quarta-feira, 20 de junho de 2018

Porandubas Políticas

Por Gaudêncio Torquato


Hora de trabalhar
O brigadeiro Eduardo Gomes fazia, no Largo da Carioca (Rio de Janeiro), seu primeiro comício da campanha presidencial de 1945. A multidão o ouvia em silêncio:
- Brasileiros, precisamos trabalhar!
Do meio do povo, uma voz poderosa gritou:
- Já começou a perseguição!
Bagunça geral. O comício acabou.
Leitura do momento
Este analista confessa que nunca em sua trajetória de ler a conjuntura viu horizontes tão nebulosos como os de hoje. Por isso, acha importante dedicar um tempinho à observação da temperatura ambiental, contemplando principalmente o clima social, o clima político e o clima econômico. Os três climas se imbricam para formar uma cadeia complexa, de onde se pinçam os inputs para tomar pé da situação. Vamos lá.
O ambiente social I
Há muita expectativa no que diz respeito à performance brasileira na Copa do Mundo, enquanto se constata um clima nada auspicioso em relação à política. O Brasil entrou na Copa com otimismo, eis que portava as bandeiras das vitórias nos dois jogos pré-Copa. Mas o que se viu contra o time suíço foi uma seleção travada, que não merecia ganhar. O sentimento social passou a ser negativo. Houve uma reversão de expectativas. Neymar, com suas quedas seguidas e cara de dor, tem sido alvo de gozações. E por mais que a CBF proteste contra a arbitragem do mexicano, que não teria se valido do árbitro eletrônico (VAR), o fato é que isso não nos daria uma vitória. O torcedor está frustrado, mas ainda esperançoso.
O ambiente social II
A depender do desempenho de sexta-feira contra a Costa Rica, podemos projetar um clima mais descontraído na paisagem social ou um ambiente mais pesado, que deverá abater o ânimo social, com consequências danosas sobre o processo político. Imaginem se o desempenho da seleção for desastroso. Vejo uma equação na lousa, escrita pelo povo: CR+CI+DS+NV, que podemos assim decifrar: Cabeça Revoltada, Coração Indignado, Desânimo Social, Não Voto (abstenção, nulos e brancos). Portanto, o NV poderá chegar à casa dos 35% para mais (historicamente permanece em torno de 30%). A recíproca é verdadeira. Se o Brasil levar a melhor, o animus animandi da sociedade se eleva com o incremento da autoestima, podendo ser a vitamina para enfrentar a batalha política com forte disposição.
O ambiente político I
Na esfera política, os pré-candidatos se movimentam sob um cruzamento de interrogações. Alguns deixarão de ser candidatos, como Rodrigo Maia. Outros ficarão isolados, como Marina Silva. É possível que falte gás aos líderes da corrida no momento, como é o caso de Bolsonaro. Os políticos estão olhando para o seu próprio umbigo, tentando pressionar seus partidos a fazerem alianças com eventuais nomes de maior probabilidade de vitória. O PT, por exemplo, vai ser assediado em Estados até por partidos de centro-direita. A política está com seu prestígio no buraco. Apesar da indignação social, a renovação no Congresso deve ficar por volta de 40%, índice menor que em campanhas passadas.
O ambiente político II
As pesquisas de intenção de voto, nesse momento, não flagram o ardor da campanha. Devem ser vistas como meras referências pré-eleitorais. Refletem as ondas do momento. Os recursos para essa campanha, mais curtos, e o tempo menor de propaganda e para a campanha de rua, incentivam candidatos a procurar apoios em estruturas organizadas - associações de categorias profissionais e movimentos. Não haverá tempo para o setor político se empenhar na votação de projetos importantes. Depois da Copa, a partir de 15 de julho, aguarda-se uma revoada das aves políticas para seus ninhos estaduais.
O ambiente econômico I
A economia, depois de uma onda de otimismo no início do ano, sinaliza passos para trás. A inflação aumenta um pouco, o bolso começa a secar, os estômagos ficam mais vazios, o coração torna-se aflito e a cabeça se revolta. A equação, que sempre lembro, é: BO+BA+CO+CA= Bolso cheio, Barriga satisfeita, Coração agradecido e a Cabeça aprovando o governante. Não é o clima que temos. A massa sofre com o alto desemprego, mais de 13 milhões de brasileiros. O acesso ao consumo se restringe, apesar do esforço do governo para melhorar a situação do bolso das margens (liberação do PIS/PASEP, Fundo de Garantia, etc.). A ameaça de mais imposto continua ganhando voz por parte da equipe econômica. As bolsas sofrem imensa queda, o dólar sobe, as dívidas das empresas em dólares vão para a estratosfera, a confiança dos investidores se esvai.
O ambiente econômico II
Parecia até que um princípio de euforia animava os setores produtivos. Um balde de água fria gelou os ânimos. O PIB agora já não chegará a 1,5% como se apregoava no início do ano. As vendas no varejo não sobem no ritmo que se esperava. A própria venda de televisores, sempre um fenômeno às vésperas de uma Copa do Mundo de futebol, encolheu. A economia, em compasso de refluxo, afeta o ânimo social, disparando mal-estar, desarmonia, raivas e indignação. Os movimentos sociais, sob essa cadeia de coisas negativas, poderão voltar às ruas. Basta que a pólvora, guardada em seus estoques, seja atirada nas fogueiras a serem acesas até outubro.
O vulcão social I
Esse analista já foi mais otimista. Mas começa a enxergar nuvens plúmbeas escurecendo o amanhã. Vejo um magma em formação subindo à superfície para explodir na erupção de um vulcão social, caso se eleja este ano um perfil de extrema direita ou esquerda. De extrema esquerda, é praticamente impossível. Não temos um perfil com esse porte. Mas na extrema direita, há o capitão Jair Bolsonaro. Se eleito (hipótese em que muitos acreditam, este analista, não), Bolsonaro conduziria o país a uma posição conflituosa. Estabeleceria de imediato a disputa de "cabo de guerra" entre militantes, com arengas e querelas expandindo posições radicais e envolvendo classes sociais em confrontos nas ruas. A ingovernabilidade ganharia corpo, o clima social ficaria sob a ameaça de um rastilho de pólvora. Os bolsonarianos parecem querer acender o pavio. O vulcão pode entrar em erupção ante gestos tresloucados de um governante.
O vulcão social II
Mas se um perfil da esquerda, do PT ou por Lula apoiado, ganhar a eleição e brandir o refrão do apartheid social, "nós e eles", o vulcão também pode explodir. Nunca presenciei tanto ódio entre alas em minha trajetória de analista da política. O fato é que o país está dividido. E a hipótese de harmonia social não passa de lorota expressa pelas extremidades. O que se vê na linguagem de militantes é a destilação de ódio, infâmias, acusações pesadas e enaltecimento das ditaduras.
Cenários
Façamos, agora, algumas projeções, levando em consideração a moldura que hoje se enxerga. A partir das pesquisas - que colocam Lula e Bolsonaro na liderança - podemos fazer alguns cenários. Como Lula não será candidato, devendo o plano B ser ocupado por Fernando Haddad, vejamos os cenários que traço para o 2º turno e respectivas vitórias. Insiro nas possibilidades os candidatos: Jair Bolsonaro, Marina Silva, Fernando Haddad, Ciro Gomes e Geraldo Alckmin. São estes com maiores cacifes para despontar no final da linha. Em minhas projeções, não vejo possibilidade de Jair Bolsonaro ganhar de nenhum candidato no 2º turno. E nem de Fernando Haddad, que será o plano B do PT.
No I Cenário, Bolsonaro versus Fernando Haddad. Vitória de Haddad.
No II Cenário, Bolsonaro versus Ciro Gomes. Vitória de Ciro Gomes.
No III Cenário, Geraldo Alckmin versus Bolsonaro. Vitória de Alckmin.
No IV Cenário, Marina versus Bolsonaro. Vitória de Marina.
No V Cenário, Alckmin versus Ciro Gomes. Vitória de Alckmin.
No VI Cenário, Marina versus Ciro Gomes. Vitória de Ciro Gomes.
No VII Cenário, Haddad versus Alckmin. Vitória de Alckmin.
VIII Cenário, Haddad versus Ciro Gomes. Vitória de Ciro Gomes.
IX Cenário, Marina versus Alckmin. Vitória de Alckmin.
X Cenário, Marina versus Haddad. Vitória de Marina
Argumentos
Nas projeções deste consultor, alguns argumentos aqui são alinhavados. O primeiro envolve a rejeição do perfil radical de Jair Bolsonaro. Na hora H, propícia a uma análise racional dos perfis, o eleitor tende a optar por um candidato que demonstre experiência, conhecimento dos problemas brasileiros e moderação, entre outros valores. Fernando Haddad, marxista convicto, exibe bom perfil, mas encarna a posição clássica do PT (apartheid social, "nós e eles"), que desperta ódio, indignação, repúdio. Entre protagonistas mais aproximados, particularmente no espaço do Centro, o eleitor tende a votar em mais experientes e de maior visibilidade. Forte traço negativo de um candidato poderá ser fatal para ele.
Fecho a coluna com historinha das Minas Gerais.
Lei da Gravidade
A Lei da Gravidade, de vez em quando, dá dor de cabeça aos mineiros. E a lei da gravidez, essa, nem se fala. Na Câmara Municipal de Caeté, terra da família Pinheiro, de onde saíram dois governadores, discutia-se o abastecimento de água para a cidade. O engenheiro enviado pelo governador Israel Pinheiro deu as explicações técnicas aos vereadores, buscando justificar a dificuldade da captação: a água lá embaixo e a cidade, lá em cima. Seria necessário um bombeamento que custaria milhões e, sinceramente, achava o problema de difícil solução a curto prazo, conforme desejavam:
- Mas, doutor - pergunta o líder do prefeito - qual é o problema mesmo?
- O problema mesmo - responde o engenheiro - está ligado à Lei da Gravidade.
- Isso não é problema - diz o líder - nós vamos ao doutor Israel e ele, com uma penada só, revoga essa danada de lei que, no mínimo, deve ter sido votada pela oposição, visando perseguir o PSD.
O líder da oposição, em aparte, contesta o líder do prefeito e informa à edilidade, em tom de deboche, que "o governador Israel nada pode fazer, visto ser a Lei da Gravidade de âmbito Federal". E está encerrada a sessão.
(A historinha é de José Flávio Abelha, em seu livro A Mineirice).
Gaudêncio Torquato, Jornalista e Consultor de Marketing Político, é Professor Titular na Universidade de São Paulo (USP).


segunda-feira, 18 de junho de 2018

Mentir ou omitir

Por Edson Vidigal

O problema é quando a história fica comprida demais, cheia de leguleios, uma coisa a realçar ali, outra a esconder acolá e aí o biógrafo, se não tem compromisso pessoal algum com o biografado, resolve contar tudo.

