quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Ministro do STF inclui Bolsonaro no inquérito das ‘fake news’, em terceira investigação contra o presidente

Alexandre de Moraes aceita notícia-crime enviada pelo TSE após presidente apresentar informações mentirosas sobre o voto eletrônico e atacar Barroso. Bolsonaro reage com nova alegação contra o tribunal

O presidente Jair Bolsonaro retira máscara durante cerimônia de posse de Ciro Nogueira (PP-PI) como ministro da Casa Civil, nesta quarta. (ADRIANO MACHADO / REUTERS)

Presidente do STF em resposta a Bolsonaro: “Estamos atentos a ataques que corroem valores democráticos”

Bolsonaro não tem provas sobre fraude de urnas, mas insiste em ilação já desmentida por TSE

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), incluiu o presidente Jair Bolsonaro na lista de investigados no inquérito das fake news por alegações sem fundamento contra o sistema de voto eletrônico no Brasil e ameaças à realização das eleições de 2022. Moraes, que é relator da investigação, aceitou a notícia-crime apresentada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, e aprovada por unanimidade pela corte eleitoral na sessão da última segunda-feira. Essa se torna, assim, a terceira investigação no âmbito do STF contra o presidente, consolidando o conflito entre o Executivo e o Judiciário no país.

Bolsonaro já é alvo de um inquérito que apura a suspeita de interferência política no comando da Polícia Federal, denunciada pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro, em abril do ano passado. Além disso, o mandatário é investigado por determinação da corte sob suspeita de prevaricação —um crime contra a administração pública, que ocorre quando um agente público deixa de cumprir seu dever por interesse pessoal— nas negociações sobre a compra da vacina indiana Covaxin. Segundo relatado na CPI da Pandemia pelo deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) e seu irmão, servidor do Ministério da Saúde, Bolsonaro foi informado de pressão atípica para aprovar a compra do imunizante contra a covid-19, e o inquérito apura se o mandatário tomou providências para investigar o caso —após o depoimento dos irmãos Miranda à CPI, o contrato com a fabricante da vacina foi cancelado.

A notícia-crime aceita nesta quarta-feira é uma das duas frentes de apuração abertas pelo TSE após a realização de uma live nas redes sociais em que o presidente repetiu suspeitas baseadas em vídeos da internet, já desmentidas por diversos órgãos, para apontar a existência de fraude na apuração dos votos nas eleições de 2014, vencidas pela ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) contra o atual deputado Aécio Neves (PSDB). No pronunciamento, Bolsonaro fez ataques ao ministro Barroso e afirmou, admitindo não ter provas do que relatava, que o presidente do tribunal eleitoral “interfere” para que não haja transparência nas eleições. “Por que o Presidente do TSE quer manter a suspeição sobre as eleições? Quem ele é? Por que ele continua interferindo por aí? Com que poder? Não quero acusá-lo de nada, mas algo de muito esquisito acontece”, declarou Bolsonaro durante a transmissão no último dia 29.

O inquérito das fake news foi aberto em 2019 por determinação do então presidente do STF Dias Toffoli, para apurar a disseminação de notícias falsas, denunciações caluniosas e ameaças contra os ministros da corte. Para Moraes, a live “se revelou como mais uma das ocasiões em que o mandatário se posicionou de forma, em tese, criminosa e atentatória às instituições”, em especial o STF e o TSE, “imputando aos seus ministros a intenção de fraudar as eleições para favorecer eventual candidato” e “sustentando, sem quaisquer indícios, que o voto eletrônico é fraudado e não auditável”.

“Nesse contexto, não há dúvidas de que as condutas do presidente da República insinuaram a prática de atos ilícitos por membros da Suprema Corte, utilizando-se do modus operandi de esquemas de divulgação em massa nas redes sociais, com o intuito de lesar ou expor a perigo de lesão a independência do poder judiciário, o Estado de direito e a democracia”, declarou Moraes em sua decisão.

Ao acolher a notícia-crime apresentada por Barroso, o relator determinou a convocação como testemunha do ministro da Justiça, Anderson Torres, e de outras quatro pessoas que participaram da transmissão. Entre elas está Eduardo Gomes da Silva, coronel reformado de Artilharia do Exército que foi apresentado por Bolsonaro como “analista de inteligência” que alertou sobre os indícios, já descartados, de fraude. Moraes também pede a transcrição oficial, pela Polícia Federal, do vídeo da live.

Em outra frente de investigação, também aprovada por unanimidade na segunda-feira, o TSE decidiu abrir um inquérito administrativo contra o presidente para investigar suspeita de abuso do poder econômico, corrupção ou fraude, abuso do poder político ou uso indevido dos meios de comunicação social, uso da máquina administrativa e propaganda eleitoral antecipada.

