só a CPMF, uma aberração execrada na maior parte do mundo e condenada, no Brasil, por economistas de primeiro time, tornará possível aquela desoneração? 2. Foram examinadas outras soluções?

Mas o discurso ficou longe desses detalhes. Assim, pôde soar como se refletisse ideias e atitudes de um governo organizado, moderno e guiado por valores civilizados. 

Editorial - Notas & informações, O Estado de S.Paulo / 11 de agosto de 2020 | 03h00



 

Vacina russa desperta mais desconfiança que otimismo entre os cientistas

Falta de transparência dos resultados da vacina, registrada nesta terça-feira, deixam dúvidas sobre sua eficácia

Quando o governo russo programou uma vacinação em massa contra o coronavírus para outubro, os cientistas brasileiros mostraram mais desconfiança e cautela do que otimismo com a perspectiva de cura da doença que já infectou 20 milhões de pessoas no mundo. As dúvidas aumentaram nesta terça-feira, 11, quando o presidente Vladimir Putin afirmou que a Rússia se tornou o primeiro país do mundo a aprovar a regulamentação para uma vacina contra a covid-19. A possibilidade do estudo “pular” etapas de testes para acelerar a distribuição da vacina e a falta de transparência dos resultados deixam dúvidas sobre sua eficácia.

Vacina

Vacina

No caso de imunizantes em teste para a covid, pesquisadores estimam que eles possam estar licenciados menos de seis meses após o início da fase 3. Foto: Wilton Junior/Estadão

O Ministério da Saúde da Rússia informa que as pesquisas estão na fase 3, a última e mais importante das etapas de produção de uma vacina, mas não divulgou estudos em nenhuma revista científica sobre os resultados e a duração e os detalhes das fases anteriores. Segundo o órgão, a vacina já está apta para ser distribuída à população. Existem controvérsias. De acordo com o site russo Meduza, criado por jornalistas independentes, a Associação de Organizações de Pesquisa Clínica, entidade que reúne empresas farmacêuticas e organizações de pesquisa locais, aponta que a vacina ainda está na fase I-II de acordo com o registro de ensaios clínicos. A previsão de conclusão seria apenas em dezembro. Por isso, a entidade chegou a pedir ao Ministério da Saúde o adiamento do registro da vacina, o que não aconteceu. De acordo com o site Clinical Trials, referência mundial das pesquisas em andamento criada pelos Estados Unidos, os estudos russos ainda estão na fase 1 e 2.  

Como comparação, a vacina Coronavac, parceria do Instituto Butantã com a empresa chinesa Sinovac Biotech e que está sendo testada em voluntários brasileiros, vai precisar de 90 dias para concluir a fase 3. Se os testes tiverem resposta positiva, a vacina deve estar disponível apenas para a população no início de 2021. O experimento russo tem menos de dois meses de testes em humanos.

“Temos 26 vacinas em fase clínica de estudos e seis na fase 3. A vacina russa está em fase 1. Mas o governo está indicando uma vacina pronta em agosto. Isso é impossível. Porque pressupõe, necessariamente, estudos de fase 3, que não podem ser feitos sem a conclusão da fase 2. É impossível fazer tudo isso neste tempo”, opina a infectologista e epidemiologista Cristiana Toscano, de 48 anos, professora do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da UFG (Universidade Federal de Goiás) e representante da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Cristiana está diretamente envolvida na busca por uma vacina contra o coronavírus. Ela é única representante da América do Sul a integrar o Grupo de Trabalho de Vacinas para covid-19 do Grupo Estratégico Internacional de Experts em Vacinas e Vacinação (SAGE), da Organização Mundial da Saúde. A especialista tem o papel de revisar, junto com os outros 14 componentes do grupo de trabalho, as evidências disponíveis sobre o progresso das vacinas candidatas contra a doença e definir estratégias e planos sobre o uso acelerado de vacinas (pré e pós-licenciamento).

A falta de publicação e compartilhamento dos dados de uma vacina registrada acentua a preocupação a nível mundial, opina a bióloga Natalia Pasternak, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e presidente do Instituto Questão de Ciência. “A comunidade científicia internacional está no escuro. É motivo de muita preocupação. Temos uma população de cerca de 150 milhões de pessoas que vai começar a ser vacinada sem que conheçamos os efeitos.  A Rússia pode fazer o registro, mas o vírus não tem fronteira”, compara a especialista. "Não é apenas a falta de transparência. É a conclusão de um estudo sem a apresentação de resultados", conclui. 

Tradicionalmente, vacinas levam em média dez anos para serem produzidas. A mais rápida foi a da caxumba, que demandou quatro anos. O desenvolvimento de novas tecnologias acelerou o processo, e a expectativa atual era de um produto disponível no início do ano que vem. Depois dos testes laboratoriais e pré-clínicos, feitos com animais, as vacinas passam por mais três etapas de testes em seres humanos. A primeira avalia a segurança em 20 a 80 voluntários, geralmente adultos saudáveis. A segunda aprofunda as análises, observando os efeitos em centenas de pessoas. Na última etapa, ela testa a segurança e eficácia em milhares de indivíduos. No caso da covid-19, as seis pesquisas no mundo que já atingiram essa fase vão aplicar duas doses da vacina nos voluntários, com intervalos de 14 a 28 dias entre elas.

Queimar etapas no desenvolvimento de uma vacina para acelerar sua distribuição levanta questões éticas de acordo com o virologista Paulo Eduardo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), afirma que. “Esses estudos geram dúvidas na comunidade científica mundial por causa da intenção dos envolvidos de saltar etapas e passar diretamente ao uso da vacina em escala mais ampla sem uma consolidação de sua eficácia e segurança de acordo com protocolos científicos que devem ser seguidos para qualquer vacina”, opina o especialista. “Não é ético fazer isso.”

Alheia à desconfiança da comunidade científica internacional, a Rússia acelerou seu cronograma seguindo determinação do presidente Putin, que queria simplificar e encurtar o prazo para os ensaios clínicos e pré-clínicos. Na reunião governamental transmitida pela televisão estatal, ele afirmou que uma de suas filhas tomou a vacina. “Sei que funciona de maneira bastante eficaz, forma uma forte imunidade e, repito, passou em todos os testes necessários”, disse Putin.

Na semana passada, Tatiana Golikova, vice-primeira-ministra, afirmou que o imunizante teria registro com a condição de “outro ensaio clínico para 1.600 pessoas ser realizado” em seguida. O ministro da Saúde da Rússia, Mikhail Murashko, anunciou que o programa de vacinação em massa começa em outubro. O imunizante foi desenvolvido pelo Instituto Gamaleya de Epidemiologia e Microbiologia, um tradicional centro produtor de vacinas do governo federal e que funciona desde a época do regime comunista. Os testes estão sendo feitos na Primeira Universidade Estadual Médica Sechenov de Moscou.

A vacina já foi administrada a 38 pessoas. Do total, 18 receberam a vacina uma vez e as outras 20 receberam duas doses, para estimular ainda mais o desenvolvimento da imunidade. Cada pessoa vacinada mantinha um diário no qual eram registrados os efeitos colaterais, como febre, erupção cutânea ou vermelhidão no local da injeção. Denis Logunov, vice-diretor científico do Instituto Gamaleya, declarou que não foram observados efeitos colaterais significativos. A Associação de Organizações de Pesquisa Clínica criticou a atuação dos cientistas, especialmente Logunov, que teria injetado a vacina em si mesmo quando ela ainda estava em fase de testes em animais. Os voluntários, que têm entre 18 e 65 anos, serão monitorados por mais seis meses.

A infectologista Rosana Richtmann, do Instituto Emilio Ribas, afirma que a vacina russa utiliza a plataforma do vetor-viral, a mesma técnica utilizada pela Universidade Oxford, que possui os estudos mais promissores sobre a vacina. “A única diferença é que os russos usam dois adenovírus, mas essa é uma das poucas informações que nós temos. Desconheço qualquer publicação ou estudo. A investigação não é transparente para o resto do mundo”, critica.

Nesse tipo de pesquisa, o adenovírus, inócuo a seres humanos, transporta para dentro das células das pessoas vacinadas um gene capaz de produzir a proteína da espícula do novo coronavírus e, possivelmente, levar à formação de anticorpos. Os russos usaram como ponto de partida uma pesquisa anterior de vacina para outro coronavírus, o causador da Mers, doença respiratória da mesma família da covid-19 que atingiu especialmente o Oriente Médio a partir de 2012.

Cidadãos divididos

A vacina divide opiniões até entre os cidadãos russos. A jornalista e tradutora Daria Kornilova, de 45 anos, acredita que a vacina é uma ferramenta de propaganda. “O povo russo deve estar convencido do nosso sucesso. Isso, segundo as autoridades, pode reduzir a insatisfação com a situação econômica e política. Mas a Rússia pode recorrer a falsificações em prol de um resultado propagandístico? Claro que sim. O escândalo olímpico de doping mostra isso”, diz a moradora de Moscou, referindo-se à investigação da Agência Mundial Antidoping (Wada) de 2015 que apontou uma sistema de dopagem institucionalizado no atletismo russo.

Para Natália Zhavoronkova, de 32 anos, “ninguém vai arriscar a saúde da população”. “Se a vacina não funcionar do jeito esperado o triunfo pode virar catástrofe”, opina a gerente de TI. Já o médico particular Konstantin Boykov afirma que o país enfrenta problemas na àrea de saúde. “Em comparação com a época da União Soviética, os cuidados de saúde e prevenção de doenças estão diminuindo. Antes, toda escola tinha um médico, por exemplo. Hoje, não é mais assim. Acho improvável que a Rússia consiga desenvolver uma vacina tão rapidamente”, diz o especialista.  

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

Hormônio do exercício pode ter efeito terapêutico em casos de covid-19, sugere estudo

De acordo com pesquisa da Unesp, a irisina, liberada pelos músculos durante a atividade física, pode modular genes associados à maior replicação do novo coronavírus dentro de células humanas

Um estudo conduzido na Universidade Estadual Paulista (Unesp) sugere que o hormônio irisina, liberado pelos músculos durante a atividade física, pode ter efeito terapêutico em casos de covid-19. Ao analisar dados de expressão gênica de células adiposas, os pesquisadores observaram que a substância tem efeito modulador em genes associados à maior replicação do novo coronavírus (SARS-CoV-2) dentro de células humanas.