Se o biografado ainda vive, ou vegeta por aí, não lhe faltam advogados, famosos ou em busca de fama, querendo embargar a publicação, apreender a edição, tocar fogo no que já foi impresso. Tem liminar para tudo.

Um dos casos de maior repercussão foi o de Roberto Carlos, grande figura humana, que discretamente, ao seu estilo, sabe-se melhor agora, soube trabalhar em canções e atitudes a volta da democracia, apoiando pessoalmente exilados do regime militar. Caetano Veloso falou.

A própria expressão "Jovem Guarda", que denominou o movimento musical no qual emergiu como o principal líder, muitos viram como coisa de alienado, foi uma sacada de ironia contra o regime militar. Jovem Guarda, na revolução russa, era a tropa mais assanhada de apoio a Lênin.

Mas enquanto Roberto teima em não ser conhecido de corpo inteiro, talvez por timidez, sim ele é um tímido, talvez porque não tenha conseguido conviver com os fantasmas dos seus traumas, não faltam os que até inventam coisas para ver se melhoram a própria historia.

E a biografia de Garrincha, a estrela solitária do Botafogo? Já havia morrido quando foi publicada. Um desentendimento entre herdeiros privou o País de conhecer uma bela história de vida. 

Evandro Lins e Silva, Ministro do Supremo cassado pelo regime militar, um grande que não escreveu a própria biografia, foi quem me sugeriu ler o livro sobre Garrincha, A Estrela Solitária, sem esconder ainda o seu entusiasmo pelo Anjo Pornográfico, a biografia de Nelson Rodrigues. Ambos de Ruy Castro.

Tem livros assim, uns proibidos, mas encontráveis na clandestinidade de algumas estantes. Outros, pelo prestígio político dos autores, lançados em grandes badalações, depois parecem se multiplicar nos sebos e calçadas. E ninguém os quer, nem mesmo de graça e com autografo do autor.

Os grandes da história da humanidade não escreveram suas próprias biografias, viveram-nas com a força dos ideais com que empolgaram o seu tempo e com a dignidade dos que, no exemplo deles, souberam ter a consciência da missão.

Moisés, Cristo, Júlio César, Lincoln, Jefferson, Napoleão, Churchill, De Gaulle, Gandhi, Mandela, Pedro II, Getúlio, Juscelino não escreveram, eles próprios, suas histórias de vida. Nem Shakespeare, nem Baudelaire, nem Gonçalves Dias, David Bowie, nem John Lennon, nem Luiz Melodia, nem Wally Salomão.

Eu estava na hora quando Tarcísio Holanda, meu antigo chefe de reportagem no Correio do Ceará, em Fortaleza e depois meu colega na redação do Jornal do Brasil, em Brasília, adentrou aquele pequeno gabinete de Magalhães Pinto, a poucos metros do plenário da Câmara. Eu era Deputado do mesmo partido do doutor Magalhães e do doutor Tancredo, o PP/Partido Popular.

Conversa vai, conversa vem, Tarcísio perguntou se já não estava na hora de ele, doutor Magalhães, escrever sua biografia. Político no Brasil nunca deve escrever a própria biografia, respondeu o velho sábio, naquele tom baixo, quase de murmúrio, o olhar esperto, esbanjando ironia.

Por que, doutor Magalhães? Insistiu Tarcísio. Porque ou mente muito ou omite muito.


Edson Vidigal, advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Trump tira chuteiras do time do Irã

A Nike anunciou na segunda-feira que, devido às sanções comerciais impostas por Trump, não pode fornecer as chuteiras à seleção iraniana.

O treinador da seleção do Irã, o português Carlos Queiroz, exige um pedido de desculpas da marca desportiva americana Nike por esta ter anunciado que não pode fornecer as chuteiras para os jogadores iranianos.

Esta tomada de posição da Nike segue-se ao anúncio, no início de maio, por parte do presidente Donald Trump, de que os EUA iriam suspender o acordo com o Irã e voltariam a impor sanções comerciais ao país. "As sanções significam que, enquanto empresa americana, não podemos fornecer chuteiras aos jogadores da seleção iraniana", anunciou a empresa em comunicado.

De acordo com o canal desportivo ESPN, para resolver esta situação alguns jogadores do Irão estão a pedir chuteiras emprestadas a colegas de outros clubes e outros foram a lojas comprar as suas próprias chuteiras. Que até podem ser da Nike.

No entanto, o treinador do Irã critica o facto de a Nike ter deixado passar um mês desde para anunciar o embargo: "Os jogadores habituam-se ao seu equipamento desportivo e não é correto terem de mudar de chuteiras uma semana antes de jogos tão importantes", disse Queiroz na segunda-feira. "Somos apenas treinadores e jogadores e não nos deveríamos envolver em assuntos deste tipo [políticos]. Mas estamos a pedir à Fifa que nos ajude."

Na opinião do treinador, a Nike deveria pedir desculpa: "Esta atitude arrogante contra 23 rapazes é absolutamente ridícula e desnecessária". Além disso, os iranianos recordam que a Nike forneceu a equipa no Mundial de 2014, no Brasil, apesar de nessa altura estarem vigor sanções comerciais semelhantes.

Os equipamentos do Irã são fornecidos pela Adidas, no entanto a marca alemã não é patrocinadora da seleção, limita-se apenas a vender os equipamentos à federação iraniana. Na verdade, o Irã chega ao campeonato do mundo sem ter qualquer patrocinador - o que foi bastante criticado pelos adeptos iranianos. A equipa foi a segunda a ser apurada para o Mundial, logo a seguir ao Brasil, tendo ganho todas as 12 partidas de qualificação sem sofrer um único gol. A Federação teve, por isso tempo suficiente para procurar um patrocinador.

O Irã é o país do Médio Oriente onde o futebol tem mais adeptos mas é também o único país do mundo onde as mulheres estão proibidas de entrar nos estádios - a Arábia Saudita, vizinha e rival, que também estará no Mundial, levantou recentemente essa proibição.

O primeiro jogo do Irão no Mundial é já na sexta-feira, frente à seleção de Marrocos. Os iranianos vão ainda jogar com Espanha e Portugal. (Do Diário de Notícias, de Lisboa, Portugal.)

Porandubas Políticas

Por Gaudêncio Torquato

Abro a coluna com a verve do amigo Sebastião Nery numa historinha da Bahia envolvendo candidatos em campanha.

O que eu sou?

O caso é verídico. O farmacêutico Claodemiro Suzart, candidato do PTB à prefeitura de Feira de Santana, decidiu fazer o comício de encerramento da campanha na rua do Meio, na zona do meretrício. E jogou o verbo: "o povo precisa estudar a vida dos candidatos, desde o nascimento deles, os lugares onde nasceram, para saber em quem votar direito". Por exemplo, Arnold Silva, da UDN, nasceu em Palácio, nunca falou com o povo. O que ele é?

- Candidato dos ricos - gritava a multidão.

- É isso mesmo. Não pode ter o voto de vocês. E Fróes da Mota, candidato do PSD, nunca sentiu o cheiro de povo. Só gosta mesmo é do gado de sua fazenda. O que ele é?

- Candidato dos fazendeiros - delirava a galera.

- Isso mesmo. Não pode ter o voto do povo. Já eu, meus amigos, nasci aqui, nesta rua do Meio, a mais popular de Feira de Santana. E eu, meus amigos, o que eu sou?

Lá do fundo da turba, um gaiato soltou a voz:

- Filho da puta.

O comício acabou ali.

Panorama sob céu nublado

O Brasil vive estado de letargia. Eleitorado não se motivou nem para a Copa do Mundo, que está começando, nem para a campanha eleitoral, que está se apresentando como uma gigantesca parede de mosaicos, sem nenhum bloco a chamar a atenção. A indignação contra a classe política é patente até no silêncio das massas. As mobilizações são mais escassas. Os perfis lutam para dar visibilidade ao seu pensamento.

Refluxo na economia

As redes sociais continuam a fazer o jogo "tiroteio recíproco" entre grupos. As pesquisas contêm um imenso viés: a de pôr Lula como candidato. A economia dá sinais de refluxo, quando as coisas começavam a melhorar. A inflação, mesmo contida, dá sinais de voltar a crescer. Os governantes dos Estados, com exceção de uns cinco, aproximadamente, não receberão o passaporte de volta. O caminho até 7 de outubro é cheio de curvas e surpresas.

Imponderável

Na terra "onde se plantando tudo dá", o Senhor Imponderável dos Santos do Pau Oco pode baixar a qualquer momento.

Pré-campanha lenta

A pré-campanha está avançando lentamente. Os candidatos esperam por algum imprevisto ou torcem para que o maná caia do céu. Só agora parece descobrirem a importância do tempo televisivo. Procuram partidos médios, com cerca de 30 parlamentares e mais, para fechar acordos e parcerias. PP, PRB, PTB e PDS estão entre os mais procurados.

Josué, o cobiçado

Josué Gomes da Silva, o empresário dono da Coteminas, é ambicionado por partidos. Tem dinheiro e encarna a novidade. Daí o assédio que está sofrendo. Pode custear a própria campanha se, por acaso, se transforme em candidato de um partido forte. O PP, por exemplo. Josué é filho do ex-presidente de Lula, José Alencar, falecido. Tem origem em Minas, o segundo maior colégio eleitoral do país. Pode figurar ainda como candidato a vice. Tem cacife $$$$$$$.

Lula animado

Quem visita Lula sai dizendo que ele está muito animado. Mais magro, esbelto, lendo muitos livros, esperançoso e com a ideia mais do que fixa de que nunca cometeu erros. Não tem culpa na Justiça.

Lula candidato

O PT aposta na candidatura do ex-presidente, que deve entrar na Lei da Ficha Suja. Não menosprezo o PT, mas também não o glorifico. Parece que os petistas ainda não mediram o tamanho do buraco que o ciclo governativo do partido abriu no país. Mas, se Lula não for candidato, deve ser um forte eleitor. De cara, põe seu substituto no patamar de 15%.

Chute pra fora

Paulo Skaf, Presidente da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), não sabe o índice da indústria de transformação na formação do PIB nacional. Na sabatina promovida pelo UOL, Folha de S. Paulo e SBT com os candidatos ao governo do Estado, o pré-candidato do MDB chutou 12%. O índice representou pouco mais de 9% no primeiro trimestre de 2018. Ainda que fosse considerado o ano de 2017, quando a indústria atingiu o patamar de 10,15% do PIB, o índice de Skaf seguiria superestimado. O jogador de chute errado!