A ofensiva do judiciário ocorre na semana em que uma comissão especial da Câmara deve votar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 135/2019. O texto estabelece a implantação de um tipo de urna eletrônica que permita a impressão do registro do voto —ou seja, uma cédula em papel que seria depositada em uma urna para eventual conferência pelo eleitor. Especialistas e o próprio TSE afirmam que a medida pode tornar a votação vulnerável a compra de votos e fraude na contagem. Além disso, a ideia parte de uma premissa errônea de que o voto eletrônico não seria “auditável” —na verdade, o sistema passa por diversos estágios de checagem, e após cada votação é impresso um boletim de urna, que ajuda na comprovação da credibilidade e da transparência do aparelho.

A discussão da versão do relator, o deputado governista Filipe Barros (PSL-PR), deve ocorrer nesta quinta-feira, 5. A autora da proposta é a deputada bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF), presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). No domingo, defensores do voto impresso saíram às ruas e receberam endosso de Bolsonaro, que voltou a ameaçar a realização das eleições caso a proposta não seja aprovada. “Sem eleições limpas e democráticas, não haverá eleição”, disse. “Nós mais que exigimos, podem ter certeza, juntos porque vocês são de fato meu Exército —o nosso Exército— que a vontade popular seja expressada na contagem pública dos votos”, afirmou em videochamada aos manifestantes, segundo reportado pela Folha de S.Paulo.

Nesta quarta-feira, Bolsonaro dobrou a aposta durante entrevista ao lado do deputado Filipe Barros. Segundo eles, o TSE teria omitido da Polícia Federal informações sobre a invasão de um hacker no sistema do tribunal, invasão que demonstraria a alegada vulnerabilidade do sistema. Os dados sobre a invasão, que teria durado seis meses, foram apagados, alegaram os dois. “Está comprovável pelo próprio TSE que ela [a urna] é penetrável”, disse Bolsonaro, que também criticou Alexandre do Moraes por abrir o inquérito das fake news. “Ele abre o inquérito, não é adequado abrir isso: ele investiga, ele pune e ele prende”, disse durante entrevista ao programa Pingos nos Is, da rádio Jovem Pan.

DANIELA MERCIER, de São Paulo  para O EL PAÍS, em 04 AGO 2021 

Brasil supera a marca de 20 milhões de casos de covid-19

Autoridades registram ainda 1.175 novas mortes pelo coronavírus. Com 2,7% da população mundial, país tem 10% dos casos e 13,1% dos óbitos pela doença no globo.

Estudos estimam que de 10% a 38% dos infectados sofrem efeitos meses após o vírus ter deixado o organismo

O Brasil registrou oficialmente nesta quarta-feira (04/08) 1.175 mortes ligadas à covid-19, segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass), o que eleva o número de óbitos pelo coronavírus a 559.607.

Também foram confirmados 40.716 novos casos da doença. Com isso, o número de infecções reportadas no país supera a marca dos 20 milhões, totalizando 20.026.533.

Nesta quarta, o mundo também superou uma marca, a dos 200 milhões de casos confirmados de covid-19 desde o início da pandemia, segundo dados da Universidade Johns Hopkins. Em todo o globo, são 200.031.896 casos e 4.252.958 mortes oficialmente associadas à doença.

Com 2,7% da população mundial, o Brasil registra até o momento 10% dos casos e 13,1% das mortes pela covid-19 no mundo.

Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que os números reais devem ser ainda maiores em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação.

Em números absolutos, o Brasil é o segundo país do mundo com mais mortes, atrás apenas dos Estados Unidos, que somam mais de 614 mil óbitos, mas têm uma população bem maior. É ainda o terceiro país com mais casos confirmados, depois de EUA (35,2 milhões) e Índia (31,7 milhões).

Já a taxa de mortalidade por grupo de 100 mil habitantes subiu para 266,3 no Brasil, a 5ª mais alta do mundo, atrás apenas de alguns pequenos países europeus e do Peru.

O Conass não divulga o número de recuperados. Segundo o Ministério da Saúde, 18.749.865 pacientes no Brasil haviam se recuperado da doença até esta terça.

No entanto, o governo não especifica quantos desses recuperados ficaram com sequelas ou outros efeitos de longo prazo. A forma como o governo propagandeia o número de "recuperados" já foi criticada por cientistas, que classificaram o número como enganador ao sugerir que os infectados estão completamente curados da doença após a fase aguda ou alta hospitalar.