O achado teve como base dados de transcriptoma (conjunto de moléculas de RNA expressas em um tecido) de células adiposas não infectadas por SARS-CoV-2 que receberam doses de irisina.“Confrontamos as informações sobre os genes importantes na covid-19 com nossos dados do transcriptoma para fazer correlações. O resultado representa uma sinalização positiva para a busca por novos tratamentos nesse momento de emergência com a pandemia", diz Miriane de Oliveira , pesquisadora da Faculdade de Medicina da Unesp, em Botucatu (SP).

No entanto, de acordo a cientista, é preciso ressaltar que trata-se de dados preliminares, uma sugestão do potencial terapêutico da irisina para casos de covid-19. "Estamos indicando um caminho de pesquisa para comprovar ou não o efeito benéfico do hormônio em pacientes infectados.”

O artigo, publicado na revista Molecular and Cellular Endocrinology, descreve dados gerados no estudo de pós-doutorado de Miriane, que analisou a ação da irisina e de hormônios tireoidianos em adipócitos. O trabalho contou com apoio da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Pa

Por meio de técnicas de sequenciamento, os pesquisadores identificaram 14.857 genes expressos em uma linhagem de adipócitos subcutâneos. Ao tratar as células com irisina, observaram que a expressão de vários genes foi alterada.

Por causa da pandemia, os pesquisadores decidiram investigar possíveis efeitos da irisina em genes relacionados à replicação do SARS-CoV-2. A partir do cruzamento de dados, eles descobriram que o tratamento com a irisina em células adiposas diminuiu a expressão dos genes TLR3, HAT1, HDAC2, KDM5B, SIRT1, RAB1A, FURIN e ADAM10, reguladores do gene ACE2 – fundamental para a replicação do vírus em células humanas. O ACE2 codifica a proteína a que o vírus precisa se ligar para invadir células humanas.

Volta academias 

Volta academias

Hormônio do exercício pode ter efeito terapêutico em casos de covid-19, sugere estudo. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Outro aspecto positivo encontrado no estudo foi a irisina ter triplicado os níveis de transcrição do gene TRIB3. Estudo anterior demonstrou a importância da manutenção da expressão de TRIB3. Em indivíduos idosos, é comum ocorrer a diminuição da expressão desse gene, o que pode estar relacionado à maior replicação do SARS-CoV-2 e ao risco aumentado dessa população à covid-19.

“Um terceiro aspecto importante está no achado de outros grupos de pesquisa sobre o tecido adiposo aparentemente servir como repositório do vírus. Isso ajuda a entender por que indivíduos obesos têm maior risco de desenvolver a forma grave da doença. Fora isso, indivíduos obesos tendem a ter níveis menores de irisina, assim como maiores quantidades da molécula receptora do vírus [ACE2], quando comparados a indivíduos não obesos”, explica a pesquisadora.

A irisina, normalmente produzida de modo endógeno durante o exercício físico contínuo, é conhecida pela função de modificação metabólica do tecido adiposo branco – que armazena triglicerídeos, lipídios, acumula gordura e pode vir a ser inflamado –, tendo função similar ao tecido adiposo marrom. Esse processo favorece o gasto energético, o que torna a irisina um agente endógeno terapêutico para doenças metabólicas, como a obesidade.

É também conhecida a capacidade moduladora do hormônio na atividade dos macrófagos (células de defesa do sistema imune), o que confere potencial propriedade anti-inflamatória.

Gerenciamento de dados

O estudo de Miriane de Oliveira é um exemplo de como o gerenciamento de dados obtidos em pesquisas básicas pode semear outras descobertas e linhas de pesquisa.

“Fizemos inicialmente uma análise comparativa entre a ação da irisina e dos hormônios tireoidianos na diminuição de acúmulo lipídico e na modulação de genes nas células adiposas. O estudo gerou um volume grande de dados e, conforme veio a pandemia e outros grupos de pesquisa iam descobrindo os genes associados à replicação do SARS-CoV-2, decidimos investigar no nosso banco de dados como a irisina [e os hormônios tireoidianos] poderia influenciar a doença”, relata à Agência FAPESP.

A investigação original do grupo de pesquisadores buscou descobrir de que forma esses hormônios desempenham o papel termogênico na diminuição do tecido adiposo e geração de energia nos adipócitos. “Para isso, fizemos o transcriptoma e identificamos que genes seriam afetados na presença desses hormônios. Dados que serviram de base para o estudo sobre a covid-19”, diz.

Com o estudo, Miriane identificou que a irisina não só diminui o acúmulo lipídico como aumenta a expressão da proteína desacopladora 1 (UCP1), associada a maior gasto calórico. O aumento da expressão dessa proteína é compatível com a redução de dano de DNA e de estresse oxidativo.

Com a maior compreensão do papel da irisina em fatores correspondentes à obesidade e também a sua possível relação com os casos de covid-19, o grupo de pesquisadores vai analisar o efeito do hormônio em células infectadas com SARS-CoV-2.

O trabalho, que também será coordenado pela professora da Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu Célia Regina Nogueira de Camargo, é apoiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

“O objetivo é dar mais um passo nesse estudo e verificar em modelo tridimensional de cultura celular de adipócitos os resultados obtidos no nosso trabalho de bioinformática. Queremos entender como ocorre a modulação, por parte da irisina, nos genes relacionados à replicação do novo coronavírus”, diz

Maria Fernanda Ziegler, Agência FAPESP / Publicadoo originalmente em O Estado de S. Paulo

Coronavírus: Como obesidade pode estar impulsionando gravidade e morte de jovens por covid-19

"Concluímos que, em populações com grande prevalência da obesidade, a covid-19 afetará mais as populações mais jovens", afirmaram em maio três pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, em texto publicado na revista médica Lancet.

Na ocasião, os autores apresentaram os resultados preliminares de uma pesquisa que buscou confirmar, com dados, algo que estava sendo observado na prática no hospital universitário da Johns Hopkins: pacientes jovens que chegavam às unidades de terapia intensiva (UTI) tendiam a ser obesos.

Os cientistas reuniram então dados de 265 pacientes internados em seis hospitais universitários americanos e concluíram que, sim, havia uma correlação inversa entre idade e Índice de Massa Corporal (IMC): pessoas mais novas internadas por covid-19 tinham maior probabilidade de ter IMC alto, na faixa da obesidade.

Quase três meses depois, novos relatos em hospitais e pesquisas científicas se somaram a este achado.

"Nossa correspondência (tipo de texto em um periódico científico, normalmente com etapas menos estritas que um artigo padrão) foi uma das primeiras, mas desde então já foram publicados 400 estudos — e este número continua aumentando — debatendo a conexão entre obesidade e os efeitos da covid-19 em uma pessoa infectada", explicou por e-mail à BBC News Brasil David A. Kass, cardiologista, professor da Universidade Johns Hopkins e um dos autores do trabalho.

"Existem hoje muitas pesquisas demonstrando que, se você considera os riscos que a obesidade sozinha produz para quadros piores de covid-19 (risco de hospitalização; de internação em UTI; ou de morrer), eles são consideravelmente aumentados em indivíduos com idade menor que 50-60 anos. Em pessoas mais idosas, digamos com mais de 65 anos, a obesidade sozinha se torna um risco menos proeminente."

"Presumo que seja porque em idades mais avançadas, existem muitas outras comorbidades — o envelhecimento e vulnerabilidades em si, histórico de câncer, doenças cardíacas, doenças imunológicas, doenças pulmonares — e que se tornam mais significativas nessa faixa etária".

EUA e Brasil: líderes em covid-19 e população com alto percentual de obesos

Fila para teste de covid-19 nos EUA; chegada da covid-19 no país, com cerca de 36% da população adulta obesa, provocou mais estudos sobre a associação entre doenças

Os autores da carta no Lancet também escreveram que, ao chegar aos EUA, o coronavírus tinha feito médicos e cientistas ficarem em alerta sobretudo para a população idosa — que se mostrou particularmente vulnerável na China e Itália, por onde a doença passou e deixou vítimas primeiro.

Mas, nos EUA, a alta prevalência da obesidade — 36% da população adulta, segundo dados globais de 2016 — explicitou este novo e relevante risco.

Professor de medicina da Universidade de Campinas (Unicamp) e diretor do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades, Licio Augusto Velloso avalia que, neste infeliz encontro entre as duas doenças, o Brasil tem mostrado características semelhantes aos EUA. Aqui, 22% da população adulta foi considerada obesa no levantamento de 2016, enquanto China e Itália aparecem respectivamente com 6% e 19,9%.

"Um outro fator importante na Itália é que a população é bem mais velha, então o principal fator da alta mortalidade lá parece ter sido a idade. Nos EUA, têm se destacado a obesidade e a diabetes."

Com altos percentuais de obesos, diz Velloso, as evidências têm confirmado a conclusão dos pesquisadores da Johns Hopkins de que populações com estas características colocam faixas etárias mais jovens em maior risco.

"Já há muitos estudos mostrando que, nos EUA, há uma mortalidade significativa nas faixas etárias intermediárias. O Brasil vai no caminho dos EUA, porque a nossa taxa de obesidade está muito alta — não tanto quanto nos EUA, mas também assustadoramente alta", aponta o médico, acrescentando que, no Hospital de Clínicas da Unicamp, é sabido pela equipe, por observação, que os jovens mais gravemente afetados pela covid-19 são na maioria obesos.

E, mesmo que países como o Brasil tenham uma população mais nova em geral, ele acredita que a relevância da covid-19 em faixas etárias mais baixas "certamente é mais porque estamos com jovens muito obesos, do que porque temos muitos jovens".

De acordo com dados do Ministério da Saúde, até o início de agosto a distribuição de pessoas hospitalizadas por covid-19 no Brasil por faixa etária foi maior nas idades de 60 a 69 anos (20%); 50 a 59 anos (18%); 70 a 79 anos (17%); 40 a 49 anos (14%); 80 a 89 anos (10%); 30 a 39 anos (10%); 20 a 29 (3.9%).

Combinação com hipertensão e diabetes

"Em fevereiro, os primeiros estudos publicados na China já deixavam claro que pacientes com obesidade, diabetes, hipertensão evoluíam de forma mais grave", apontou Licio Velloso, da Unicamp, em entrevista por telefone.

De antes da pandemia, a associação entre obesidade, diabetes e hipertensão já é bastante conhecida.

"Aproximadamente 60 a 70% das pessoas que são obesas acabam desenvolvendo tanto diabetes como hipertensão. Essas condições começam normalmente porque já há a obesidade de base", explica Velloso.

Por isso, explica o pesquisador, para os mais jovens a obesidade pode ser um fator mais relevante para a covid-19, pois normalmente — mas nem sempre — precede o desenvolvimento da diabetes e hipertensão.