Lendo pesquisas

A última pesquisa DataFolha, divulgada no fim de semana passado, foi iniciada com uma pergunta aberta, espontânea, o que, a meu ver, distorce todo o quadro. Estamos vivendo momentos de polaridade e tensão e é claro que uma pergunta aberta dispara ânimos, motiva a militância, funciona como pólvora que estende a fogueira para muitos lados. Qualquer desvio padrão distorce resultados.

Distorção

O eleitor vai votar numa lista que pode ver na cabine de votação. Ele pode analisar, pender para um lado e outro, comparar. Seus estímulos são levados a um processo de escolha múltipla. Colocar a pergunta espontânea na abertura é arregimentar um exército que está pronto a entrar na batalha! O esquentamento do perfil que tem mais simpatizantes se expande na esteira da pulverização de candidatos sem força. Dessa maneira, Lula tende a ganhar um peso maior do que tem e os outros candidatos acabam ficando em segundo plano. A polarização se estabelece. Bolsonaro aparece como contraponto. E, assim, ficamos com esses dois nomes que fazem campanha nos extremos: Lula e Bolsonaro! Ambos lideram as vontades nessa pré-campanha.

PT em festa

Diante dos resultados, o PT está vibrando com a pesquisa Datafolha. Lula na frente. Mas o partido deverá fechar a cara mais adiante. Luiz Inácio não deverá ser aceito candidato pelo TSE. A conferir.

Mas vale

Em suma, o meu aplauso ao DataFolha e, em especial, ao Mauro Paulino, especialista respeitado, mas nem por isso imune a críticas. A meu ver, essa pesquisa do DataFolha induz a respostas que não corresponderão ao X da questão no dia 7 de outubro.

Pitacos de FHC

A ideia de FHC de sugerir Marina Silva como alternativa do Centrão parece fadada ao fracasso. Marina é uma santa. Ou parece. E santidade não combina com a real politik. O centro continua disperso. Há, ainda, a eventual entrada de Josué Gomes da Silva, o megaempresário dono da Coteminas. Teria ele forças para congregar outros protagonistas? Acho que não.

Um vulcão

Com um monumental aparelho tecnológico, olho para as profundezas de nosso território continental. E diviso o magma se formando, quilômetros abaixo da superfície, prestes a subir, devagar, para explodir o vulcão social. Caso seja eleito alguém com perfil radical, seja na direita ou na esquerda.

NV recorde

Nas pesquisas de tendências, o NV - Não Voto (abstenções, nulos e brancos) pode bater o recorde este ano, saltando da média de 30% para 40% a 45%. Indignação geral.

Mídias sociais nas campanhas

A sociedade mundial está interconectada com as mídias tecnológicas, que passaram a constituir o novo fenômeno da sociedade contemporânea. As redes sociais permitem a interatividade, a integração, a socialização do conhecimento e da cultura. Um chinês do outro lado do mundo e o nosso amigo vizinho, enfim, todos os povos podem comungar as mesmas ideias, ou divergir por meio das redes tecnológicas. Na campanha deste ano, as redes sociais serão utilizadas com bastante intensidade pelas campanhas, funcionando como uma ferramenta tecnológica de informação, formação de opinião e propaganda.

E o rádio e a TV?

A televisão e o rádio, até então os dois mais poderosos instrumentos da comunicação política, continuarão a ser extremamente importantes, particularmente em períodos de campanha, quando os candidatos disporão de maior tempo para discorrer e detalhar seus programas de governo. Os candidatos com tempo mais largo de exposição tenderão a apresentar um melhor desempenho do que candidatos com curtíssimo tempo. A depender, claro, da criatividade. Lembram-se do Enéas Carneiro, do PRONA? Enéas tinha curtíssimo tempo, suficiente para dizer algo telegráfico e arrematar com "meu nome é Enéas". O cacoete linguístico lhe deu notoriedade.

Mas não elegem

Embora benéficas no sentido de agitar as militâncias, animar as alas que trabalham pelos candidatos, as redes sociais não serão capazes, sozinhas, de eleger este ou aquele candidato. Darão suporte, servirão como âncora, subsidiarão candidatos com informações, ajudando-os a mostrar ideias, projetos e programas de governo. Mas não elegerão candidatos. Militâncias serão mobilizadas. Mas novos eleitores não conseguirão.

Campanha negativa

Há que se tomar muito cuidado com a expressão verbal e escrita nas campanhas das redes sociais. Ataques, xingamentos, palavras mal utilizadas, conceitos ultrapassados, afirmações machistas ou que agridam as pessoas, a par de fake news compartilhadas poderão animar militantes. Mas arriscam a queimar o nome de candidatos.

Big data

Dia desses li, na coluna do Fernando Reinach, no jornal O Estado de S. Paulo, uma análise da interessantíssima pesquisa The Effect Of Partisanship And Politica Advertising On Close Family Ties. No levantamento, um grupo de cientistas descobriu que, após a eleição de Trump, os jantares de Thanksgiving (O Dia de Ação de Graças americano), nas famílias em que existe discordância política, foram 38 minutos mais curtos que a média. Em 2016, na média, esses jantares duraram 4 horas e 28 minutos.

Descobrindo tudo

Os cientistas ainda identificaram quais os distritos eleitorais mais bombardeados por anúncios políticos antes da eleição. Quando pessoas desses distritos se encontraram semanas depois da eleição, os jantares foram ainda mais curtos. Com essa pesquisa, fica claro o quanto já se sabe sobre o comportamento dos consumidores e eleitores e em que pé está o uso da tecnologia. Até nos pormenores.

Sem segredos

Com Big Data, que tende a ter sua utilização ampliada e intensificada nos próximos anos, será possível conhecer informações muito privadas. Não haverá mais segredos. O uso de pesquisas tecnológicas e algoritmos deve identificar por inteiro o ser humano: vontades, expectativas, natureza, índole, desejos, locomoção. O Donald Trump, por exemplo, descobriu que seus eleitores mais conservadores queriam um muro separando EUA e México. Então ele bateu nessa tecla. (Não importa se o muro será realidade ou não). O que importa é o que o eleitor quer ouvir. As empresas estão utilizando amplamente essas técnicas para acertar seu alvo, o público de campanhas publicitárias e políticas.

Guerra e paz

Donald Trump e Kim Jong-un começaram a discutir suas desavenças. A primeira conversa foi a sós. O gordinho parecia desajeitado. Um peixe fora d'água. Os dois decidiram desnuclearizar a península coreana. O encontro paira sobre uma grave crise que ameaça a economia global. O G7 praticamente rompeu com Trump. Em jogo, cerca de US$ 500 bilhões. O ambiente na Casa Branca é o pior de todos os tempos. Brigas, dissensões, querelas, puxadas de tapete. E falta de comando. E nós, por aqui, sobreviveremos?

Gaudêncio Torquato, Professor Titular na USP, é Jornalista e Consultor de Marketing Político.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Um Mundial de alto risco... até para Putin

Durante as próximas quatro semanas, a Rússia de Putin vai estar sob os olhares do Mundo.

Numa fase de tensão nas relações entre Moscovo e o Ocidente, a Rússia joga neste Campeonato do Mundo a sua imagem internacional.

As grandes competições desportivas tiveram desde sempre, dos Jogos da Grécia clássica aos Jogos Olímpicos da era moderna ou aos Mundiais ou Europeus de futebol, uma enorme carga simbólica e uma vincada dimensão política.

Há 38 anos, em plena Guerra Fria, o Ocidente reagiu à intervenção soviética no Afeganistão boicotando os Jogos Olímpicos de 1980 em Moscovo - e roubando assim grande parte do brilho a uma ocasião desportiva e política em que a URSS tanto apostara.

Poucas vezes a realização de uma prova desportiva internacional terá, ainda assim, assumido um peso político tão marcado como este Mundial da Rússia. Numa fase de forte crispação nas relações entre a Rússia e o Ocidente estará muito mais em jogo do que a disputa do título mundial de futebol nas próximas quatro semanas na Rússia. Um Mundial bem-sucedido constituirá um momento de afirmação da Rússia no plano internacional.

Eventuais perturbações no decorrer da competição ou incidentes graves poderão estragar a festa e agravar ainda o clima de tensão nas relações entre a Rússia e o Ocidente.

A Rússia jogou recentemente a sua imagem no Mundo noutra grande competição internacional. Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, em Sochi, deixaram, nesta perspetiva, um balanço mitigado. A preparação dos Jogos ficou marcada por polémicas envolvendo os elevados custos e acusações de corrupção, e o êxito dos atletas russos seria depois manchado pelas acusações de doping. No plano político, os Jogos de Sochi seriam ensombrados pelas críticas internacionais ao regime de Putin e depois pelas incidências da crise na Ucrânia. A chanceler alemã Angela Merkel, o presidente francês François Hollande e outros líderes europeus recusaram-se a marcar presença em Sochi em reação às alegadas perseguições aos homossexuais na Rússia.

Este Mundial 2018 representa assim um formidável desafio para a Rússia em matéria de organização, de segurança e de grande ocasião mediática. Em termos de organização e segurança a Rússia já passou o primeiro teste coma Taça das Confederações do ano passado, mas desta feita o teste tem outras dimensões, quer no plano desportivo quer, sobretudo, em matéria política.

Ameaças de boicote

A tensão política que envolve este Mundial 2018 esteve logo marcada no momento em que, em Dezembro de 2010, foi anunciada a vitória da candidatura russa à organização da prova. As relações entre a Rússia e o Ocidente atravessaram desde então dias atribulados - da crise ucraniana e da anexação russa da Crimeia, em março de 2014, ao apoio russo a Bashar al-Assad, na Síria, ou, mais recentemente, ao caso Skripal -, e a cada crise a ameaça de boicote aflorou nos discursos políticos no Ocidente.

Já em setembro de 2014, em plena crise da Crimeia, a Al Jazeera referia que o vice-primeiro ministro britânico Nick Clegg falava da hipótese do boicote ao Mundial da Rússia como uma "poderosa sanção política e simbólica". E o El País adiantava que a Comissão Europeia chegou a considerar a hipótese de um boicote do Mundial 2018 no quadro das sanções à Rússia pela crise na Ucrânia

Os apelos ao boicote do Mundial russo não tiveram eco significativo
Mais recentemente o caso Skripal, o misterioso episódio do envenenamento de um ex-espião russo no sul de Inglaterra, envenenou as já difíceis relações entre Londres e Moscovo. O Governo de Theresa May denunciou "mão" do Kremlin no caso, a imprensa britânica anunciou que nenhum membro da família real ou do Executivo britânico honraria com a sua presença o Mundial da Rússia. Dias depois a Islândia anunciava que os responsáveis políticos de Reiquejavique não marcariam presença no Mundial.