Estudos no exterior estimaram que entre 10% e 38% dos infectados sofrem efeitos da "covid longa" meses após o vírus ter deixado o organismo. Um estudo alemão apontou que sequelas podem surgir até mesmo meses depois da fase aguda da doença. Já uma pesquisa da University College London em pacientes de 56 países listou mais de 200 sintomas observados em pacientes com sequelas pós-covid.

Deutsche Welle Brasil, em 04.08.2021

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Filho de Bruno Covas diz que Bolsonaro ‘nunca entenderá’ o que é o amor

Presidente se referiu ao ex-prefeito como 'o outro, que morreu’, para atacar ações de gestores durante a pandemia

Tomás Covas, de 15 anos, filho do ex-prefeito Bruno Covas. Foto: Alex Silva / Estadão

O filho do ex-prefeito Bruno Covas (PSDB), Tomás Covas, reagiu nesta terça-feira, 3, à declaração de Jair Bolsonaro contra medidas de restrição à pandemia de covid-19 em São Paulo, na qual o presidente fez referência ao seu pai, falecido em maio. “Não é certo atacar quem não está mais aqui para se defender”, escreveu Tomás, em nota divulgada pelo governador João Doria (PSDB), no Twitter.

“Meu pai sempre foi um homem sério. Fez questão de me levar ao Maracanã no fim da sua vida para curtirmos seus últimos momentos juntos. Isso é amor! Bolsonaro nunca entenderá esse sentimento”, afirmou Tomás. 

Doria classifica como ‘desumanidade’ fala de Bolsonaro sobre Bruno Covas

Bolsonaro se referiu ao ex-prefeito de São Paulo como “o outro, que morreu”, ao conversar com apoiadores no Palácio da Alvorada na manhã de segunda-feira, 2. “Um fecha São Paulo e vai para Miami. O outro, que morreu, fecha São Paulo e vai ver Palmeiras e Santos no Maracanã”, disse o presidente, em ataque a Doria e a Covas.

O governador de São Paulo e o PSDB também reagiram à declaração. Doria definiu a fala como “desumanidade” de Bolsonaro, e o partido parafraseou Bruno Covas em imagem publicada no Twitter: “É possível fazer política sem ódio, fazer política falando a verdade”. 

Torcedor do Santos, Bruno Covas assistiu, em janeiro, à final da Copa Libertadores disputada entre Palmeiras e Santos no Maracanã ao lado do filho.

Ele morreu no dia 16 de maio, por complicações de um câncer. O prefeito lutou contra a doença por um ano e meio, inclusive durante a campanha eleitoral de 2020, quando foi eleito para mais um mandato no Executivo municipal da capital paulista. 

Levy Teles, O Estado de S.Paulo, em 03 de agosto de 2021 | 17h53, Atualizado 03 de agosto de 2021 | 20h09

A ‘cupinização’ da democracia

Sob Bolsonaro, políticas públicas são concebidas como se vivêssemos sob estado de exceção

O presidente Jair Bolsonaro mobilizou sua militância aloprada para protestar contra as urnas eletrônicas, responsáveis, segundo os bolsonaristas, por grossas fraudes nas eleições de 2014 e 2018. Embora Bolsonaro não tenha provado nenhuma das irregularidades que alardeia há três anos, seus camisas pardas se animaram a ir às ruas para denunciar o atual sistema de votação.

Não eram muitos os manifestantes, é verdade, mas, para Bolsonaro, isso não tem a menor importância: em seu discurso, meia dúzia de gatos pingados se torna uma “multidão”. E a essa “multidão” o presidente reiterou suas ameaças de golpe. Depois de dizer que “sem eleições limpas e democráticas não haverá eleições”, Bolsonaro conclamou seus seguidores, a quem ele chamou de “meu exército”, para “fazer com que a vontade popular seja expressada na contagem pública dos votos”.

Que não haja dúvidas: embora a afluência às manifestações tenha sido baixa, é certo que há bolsonaristas celerados o bastante para atender ao chamamento irresponsável do presidente e causar tumultos na época da eleição – em especial se o resultado for desfavorável a Bolsonaro.

Ainda que cause justificada apreensão no País, esse investimento presidencial na confusão e nas ameaças se presta menos a prenunciar uma efetiva tentativa de golpe e mais a tirar a atenção de uma forma bem mais sutil de deterioração da democracia que está sendo levada adiante por Bolsonaro.

Conforme reportagem publicada pelo Estado no domingo, em menos de três anos de mandato o presidente Bolsonaro e seus assessores já editaram 88 decretos, medidas provisórias, portarias, pareceres ou resoluções, além de patrocinarem projetos que visam a corroer o Estado ou a atentar contra liberdades civis e direitos constitucionais.