Ele e David Kass destacaram que a produção científica se encaminha para, agora, responder mais precisamente como cada um desses fatores — obesidade, diabetes e hipertensão — influencia no desenrolar da covid-19, em diferentes idades.

Médicos relatam frequência, nos hospitais, de jovens internados com covid-19 que eram também obesos

Enquanto mais estudos são produzidos, na linha de frente profissionais como Peterson Lodi, que trabalhou no Hospital de Campanha do Leblon, no Rio, observaram características da covid-19 em jovens obesos que podem ajudar a entender a associação entre as doenças.

"Era nítida a tendência de pacientes jovens e obesos ficarem mais graves. Era rotineiro", lembra Lodi, também residente em medicina de emergência no Hospital Quinta D'Or.

"Observávamos nos jovens obesos muita falta de ar. Era mais comum e frequente um jovem obeso com insuficiência respiratória aguda, precisando de oxigênio, de broncodilatador", conta, relatando também nestes pacientes atendidos no Rio maior frequência do aparecimento da chamada ferida de decúbito (uma ferida causada pela pressão do peso em algum ponto do corpo) e uma demora na resposta à pronação (um procedimento de virar a barriga para baixo, ajudando na oxigenação).

Licio Velloso aponta pelo menos três explicações para a gravidade da covid-19 em pessoas obesas, não apenas as mais jovens. A primeira é que obesos, assim como diabéticos, são naturalmente imunodeficientes, com uma resposta imunológica menos eficiente em doenças mais conhecidas, como pneumonia, infecções renais e úlceras na pele, por exemplo.

Ilustração de proteínas de ligação do coronavírus (vermelho) se conectando aos receptores da célula humana alvo (azul) — para os coronavírus, estes receptores são do tipo enzima conversora de angiotensina 2 (ECA2)

A segunda: tanto obesos como diabéticos e hipertensos têm uma quantidade grande da proteína que o coronavírus usa como receptor — a enzima conversora da angiotensina 2 (ECA2): "É como se a proteína fosse uma porta para o vírus entrar na célula. Todo mundo tem essa proteína, mas pessoas com hipertensão, diabetes e obesidade têm uma quantidade maior. É como se o vírus tivesse mais portas para entrar."

A terceira explicação foi detalhada em um artigo publicado por ele e colegas brasileiros no periódico Cell Metabolism, em julho. No trabalho, os autores mostraram que a glicose alta em pessoas diabéticas promove desajuste em células do sistema imune, o que atrapalha na defesa contra o coronavírus.

Presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), o endocrinologista Mario Kedhi Carra acrescenta que a obesidade leva a condições do corpo, como a compressão do diafragma, que dificultam o combate a doenças respiratórias; e também a um estado naturalmente "inflamado" — com maior circulação no corpo das chamadas citocinas pró-inflamatórias (substâncias produzidas pelo sistema de defesa), por exemplo.

Carra explica que, para além da medida do IMC — que a partir do valor 30 indica obesidade —, esta doença é definida principalmente pelo excesso de massa gordurosa em relação à magra. Isto pode ser constatado com exames como medida da circunferência abdominal, tomografia ou densitometria de corpo inteiro.

Perguntado sobre os riscos para pessoas obesas que têm hábitos saudáveis, como praticar exercícios, o endocrinologista respondeu que, existindo excesso de tecido gorduroso, isto já traz problemas para a saúde. Assim, mesmo o sobrepeso já é capaz de levar a alguns distúrbios metabólicos prejudiciais.

Para pessoas com sobrepeso e obesas, vale o reforço de medidas aconselhadas à população em geral para se proteger da covid-19.

"A recomendação é se resguardar: usar máscaras, lavá-las, evitar aglomeração. Muito cuidado também com a alimentação: de todos, os mais negativos são bebidas alcoólicas e alimentos com açúcar e gordura."

Ele acrescenta ainda que, mesmo a curto prazo, certas mudanças de hábitos já podem fortalecer o organismo em geral.

"Qualquer quantidade de quilos diminuída já traz melhorias enormes na saúde", diz, mencionando alterações rápidas já passíveis de serem observadas, como na pressão arterial, falta de ar e resposta inflamatória.

Mariana Alvim - @marianaalvim, da BBC News Brasil em São Paulo

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

País conta 101.269 óbitos registrados e 3.039.349 diagnósticos de Covid-19.

O Brasil tem 101.269 mortes por coronavírus confirmadas até as 13h desta segunda-feira (10) segundo levantamento do consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde Desde o balanço das 20h de domingo (9), 7 estados e o DF atualizaram seus dados: AC, GO, MG, MS, PE, RN e RR.

Veja os números consolidados:

101.269 mortes confirmadas

3.039.349 casos confirmados

Às 8h, o consórcio publicou a primeira atualização do dia com 101.142 mortes e 3.035.649 casos.

No domingo (9), às 20h, o balanço indicou: 101.136 mortes, 593 em 24 horas. Com isso, a média móvel de novas mortes no Brasil nos últimos 7 dias foi de 1.001 óbitos, uma variação de -6% em relação aos dados registrados em 14 dias.

Sobre os infectados, eram 3.035.582 brasileiros com o novo coronavírus, 22.213 confirmados no último período. A média móvel de casos foi de 43.137 por dia, uma variação de -7% em relação aos casos registrados em 14 dias.

BRASIL SUPERA 100 MIL MORTOS POR COVID-19

BRASIL, 100 MIL MORTOS

Progressão até 9 de agosto

No total, 3 estados apresentaram alta de mortes: RS, SC e MG.

Em relação a sábado (8), ES, CE e PI estavam com casos em queda e passaram passaram a ficar estáveis. RN mudou de estabilidade para queda. MS passou de alta de casos para estabilidade.

Estados

Subindo: RS, SC e MG.

Em estabilidade, ou seja, o número de mortes não caiu nem subiu significativamente: PR, ES, SP, DF, GO, MS, MT, AC, AM, TO, BA, CE, PE e PI.

Em queda: RJ, AP, PA, RO, RR, AL, MA, PB, RN e SE

Essa comparação leva em conta a média de mortes nos últimos 7 dias até a publicação deste balanço em relação à média registrada duas semanas atrás (entenda os critérios usados pelo G1 para analisar as tendências da pandemia).

Fonte: G1 / Globo News

As vítimas da irresponsabilidade

O Brasil não poderia ter escolhido pior presidente para enfrentar uma pandemia. Quantas vidas poderiam ter sido poupadas não fosse o discurso irresponsável de Bolsonaro é uma pergunta que pairará sobre a história.

Cruzes no Cemitério do Caju, no Rio, onde algumas das vítimas da covid-19 foram enterradas

Cruzes no Cemitério do Caju, no Rio, onde algumas das vítimas da covid-19 foram enterradas

O Brasil ultrapassou neste fim de semana oficialmente a marca de 100 mil mortos por covid-19. O número carrega em si uma tristeza imensurável. São 100 mil famílias que não puderam velar seus mortos, enterrados às pressas devido a protocolos de segurança sanitária. Em milhares e milhares desses casos, as famílias não puderam visitar seus entes queridos em seus últimos dias. É uma tragédia inominável. 

E, ainda assim, era previsível. Embora tivesse tido tempo de se preparar, já que o primeiro caso de covid-19 foi registrado em São Paulo quando a doença já havia infectado mais de 80 mil pessoas em 40 países, o Brasil reagiu à chegada da pandemia de forma descoordenada e ineficiente, perdendo rapidamente o controle sobre a disseminação do vírus, porque quem deveria estar coordenando os esforços nacionais preferiu fazer pouco caso da pandemia. 

O Brasil não poderia ter escolhido presidente mais despreparado para enfrentar uma crise como esta. No início de março, Jair Bolsonaro disse que o poder destruidor do novo coronavírus estava "superdimensionado" e que a imprensa promovia "histeria". Quando a situação na Itália já era crítica, o presidente disse que no Brasil a covid-19 mataria menos de 800 pessoas e que na Itália o número de mortes era alto porque a população era idosa.

Avaliações equivocadas, baseadas em palpites sem qualquer fundamento, como tantas outras que Bolsonaro fez ao longo desses quase seis meses – e por que não dizer de sua vida política. Sua postura negacionista e marcada por um notório desprezo pelo conhecimento científico mantém o país sem um ministro da Saúde desde o dia 15 de maio, quando o segundo ministro na pandemia deixou o governo por discordar do presidente.

No momento em que a epidemia começou a se agravar no Brasil, em vez de reconhecer o próprio erro e começar a trabalhar para proteger a população, Bolsonaro dobrou a aposta: criticou as regras de isolamento social impostas por governadores e prefeitos, incentivou o uso de medicamentos sem eficácia comprovada, promoveu aglomerações e vetou o uso obrigatório de máscaras em escolas e estabelecimentos comerciais e religiosos. Não ajudou e ainda atrapalhou.

Quando o país se aproximava de 40 mil mortes por covid-19, o presidente passou a se esquivar da própria responsabilidade e, de forma covarde, jogou a culpa do alto número de infecções sobre governadores e prefeitos.

E agora o país chora seus mais de 100 mil mortos. Em vez de se solidarizar com as famílias atingidas, o presidente preferiu usar suas redes sociais para destacar o número de recuperados, como se a morte de 100 mil pessoas pudesse, de alguma forma, ser relativizada.

Quantas vidas poderiam ter sido poupadas no Brasil não fosse o discurso ignorante e irresponsável do presidente da República é uma pergunta que pairará sobre a história. E que deve perseguir Bolsonaro e todos aqueles que, por ação ou omissão, o alçaram ao poder.

A autora deste artigo, Francis França, é editora-chefe da DW Brasil

Publicado originalmente por Deutsche Welle, a emissora internacional da Alemanha. Jornalismo independente em 30 idiomas. 

1,5 milhão de crianças sem creches e 11 milhões de analfabetos: os desafios urgentes para o Brasil 'passar de ano' na educação

Alguns dias antes da posse do novo ministro da Educação, Milton Ribeiro, em 16 de julho, um relatório oficial voltou a jogar luz sobre os desafios das escolas brasileiras para atingir patamares adequados de inclusão e de ensino de qualidade — desde um significativo déficit de vagas na educação infantil até a dificuldade em manter os adolescentes na escola e com alto nível de aprendizagem.

Esses desafios constam do Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em lei em 2014 pelo Congresso e que estabelece um conjunto de 20 metas e submetas para o ensino no Brasil, a serem cumpridas entre 2015 e 2024. Essas metas abrangem, por exemplo, a universalização do ensino, a erradicação do analfabetismo e valorização da carreira de professores.