De acordo com o Daily Mail responsáveis britânicos discutiram mesmo com os aliados europeus a hipótese de um boicote coordenado ao Mundial e terá sido evocada a hipótese de a própria seleção inglesa se recusar a marcar presença na Rússia. Os apelos ao boicote não tiveram porém eco significativo, mas testemunharam uma vez mais a carga política que rodeia desde há muito este Mundial.

O peso das tensões entre a Rússia e o Ocidente confere a alguns momentos deste torneio da Rússia uma carga simbólica muito especial. Será em particular o caso de Kaliningrado, um enclave russo no Báltico, encravado entre os territórios da Polónia e a Lituânia, ambos membros da NATO e da União Europeia. Uma faixa de território fortemente militarizada, sede da esquadra russa do Báltico, e que tem sido, em particular desde a crise da Ucrânia de 2013-2014, palco de uma alta tensão militar entre a Rússia e a NATO. Ao mesmo tempo, Moscovo tem procurado afirmar a modernidade e o desenvolvimento do enclave, transformando Kaliningrado numa zona económica livre que lhe mereceu o epíteto de "Hong Kong da Rússia". Os quatro encontros do Mundial aprazados para o novíssimo estádio Arena Baltika, construído expressamente para a ocasião, decorrerão a poucos quilómetros da fronteira polaca - e do forte dispositivo militar da NATO.

Os fantasmas de Marselha

Outro dos grandes desafios que se coloca às autoridades russas é o da segurança dos adeptos. A questão coloca-se de forma muito particular em relação aos apoiantes da seleção inglesa. Estão ainda presente na memória os violentos confrontos de há dois anos, no Europeu de França, entre adeptos russos e ingleses antes e depois do encontro entre as duas seleções em Marselha. A venda de bilhetes para este Mundial da Rússia em Inglaterra foi significativamente mais baixa do que em anteriores edições.

A Rússia foi obrigada a um esforço particular na prevenção de incidentes entre claques dentro e fora dos estádios. A má fama deixada pelos hooligans russos em Marselha agravou-se ainda nos últimos meses com a repetição de incidentes graves como as manifestações de racismo visando jogadores franceses de origem africana durante um encontro amigável com a Rússia em São Petersburgo. Os adeptos russos já referenciados pelas autoridades, entre eles muitos dos que participaram nos incidentes de Marselha, têm sido obrigados a apresentar-se regularmente à polícia e advertidos contra quaisquer incidentes violentos e alguns obrigados mesmo a assumir compromissos por escrito.

Os hooligans russos estão entre os mais violentos da Europa
A fama dos hooligans ingleses nada lhes fica a dever. Ainda num recente amigável Holanda-Inglaterra registaram-se incidentes graves provocados pelos seguidores das cores inglesas. As polícias russa e britânica trocaram informações ao longo dos últimos tempos e estudaram ações coordenadas para prevenir a repetição do cenário de Marselha.

As relações tensas entre Londres e Moscovo - e que se refletem por exemplo numa clara diminuição do turismo britânico na Rússia - pesam também na situação dado o frequente envolvimento de expressões nacionalistas na violência das claques.

Sob os olhares do Mundo

Durante as próximas quatro semanas a Rússia de Putin vai estar sob os olhares do Mundo e os holofotes de uma imprensa internacional que os russos tendem a ver como hostil ao país. A juntar às crises internacionais, o regime de Putin tem sido acusado no Ocidente de deriva autocrática, de desrespeito pelas normas democráticas e pelos direitos humanos, de homofobia, ou de perseguição à comunidade LGTB. Praticamente no início do seu quarto mandato à frente dos destinos do Kremlin, é o próprio regime Putin que estará em jogo neste Mundial.

Palco onde estarão concentradas as atenções de todo o Mundo, não deixa de representar uma ocasião particularmente tentadora para as mais diversas manifestações de ordem política e social ou mesmo para incidentes mais graves.

Desacatos mais sérios entre adeptos, manifestações que levem a uma intervenção policial mais musculada bastariam para manchar gravemente a grande ocasião e transformar o Mundial da Rússia num fracasso humilhante para Moscovo e para gerar uma potencial crise política e diplomática. As autoridades russas tomaram igualmente medidas particulares para prevenir a eventual ameaça de um atentado terrorista em plena competição. Situações de grande tensão como a do leste da Ucrânia ou da Síria não deixam igualmente de pesar como uma ameaça potencial ao bom andamento deste Mundial.

(Publicado originalmente no Diário de Notícias, de Lisboa, Portugal, edição de 13.06.18).

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Porandubas Políticas

Por Gaudêncio Torquato

Abro a coluna com JK.

JK?

Anos de chumbo grosso. Tempos magros, época de fechadura braba. Falar em Juscelino Kubitschek (JK) era, no mínimo, pecado mortal. Mudança das placas dos carros, as chamadas alfanuméricas. A Câmara Municipal de Diamantina oficia ao CONTRAN solicitando as letras JK para as placas dos carros do município, "como uma forma de homenagear o grande estadista John Kennedy". O CONTRAN não atende. Um conterrâneo de Juscelino desabafa:

- Esse pessoal do Conselho deve ser republicano, eleitor do Nixon.

(Historinha de Zé Abelha)

Estado de expectativa

Passada a turbulência da greve dos caminhoneiros, o país passa a viver um estado de expectativa. Existe alguma pedrinha do dominó a ser empurrada? Que setores poderão gerar desarmonia social, mobilização das ruas, confusão? Sabemos que alguns "exércitos" estão de prontidão. Não me refiro à prontidão das Forças Armadas, mas à articulação que setores radicais podem estabelecer para influenciar o clima do "quanto pior, melhor". Oportunistas, aventureiros, doidivanas, mercenários estão de olho nos horizontes.

Urubus

Como urubus disputando a carniça, vândalos querem tirar proveito para disputar o melhor pedaço político. Pedem ordem, mas pregam a bagunça, querem o império da lei, mas defendem intervenção militar. Faixas com esse apelo são usadas em movimentos de 10, 20 ou 100 pessoas. Mas o povão mesmo está afastado dessa artificial movimentação. A cúpula militar, por meio de seus chefes, entre eles o comandante do Exército, general Villas Bôas, já repeliu as insinuações.

Prandi

"Há uns malucos querendo a ditadura. Eles não sabem o que querem. Nunca viram, não têm ideia do que foi a intervenção militar no país, porque não têm formação. Não sabem isso e também não sabem mais nada". Sociólogo Reginaldo Prandi, um dos desenvolvedores das pesquisas de opinião no Brasil.

Classes médias

Vejamos. As classes médias, A, B e C, tendem a decidir sob critérios racionais. O poderoso grupamento de profissionais liberais, que forma opinião, está atento, observando o cenário, avaliando quadros e começando a se posicionar. O estrato médio mais baixo, o de classe C, tende a desenvolver um posicionamento mais duro, menos flexível e mais condizente com a ordem pública. Nele estão incluídos núcleos bolsonaristas. A esse contingente, juntam-se pequenos e médios proprietários de terras, comerciantes e alguns cantões mais conservadores. Mas as classes médias A e B tendem a formar um pensamento mais comedido, menos espalhafatoso e mais compromissado com valores democráticos.

As margens

As margens sociais procuram acalento, segurança, um pouquinho mais de grana no bolso, e muitos ainda procuram refúgio no cobertor do Estado. São propensos a aceitar e a admirar perfis populistas, demagogos ou representantes da política de cabresto, que abriga benesses e bolsas. Constituem massas amorfas que votam na esteira do fisiologismo em pleno vigor em espaços menos desenvolvidos do país. Como tal, são passíveis dos balões de ensaio e de inputs que saem dos polos de informação e opinião encaixados no meio da pirâmide. Portanto, o voto mais volúvel habita com intensidade a base social.

A agitação e a eleição

Uma das indagações recorrentes é: qual a influência da agitação de rua no processo eleitoral? Outra: quem está interessado na desorganização social? É claro que ruas sedentas de demandas terão peso no processo eleitoral. Principalmente em matérias que afetem diretamente o bolso do consumidor. Digamos que daqui a 60 dias, quando termina o prazo do desconto de R$ 0,46 no litro do diesel, organizações tentem voltar ao tema e cobrem do governo a continuidade do movimento. Políticos identificados com demandas mais claras e fortes poderão se beneficiar. Uma eleição sob tumulto melhora ou piora a situação de alguns protagonistas.

Mas há um perigo

Se as ondas sociais forem conduzidas sob a bitola eleitoreira, as massas poderão flagrar interesses espúrios, misturados a interesses legítimos de categorias, e dar o troco, que tende a ocorrer em forma de bumerangue: castigo, desprezo e o NV - não voto - em determinados candidatos. Os partidos de esquerda, a partir do PT, podem querer se aproveitar do tumulto social para melhorar sua performance. A operação corre o risco de ser um fracasso. Mesmo que tenha como meta tirar Lula da prisão.

Brancos, nulos e abstenção

A indignação social, com a consequente repulsa aos políticos, poderá aumentar, no pleito deste ano, o número de votos brancos, nulos e abstenções. Da média histórica entre 30% a 32%, podemos saltar para 40%. Vejam o que acaba de acontecer em Tocantins: abstenções, brancos e nulos somaram mais de 49% na eleição do último domingo para governo do Estado, maior que a soma dos dois candidatos que vão ao 2º turno. Aliás, em pelo menos 11 cidades do Tocantins, as abstenções, votos nulos e brancos superaram a quantidade de votos válidos.

Kátia e Lula I

A senadora Kátia Abreu (PDT-Tocantins) tornou-se mais conhecida fora de seu Estado como presidente da Confederação Nacional da Agricultura (2008-2011) e, mais tarde, como ministra da área no segundo mandato de sua amiga Dilma Rousseff (PT). Embora então no PMDB, votou contra o impeachment de Dilma e tornou-se feroz adversária do presidente Michel Temer. Acabou expulsa do partido no ano passado e passou para o PDT de Ciro Gomes.

Kátia e Lula II

Neste último domingo, concorreu ao cargo de governadora de Tocantins com o apoio do PT e do ex-presidente Lula, que fez uma carta lida em vídeo pela senadora Gleisi Hoffmann. O vídeo foi um bumerangue. Afundou Kátia Abreu. A eleição para substituir o governador cassado, Marcelo Miranda, vai para o segundo turno, a será disputado por Mauro Carlesse (PHS), governador interino, e o senador Vicentinho Alves (PR). Se vale como aperitivo para as eleições de outubro, a demonstração de força de Lula e do PT foi um tremendo fracasso.