A estratégia não é nova. Regimes autoritários da primeira metade do século passado criaram detalhada legislação para conferir verniz de legitimidade ao arbítrio. A diferença é que nos países em que isso ocorreu a democracia já havia sido esmagada. Hoje, as instituições democráticas continuam existindo, mas estão sendo emasculadas por uma legislação criada para dar ao governante a capacidade de moldá-las a seus propósitos.

No Brasil de Bolsonaro, o exemplo é a Venezuela ou a Polônia, países em que candidatos a ditadores foram arruinando aos poucos o sistema de freios e contrapesos. Não por acaso, ambos começaram pela Suprema Corte, que existe para zelar pelo respeito à Constituição.

Como mostra a reportagem, Bolsonaro prometeu desde a campanha ampliar o número de ministros do Supremo Tribunal Federal, para “pôr juízes isentos lá dentro”. Com Bolsonaro eleito, o governo tentou contrabandear na reforma da Previdência um artigo que permitiria modificar a idade-limite para a aposentadoria de ministros do Supremo por meio de lei complementar. Se vingasse, o dispositivo daria a Bolsonaro o poder de renovar o Supremo como bem entendesse.

O bolsonarismo ataca de maneira semelhante nas áreas de educação, cultura, ambiente, segurança pública e saúde. Em vários casos, o padrão é o mesmo: redução da participação da sociedade civil, afrouxamento da legislação para permitir o arbítrio e distorção de princípios constitucionais.

Na feliz definição de Celso Lafer, professor emérito da USP e ex-chanceler, trata-se de um processo de “cupinização” das regras do direito e das instituições democráticas. É essa degradação que transforma exceção em regra, dando ao governante autoritário o poder de definir essa exceção. “No fundo, o que Bolsonaro quer é ter o poder soberano de declarar a exceção”, disse Lafer.

Nesse processo, como afirma Luís Manuel Fonseca Pires, professor de direito na PUC-SP, as políticas públicas são concebidas como se vivêssemos sob estado permanente de exceção. Com tal característica, essas políticas perdem seu caráter público e se destinam a punir inimigos – e, por extensão, a favorecer amigos do regime.

Assim, enquanto entretém o País com seu discurso golpista, Bolsonaro avança sobre os pilares da mediação de vontades típicas de uma democracia – o direito e a política – para impor suas veleidades na marra.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de S.Paulo, em 03 de agosto de 2021 | 03h00

Desprezo pelas instituições

Ao criticar o IBGE, ministro da Economia perde credibilidade e se desmoraliza

Irritado porque o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou na última sexta-feira que a taxa de desemprego no segundo trimestre deste ano foi de 14,6%, o que, a seu ver, prejudica não apenas a imagem do governo num ano pré-eleitoral, mas, também, a de sua própria gestão à frente do Ministério da Economia, o ministro Paulo Guedes voltou a entrar em rota de colisão com esse órgão. Agora, ele o acusou de “estar na idade da pedra lascada”. 

Esse tipo de desqualificação e a motivação que o levou a recorrer a ela dão a dimensão de como o ministro não tem o menor apreço pelas instituições. Criado em 1938, o IBGE foi originariamente concebido como um órgão encarregado de coordenar a produção estatística do País, integrando dados estatísticos e informações coletadas pelas prefeituras, pelos Estados e pela União. Com o tempo, ele mesmo passou a promover pesquisas, das quais a mais importante é o Censo Demográfico. Por seu alcance, capilaridade e capacidade de captar informações em todas as regiões de um país com dimensões continentais, ele faz levantamentos e pesquisas que a iniciativa privada não tem condições técnicas e logísticas de promover e que são decisivas para o planejamento de seus projetos de expansão e criação de novos negócios. 

Desde que assumiu o Ministério da Economia, Guedes não esconde sua antipatia por essa instituição. Alegou que ela custa caro, criticou seu corpo técnico, defendeu a contratação de trabalhadores temporários e negou recursos orçamentários para a realização do Censo Demográfico de 2020. O que o levou a entrar em novo confronto com o IBGE, na semana passada, foi uma divergência sobre números do emprego entre a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, feita pelo órgão, e o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que trabalha com dados oficiais das empresas. Segundo Guedes, embora o governo venha “gerando praticamente 1 milhão de empregos a cada três meses e meio”, a Pnad Contínua estaria atrasada na coleta desses números, entre outros motivos, por usar entrevistas por telefone para calcular a taxa de desemprego. 