As metas são monitoradas por 57 indicadores. Deles, apenas 7 (ou 13,4%) foram cumpridos até agora, segundo o relatório do governo. Em 41 indicadores (ou 73% do total), passou-se da metade do patamar previsto pela meta (veja mais detalhes abaixo), segundo um relatório de monitoramento divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (Inep), autarquia ligada ao Ministério da Educação, no início de julho.

"Reconhecer esses números é rejeitar a compreensão simplista que afirma que 'tudo vai mal na educação brasileira'; é reconhecer o esforço coletivo dos profissionais da educação que, mesmo que enfrentem adversidades, apostam na escola como o local da esperança e da transformação nacional", diz o relatório do Inep, destacando, porém, que "os resultados estão bastante aquém daqueles que desejamos para a educação nacional".

Para a Campanha Nacional Pelo Direito à Educação, entidade que também monitora em relatório o avanço do PNE, os números até agora apontam para um "descumprimento quase total da lei".

"No ritmo que se tem avançado, cerca de 85% dos dispositivos (indicadores) das metas do PNE não serão cumpridos até o prazo de 2024", critica a organização em nota, em junho, acrescentando que, em alguns pontos, há estagnação ou mesmo retrocesso.

Embora o ritmo lento venha desde antes do governo atual e alguns problemas sejam de longa data, críticos afirmam que, sob Jair Bolsonaro — que tem em Milton Ribeiro seu quarto ministro da Educação em um ano e meio de mandato —, o ministério vive um cenário de paralisia, com poucos projetos voltados aos problemas-chave do ensino e com baixa capacidade de execução.

Em entrevista coletiva sobre o relatório, o presidente do Inep, Alexandre Lopes, disse que o cumprimento das metas do PNE exigirá também o esforço de Estados, municípios e universidades, e citou a crise financeira do país. "O MEC (Ministério da Educação) se enfraquece um pouco diante da questão fiscal que o Brasil vive", afirmou.

A BBC News Brasil destaca, a seguir, alguns dos principais gargalos apontados pelo relatório do governo, que desafiam as políticas públicas do país:

Mais crianças nas creches e pré-escolas

A fila de espera por creches nas cidades do país ilustram um desafio nacional: ainda é preciso incluir 1,5 milhão de crianças de zero a três anos em creches até 2024. É o que prevê a Meta 1 do Plano Nacional de Educação.

Em 2018, segundo o relatório do Inep, o Brasil conseguiu ofertar vagas para 35,7% das crianças nessa faixa etária (ou 3,8 milhões), e o objetivo é chegar até 50%.

Esse acesso também é bastante desigual entre as crianças mais vulneráveis e as que vivem em famílias com boas condições financeiras: "A diferença no acesso (a creches) entre as crianças 20% mais ricas e as 20% mais pobres é de 25 pontos percentuais", explica à BBC News Brasil Anna Helena Altenfelder, diretora-executiva do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

A meta 1 do PNE também previa que todas as crianças de 4 e 5 anos estivessem matriculadas na pré-escola até 2016 — o que não aconteceu até hoje. Ainda faltam vagas para estimadas 330 mil crianças, segundo dados de 2018.

"Também não podemos perder de vista a necessidade de garantir a qualidade do ensino para todas as crianças da educação infantil", aponta o Observatório do PNE, feito pelo movimento Todos Pela Educação. Alguns especialistas apontam que, para crianças pequenas, uma creche de má qualidade (sem estímulos e cuidados adequados) pode ser ainda pior para o desenvolvimento social e cerebral do que não estar na creche.

Em contrapartida, oferecer mais vagas em instituições públicas de qualidade pode ajudar as crianças pequenas a desenvolver habilidades e funções cognitivas úteis ao longo de toda a vida.

Em 2018, o Brasil conseguiu ofertar vagas para 35,7% das crianças de zero a 3 anos, e o objetivo é chegar até 50%; acima, creche na zona leste paulistana, em foto de arquivo

São, também, consideradas um passo importante para permitir o acesso de mães ao mercado de trabalho.

A persistência do analfabetismo — absoluto e funcional

O Brasil conseguiu praticamente alcançar, em 2019, uma meta que estava prevista para quatro anos antes: alfabetizar 93,5% de sua população com mais de 15 anos. Mas, na prática, ainda faltam 11 milhões de brasileiros a serem alfabetizados até 2024 — um contingente equivalente à toda a população do Estado do Paraná.

E se o analfabetismo absoluto persiste, o analfabetismo funcional é ainda mais abrangente.

Ser analfabeto funcional significa ser capaz de ler e escrever, mas ter dificuldade em entender e interpretar textos, em identificar ironias ou sutilezas nesses textos e em fazer operações matemáticas simples em situações cotidianas.

A Meta 9 do PNE é de reduzir o índice de analfabetismo funcional pela metade nos próximos quatro anos. Como base, o Inep usa os dados de uma pesquisa do IBGE, que apontava 18,5% de analfabetismo funcional na população em 2012. O objetivo, portanto, é baixar esse índice para 9,2% até 2024.

Mas alguns outros indicadores apontam que esse problema pode ser ainda mais amplo: segundo o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf) de 2018, praticamente 30% da população entre 15 e 64 anos tinha essa dificuldade em leitura e compreensão.

No que diz respeito às crianças pequenas, a meta é garantir até 2024 que todas estejam alfabetizadas, no máximo, até o final da terceira série do ensino fundamental, por volta dos 8 anos de idade.

Os dados mais recentes da Avaliação Nacional de Alfabetização, de 2016, apontam que apenas 45,3% das crianças nessa etapa tinham aprendizagem adequada em leitura, 66,1% em escrita e 45,5% em matemática.

O Ministério da Educação, sob o governo Bolsonaro, lançou no início do ano o programa Tempo de Aprender, que prevê ações de incentivo à alfabetização para as redes estaduais e municipais que aderirem. O MEC afirma que 3.231 municípios e Estados aderiram ao programa até maio.

Mas Altenfelder, do Cenpec, afirma que o programa não pode ser considerado uma política pública. "É um programa com algumas diretrizes feito em total falta de diálogo com os municípios e com a produção acadêmica nacional (sobre os processos de alfabetização)", diz.

Brasil ainda se mantém distante das metas de manter jovens na escola e nas séries corretas para suas idades

Muitos jovens fora da escola ou atrasados no ensino

A cada 100 crianças brasileiras que entram no ensino fundamental, apenas 65 concluem os estudos, explica Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco. "Os que terminam já são sobreviventes", diz ele.

Ou seja, ao longo dos 12 anos da educação básica, muitos alunos ficam pelo caminho — ou porque não conseguem acompanhar as aulas, porque perdem o interesse na escola ou porque precisam trabalhar, por exemplo.

O custo anual da evasão escolar é de R$ 214 bilhões, ou 3% do PIB (Produto Interno Bruto), por conta do impacto do abandono nas possibilidades de emprego, renda e retorno para a sociedade das pessoas que não concluem a educação básica, segundo cálculos do economista Ricardo Paes de Barros.

Especialistas temem que esse quadro de evasão escolar se agrave com a atual pandemia.

Algumas metas do PNE se referem justamente a manter os jovens por mais tempo na escola e para concluir as etapas da educação na idade certa, por exemplo:

- Garantir que, até 2024, 95% dos alunos concluam o ensino fundamental até os 16 anos (por enquanto, esse índice é de 75,8%, segundo dados de 2018).

- Matricular todos os jovens de 15 a 17 anos na escola até 2016 (meta que já foi descumprida, uma vez que, segundo os dados mais recentes, 8,5% desses jovens ainda estão fora da escola).

- Elevar a escolaridade média da população de 18 a 29 anos, para que todos tenham completado 12 anos de educação formal até 2024. A meta prevê também reduzir as diferenças entre população rural e urbana, entre negros e não negros, e aumentar o tempo de escolaridade no Nordeste do Brasil (que tem os menores índices do país).

Até 2015, porém, segundo o Observatório do PNE, a escolaridade média da população do campo era de 8,3 anos; a da população do Nordeste, de 9,3 anos e a dos negros, 9,5 anos (contra 10,8 anos da média da população branca).

- Garantir que, até os próximos quatro anos, 85% dos jovens estejam no ensino médio, ou seja, nas séries corretas para a sua idade. Ainda estamos longe disso: apenas 68,7% dos adolescentes dessa idade cursavam o ensino médio até 2018.

O desafio, segundo o Observatório do PNE, é "tornar o ensino médio mais atrativo, com a diversificação do currículo, (...) introduzir uma melhor qualidade e equidade e reduzir as taxas de evasão na etapa".

Também é um desafio colocar em prática a Base Nacional Comum Curricular do ensino médio — um conjunto de diretrizes para essa etapa que ainda não se traduziu em ações práticas nas escolas. Nesta semana, São Paulo anunciou ser o primeiro Estado ter formulado um currículo para o ensino médio tendo a base como referência, para começar a ser implementado em 2021.

População branca tem, em média, mais de um ano a mais de escolaridade em relação aos negros

No geral, diz o relatório do Inep, "as questões mais preocupantes em relação à educação brasileira continuam sendo o baixo nível de aprendizado dos alunos, as grandes desigualdades e a trajetória escolar irregular, que ainda atinge porção significativa dos estudantes das escolas públicas brasileiras".

Mais dinheiro para a educação pública

A meta final do PNE determinava aumentar o investimento público na educação, para alcançar 7% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro até 2019 e 10% até 2024.

"No entanto, os resultados observados de relativa estagnação dos gastos em torno de 5% e 5,5% do PIB, com indicativo de pequena queda, apontam grande desafio para o atingimento das metas intermediária e final", diz o relatório do governo.

Neste mês, a Câmara dos Deputados aprovou a proposta de emenda constitucional do novo Fundeb, fundo que financia a educação básica. O texto aprovado prevê mudanças nos aportes públicos à educação que, segundo especialistas, podem aumentar o montante investido nas escolas e garantir que mais municípios pobres recebam recursos.

A proposta, agora, tramita no Senado.

O Plano Nacional de Educação tem muitas outras metas. Por exemplo, aumentar a oferta de escolas em tempo integral; melhorar a formação e equiparar o salário médio de professores da rede pública aos profissionais com o mesmo nível de escolaridade (em 2015, os docentes ganhavam apenas 52,5% do salário médio das pessoas com escolaridade semelhante); triplicar as matrículas na educação profissional e aumentá-las no ensino superior; entre outras.

Muitas delas ainda permanecem distantes de seu cumprimento, e muitos especialistas da educação pedem mais protagonismo do MEC no esforço para alcançá-las.