Greve de caminhoneiros

O governador Márcio França, de São Paulo, teve um bom desempenho na negociação com os caminhoneiros. Enquanto o governo Federal tateava na solução, não contando com a presença de parcela ponderável das lideranças, o governo de São Paulo tomou a iniciativa de fechar o acordo. Mas a empreitada foi bem-sucedida graças à forte articulação empreendida por Marcos da Costa, presidente da OAB/SP, que funcionou como um elo entre os governos estadual, Federal e lideranças. Marcos foi imprescindível e, graças ao seu esforço, ocorreu o desbloqueio da rodovia Regis Bittencourt. Onde a resistência era maior.

França, habilidade

Já o governador Marcio França, às voltas com a questão do desconhecimento de seu nome, ganhou ampla cobertura da mídia, podendo sua disposição e sua liderança na condução do processo e conciliação vir a ter grande efeito na eleição de outubro. O governador, que assumiu o lugar de Geraldo Alckmin, é candidato à reeleição pelo PSB.

Articulação social

Na eleição deste ano, na esteira da organicidade social, o fator articulação será um dos mais importantes do marketing eleitoral. Nunca a sociedade brasileira esteve tão organizada. Uma miríade de entidades - sindicatos, federações, núcleos, associações, grupamentos, setores, áreas e categoriais profissionais - leva adiante a tarefa de mover a sociedade. Logo, a articulação com entidades e líderes se torna fundamental para o bom desempenho dos atores políticos. Mas os velhos marqueteiros não entendem disso. Acham que comunicação é apenas propaganda eleitoral. Muitos ainda não abandonaram a Idade da Pedra.

Os limites do marketing

Os administradores públicos se esforçam para criar uma identidade. Criam símbolos, sejam marcas, logotipos, slogans, etc. para serem reconhecidos pelo eleitor. A cruz de Cristo é, seguramente, um dos mais fortes símbolos da Humanidade. O sistema cognitivo das pessoas o associa imediatamente a Jesus. Essa tradição de uso de sinais é milenar. O marketing político faz uso deles para deixar o candidato mais próximo ao eleitor. Já o marketing governamental também neles se apoia para identificar o gestor - presidente, governador, prefeito e outros protagonistas. Ora, separar os limites entre marketing governamental e marketing eleitoral é uma tarefa quase impossível. Os limites são tênues. Candidatos se esforçam para ser reconhecidos por sua obra, que é geralmente associada a um sinal. É a estética estabelecendo ligação com a semântica.

A multa de Dória

Feita a análise conceitual acima, vamos ao caso. A juíza Cynthia Tomé, da 6ª vara da Fazenda Pública de São Paulo, impõe multa de R$ 200 mil, abrindo nova ação de improbidade contra o ex-prefeito João Doria (PSDB). Argumenta que ele faz promoção pessoal com o uso da expressão "Acelera SP". Tem sentido isso? Jânio usava o cabelo desgrenhado e olhos esbugalhados como marca. Juscelino Kubitschek usava o famoso JK como marca. Hoje, sua identidade seria proibida.

Insensatez?

Muitos usam ainda o V da Vitória, símbolo usado por Winston Churchill por ocasião da vitória das forças aliadas contra as forças nazistas de Hitler. Coisa natural. Tentar, agora, despregar o sinal do "Acelera SP" da imagem de João Doria é arrematado viés jurídico. Ele está terminantemente proibido de usá-lo. Imaginemos o ex-prefeito flagrado ao brincar com uma criança e usar o gesto. Mais 200 paus de multa. Ou mais. Meu Deus, quanta insensatez.

Fecho a coluna com o presidente Dutra.

Escola para quê?

O presidente Dutra tinha um auxiliar capixaba, oficial do Exército, gago. Quando Dutra dava uma ordem, ele ficava mais gago ainda. Resolveu dar um jeito de curar a gagueira. Soube que o Méier tinha uma escola para gagos, tocou para lá. O endereço que levou não coincidia. Procurou no bairro todo, nada. Foi ao português da esquina, desses de bigode e tamanco, cara de quem desceu na praça Mauá:

- O sesesenhor popopodia me inininformar se aaaqui temtemtem uma escola para gagagago?

- Mas o senhor já fala gago tão bem, para que quer escola?

(Do acervo do imperdível Sebastião Nery).

Gaudêncio Torquato, Jornalista, é Professor Titular na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Cientista Político e Consultor de Marketing Político.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Entre Bobby Kennedy e Dona Ivone Lara

Por Edson Vidigal

Dona Ivone Lara, todos se lembram, foi a autora da melodia e dos versos que amplificados por incontáveis vozes de interpretes de muito respeito despertaram em forma de sonho um sentimento chamado saudade outorgando-lhe uma sublime missão – sonho meu, sonho meu, vai buscar quem mora longe sonho meu!



A poetisa desta obra prima era negra que ralou muito nas noites paulistanas cantando em boates, churrascarias, enfim onde a chamassem. Com tenacidade e integridade alcançou décadas depois o sucesso, melhor dizendo, o reconhecimento nacional.



Não há mortalidade para quem constrói com idealismo e boa fé um consistente legado. Dona Ivone Lara fez história e, por isso, a homenagem que, por causa de idiotas reações racistas, não aconteceu.



Isso porque Fabiana Cozza, a atriz escolhida pela família de Dona Ivone Lara para personificar a sambista e compositora num musical de antecipado sucesso, não é uma negra negrinha, uma negra retinta, é filha de pai negro e de mãe branca. A certidão de nascimento qualifica-a como parda.

Os muros escolhidos pelos racistas na desqualificação da atriz na porta de entrada do estrelato foram os das chamadas redes sociais. Fabiana Cozza não se amofinou. Em sua carta de renúncia ao papel da grande dama do samba – D. Ivone Lara, um sorriso negro - que iria representar nos teatros do Rio de Janeiro e de São Paulo, escreveu:

- O racismo se agiganta quando transferimos a guerra para dentro do nosso terreiro. (...) Renuncio porque vi a guerra sendo transferida mais uma vez para dentro do nosso ilê (casa) e senti que a gente poderia ilustrar mais uma vez as páginas dos jornais quando eles transferem a responsabilidade pro lombo dos que tanto chibataram. E seguem o castigo. E racismo vira coisa de nós, pretos. E eles comemoram nossos farrapos na Casa Grande. E bebem, bebem e trepam conosco. As mulatas.
Vitória da intolerância sempre a dar gás ao que não presta. O patrulhamento de parte dos negros contra uma mulher nascida e criada nos quilombos favelados não é coisa só do Brasil.

Nos Estados Unidos da América do Norte, por exemplo, aconteceu que Raquel Dolezal, uma ativista incansável da causa negra, depois de alcançar o topo numa das maiores organizações do movimento, passou a sofrer perseguições e patrulhamentos de grupos mais radicais porque numa entrevista se identificou como transracional. Sua origem é caucasiana.

Não obstante o apoio que recebeu de celebridades afro-americanas, como Whoopi Goldberg, dentre tantas, continuou sofrendo perseguição. Há documentário na Netflix contando a história de Raquel Dolezal.

No caso brasileiro, Fabiana Cozza, a atriz, não só foi indicada ao papel no musical pelos familiares de D. Ivone Lara como era amiga da homenageada, frequentadora de sua casa, onde cantavam em alegres e inspirados duetos.

Até ontem, quarta feira, dia 06 de junho, passaram-se 50 anos de uma das maiores tragédias no cenário politico dos Estados Unidos com gravíssimas repercussões nas lutas contra o racismo e a intolerância no mundo civilizado. 


Após um breve de discurso no salão de um hotel em São Francisco, na Califórnia, agradecendo pela vitória eleitoral que lhe garantiria a indicação democrata à Presidência da República, Bobby Kennedy, àquela altura um dos lideres contra o racismo ao lado do Doutor King, não escondendo cansaço físico, foi aconselhado a voltar ao seu quarto encurtando distancia e poupando tempo pelo atalho da cozinha.

E passando por lá entre aplausos do pessoal da cozinha, Bobby foi baleado na cabeça por um rapaz de 22 anos de idade, Shihan Bishara Shihan, imigrante palestino, empregado da cozinha, o qual julgou que assim vingaria o seu povo contra o apoio dos Estados Unidos na guerra dos 6 Dias vencida por Israel.  tempo pelo atalho da cozinha.



Bobby Kennedy tinha 43 anos de idade quando foi abatido a tiros quando ao sua jornada pelos direitos civis, contra o racismo, a intolerância, enfim, pelos ideais de igualdade e liberdade, se auspiciava em mais uma etapa vitoriosa.




A propósito de Bobby Kennedy, o grande advogado e professor de direito constitucional-tributário Ives Gandra Martins registra:


"Conheci Kennedy em 1964, no hotel em que fazia campanha para o Senado. Eu era advogado no Brasil de Charles Guggenheim, que dirigia sua campanha publicitária. Hospedei-me no hotel que Bob alugara para a campanha, a convite de meu cliente. Foi uma grande perda.
Belo (o seu) artigo."

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Urna eletrônica sem voto impresso

Por 8 a 2, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quarta-feira (6) suspender a implantação do voto impresso nas próximas eleições, atendendo a um pedido de medida cautelar feito pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge. O uso do voto impresso para as eleições deste ano foi aprovado pelo Congresso Nacional em 2015, na minirreforma eleitoral.

Posicionaram-se contra a implantação do voto impresso os ministros Alexandre de Moraes, Edson Fachin, Luís Roberto Barroso, Marco Aurélio Mello, Rosa Weber, Ricardo Lewandowski, Celso de Mello e a presidente do STF, ministra Cármen Lúcia. Para eles, a medida representava um risco ao sigilo do voto e à confiabilidade do processo eleitoral.

O relator da ação, ministro Gilmar Mendes, decidiu submeter o pedido de medida cautelar para barrar o voto impresso diretamente ao plenário da Corte. Na sessão, o relator defendeu a implantação gradual da medida, de acordo com a disponibilidade de recurso e as possibilidades do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Apenas o ministro Dias Toffoli concordou com Gilmar.

“Eu não entendo como ilegítima a proposta de o Congresso adotar o voto impresso, mas considero que esse processo há de se fazer de maneira segura”, disse Gilmar. Em seu voto, Gilmar destacou a experiência no Distrito Federal e em Sergipe com o voto impresso nas eleições de 2002.

“O experimento que se fez à época sobre a impressão do voto resultou, na verdade, num grande tumulto, porque todos nós sabemos que pelo menos os modelos atuais das impressoras suscitam uma série de problemas”, comentou.

Um relatório da Corte Eleitoral sobre aquela eleição concluiu que a experiência “demonstrou vários inconvenientes” e “nada agregou em termos de segurança ou transparência”,

SIGILO. A divergência no julgamento desta quarta-feira foi aberta pelo ministro Alexandre de Moraes, que acreditou que os dispositivos da lei 13.165 de 2015 questionados pela PGR violam o sigilo e a liberdade do voto. Para Moraes, o voto impresso tem alta potencialidade de identificação do eleitor.