O que o ministro despreza por conveniência política é que as bases de dados dessas duas pesquisas são distintas, motivo pelo qual seus números não podem ser comparados. Seguindo padrões internacionais, a Pnad Contínua capta modalidades de trabalho – como o informal, por exemplo – que não aparecem nos números do Caged. O que Guedes também oculta é que as pesquisas do IBGE sobre emprego sempre foram presenciais. Elas só passaram a ser realizadas por telefone por causa da pandemia e agora, com o avanço da vacinação, as entrevistas presenciais estão sendo gradativamente retomadas. 

Como era inevitável, as críticas de Guedes foram mal recebidas pela comunidade científica. Presidente do IBGE entre 2017 e 2019, o engenheiro Roberto Olinto afirmou que o ministro da Economia foi duplamente “leviano”. De um lado, por revelar um total desconhecimento técnico sobre pesquisas sobre desemprego. E, de outro, por ter criticado o sistema de entrevista telefônica do IBGE apenas com o objetivo de desviar a discussão da questão essencial, “que é o elevado desemprego detectado pela Pnad Contínua”. Não menos contundentes foram as críticas do sociólogo Simon Schwartzman, que presidiu o IBGE entre 1994 e 1998. “Se Guedes acha que o órgão está na idade da pedra lascada, o que está fazendo para melhorar? Ele é o responsável pelo IBGE e fala como se não fosse. Além de dizer bobagem, se o IBGE tem dificuldades é porque o ministro não sabe cuidar dele.” 

Ao seguir assim a triste sina do governo do qual faz parte, e que prima por tentar reiteradamente desqualificar ou afrontar as instituições, Paulo Guedes acabou cometendo um grave equívoco político. Ele se esqueceu de que, quanto mais tenta desacreditar órgãos públicos que se negam a manipular estatísticas e informações que permitam maquiar a imagem de um governo inepto e desastroso, mais ele perde credibilidade e se desmoraliza. 

Editorial / Notas & Informações, O Estado de S.Paulo, em 03 de agosto de 2021 | 03h00

Falta um pacote de governo

Ações de improviso, concebidas para um objetivo pessoal, a busca da reeleição em 2022, adiam a proposta de um rumo para o País

Enquanto repete a ameaça golpista às eleições, o presidente Jair Bolsonaro, por via das dúvidas, tenta montar um pacote eleitoral de bondades. Em busca de votos, o governo estuda um aumento do Bolsa Família, isenção mais alta para o Imposto de Renda (IR), redução da alíquota para empresas e outras medidas de alcance variado. São, na maior parte, ações de improviso, concebidas para um objetivo pessoal, a busca da reeleição em 2022. Não servem sequer como esboço de um cenário prospectivo nem chegam a compor um compromisso de longo alcance. Completados mais de dois anos e meio de mandato, Bolsonaro e seus auxiliares, incluído o ministro da Economia, Paulo Guedes, continuam devendo o pacote mais importante, o de governo, com a proposta de um rumo para o País.

Nem sequer o pacotinho eleitoreiro é bem fechado. As bondades, se concretizadas, envolverão novos gastos e redução de receitas. Falta explicar, entre outros pontos, como as mudanças serão acomodadas nas contas públicas. Não se trata apenas de saber como certos limites serão respeitados. A inflação muito alta abrirá espaço no Orçamento do próximo ano. Alguma solução será encontrada para o problema do teto de gastos, talvez com a abertura de alguma exceção. As questões mais importantes são outras. Falta explicar de onde sairá dinheiro para cobrir as novas despesas e, se for o caso, para compensar a perda de receitas.

No caso de gastos permanentes, como o Bolsa Família, é preciso pensar em fontes permanentes de arrecadação. Também é recomendável identificar compensações permanentes para renúncias fiscais duradouras. Não tem sentido contar com receitas de privatização e, além disso, vender estatais, assim como criar estatais deve ser parte de um plano. Vender por vender, só para simplificar a gestão? Decisões tão importantes deveriam sempre estar vinculadas a um plano de governo – mais precisamente, a um plano de modernização e de crescimento, algo jamais apresentado pelo atual presidente ou pela equipe econômica.

Contar simplesmente com o crescimento da arrecadação, como se fosse algo assegurado, é sinal de irresponsabilidade. Se crescer 5,5% neste ano, a economia ficará pouco acima do nível de 2019, um ano muito ruim. Além disso, nada aponta aceleração nos próximos anos. No mercado, a mediana das projeções indica expansão de 2,10% em 2022 e de 2,50% nos anos seguintes. É impossível prever números melhores quando faltam investimentos em máquinas, equipamentos, infraestrutura, obras particulares, formação de capital humano e tecnologia. Que formação de capital humano pode haver sob um governo inimigo da educação, da cultura e da ciência? (Ver abaixo o editorial Desprezo pelas instituições.)