"Neste ano e meio (de governo Bolsonaro) infelizmente não vimos nada (em iniciativas) de implementação ou acompanhamento das metas do PNE", diz Altenfender, do Cenpec.

Onde o Brasil avançou

Alguns pontos em que o Brasil avançou, em contrapartida, são o aumento da nota média das crianças da 1ª à 5ª série (a nota média de 5,7, almejada para 2019, foi ultrapassada ainda em 2017), embora preocupe o fato de que, depois da quinta série, o desempenho dos alunos comece a cair.

No ensino superior, o Brasil bateu a meta de ter mais de 75% dos professores de educação superior com cursos de mestrado ou doutorado e também já tem, desde 2017, mais de 60 mil pessoas com títulos de mestrado (outra meta do PNE).

Outro avanço é que 98% das crianças brasileiras de 6 a 14 anos estão matriculadas no ensino fundamental — perto de universalizar o acesso, esperado para 2024. O problema é que esses 2% restantes fora da escola "são, na maioria, famílias mais pobres, negras, indígenas e com deficiência", exigindo políticas públicas específicas para garantir que elas de fato consigam estudar, diz o Observatório do PNE.

Para Anna Helena Altenfelder, apesar dos enormes desafios restantes, é um erro achar o Plano Nacional de Educação "inexequível".

"O plano não é uma utopia", diz ela. "Ele tem uma força grande pela forma como foi construído (aprovado pelo Legislativo), de modo participativo, e por ser um parâmetro de referência para secretários de Educação estaduais e municipais. Ele é a síntese das aspirações do Brasil para a educação."

Paula Adamo Idoeta, da BBC News Brasil em São Paulo

Porandubas Políticas

Por Gaudêncio Torquato

 Abro a coluna com duas historinhas, uma de Alagoas, outra do Rio Grande do Norte.

Passado a limpo

Em Alagoas, um dos políticos que marcou época foi Sandoval Caju. Na campanha para a prefeitura de Maceió, da qual foi cassado em 1964, cometeu tiradas engraçadas. Uma vez, chegou a um comício vestido totalmente de branco: calça, camisa, chapéu, sapatos, tudo branquinho. Foi logo explicando à multidão que cercava o palanque:

– Vim de branco para ser mais claro! Pois é, se o país precisa de algo, neste momento, é de muita brancura. Precisa aparecer cada vez mais branco para se tornar cada vez mais passado a limpo.

Os coronéis

O coronel Lucas Pinto, que comandava a UDN no Vale do Apodi/RN, não dormia em serviço. Quando o Tribunal Eleitoral exigiu que os títulos eleitorais fossem documentados com a foto do eleitor, mandou um fotógrafo "tirar a chapa" do seu rebanho, aliás, do seu eleitorado. Numa fazenda, um eleitor tirava o leite da vaca quando foi orientado a posar para a foto. Não teve dúvida: escolheu a vaca como companheira do flagrante. Mas o fotógrafo, por descuido, deixou-o fora. O coronel Lucas Pinto não teve dúvida. Ao entregar as fotos aos eleitores, deparando-se com a vaca, não perdeu tempo e ordenou ao eleitor: "prega a foto aí, vote assim mesmo, na próxima eleição, nós arrumamos a situação". Noutra feita, o coronel levou as urnas de Apodi para o juiz, em Mossoró, quase 15 dias após as eleições. Tomou uma bronca.

– Coronel, isso não se faz. As eleições ocorreram há 15 dias.

– Pode deixar, seu juiz. Na próxima, vou trazer bem cedo.

Não deu outra. Na eleição seguinte, três dias antes do pleito, o velho Lucas Pinto chegava com um comboio de burros carregando as urnas. Chegando ao cartório, surpreendeu o juiz:

– Tá aqui, seu juiz, as urnas de Apodi.

– Mas coronel, as eleições serão daqui a três dias.

– Ah, seu juiz, não quero levar mais bronca. Tá tudo direitinho. Todos os eleitores votaram. Trouxe antes para não ter problema.

Idos das décadas de 50/60. Não havia empreiteiras financiando campanhas. A empreitada ficava mesmo a cargo dos coronéis.

Agosto decisivo

Entramos em um mês decisivo. Também conhecido como o mês do desgosto, o mês do cachorro louco, o mês das tragédias. Em agosto de 1961, Jânio Quadros renunciava à presidência da República. Carmen Miranda morreu em agosto de 1955. Getúlio Vargas praticou suicídio em 24 de agosto de 1954. No dia 2 de agosto, Hitler se tornava líder da Alemanha. Em 6 e 9 de agosto, Hiroshima e Nagasaki foram atacadas com bombas atômicas, uma das maiores tragédias da Humanidade. Portanto, é bom dar três batidas na mesa antes de continuar a ler este texto. Feito isso, lembremos que neste mês ocorrerão as convenções partidárias para escolha de candidatos a prefeito e vereador nos 5.570 municípios. Mês de definição da base governista. Mês de debate sobre reforma tributária, com uma grande pergunta no ar: vem mais imposto por aí?

Aras na defesa 

Augusto Aras está em evidência. Sua expressão e suas atitudes parecem querer puxar o tapete dos procuradores que integram o batalhão de choque da Lava Jato. Está pareado com o Palácio do Planalto, pelo que se lê. A esfera política tem apreciado as decisões do PGR, sob a crença de que a operação já deu o que tinha de dar. E também em função da antipatia do perfil de Deltan Dallagnol, que está sendo submetido a uma ação no CNMP.

STF na linha de frente

Quem também protagoniza no palco da política é o STF. Sua visibilidade, como Corte que politiza seus atos, é intensa. Críticas à atuação de seus quadros se espalham. Vídeos e falas de extremo mau gosto, envolvendo alguns ministros, invadem as redes sociais. E quando se pensa que os fulanos serão apenados por causa de declarações ofensivas (e homofóbicas), eis que aparecem novos vídeos. Ao que parece, os ministros não querem responder às ofensas. A desmoralização da nossa mais alta Corte sobe ao pico da montanha. E a vida continua seguindo seu ritmo de tiros, bombas, ataques, calúnias. É o Brasil.

Sem coligação

Este ano, na área das eleições proporcionais, o princípio a ser seguido é aquele que vem da boca do povo: é tempo de murici, cada um cuide de si. Ou seja, candidato a vereador não será eleito na sombra de coligações, que poderão ainda ser feitas para a área majoritária, a dos prefeitos. Por isso, essa campanha traduzirá o país real da política. Cada partido vai medir efetivamente seu peso na balança política. Como tem sido de praxe, afora algumas praças, onde velhas rixas partidárias ainda se repetem, os nomes dos candidatos puxarão os votos. Será uma campanha nominal, com maior força dos líderes locais.

Nacionalização

Tenho dito e escrito que a campanha municipal será influenciada, em parte, pelo discurso nacional. Ou seja, os mandatários federais, a partir do presidente Jair Bolsonaro, serão cabos eleitorais em muitos municípios. O voto será dado aos candidatos municipais, sob o espelho do presidente ou de outros protagonistas, como Lula. O país ainda continua muito polarizado, bastando ver a carga de adjetivos e substantivos raivosos que saem nas redes sociais. Até parece que vamos continuar o terceiro tempo da campanha de 2018. Isso é muito ruim.

Ódio destilado

A carga de ódio que as duas alas do extremo ideológico destilam por dia transforma o país em um território de intensa beligerância, fato que escamoteia nossos verdadeiros problemas, as demandas sociais, os serviços públicos essenciais. Fôssemos uma sociedade apaziguada, seríamos uma gente mais solidária. Vivemos um dos momentos mais trágicos de nossa história e a beligerância em um Brasil dividido acaba banalizando a tragédia, os riscos, a morte que locupleta os cemitérios. Até quando viveremos sob estado de guerra permanente?

2º turno

Ao que se percebe, examinando as primeiras planilhas em capitais e cidades grandes, a grande quantidade de candidatos tende a levar o pleito de novembro ao 2º turno. Será muito difícil a um candidato vencer na 1ª rodada da eleição. Vejo assim: os extremos do arco ideológico, em torno de 10% do eleitorado, emplacarão os perfis com os quais se identificam; as margens sociais, em torno de 40%, tendem a escolher perfis que estão mais próximos a elas e, se possível, com feitos em suas regiões; o meio da pirâmide, incluindo o poderoso segmento de profissionais liberais, em torno de 45%, tende a selecionar perfis mais avançados no campo da cultura política; o topo vai de candidato conservador. Variações para lá e para cá. Mas a análise nesse momento é que um sopro de grande renovação depure mais os ares poluídos das municipalidades.

Trump e a pandemia

Por não estar gerindo bem a pandemia nos EUA, Donald Trump está em queda nas pesquisas. Um pandemônio açoita a sociedade norte-americana. Se Biden, o ex-vice de Obama e candidato democrata, vencer, o Brasil vai ter de rearrumar sua diplomacia, que se isola do concerto das Nações por obra e graça do chanceler Ernesto Araújo.

Fake news

Como analista de política e conhecendo um pouco nossa cultura política, não tenho dúvidas: teremos uma lei sobre fake news, punindo seus difusores, mas alerto: elas não morrerão. A versão ou as versões sobre um determinado fato fazem parte do DNA do ser humano. Integram o impulso combativo/defensivo dos indivíduos. As histórias, muitas, transformam-se em estórias, "causos", nas versões de uma retórica política. De tempos imemoriais até hoje, os relatos sobre um mesmo acontecimento dividem as opiniões. Recomendo a leitura de um texto de B. Brecht: "Cinco maneiras de dizer a verdade".

A cloroquina

Pois é, essa tal de cloroquina e a hidroxicloroquina permanecerão em nosso sistema cognitivo por muito tempo. Mesmo depois da pandemia - se ela passar – continuará frequentando nossas mentes. Quando o presidente da República, do alto de sua posição, garante que se curou tomando aquele remédio, o povo mais ignaro acredita mesmo. Agora surgiu mais uma droga receitada pelo prefeito de Itajaí/SC: uma pílula (comprimido, algo assim) que se introduz no reto por 10 dias. Brincadeira? Não. Recebi um vídeo. E deve ter muitos adeptos esse prefeito.

Fecho a coluna com Cabralzinho.

Cuidado com os ladrões...

Cabralzinho, líder estudantil em Campina Grande, foi passear em Sobral, no Ceará. Chegou em dia de comício. No palanque, longos cabelos brancos ao vento, o deputado Crisanto Moreira da Rocha, competente orador da província:

– Ladrões!