“Não é questão de economicidade ou celeridade na votação, se vai atrasar ou não, é uma questão de cunho eminentemente constitucional”, observou Moraes.

Para o ministro Luís Roberto Barroso, o custo-benefício do voto impresso é “totalmente desfavorável”. “A impressão do voto é cara e pouco acrescenta à segurança. Acho que há um retrocesso em se voltar o voto impresso. É fazer uma aposta analógica num mundo que se tornou digital”, ponderou Barroso.

Para Cármen, a confiança no sistema eleitoral é um dos pontos altos do próprio sistema político brasileiro. “O Brasil não está acostumado a ser matriz, nem de práticas, menos ainda de administração. Nos acostumamos muito a copiar. Mas no caso da Justiça Eleitoral somos matriz e exportador de modelo”, disse a presidente do STF.

“A democracia tem na sua própria característica uma dinâmica de propiciar o progresso das instituições, e não o retrocesso. Não há elementos que demonstrem haver alguma fissura ou sustentação nas desconfianças apresentadas (em relação à urna)”, ressaltou a ministra.

O ministro Luiz Fux, que preside o TSE, se declarou suspeito e não votou. Fux prometeu revogar uma licitação aberta para a aquisição de impressoras.

A medida cautelar para suspender a implantação do voto impresso vale até o STF julgar o mérito da ação. Não há previsão de quando isso vai ocorrer. (Rafael Moraes Moura, Teo Cury e Amanda Pupo)

(Fonte: O Estado de S. Paulo).

terça-feira, 5 de junho de 2018

Onde os fracos e oprimidos não têm vez

Nunca antes o Brasil teve tantos homicídios. Foram 62.517 mortes em 2016, último ano com dados disponíveis. O número equivale a um estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, lotado de vítimas da violência ao longo de apenas um ano.

Os dados são do Ministério da Saúde e foram divulgados nesta terça-feira no Atlas da Violência 2018, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Proporcionalmente, são 30,3 homicídios para cada 100 mil pessoas, também a maior taxa já registrada no Brasil. Para comparação, é 30 vezes a taxa da Europa.

Veja abaixo 9 dados para entender a violência no Brasil.



1) Número recorde

As 62.517 vítimas de homicídio no Brasil, em 2016, representam um recorde. É 5% mais do que no ano anterior e 14% mais do que o registrado dez anos antes. Ao longo da década de 2006 a 2016, o aumento do número de mortes foi praticamente contínuo, saindo do patamar de 49,7 mil mortes até chegar aos números mais recentes.

A taxa de homicídios de 30,3 por 100 mil habitantes, também recorde, coloca o Brasil entre os países mais violentos do mundo. A taxa mundial é menor que 10 entre 100 mil habitantes. A taxa média do continente americano, o mais violento do mundo, é metade da taxa brasileira.

Os números do Brasil podem ser ainda maiores. Alguns estudos já demonstraram que grande parte das mortes registradas como "causa indeterminada" no Brasil, especialmente as provocadas por arma de fogo, seriam na verdade homicídios.

Se o cálculo de vítimas incluísse as mortes indeterminadas por arma de fogo, por exemplo, o número de vítimas chegaria a 63.569.

2) 1 de cada 10 mortes no país foi homicídio

De acordo com o Atlas da Violência, 9,7% de todos os óbitos do Brasil em 2016 foram homicídios. Isso significa que, de cada 10 mortes, uma foi assassinato.

Entre os jovens, essa proporção é ainda mais expressiva. Assassinatos foram as causas de metade das mortes na faixa etária de 15 a 19 anos em 2016 no Brasil.

3) Norte é a região mais violenta do Brasil

Esqueça Rio de Janeiro e São Paulo. Há mais de uma década, o Sudeste não está entre as regiões mais violentas do país. A região Norte fica no topo do ranking.

Até 2006, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte tinham taxas de homicídio parecidas, em torno de 25 por 100 mil habitantes. A partir daí, os números começaram a se distanciar. Enquanto a violência no Sudeste começou a cair, se aproximando dos níveis do Sul do país, passou a aumentar continuamente nas outras três regiões.

Uma das razões por trás dessa migração da violência do Sudeste para o Norte-Nordeste é a mudança das dinâmicas do crime organizado. O Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, passaram a disputar territórios em outras regiões do país. Ao longo desse processo, diversas facções criminosas surgiram ou se fortaleceram no Norte-Nordeste, como a Família do Norte (FDN).

De 2011 a 2015, o Nordeste foi a região mais violenta do país. Mas, em 2016, o Norte assumiu a liderança, com um aumento de mais de 10% de um ano para outro.

Veja na tabela abaixo as taxas de homicídio para cada região do país:

Homicídios Taxa de homicídio por 100 mil habitantes

BRASIL 62.517 30,3
Norte 7.902 44,5
Nordeste 24.863 43,7
Sudeste 16.815 19,5
Sul 7.288 24,8
Centro-Oeste 5.647 36,1

4) São Paulo tem queda contínua nos números.

A taxa de homicídios de São Paulo tem apresentado queda desde 2006. Naquele ano, o número era de 20,4 por 100 mil habitantes. Esse foi o ano dos maiores ataques do PCC, que paralisaram a capital e parte do Estado. Como reação, dezenas de pessoas foram mortas pela polícia nos meses posteriores.

No ano seguinte, subitamente, a taxa caiu em 24%, para cerca de 15 por 100 mil. Em 2016, chegou ao menor patamar já registrado, de 10,9 por 100 mil.

"São Paulo continua numa trajetória consistente de diminuição das taxas de homicídios, iniciada em 2000, cujas razões ainda hoje não são inteiramente compreendidas pela academia", afirma o Atlas da Violência 2018.

Entre os fatores para a queda da violência em São Paulo, o estudo cita políticas de controle de armas de fogo, melhorias no sistema de informações criminais e na organização policial, envelhecimento da população, além de um aspecto controvertido: a hipótese da "pax (paz) monopolista do PCC, quando o tribunal da facção criminosa passou a controlar o uso da violência letal, o que teria diminuído homicídios em algumas comunidades".

O governo de São Paulo sempre repeliu a hipótese de que o fortalecimento e o monopólio do PCC no Estado poderiam estar por trás da redução da violência.

Variação das taxas de homicídio por Estado, entre 2006 e 2016. Quanto mais escura a região, maior o aumento. Fonte: Atlas da Violência 2018

5) Acre é o Estado onde a violência mais aumenta
Na outra ponta, está o Acre, na Amazônia, o Estado brasileiro onde os homicídios mais aumentaram de 2015 para 2016. O crescimento foi de 65%, contra 5% de acréscimo no Brasil como um todo.

O principal motivo por trás do aumento da violência no Acre é uma guerra de facções criminosas pelo controle do tráfico de drogas na região. O Estado faz fronteira com a Bolívia e o Peru, importantes produtores de cocaína. Por volta de 2013, uma nova facção surgiu no Acre, o Bonde dos 13, aliado do PCC e rival do CV.

A violência no Acre tem requintes de crueldade. Uma forma de morte frequente são as decapitações de rivais, muitas vezes filmadas e distribuídas por WhatsApp. Leia mais sobre a situação do Acre nessa reportagem da BBC Brasil.

6) Risco para homens jovens é maior

A maior parte das pessoas assassinadas no Brasil é jovem. Das 62 mil vítimas de homicídio, 33,6 mil tinham entre 15 e 29 anos - na grande maioria, homens.

Enquanto a taxa de homicídio na população em geral é de 30,3 por 100 mil, entre os jovens é de 65,5 por 100 mil. Em outras palavras, entre os jovens, o risco de morrer assassinado é mais do que o dobro da média da população.

Já entre os homens jovens, a situação é pior ainda: 123 homicídios a cada grupo de 100 mil. É quatro vezes a média do Brasil.

Além disso, entre os jovens, o risco de homicídio está crescendo mais que o do conjunto da população. Houve um aumento de 7,4% entre 2015 e 2016, contra 5% no país em geral. Novamente, o Acre teve a maior piora - aumento de 85% no assassinato de jovens de um ano para o outro.

Protesto contra homicídio de jovens negros no Brasil; entre negros, o risco de morrer assassinado é muito maior que entre brancos.

7) Número de vítimas negras aumentou, enquanto o de brancas, caiu
Entre os negros, o risco de morrer assassinado é muito maior que entre os brancos. E essa diferença, em vez de diminuir, está aumentando.

Vamos lembrar que a taxa de homicídios no Brasil foi de 30,3 por 100 mil pessoas em 2016. Entre os negros, foi maior, de 40,2 por 100 mil. Já entre os não negros, foi menor, de 16 por 100 mil. Isso significa que os números para a população negra equivalem a duas vezes e meia o da população branca.

Em uma década, entre 2006 e 2016, a taxa dos negros cresceu em 23%. Já a dos não negros caiu em cerca de 7%.

"Os negros são também as principais vítimas da ação letal das polícias e o perfil predominante da população prisional do Brasil. Para que possamos reduzir a violência no país, é necessário que esses dados sejam levados em consideração e alvo de profunda reflexão", afirma o Atlas da Violência 2018.

8) Sete de cada 10 homicídios são provocados por arma de fogo

As armas são a principal forma de assassinato. De cada 10 vítimas, sete foram mortas por arma de fogo, em 2016.

"A maior difusão de armas de fogo jogou mais lenha na fogueira da violência. O crescimento dos homicídios no país desde os anos 1980 foi basicamente devido às mortes com o uso das armas de fogo, ao passo que as mortes por outros meios permaneceram constantes desde o início dos anos 1990", afirma o Atlas da Violência.

Em 2003, entrou em vigor no Brasil o Estatuto do Desarmamento, que dispõe sobre registro, posse e comercialização de armas de fogo e munição. Se não fosse essa lei, os homicídios teriam crescido 12% a mais, segundo o estudo.

"O enfoque no controle responsável e na retirada de armas de fogo de circulação nas cidades deve, portanto, ser objetivo prioritário das políticas de segurança pública", completa a publicação.

Denúncias podem chegar por diversos canais – mas raramente são as próprias crianças que denunciam

9) 51% das vítimas de estupro são crianças
Os dados sobre estupro no Brasil não são precisos. É um crime com uma elevada subnotificação, ou seja, muitos casos não são registrados oficialmente e não entram nas estatísticas.

Existem duas fontes principais de dados de estupro no Brasil: os registrados nas polícias, quando é apresentada queixa, e os notificados pelo sistema de saúde, quando a vítima vai buscar atendimento médico. Enquanto a polícia registrou 49,5 mil estupros em 2016, a saúde contabilizou 22,9 mil.