Mas o pacotinho inclui um arremedo de programa de emprego e de qualificação para jovens, com pagamento parcial de custos pelo governo. Na prática, é mais uma tentativa de apenas baratear a mão de obra, como se isso pudesse substituir uma política séria de crescimento e de criação de empregos.

Não se pode acreditar num jogo desse tipo, especialmente quando o governo tenta arrebatar dinheiro do Sistema S – respeitado pela formação de mão de obra de alta qualidade – para finalidades nada claras. Líderes empresariais têm resistido a essa investida, já condenada por um conhecido especialista em política de mão de obra, o professor José Pastore, da Universidade de São Paulo. “O governo quer o dinheiro, não a expertise” do Sistema, escreveu ele em artigo recente no Estado.

Parte do pacotinho contém a promessa de regularização tributária. Ao elevar para a pessoa física a faixa de isenção do IR, o governo apenas atenua um velho problema, a falta de correção com base na evolução dos preços. Com a constante desatualização das faixas, o contribuinte tem sido, há muito tempo, supertributado.

Enquanto estuda essas bondades, o governo prepara o projeto de Orçamento de 2022, sob controle mais aberto do Centrão, instalado oficialmente no Palácio do Planalto. Pelo menos o Centrão tem um plano claro e bem conhecido: ganhar com qualquer governo, enquanto o governo durar.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de S.Paulo, em 03 de agosto de 2021 | 03h00

Horizonte de investigação do TSE é amplo e pode inviabilizar reeleição de Bolsonaro

Caso o corregedor produza provas de crimes ou abusos na esfera eleitoral, caberá ao MP Eleitoral iniciar processo, agora ou no período eleitoral de 2022. Michael Mohallem, Professor de Direito e Advogado especialista em Direito Público analisa a decisão do TSE.

A investigação aberta pela Justiça Eleitoral contra Bolsonaro é uma novidade importante. O inquérito administrativo no TSE abre novo flanco de enfrentamento jurídico em instituição que pode inviabilizar sua tentativa de reeleição.

Se a via da PGR para investigar crimes comuns parece estar obstruída pela fidelidade do Procurador-Geral e a via da Câmara dos Deputados para apurar crimes de responsabilidade sempre mais improvável com a adesão completa do PP ao governo Bolsonaro, o caminho da Justiça Eleitoral pode se tornar oportuno para assuntos de sua competência.

O inquérito no TSE se assemelha ao inquérito das fake news no STF – a fundamentação jurídica de abertura é, inclusive, a mesma. Ambas são investigações atípicas por serem abertas de ofício e dependerão de outros atores para produzirem resultados jurídicos definitivos. Os inquéritos, porém, têm escopos bastante amplos e podem revelar fatos ou produzir provas robustas que constranjam a ação até mesmo do PGR, sabidamente aliado do presidente. Os inquéritos podem conter o presidente enquanto estão abertos, mas também podem oferecer provas para processos judiciais que deles derivem.

O horizonte de investigação do TSE é amplo. Buscará evidências que vão do abuso do poder político até corrupção, sem deixar de avaliar se o presidente fez uso indevido dos meios de comunicação. E para isso poderá realizar perícias, ouvir autoridades e quebrar sigilos dentre outras medidas. Mas cada evidência produzida só terá utilidade no seu respectivo foro. Caso o corregedor do TSE produza provas de crimes ou abusos na esfera eleitoral, caberá ao MP Eleitoral iniciar processo, agora ou no período eleitoral de 2022, cujo resultado poderá ser a inelegibilidade de Bolsonaro. É possível que até seus maiores aliados políticos hoje vejam com bons olhos essa medida que abriria caminho definitivo para uma nova força eleitoral do campo conservador.

Publicado originalmente n'O Estado de São Paulo, em 03.08.2021


Ações adotadas pelo TSE podem tirar Bolsonaro da eleição de 2022, afirmam juristas

Especialistas ouvidos pelo Estadão dizem que investigações têm potencial para tornar Bolsonaro inelegível

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Dida Sampaio/Estadão       

As medidas tomadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra as reiteradas acusações do presidente Jair Bolsonaro à eficácia da urna eletrônica, condicionando as eleições de 2022 ao voto impresso, podem atrapalhar seus planos políticos. Juristas ouvidos pelo Estadão dizem que o inquérito administrativo e a notícia-crime apresentados nesta segunda-feira pelo TSE, pedindo ao Supremo Tribunal Federal a inclusão de Bolsonaro na investigação das fake news, têm potencial para torná-lo  inelegível se ele for responsabilizado criminalmente. A depender do desfecho do caso, uma eventual candidatura de Bolsonaro a novo mandato tem chance de ser contestada na Justiça Eleitoral.