A praça, apinhada de gente, levou o maior susto.

– Ladrões! Ladrões, porque vocês roubaram meu coração!

Cabralzinho voltou para Campina Grande, candidatou-se a vereador. No primeiro comício, lembrou-se de Sobral e do golpe de oratória do deputado, fechou a cara, olhou para os ouvintes com ar furioso:

– Ladrões!

Ninguém se mexeu. Cabralzinho sabia que política em Campina Grande era briga de foice no escuro. Queria o impacto total.

– Cambada de ladrões!

Foi uma loucura. A multidão avançou sobre o palanque. Pedra, pau, sapatos. O rosto sangrando, acuado, Cabralzinho implorava:

– Espera que eu explico! Espera que eu explico!

Explicou. Ao médico, no hospital.

(A historinha é narrada pelo insuperável Sebastião Nery).

 Gaudêncio Torquato, Professor Titular na USP, é cientista político e consultor de marketing político.

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Livro Porandubas Políticas

A partir das colunas recheadas de humor para uma obra consagrada com a experiência do jornalista Gaudêncio Torquato.

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sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Como será a primeira live de Caetano Veloso, nesta sexta, quando ele faz 78 anos

Após resistência que virou ‘lenda’ nas redes sociais, compositor se apresenta hoje com os filhos na Globoplay às 21h30

O cantor Caetano Veloso Foto: Aline Fonseca / Divulgação

O cantor Caetano Veloso Foto: Aline Fonseca / Divulgação

Enquanto a MPB inteira se rendia às lives desde o começo da quarentena, Caetano Veloso não se mostrava nem um pouco interessado em fazer uma. Daí que uma das grandes diversões dos últimos tempos passou a ser acompanhar os insistentes vídeos de Paula Lavigne, nas redes sociais dela e dele, enquadrando o cantor — às vezes de pijama, às vezes comendo paçoca... — , perguntando quando aconteceria sua live. Ele desconversava, com bom humor. Os fãs reforçaram o apelo, enviando pedidos de músicas e até paródias (como a do humorista Marcelo Adnet, que viralizou). Finalmente, há uma semana veio a notícia de que Caetano tinha cedido: a apresentação, apelidada de Live, a Lenda, acontece hoje (dia do seu aniversário de 78 anos), às 21h30, exclusivamente no Globoplay (não é necessário ser assinante para assistir).

Caetano toca e canta ao lado dos filhos, Moreno, Zeca e Tom (com os quais veio dividindo o show “Ofertório” nos últimos anos), na sala de sua casa, em Ipanema.

— No começo, eu nem via possibilidade de fazer live. Não achava que o que me era proposto fosse do meu feitio. Mas eu queria fazer. Acho graça de o assunto ter ficado tão falado. O fundamental, que é cantar, estar na companhia dos meus filhos e escolher canções, me dá prazer — disse o cantor, em entrevista distribuída à imprensa. — Falei logo com eles que queria que eles participassem. Não tem quase nada do “Ofertório”. Eles vão tocar comigo muitas das músicas escolhidas para a live e eu vou cantar ao menos uma com cada um deles.

O repertório de Live, a Lenda, é claro, foi objeto de especulações nas redes sociais ao longo da semana, com os fãs ansiosos para saber se seus pedidos emplacaram. Nesta semana, Paula ironizou a própria obsessão com a live, transformando a espontaneidade numa bela estratégia de marketing (é “aquele assunto que eu evito”, brincou ela num dos vídeos). Depois, publicou no Instagram um spoiler do quarteto ensaiando “Cajuína”. Dias antes, Caetano disse que não iria deixar “Tigresa” de fora. E foi anunciado que duas músicas novas farão parte da apresentação: “Talvez” (composição de Tom Veloso com Cezar Mendes, que foi gravada por Caetano e o filho e lançada hoje nas plataformas de streaming, como single) e “Pardo”, canção de Caetano registrada pela cantora Céu em seu último álbum, “APKÁ!” (2019), que enfim ganhará interpretação do autor.

— Recebo muitos recados e e-mails pedindo canções e até orientando se vou para o lado do material ultraconhecido ou se canto coisas que quase nunca cantei. Meu critério deveria ser exclusivamente este: o que eu posso fazer melhor? — explicou Caetano. — Mas tanto os sucessos consagrados quanto as coisas que tratam de temas mais adequados à situação de quarentena abalam esse critério. Assim, o público pode esperar um misto dessas coisas todas.

O que havia de cômico (intencionalmente ou não) nos vídeos de Paula Lavigne puxando assunto sobre a live com Caetano foi amplificado por Marcelo Adnet em suas paródias, exibidas no seu programa no Globoplay, “Sinta-se em casa”, gravado durante a quarentena. Apreciadores das imitações, Caetano e Paula acabaram dando a Adnet a primazia de anunciar que Live, a Lenda, aconteceria no aniversário de 78 anos do cantor. Anúncio feito cabalisticamente, aliás, na edição de número 78 do programa, com direito a uma música composta pelo humorista e interpretada por ele como se fosse Caetano.

Paródia carinhosa

No fim das contas, o número musical de Adnet viralizou e acabou se tornando a grande peça de divulgação da live.

— Isso foi algo que começou totalmente despretensioso — revelou Marcelo Adnet, semana passada, ao GLOBO. — Garimpo notícias de política entre as mídias tradicionais e fatos sobre comportamento em redes sociais. Foi quando atentei para essa resistência do Caetano com as lives, e a Paula super querendo a live... Esses vídeos começaram a bombar dentro de uma bolha ou de um nicho, e aí eu decidi fazer paródias da Paula e do Caetano em casa. Foi algo que nasceu através de um carinho recíproco entre mim e os dois.

Caetano disse ter se divertido com o aspecto de comédia que a live adquiriu:

— Sempre adorei o que me faz rir. Entre os meus filmes favoritos de todos os tempos estão comédias de Billy Wilder. Quando menino, amava o “Balança mas não cai” da Rádio Nacional e os programas divinos da Mayrink Veiga (alguns escritos por Chico Anysio). Gosto do filósofo que põe a comédia acima da tragédia. Os tempos que vivemos não seriam apenas menos suportáveis sem Marcelo Adnet ou Gregorio Duvivier: sem pessoas como eles, seriam obscuros, ininteligíveis, sem luz.

Em tempos de perdas para a cultura brasileira (de Moraes Moreira e Aldir Blanc a Rubem Fonseca e Sérgio Ricardo), quando tem acompanhado o noticiário com afinco, Caetano projeta uma esperança.

— Que (as pessoas) saibam se definir internamente em meio à batalha entre a maluquice das teorias conspiratórias e a natural confusão da ciência. Ter clareza quanto a um mínimo de decisões é necessário em momentos de emergência.

Publicado originalmente em O Globo hoje.

Os caminhos do tecnopopulismo

Sem a cloroquina econômica, com o País mais pobre, Bolsonaro cavalgará para onde? Indaga Fernando Gabeira em sua lucidez de ativista político, parlamentar entre os mais experientes e Jornalista de texto límpido, que sempre se recusou a brigar com os fatos.

De modo geral já se conhece como triunfam os populistas. Interpretam as frustrações populares em tempos de crise econômica. Criticam o distanciamento das elites e tendem a valorizar a democracia direta: acham que, uma vez submetidos a escrutínio popular, toda a sua agenda é majoritária.

Ainda estamos por construir uma teoria sobre o declínio do populismo porque, em termos históricos, ele acabou de se instalar em bases novas, num contexto transformado pela revolução digital. A pandemia deu-nos uma pista.

Populistas como Trump e Bolsonaro tendem a afirmar que os problemas têm soluções simples. Diante da complexidade do novo coronavírus, não conseguiram reagir, exceto pela negação.

O fato de ambos se terem apegado à cloroquina como uma saída mágica é, de certa forma, compreensível. A existência de um remédio eficaz colocaria um ponto final em todo o drama.

Mas, como se diz no Brasil, o buraco era mais embaixo. A complexidade da pandemia exigia respostas nacionalmente integradas, aliança com a ciência médica, uma visão mais flexível de gastos na emergência, solidariedade pelo sofrimento das pessoas. 

Tanto Trump como Bolsonaro foram incapazes de cumprir esse roteiro. A insensibilidade talvez seja o fator mais impactante no seu fracasso.

No entanto, a pandemia foi o elemento inesperado que precipitou a demonstração da falsidade da tese de que os problemas dos países são muito fáceis de resolver desde que se eleja o homem certo para o papel. Trump já sentiu os efeitos e corre o risco de ser derrotado nas eleições. Bolsonaro, também assustado, saiu em campanha eleitoral, apesar da distância no tempo.

Nem sempre há pandemias. Porém a rapidez com que os acontecimentos se desenrolam é um fator que sempre ajudará a demonstrar que as soluções não são simples e isso encurtará a vida política dos populistas.

No caso brasileiro, existe um fator tradicional. Quase todos os eleitos prometem combater a corrupção. Alguns, no curso de seu governo, como foi o caso de Collor e mesmo de Lula, acabam sendo envolvidos em denúncias.

Bolsonaro trazia um potencial explosivo na sua prática anterior à chegada ao poder. É o método que utilizou para contratar funcionários em seu gabinete e nos de seus filhos.

As investigações prosseguem no seu mandato. Não têm o poder de derrubá-lo. Mas o obrigam a negociações, a buscar apoio em juízes que certamente pedirão algo em troca por seus favores. O resultado disso é que, por necessidade, Bolsonaro tem de se conciliar com as forças que, na campanha eleitoral, ele insinuou que combateria.

De modo geral, o populismo se escora na democracia direta e afirma que para realizá-la é preciso remover os obstáculos institucionais. Bolsonaro não conseguiu demolir o STF e o Congresso. A prisão de Fabrício Queiroz foi um marco que o fez compreender que precisaria de ambos. Daí partiu para um acordo com o Centrão no Congresso e a distribuição de cargos, como sempre se fez no Brasil.

A bandeira anticorrupção foi para o espaço. Só restava agora empunhá-la contra seus adversários, governadores que também são potenciais candidatos à Presidência.

Ao compreender que o movimento não passaria numa área do eleitorado, Bolsonaro precipitou o mergulho no passado. Não mais combateria a corrupção, exceto na retórica, mas iria apoiar-se nos setores mais fisiológicos do Congresso e concluiria sua transição buscando novos eleitores, escorado no clientelismo, e não mais em demandas de coerência. Sua viagem ao Nordeste, montado a cavalo e usando um chapéu fake de vaqueiro, é a expressão visual de sua metamorfose.