Apesar de notificar menos que a polícia, a saúde tem dados muito mais completos. É possível saber, por exemplo, a idade da vítima, o grau de relação com o abusador e se foi um estupro coletivo ou não.

Um dos dados mais chocantes é que mais de metade das vítimas de estupro são crianças até 13 anos (51%). Foram abusadas, na sua maior parte, por amigos ou conhecidos (30%) e pai ou padrasto (24%). Apenas 9% são abusadores desconhecidos. Leia mais sobre o estupro de crianças nessa reportagem da BBC Brasil.

Adolescentes de 14 a 17 anos são 17% das vítimas. Nessa faixa etária, os desconhecidos passam a ser os principais abusadores (32%), seguidos de amigos e conhecidos (26%).

Entre as mulheres maiores de idade, que são 32% das vítimas de estupro, metade dos agressores são desconhecidos.

Os dados também revelam que duas de cada 13 vítimas sofreu estupro coletivo (por mais de um abusador). Além disso, muitas mulheres são vítimas de estupro mais de uma vez na vida. De cada 10 vítimas atendidas pela rede de saúde em 2016, quatro já tinham sido estupradas em outra ocasião.

(Fonte: BBC Brasil).

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Anarquia geral, o alvo agora é a Petrobrás

Para evitar o alastramento de uma greve de petroleiros que poderia atingir proporções nacionais, a exemplo do que ocorreu com a paralisação dos caminhoneiros, a Petrobras criou uma força-tarefa que envolveu desde os celulares de funcionários em todo o país até o Tribunal Superior do Trabalho, em Brasília - passando pela presença de forças policiais na sede da empresa, no Rio de Janeiro.

Por volta das 6h da manhã da quarta-feira, 30, vídeos gravados por gerentes executivos de diferentes áreas começaram a ser divulgados em grupos de funcionários da empresa no WhatsApp - aplicativo também usado pelos grevistas como ferramenta de articulação, a exemplo do que ocorreu com os motoristas de caminhões.

Segundo relatos de empregados da companhia, os filmes teriam sido encaminhados por chefes a funcionários de confiança, que por sua vez distribuíram as imagens para grupos mais amplos, que incluem simpatizantes da greve.

À BBC Brasil, a Petrobras confirmou o uso do aplicativo de mensagens, mas afirmou que o recurso atende a uma demanda dos próprios funcionários.

Paralelamente ao mutirão interno, a empresa recorreu ao Tribunal Superior do Trabalho (TST) e pediu a proibição da greve, cuja duração inicial seria de 72 horas.

A ministra Maria de Assis Calsing, do TST, não só atendeu ao pedido como impôs multa diária de R$ 500 mil aos sindicatos, em caso de desobediência - o valor foi aumentado para R$ 2 milhões na quarta-feira.

"Trata-se, a toda evidência, de greve de caráter político", argumentou o Tribunal ao proibir a paralisação "diante do caráter aparentemente abusivo da greve e dos graves danos que dela podem advir".

Para os adeptos da greve, no entanto, a medida foi vista como inconstitucional, já que qualquer decisão, vinda dos funcionários ou da diretoria da estatal, tem efeitos políticos.

Fontes dentro da empresa também fotografaram carros de polícia na entrada de escritórios no Rio de Janeiro, onde fica a sede da petroleira - questionada pela reportagem, a Petrobras se recusou a confirmar ou negar envolvimento institucional com a presença policial.

Brasil precisa dobrar investimento por 25 anos para ter infraestrutura de transporte com 'mínimo de qualidade'.

Depois de conseguir adesão de funcionários de 25 plataformas petroleiras e paralisar três, segundo a FUP (Federação Única dos Petroleiros), a greve arrefeceu após pouco mais de 24h.

A ofensiva simultânea conseguiu a paralisação a apenas 5% das unidades da empresa, segundo dados divulgados nesta quinta-feira pela Petrobras. A própria FUP orientou o retorno ao trabalho após o aumento da multa imposta pelo TST, mas sindicalistas ainda não haviam decidido se acatavam ou não a decisão até o início da tarde.

Entre as principais bandeiras dos grevistas estão a demissão do atual presidente da Petrobras, Pedro Parente; a redução dos preços dos combustíveis, incluindo gasolina, gás natural e diesel; e o fim das vendas de ativos da empresa (que prevê arrecadação de 21 bilhões de dólares, ou quase R$ 80 milhões, até o fim do ano).

Demanda ou constrangimento?

A crescente polarização vista nas ruas quando o assunto é a Petrobras é ainda mais intensa dentro dos corredores, plataformas e grupos de WhatsApp de funcionários da petroleira.

Paralisação de caminhoneiros é um misto de greve e locaute, diz sociólogo do trabalho
Desde a posse de Pedro Parente, nomeado por Michel Temer em 2016, um racha sobre privatizações e a política de preços dos combustíveis divide servidores.

A BBC Brasil teve acesso aos vídeos enviados por executivos aos funcionários pelo aplicativo de mensagens, e posteriormente publicados na intranet da companhia.

Crise revela dependência de transporte rodoviário que é 'mais barato e dá voto'
Apresentados por executivos de áreas como Recursos Humanos, Finanças, Controladoria e Programação e Controle Operacional, eles citavam "impactos da greve dos caminhoneiros sobre a população", criticavam "investimentos que não trouxeram o retorno esperado, além de perdas com a nossa politica de preços no passado", em referência ao governo de Dilma Rousseff, e "informações desencontradas" sobre a política de preços da empresa e os custos de produção da gasolina e do diesel.

Procurada pela reportagem, a Petrobras reconheceu os envios e afirmou, em nota, que "a empresa está utilizando todos os seus canais de comunicação interna para a disseminação das informações e alguns dos materiais produzidos também foram enviados para celulares corporativos, trazendo mais agilidade e dinamismo à comunicação".

Ainda segundo a empresa, "o envio por celular atende à demanda dos próprios empregados, tanto de áreas operacionais quanto daqueles que trabalham nos escritórios".

"Celular e o WhatsApp da maioria dos empregados é particular. Se a empresa oficialmente pede que os outros gerentes enviem mensagens para os telefones particulares dos empregados com essa propaganda institucional, acho que há um erro de invasão de privacidade neste momento", disse à BBC Brasil o servidor Herbert Teixeira, diretor da Associação de Engenheiros da Petrobras (AEPET), que não tem vínculo sindical, mas dá apoio à greve.

Lideranças dos sindicatos foram além. "As mensagens visam com certeza a um constrangimento. Usaram a condição deles de chefes para propagar uma ideia única, sem respeitar o conjunto de ideias que existe na empresa", disse Natalia Russo, diretora do Sindipetro.

A diretoria da empresa nega constrangimentos.

"Considerando os temas que estão sendo amplamente discutidos pela sociedade e que tiveram sua exposição potencializada em função da greve dos caminhoneiros, a Petrobras está realizando também esclarecimentos específicos para seu público interno. Exemplos desses temas são a política de preços da Petrobras, comparativo de preços em outros países e carga processada nas refinarias, entre outros", afirmou a companhia.

Guerra de versões

Como vem ocorrendo nas redes sociais desde o início da greve dos petroleiros, a política de preços da Petrobras é um dos principais focos de tensão entre os servidores.

"A gente não pode vender o filé mignon abaixo do custo do boi", diz um dos gerentes executivos da empresa nos vídeos enviados pelo WhatsApp.

Até 2015, no governo Dilma, os preços da gasolina e do diesel eram controlados por decisões do governo, independentemente do valor do petróleo no exterior.

Desde o início do governo Temer, em 2016, os reajustes nos preços dos combustíveis nas refinarias passaram a ser determinados pela Petrobras de acordo com variações do dólar e do petróleo no mercado internacional.

A partir de julho de 2017, a empresa passou a realizar ajustes nos preços "a qualquer momento, inclusive diariamente", como afirmou na época. Em dezembro, pela primeira vez desde o início da nova política, o litro de gasolina ultrapassava a barreira dos R$ 4 nos postos.

Para os diretores da empresa, o controle nos preços reduziria a competitividade da Petrobras em leilões e aprofundaria a dívida da empresa.

"Em 2015 por exemplo, nossa taxa de juros chegou a 15%, com uma concentração em torno de R$ 40 bilhões de dívida vencendo em 2 anos", diz uma das gerentes nos vídeos enviados por WhatsApp. "(Isso) criou uma grande incerteza no mercado em relação à nossa capacidade de pagamento."

A ala descontente discorda da estratégia.

Segundo a associação dos engenheiros, a alta nos preços do combustível com a nova política abre espaço para os concorrentes, encolhendo a atuação da Petrobras no país - consequentemente, reduzindo seus lucros que poderiam aplacar a dívida.

"A estatal perdeu mercado e a ociosidade de suas refinarias chegou a um quarto da capacidade instalada. O diesel importado dos EUA, que em 2015 respondia por 41% do total, em 2017 superou 80% do total importado pelo Brasil. Ganharam os produtores norte-americanos, os traders multinacionais, os importadores e distribuidores de capital privado no Brasil. Perderam os consumidores brasileiros, a Petrobras, a União e os estados federados com os impactos recessivos e na arrecadação", diz a AEPET.

Judicialização da greve

A decisão pela aplicação de multa pelo TST foi recebida com surpresa pelos sindicalistas.

Na opinião da empresa, a "decisão liminar do Tribunal Superior do Trabalho reconhece a abusividade do movimento grevista".

"Sobre a paralisação dos petroleiros, a Petrobras informa que todas as suas unidades estão operando. A greve já foi encerrada em mais de 95% de suas unidades. Onde ainda é necessário, equipes de contingência atuam e a situação caminha para a normalidade e para o encerramento do movimento. Não há impacto na produção nem risco de desabastecimento", diz a estatal em nota.

Já a porta-voz do Sindipetro classifica a decisão do TST como inconstitucional.

"São os trabalhadores que autonomamente devem definir os interesses que buscam defender. A política interfere no nosso dia a dia de trabalho", disse Natalia Russo à BBC Brasil

"A decisão do (Michel) Temer e (Pedro) Parente de vender refinarias, dutos, terminais, FAFENs (fábricas de fertilizantes) e campos de petróleo é política. O aumento dos preços dos combustíveis também foi uma medida política (....) Não podemos protestar através de uma greve mesmo que isso esteja interferindo diretamente na nossa segurança no emprego e nos nosso direitos?", prossegue. "O que é abusivo é a privatização e o aumento dos preços dos combustíveis em mais de 50%", diz Russo.
(Fonte: BBC Brasil).