Para o ex-presidente do TSE Carlos Velloso, o tribunal agiu de forma unânime para fazer o que lhe cabia. “Tudo isso constitui uma reação justa e natural aos ataques injustos ao sistema eleitoral e à própria Justiça Eleitoral”, disse Velloso, ministro que comandou o processo de criação da urna eletrônica. “Se há notícias falsas, há práticas de crime. É muito importante o inquérito administrativo e tudo pode ocorrer nesse processo, inclusive ações de inelegibilidade. Será necessário apresentar as provas da alegada ocorrência de fraude no sistema de votação eletrônico”.

Bolsonaro reage ao TSE, diz que não aceitará ‘intimidações’ e que sua ‘luta’ é contra Barroso

Na avaliação de Isabel Veloso, professora da FGV-Direito (Rio), ações como essas podem, de fato, penalizar Bolsonaro, em particular a viabilidade de sua reeleição. A professora observou, porém, que pode não haver tempo hábil para isso.  “Por ora, é possível que funcionem tão somente como ‘enforcement’ para que Bolsonaro pare de propagar fake news, o que já seria positivo para o processo democrático”.

Ao apresentar notícia-crime contra Bolsonaro, o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, pediu que ele seja investigado por “possível conduta criminosa” relacionada ao inquérito das fake news, conduzido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. O Estadão apurou que Moraes deve aceitar o pedido, ainda nesta terça-feira, incluindo o presidente como investigado.

Barroso citou como justificativa para o inquérito a transmissão ao vivo pelas redes sociais, realizada por Bolsonaro na última quinta-feira, 30, na qual ele admitiu não ter provas de fraudes no sistema eleitoral, como vinha acusando desde março do ano passado. Mesmo assim, o presidente usou a live e a estrutura do Palácio da Alvorada para exibir uma série de vídeos antigos e informações falsas contra as urnas eletrônicas, alegando que o sistema é fraudável. A transmissão ao vivo também foi divulgada pela TV Brasil, uma emissora pública.

O uso do aparato estatal na cruzada contra o modelo de eleições é um dos pilares do inquérito administrativo aberto a pedido do corregedor-geral da Justiça Eleitoral,  Luiz Felipe Salomão, que tem o objetivo de investigar ações do presidente de “abuso do poder econômico, corrupção ou fraude, abuso do poder político ou uso indevido dos meios de comunicação social, uso da máquina administrativa e, ainda, propaganda antecipada”.

No diagnóstico do professor de Direito Constitucional da FGV-Direito (Rio), Wallace Corbo, o TSE tem os meios necessários para cassar o registro da candidatura de Bolsonaro e remeter a ação ao Ministério Público Federal para instauração de processo disciplinar ou ação penal, caso sejam constatadas ações de abuso de poder político e econômico. As punições ao presidente são detalhadas em lei complementar de 1990.

“A Justiça Eleitoral é a responsável por assegurar a realização de eleições limpas e por apurar infrações ao processo eleitoral. Para isso, o tribunal vai investigar se houve abuso de poder político e econômico do presidente. Se ficar constatado que houve isso, pode implicar em inelegibilidade do presidente da por oito anos”, afirmou Corbo.

O TSE, atendendo ao direito de ampla defesa e contraditório, poderá, ao fim do processo, aplicar outras penalidades cabíveis a Bolsonaro. Além da cassação do registro de candidatura, o inquérito administrativo pode provocar multas ao presidente, na Justiça Eleitoral. É justamente aí que a candidatura de Bolsonaro pode sofrer constestação.

“Em curto prazo, algum interessado pode propor uma ação cautelar para que Bolsonaro pare de fazer alegações contra a credibilidade das eleições. Caso o inquérito avance e consiga reunir provas, pode gerar subsídios para denúncias de quebra da normalidade das eleições, algo que pode culminar na cassação da candidatura”, destacou Isabel Velloso.

Ao ser incluído no rol dos investigados por disseminação de notícias falsas e vínculo com milícias digitais nas redes sociais, como se prevê, Bolsonaro também responderá por ataques às eleições. Caso as investigações em andamento reúnam provas, os planos de reeleição do presidente, que abriu o cofre e se aliou ao Centrão em busca de apoio, ficam ameaçados.