Outro fator que tem peso é a relação dos tecnopopulistas com a imprensa profissional. Eles a incluem no sistema decadente que pretendem destruir. Consideram-na um lixo desprezível e articulam sua comunicação por meio das redes sociais e pequenos veículos que possam comprar com sua verba publicitária. A tática é insultá-la sempre que possível, produzir fatos e oportunidades negativas que possam despertar sua indignação, imperando em suas páginas e telas pela crítica que provocam.

Há duas brechas nessa tática. A primeira delas é que a complexidade da pandemia revitalizou a importância de uma imprensa profissional, associada à ciência, produzindo informações confiáveis para atenuar o desastre sanitário. A segunda brecha é também vital. Apostar apenas nas redes sociais como um espaço em que vale tudo.

Não é mais tão fácil como no passado. Grandes empresas ameaçam retirar sua publicidade se não houver controle do discurso do ódio. E agências especializadas vasculham os perfis inautênticos. O Facebook já derrubou muitos ligados à defesa de Bolsonaro e ataques aos seus adversários. 

Ainda faltam elementos essenciais nessa análise. Um deles é a própria economia. O populismo floresceu porque há muito não se sentia um crescimento real do padrão de vida. Enquanto a vida melhorava, era tolerável a relativa distância das elites em relação ao povo. Sem a cloroquina econômica, com o País mais pobre, Bolsonaro cavalgará para onde?

Este artigo de Fernando Gabeira foi publicado originalmente na edição de hoje de O Estado de São Paulo.

O novo despontar dos semideuses

Eles se especializam em derrubar algumas das mais sólidas construções dos últimos anos, analisa Flávio Tavares, um dos observadores de maior credibilidade da cena política brasileira, em artigo publico hoje n'O Estado de São Paulo.

Nestes tempos de hoje, em que a poesia desapareceu e a peste nos cerca, recordo a lamúria do poeta Fernando Pessoa: “Arre, estou farto de semideuses...”. Sim, pois tanto os semideuses quanto o profético Fernando Pessoa ressurgem em meio à pandemia, como se houvessem combinado enfrentar-se num combate impossível que o novo coronavírus fez acontecer.

E tudo aconteceu aqui pertinho, exibido nos noticiários da TV. A cidade de Santos ampliou sua condição de maior porto do País e escancarou a face dos semideuses que, como tumor maligno, corrompem o Poder Judiciário ou fazem que seja visto como uma pá de lixo para recolher os detritos da sociedade. Refiro-me à cena reproduzida na TV em que o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira ofende com palavras um guarda municipal que o multou na rua por não usar máscara. A cena foi adiante em insensatez: o desembargador rasgou o papel da multa e, alardeando uma autoridade que o Poder Judiciário não lhe deu, telefonou ao secretário municipal para se queixar do guarda e chamá-lo de “analfabeto”.

A autoridade do desembargador restringe-se ao âmbito judicial. Ou alguém pensa que os juízes estão acima da lei? E mais ainda quando a lei busca proteger a saúde e a vida, incluída a do transgressor.

Entre nós, no Brasil, a exibição de “autoridade suprema” tem até um apelido – “carteirada” –, que expressa algo comum nos mais altos níveis da sociedade e da governança.

Na recente demissão do ministro Sergio Moro, o presidente Bolsonaro proclamou-se “chefe supremo” (e o disse pelas “redes” e pela TV, assim mesmo, com essas palavras), quando, de fato, tão só comanda o Poder Executivo. “Chefe supremo”, ou simplesmente “chefão”, é algo cheio de cupim do tempo dos reis absolutistas ou pose de “xerife” dos filmes de faroeste. Os “xerifes” eram mandões supremos por terem revólver de mil tiros, que disparava sem parar. Mas truque de cinema não substitui a realidade.

Nem sequer a votação expressiva de Bolsonaro lhe outorgou “poderes supremos” como presidente. A democracia é, por definição, o sistema de equilíbrio dos Poderes, exatamente para evitar “semideuses”. O voto não o transforma em ditador supremo...

E menos ainda faz dele um semideus. Todo dia, porém, surgem semideuses, revelando que o poder político se torna, progressivamente, um núcleo de cobiçosos aventureiros, servindo a interesses que não são os do País nem os do povo.

O horror da pandemia mostrou essa deformação. Para espanto da ciência, vimos o presidente da República se transformar em médico charlatão ou “garoto-propaganda” da cloroquina. As fotos de Bolsonaro empunhando uma caixinha do medicamento como se fosse milagrosa varinha de condão das fadas infantis apareceram em jornais, na TV ou nas tais “redes sociais”, como se ele fosse improvisado semideus..

Não importaram sequer as advertências da ciência médica sobre os perigosos efeitos colaterais de usar um medicamento destinado a combater a malária como algo mágico para a peste atual. O semideus já havia decidido e, pronto, não se discute!

Nossos semideuses passaram a proliferar, especializando-se em derrubar algumas das mais sólidas construções dos últimos anos. Talvez tendo o presidente como espelho, o procurador-geral da República, Augusto Aras, investiu abertamente contra a Lava Jato para destruir a iniciativa que, pela primeira vez na História, puniu altos ladrões e mostrou como intocáveis políticos e grandes empresários eram simples assaltantes. Até um ex-presidente da República foi preso. A Lava Jato desnudou o conluio obsceno entre governantes, políticos e ricos empresários, mas, agora, enfurece o procurador-geral da República.

Por que essa fúria, que se contrapõe às próprias funções específicas do procurador-geral?

Há, ainda, os semideuses ardilosos, como mostrou o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ao propor (em reunião ministerial) aproveitar a covid-19 para “passar a boiada”. Ou seja, servir-se da atenção na pandemia para descuidar da preservação da natureza.

Assim, o ministro Salles opõe-se até mesmo aos três grandes bancos privados do País que advertem sobre a necessidade de preservar a Amazônia e o meio ambiente em si. Em vez disso, o ministro (num arremedo de semideus) deu o nome majestoso de “Amazônia” a um falso projeto de preservação, restrito a uma pequena área de 390 mil hectares, que abrange apenas 0,07 da cobertura florestal.

Até o ministro da Economia, Paulo Guedes (que, bancando semideus, quer restaurar a odiosa CPMF, sob outro nome) considerou “insuficiente” a ideia de Salles.

O Supremo Tribunal teve de intervir para que o ministro da Justiça não restaure a opressão da ditadura e vigie funcionários públicos por defenderem a democracia...

A queixa do poeta Fernando Pessoa virou profecia e os semideuses despontam outra vez.

Flávio Tavares é Jornalista e Escritor, Prêmio Jabuti de Literatura nos anos 2000 e 2005. É Professor aposentado da Universidade de Brasília.

Brasil se aproxima de 100 mil mortes por covid-1

Mais 1.079 óbitos foram registrados nas últimas 24 horas, elevando total para mais de 99 mil. Casos da doença passam de 2,96 milhões, após a notificação de mais 50 mil diagnósticos com resultado positivo.

    Parentes enterram vítima da covid-19 em São Paulo

Parentes enterram vítima da covid-19 em São Paulo, o estado com o maior número de óbitos e casos

O Brasil registrou mais 50.230 casos confirmados de covid-19 e 1.079 mortes em 24 horas, segundo dados do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e do Ministério da Saúde divulgados nesta sexta-feira (07/08). O balanço eleva o total de infecções para 2.962.442 e o total de óbitos para 99.572.

Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que os números reais devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação. 

Ao todo, 2.068.394 pacientes se recuperaram da doença, e 794.476 estão em acompanhamento, segundo o Ministério da Saúde. O Conass não informa número de recuperados.

São Paulo é o estado brasileiro mais atingido pela epidemia, com 608.379 casos e 24.735 mortes. O número de infectados no território paulista supera os registrados na maioria dos países do mundo, sendo menor apenas do que o contabilizado na Rússia (875 mil), na Índia (2 milhões) e Estados Unidos (4,9 milhões).

A Bahia é o segundo estado brasileiro com maior número de casos, somando 187.892, e o sexto em número de mortos, com 3.843 vítimas. Já o Ceará tem 185.409 infecções e 7.921 óbitos, o que o coloca atrás do Rio de Janeiro (com 175.696 infecções e 14.023 óbitos) como o terceiro estado com mais mortes.

Além São Paulo, Bahia, Ceará e Rio de Janeiro, outros seis estados e o Distrito Federal registraram mais de 100 mil casos. São eles: Pará, Minas Gerais, Maranhão, Amazonas, Pernambuco e Santa Catarina.

Segundo o Conass, a taxa de mortalidade por grupo de 100 mil habitantes é atualmente de 47,4 no Brasil. Apesar de estar subindo nas últimas semanas, a cifra ainda é menor do que a registrada em nações europeias duramente atingidas, como o Reino Unido (69,9), a Bélgica (86,3) e a Espanha (61).

Em números absolutos, o Brasil é o segundo país do mundo com mais infecções e mortes por coronavírus, atrás apenas dos Estados Unidos, que já acumulam mais de 4,9 milhões de casos e mais de 160 mil óbitos. Atrás de EUA e Brasil, os países mais atingidos são Índia (2,02 milhões de casos), Rússia (875 mil) e África do Sul (538 mil).

Ao todo, mais de 726 mil pessoas morreram em decorrência do vírus no planeta. Depois de EUA e Brasil, os maiores números absolutos de mortes se concentram no México (50 mil), Reino Unido (46,5 mil), e na Índia (41 mil).

A América Latina ultrapassou a Europa nesta sexta-feira no número de mortes por covid-19. A região registrou ao todo 213.120 óbitos pela doença, 460 a mais do que na Europa, de acordo com o levantamento da agência de notícias AFP.

As previsões para os Estados Unidos indicam um cenário sombrio. Especialistas da Universidade de Washington acreditam que a epidemia de covid-19 deve matar aproximadamente 300 mil americanos até dezembro deste ano. Os pesquisadores afirmam, porém, que 70 mil vidas podem ser salvas se o uso de máscaras for respeitado.

Na Europa, diversos países que haviam controlado a pandemia vem registrando aumento no número de casos. Para tentar conter a propagação da doença, a Alemanha tornou obrigatório o teste para a covid-19 para todos os viajantes que chegarem de regiões consideradas de alto risco por conta da pandemia do coronavírus. A medida entra em vigor a partir deste sábado (08/08). O exame será gratuito.

Fonte: Deutsche Welle, a emissora internacional da Alemanha. Jornalismo independente em 30 idiomas. 