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Porandubas Políticas

Por Torquato Gaudêncio

Abro a coluna com uma pequena oração:
"Quiçá o Brasil entre urgente na normalidade com o final de greves e paz social".
E por lembrar o advérbio quiçá (quem sabe, talvez), brindo os leitores com uma mineira historinha.
Quiçá e cuíca
Benedito Valadares, governador, foi a Uberaba para abrir a Expozebu. E passou a ler o discurso preparado pela assessoria. A certa altura, mandou ver: "cuíca daqui saia o melhor gado do Brasil". Ali estava escrito: "quiçá daqui saia o melhor gado". A imprensa caiu de gozação. Passou-se o tempo. Tempos depois, em um baile na Pampulha, o maestro, lembrando-se do famoso discurso na terra do zebu, começou a apresentar ao governador os instrumentos da orquestra. Até chegar na fatídica cuíca. E assim falou: "e esta, senhor governador, é a célebre cuíca". Ao que Benedito, desconfiado, redarguiu com inteira convicção:
- Não caio mais nessa não. Isto é quiçá!
(Historinha enviada por J. Geraldo)
Panorama crítico
A situação está prá lá de crítica. É a primeira observação deste analista político. Ao longo de minha vida jornalística, poucas vezes presenciei tanto estrangulamento na vida produtiva do país. Esta greve dos caminhoneiros excede todas as expectativas. E sinaliza interesses outros que não as efetivas e legítimas demandas das categorias. Há grupos interessados em manter a bagunça; oportunistas de plantão; militantes a serviço de partidos. (O governo teria identificado três movimentos políticos - "Intervenção militar já", "Fora Temer" e "Lula livre" - infiltrados na paralisação dos caminhoneiros.). Eles não levantam bandeiras porque seriam escorchados. E saudosistas das ditaduras, que brandem discursos intervencionistas.
Governo tardou
Vamos à análise do movimento paredista. Como escrevi, ontem, na Folha de S.Paulo, o governo enfrenta um dilema, que Carlos Matus, o famoso cientista social chileno e ex-ministro de Allende, resume com essa frase: "não é possível combinar sacrifícios econômicos e recessão transitória com crescimento econômico, aumento do emprego e Justiça social". A greve dos caminhoneiros coloca o governo diante do desafio: equilibrar os três cinturões que balizam uma administração pública: o econômico, o social e o político.
Concessões
Ademais, o governo montou um pacote de concessões, fez um primeiro acordo sem todos os representantes das categorias envolvidas na greve, fez um segundo acordo, complementando o primeiro, mas sem as garantias de que os caminhoneiros iriam desbloquear as estradas e acabar com a greve. Foi o que não aconteceu. Mobilizou as Forças Armadas, mas, pelo que se sabe, apenas alguns cabos e sargentos tomaram a direção dos caminhões. Afinal, para onde ir, que lugares deveriam receber as cargas etc. Pareceu um grande improviso. A comunicação do governo, mais uma vez, foi um desastre. O presidente está fazendo das tripas coração para ele mesmo ser o principal porta-voz governamental.
Primeiro, a economia
O equilíbrio entre os cinturões é responsável pela fortaleza ou fragilidade das ações governamentais. Os campos se imbricam de forma que o sucesso alcançado por um afeta o outro. Tomemos a economia: se produzir resultados de forma a resgatar a confiança dos setores produtivos, a frente política tende a olhar de maneira simpática para a gestão, com a consequente aprovação de projetos do Executivo. Foi o que se viu nos primeiros tempos da gestão Temer. A linha adotada inicialmente pelo governo foi bem-sucedida, mas no que se refere à política de preços dos combustíveis, elogiada nos primeiros momentos e que propiciou loas ao presidente da Petrobras, Pedro Parente, hoje é alvo das críticas.
Dolarizar a gasolina
Dolarizar o preço da gasolina, aumentá-lo ou diminuí-lo de acordo com a oscilação do preço do barril de petróleo no mercado internacional, criou por aqui uma gangorra, com remarcações quase diárias na bomba. O impacto no bolso de caminhoneiros foi jogado no colo de um governo que, ao contrário da administração Dilma, não represou preços. E isso tirou a Petrobras do buraco. Mas a fatura chegou com uma gigantesca greve que paralisou setores vitais. As concessões feitas pelo governo ao setor do diesel motivam outras áreas a fazer exigências. O horizonte sinaliza nuvens pesadas.
Horizontes sombrios
Veja-se essa greve dos petroleiros marcada para hoje e com duração de 72 horas. Junta a fome com a vontade de comer. Ou seja, será mais um movimento a paralisar o país. Como atender às demandas de petroleiros, entre as quais o congelamento de preços dos combustíveis, a demissão do presidente da Petrobras, Pedro Parente, a suspensão de importação de diesel e gasolina? Os cofres do Tesouro não suportarão estender benefícios a torto e a direito, política que quebraria a coluna vertebral que segura a economia. O afrouxamento do cinturão econômico ameaça desfazer a identidade reformista do governo.
O cinturão social
Já a área social ressente-se do seu pequeno PNBF (Produto Nacional Bruto da Felicidade), a partir do desemprego em massa e parcos resultados que a economia joga em seu bolso. Se a locomotiva econômica dá sinais nesse momento das dificuldades para puxar os vagões do trem - ainda mais com os efeitos deletérios da greve dos caminhoneiros - a ruptura social é o desenho à vista. O fato é que a administração não tem tido a capacidade de "fazer com que as coisas aconteçam" dentro de parâmetros de normalidade. A rigidez nas contas públicas começa a perder força, derrubada pela pororoca que aumenta as carências e corrói as esperanças do povo. O temor é que o descarrilamento do trem econômico puxe dissabores por todos os lados. A sociedade, em peso, abrirá sua expressão de indignação.
Impacto no governo
As elogiadas iniciativas governamentais - teto de gastos, reforma trabalhista, reforma educacional, terceirização, recuperação da Petrobrás e do Banco do Brasil, resgate da credibilidade do país - serão empurradas para longe pelos destroços que a greve provoca no seio social. E se outros movimentos emergirem com pautas reivindicatórias e de difícil atendimento? De onde o governo vai tirar recursos para ajustar, ao mesmo tempo, os cinturões econômico e social? O efeito "pedrinhas do dominó" abrirá imensa cratera no meio da sociedade.
O cinturão político
O terceiro cinturão é o político, que também se apresenta frouxo e esgarçado. Em ano eleitoral, os representantes adotam uma postura de resguardo, voltando-se (e até votando) contra um governo impopular. Não se pode contar com o cinturão político para ajudar o governo a aprovar medidas fundamentais ao crescimento. Partidos, grupos, operadores de estruturas disputam espaços de poder em torno de uma Torre de Babel. Ninguém se entende. Não é improvável vermos o pleito de outubro com multidões nas ruas. O momento exige bom senso.
A quem interessa a baderna?
Aos extremos: da esquerda e da direita. Esse ensaio nas avenidas de São Paulo e em algumas estradas pedindo "intervenção militar" sinaliza na direção do perfil identificado com "militarismo", força, ordem na bagunça: o capitão Jair Bolsonaro. Do lado extremo do arco ideológico, a extrema esquerda quer revanche ao que considera "um golpe", Michel Temer na presidência. O "quanto melhor, pior" pode funcionar como meio de pressão para tirar "o santo Luiz Inácio" da cadeia. Há, portanto, uma orquestração com essa melodia. Inclusive com a expressão de alguns militares de alta patente que, já de pijama, usam as redes sociais para falar de política. Já Bolsonaro percebeu que a intervenção militar acabará batendo na testa dele: as classes médias não entrariam nessa engabelação. E já começa a recuar.
Crise sistêmica
O fato é que o movimento paredista dos caminhoneiros bateu em muitos setores da vida cotidiana: supermercados sem produtos essenciais; hospitais e postos de saúde sem remédios; mobilidade urbana prejudicada; sistema educacional sem aulas; usinas siderúrgicas paradas e sem produção de aço; um bilhão de aves mortas nos próximos cinco dias se o desabastecimento continuar; 20 milhões de suínos mortos; impossibilidade de transportar essa massa; risco de contaminação de áreas e rebanhos; cirurgias impedidas e adiadas, etc. Imaginem a soma de toda essa destruição. Bilhões e bilhões. O país atrasa um bom tempo em seu percurso civilizatório.
Mais impostos
O temor de agravamento do clima social é imenso. A solução que o governo apresenta para ressarcir a conta das concessões é o aumento de impostos, a reoneração das folhas de pagamento (o ministro Eduardo Guardia desmentiu um dia depois de ter anunciado o aumento em entrevista coletiva). Ora, os trabalhadores e as empresas não aguentam mais - uma fração mínima que seja - aumento de tributos e impostos. A carga tributária chegou ao pico. A revolta dos setores organizados da sociedade - as grandes entidades - se somará ao clamor de todos. E os efeitos se voltarão como um bumerangue contra o governo. A turma do gogó, que pede renúncia ou afastamento do presidente, vai escancarar a goela.
Ibope em SP
1º cenário
Pesquisa Ibope feita em São Paulo com 1.008 eleitores e divulgada neste 29 de maio revelou, no 1º cenário: 1) Lula, 23%: 2) Jair Bolsonaro; 19%: 3) Geraldo Alckmin, 13%; 4) Marina Silva, 9%: 5) Ciro Gomes, 3%; 6) Álvaro Dias, 2%; 7) Fernando Collor de Mello, Henrique Meirelles, João Goulart Filho e Rodrigo Maia, 1%. Os outros não pontuaram. Brancos e nulo, 21%. Não sabe/não respondeu, 5%.
2º cenário
1) Jair Bolsonaro, 19%; 2) Geraldo Alckmin, 15%; 3) Marina Silva, 11%; 4) Ciro Gomes, 7%; 5) Álvaro Dias, 3%; 6) Fernando Haddad, 3%. Com 1% estão Henrique Meirelles, Fernando Collor de Mello, João Goulart Filho, Rodrigo Maia, Aldo Rebelo, Guilherme Boulos, João Amoêdo, Levy Fidelix, Manoela D'Ávila, Paulo Rabelo de Castro e Flávio Rocha. Brancos e nulos, 27%; Não sabe/não respondeu, 4%.
3º cenário
1) Jair Bolsonaro, 20%; 2) Geraldo Alckmin, 15%; 3) Marina Silva, 12%; 4) Ciro Gomes,7 ; 5) Álvaro Dias, 3%; 6) Henrique Meirelles, 2%. Com 1%: Aldo Rebelo, Fernando Collor de Melo, Flávio Rocha, Guilherme Boulos, João Goulart Filho, Rodrigo Maia, João Amoêdo, Levy Fideliz e Manuela D'Ávila. Os demais não pontuaram, incluindo o candidato do PT nesse cenário, Jaques Wagner. Brancos e nulos, 27%. Não sabe/não respondeu, 4%.
Torquato Gaudêncio, Jornalista e consultor de marketing político, é Professor Titular na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.