Queiroz depositou mais de 20 cheques em conta de Michelle Bolsonaro

Depósitos que somam R$ 72 mil ocorreram entre 2011 e 2018 e foram descobertos após quebra do sigilo do amigo do presidente e ex-assessor do senador Flávio. Repasses contrariam versão de Bolsonaro sobre suposto empréstimo
Michelle e Jair Bolsonaro

    Michelle e Jair Bolsonaro
Bolsonaro alegou ter emprestado 40 mil reais a Queiroz

O ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro Fabrício Queiroz depositou 72 mil reais na conta de Michelle Bolsonaro, esposa do presidente Jair Bolsonaro, entre 2011 e 2018, segundo uma reportagem da revista Crusoé. Os repasses foram descobertos com a quebra de sigilo bancário do ex-policial militar e contrariaram a versão sobre o caso apresentada pelo presidente.

A quebra do sigilo bancário de Queiroz foi autorizada pela Justiça no âmbito da investigação sobre um esquema de "rachadinha"  – prática ilegal através da qual os funcionários de parlamentares são coagidos a devolver parte de seus salários – no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O filho do presidente foi deputado estadual entre 2003 e janeiro de 2019, e Queiroz foi seu assessor entre 2007 e 2018.

Segundo a reportagem, Queiroz depositou ao menos 21 cheques na conta de Michelle entre 2011 e 2018, em valores que somam 72 mil reais. Até agora, era conhecido apenas um repasse de 24 mil reais do ex-assessor para a esposa do presidente.

Quando o caso veio à tona, no final de 2018, Bolsonaro afirmou que os repasses feitos por Queiroz a Michelle eram referentes a uma dívida de 40 mil reais que o ex-assessor tinha com o presidente. Bolsonaro alegou que os valores haviam sido depositados na conta de sua esposa por ele não ter tempo de ir ao banco.

Os depósitos de Queiroz a Michelle divulgados pela Crusoé foram confirmados pelo jornal Folha de S.Paulo, que noticiou ainda que a esposa de Queiroz, Marcia Aguiar, também repassou dinheiro em 2011 para a primeira-dama, por meio de seis cheques que somaram R$ 17 mil. Com isso, os valores repassados para a primeira-dama somam R$ 89 mil, bem acima do suposto empréstimo de R$ 40 mil que Bolsonaro mencionou. 

Nenhum repasse de Bolsonaro a Queiroz aparece nos extratos, segundo a Crusoé. A quebra de sigilo bancário mostrou ainda que o ex-assessor movimentou em dez anos um valor bem acima de seus rendimentos. 

Entre 2007 e 2018, 6,2 milhões de reais em crédito foram registrados na conta de Queiroz. Deste valor, cerca de 2 milhões de reais vieram de repasses de funcionários do gabinete de Flávio, o que poderia comprar o esquema da "rachadinha". Outros 900 mil reais têm fontes não identificadas.

Para o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), Queiroz era o operador do esquema de "rachadinha" no gabinete do filho do presidente. O ex-assessor é amigo de longa data do presidente e foi por intermédio dele que conseguiu uma vaga no gabinete de Flávio.

O caso da "rachadinha"

Queiroz é investigado por lavagem de dinheiro, peculato, ocultação de patrimônio e organização criminosa. Ele foi preso em junho em Atibaia, interior de São Paulo, num imóvel do advogado Frederick Wassef, que até então defendia Flávio no caso da "rachadinha". Pouco após a prisão, o filho do presidente anunciou que Wassef não era mais seu advogado. Em julho, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) concedeu a Queiroz o benefício de prisão domiciliar.

Em meados de maio, a Polícia Federal afirmou que iria investigar a afirmação feita pelo empresário Paulo Marinho de que o senador Flávio Bolsonaro foi informado com antecedência de que a Operação Furna da Onça, que atingiu Queiroz, seria deflagrada.

Marinho é suplente de Flávio no Senado, pré-candidato à prefeitura do Rio de Janeiro pelo PSDB e foi uma figura importante na campanha presidencial de Bolsonaro.

A Furna da Onça, um desdobramento da Lava Jato, foi deflagrada em novembro de 2018. Flávio teria revelado a Marinho em 13 de dezembro de 2018 que soube antes da operação. À época, Queiroz estava sumido, e Flávio disse a seu suplente que mantinha contato indireto com Queiroz por meio de um advogado.

Em 6 de dezembro de 2018, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), um órgão do Ministério da Fazenda, detectou uma série de operações bancárias suspeitas de mais de sete dezenas de assessores e ex-assessores da Alerj. O documento foi produzido no âmbito da Furna da Onça.

Na lista constava o nome de Queiroz. O ex-assessor, que também é amigo de Jair Bolsonaro desde a década de 1980, logo passaria a ser personagem central da primeira crise do novo governo.

Segundo o relatório inicial do Coaf, Queiroz, que morava em um apartamento simples em um bairro de classe média baixa do Rio, movimentou 1,2 milhão de reais em um período de 12 meses entre 2016 e 2017, época em que estava lotado no gabinete de Flávio. O documento apontou que as movimentações eram "incompatíveis com o patrimônio, a atividade econômica ou ocupação profissional" de Queiroz.

O mesmo relatório detalhou as operações bancárias realizadas pelo ex-assessor. Entre elas estava o depósito de um cheque de 24 mil reais na conta da esposa de Bolsonaro, Michelle Bolsonaro. No total, Queiroz sacou dinheiro em 176 oportunidades, em 14 bairros do Rio. Vários dos saques eram idênticos e fracionados, o que levantou suspeitas de tentativa de ocultação.

O relatório ainda citou a filha de Queiroz, Nathalia Melo de Queiroz, que foi beneficiada pelos recursos movimentados pelo pai. Nathalia foi funcionária do gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro entre dezembro de 2016 e outubro de 2018.

Em março de 2019, Queiroz quebrou o silêncio, oferecendo à Justiça pela primeira vez explicações sobre as suspeitas de corrupção que pairavam sobre ele. O ex-assessor disse ao Ministério Público que recolhia parte dos salários de servidores do gabinete, mas negou ter se apropriado dos valores.

Segundo a explicação que Queiroz prestou por escrito ao MP-RJ, o dinheiro recolhido dos funcionários do gabinete era usado para contratar assessores informais e "expandir a atuação parlamentar" de Flávio nas bases eleitorais. O ex-assessor também afirmou que Flávio não sabia do esquema.

Apesar das declarações, as investigações apontam que parte das despesas pessoais de Flávio teriam sido quitadas por Queiroz em dinheiro vivo, com recursos desviados no esquema da "rachadinha". 

Fonte: Deutsche Welle, a emissora internacional da Alemanha. Jornalismo independente em 30 idiomas. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Cicatrizes na ‘Paris do Oriente Médio’

Explosões agravam a situação do Líbano, assolado pela pandemia e pela crise econômica

A negligência de autoridades libanesas pode ter feito o que nem a guerra civil do Líbano fez em 15 anos (1975-1990): destruir metade de Beirute, uma das mais belas capitais do Oriente Médio, em questão de segundos. Ao menos duas grandes explosões ocorreram na região portuária da cidade na tarde de terça-feira passada. A última, devastadora, obliterou o porto da capital libanesa e provocou uma onda de choque que destruiu tudo o que encontrou pela frente em um raio de aproximadamente 20 km. Há relatos de cipriotas que ouviram o barulho das explosões. O Chipre está a cerca de 230 km ao noroeste de Beirute, o que dá a dimensão do horror que a população local sofreu.

O desastre deixa, em números provisórios, mais de 130 vítimas fatais e quase 5 mil feridos. E esses números tendem a aumentar nos próximos dias porque equipes de resgate ainda trabalham na remoção dos escombros. Além disso, há 300 mil pessoas desabrigadas. Não há brasileiros entre os mortos e feridos com gravidade. Uma fragata da Marinha do Brasil a serviço da ONU havia deixado o porto de Beirute antes das explosões.

Trata-se de mais uma tragédia que se abate sobre uma cidade que ao longo dos últimos anos vinha se recuperando lentamente de uma violenta guerra civil e de outros conflitos na região. O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gabi Ashkenazi, negou peremptoriamente qualquer envolvimento de seu governo com as explosões havidas em Beirute. Em nota conjunta, assinada com o ministro da Defesa, Benny Gantz, Ashkenazi informou que “o governo de Israel está em contato com o governo do Líbano por meio dos canais diplomáticos e de segurança para oferecer ao país vizinho ajuda médica e humanitária”. Já o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, insinuou que as explosões podem ter sido causadas por um “ataque com algum tipo de bomba”, sem apresentar qualquer evidência que sustentasse sua alegação.

Segundo fontes ligadas ao governo libanês, a causa mais provável da primeira explosão foi um incêndio provocado por um curto-circuito numa fábrica de fogos de artifício instalada na região portuária. Esta explosão teria ocasionado outra, de maior potencial destrutivo, num armazém contíguo, local onde estavam estocadas 2,75 mil toneladas de nitrato de amônio apreendidas há nada menos do que seis anos. O nitrato de amônio é uma substância normalmente usada na produção agrícola, mas pode se tornar explosivo sob altas temperaturas. O uso de nitrato de amônio para fins bélicos foi uma das razões para o confisco do material pelo governo. Temia-se pelo acesso do Hezbollah à carga tão perigosa.

O erro fatal das autoridades responsáveis pelo armazém no porto de Beirute que foi pelos ares foi ter armazenado uma quantidade tão grande de nitrato de amônio em um mesmo local, por tanto tempo, e sem as necessárias medidas de segurança, segundo os especialistas. A Justiça do Líbano determinou que todos os funcionários com poder de mando no armazém desde 2014 sejam postos em prisão domiciliar até o final da investigação para apurar as causas da tragédia.

As explosões se somaram a uma severa crise econômica que assola o Líbano com mais gravidade há pelo menos dois anos, fruto de corrupção e irresponsabilidade fiscal, e à pandemia de covid-19. Hospitais foram destruídos, aumentando ainda mais o sofrimento na nação amiga. O instável equilíbrio de poder entre grupos de cristãos, muçulmanos sunitas e muçulmanos xiitas também poderá sofrer abalos com o agravamento dessas crises.

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil se solidarizou com o governo e o povo do Líbano. Cerca de 10 milhões de libaneses, entre nativos e descendentes, vivem no País, um terço deles em São Paulo. É um contingente maior do que a população do Líbano. A dor dos amigos libaneses, que muito contribuíram para o crescimento do Brasil, é a dor dos brasileiros.

Editorial /Notas & Informações, O Estado de S.Paulo
06 de agosto de 2020 | 03h00