Ao fim do inquérito das fake news, uma denúncia poderá ser apresentada contra ele na esfera penal, mas, antes, precisa ser aprovada pelo Congresso. Como trataria de indiciamento por crime comum cometido pelo presidente, o Supremo é o responsável por julgar a ação.

Até agora, o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progresssistas-AL), tem dito que os parlamentares não estão dispostos a abrir um processo de impeachment contra Bolsonaro. Além disso, há um obstáculo na Procuradoria-Geral da República (PGR), comandada por Augusto Aras, homem de confiança de Bolsonaro e postulante à recondução ao cargo. Será Aras  que terá o papel de apresentar a denúncia contra o presidente. Há dúvidas de que ele faça isso, pois quer ser indicado para uma vaga no Supremo, em 2023. Ao procurador-geral da República interessa a reeleição de Bolsonaro.

O Supremo decidiu, em novembro de 2016, que réus não podem fazer parte da linha sucessória da Presidência. Para Rubens Beçak, professor-associado de Direito Constitucional na Universidade de São Paulo (USP), o eventual indiciamento de Bolsonaro confirmaria esse entendimento. “O presidente fica impedido de disputar as eleições por não reunir sequer as condições morais para tal. Essa é uma possibilidade clara tendo em vista o que se passou desde ontem”, afirmou Beçak. “Se o inquérito das fake news se tornar uma ação penal, o presidente se torna um dos réus. Nesse caso, seria o caso de chancelar a inelegibilidade em 2022. Há também o rito padrão em que ele é condenado e fica impedido de concorrer”.

Entenda as ações do TSE

Inquérito administrativo:

Passo 1: O pedido de inquérito é apresentado pelo corregedor-geral da Justiça Eleitoral e aprovado em sessão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Passo 2: Investigação vai apurar se o presidente da República cometeu abuso de poder político econômico, propaganda eleitoral extemporânea, uso indevido dos meios de comunicação social, fraude e corrupção O processo correrá em caráter sigiloso. Serão deferidas medidas cautelares para colheita de provas, com oitivas de pessoas e autoridades, inclusão de documentos e realização de perícia. O presidente pode eventualmente ser convocado para depor em respeito ao direito de defesa (tempo indeterminado).

Passo 3: Em caso de reunião provas que constatem crime do presidente da República contra o sistema eleitoral, por conseguinte à Justiça Eleitoral, um julgamento será realizado para definir a pena. O TSE poderá tornar o presidente inelegível por 8 anos, como manda a Lei Complementar n°64 de 1990, além de serem passíveis a aplicação de multas ou outras medidas mais brandas. Caso os elementos necessários para provar que Bolsonaro cometeu crime não sejam coletados, o inquérito é arquivado (tempo indeterminado).

Passo 4: Ao tornar o presidente inelegível, o TSE pode optar por encaminhar os autos do processo ao Ministério Público Federal (MPF) para que Bolsonaro seja investigado também na esfera criminal (tempo indeterminado).

Notícia-crime/Inquérito das Fake News

Passo 1: A notícia-crime é atendida pelo relator do inquérito das fake news, ministro Alexandre de Moraes, e o presidente Jair Bolsonaro passa a ser investigado por disseminação de notícias falsas (previsão para esta terça-feira, 03/08).

Passo 2: Tem início a coleta de provas para apurar se o presidente cometeu crime ao realizar a transmissão ao vivo na quinta-feira, 30, em que prometia apresentar provas de fraude nas eleições de 2014 e 2018 (tempo indeterminado).

Passo 3: Em caso de constatação de crime do presidente da República, o relatório é encaminhado ao procurador-geral da República, Augusto Aras, que terá o papel de apresentar uma denúncia formal contra Bolsonaro a ser aprovada pela Câmara dos Deputados (tempo indeterminado).

Passo 4: Em caso de aprovação da denúncia pela Câmara, o presidente passará a responder na esfera criminal e será julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Audiências serão realizadas até que os ministros tomem uma decisão (tempo indeterminado).

Passo 5: Caso os ministros julguem Bolsonaro culpado, o presidente será destituído de suas funções na Presidência da República e ficará inelegível por 8 anos, além da possibilidade de poder ter outras penas aprovadas após a condenação penal (tempo indeterminado).

Weslley Galzo para O Estado de S.Paulo, em 03 de agosto de 2021 | 16h58


segunda-feira, 2 de agosto de 2021

'Ameaça à realização de eleições é uma conduta antidemocrática', diz Barroso

Bolsonaro tem dito que, sem voto impresso, pode não haver eleição em 2022. Em discurso, presidente do TSE disse que impressão não é 'contenção adequada para o golpismo'.

O ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), afirmou nesta segunda-feira (2) que ameaçar a realização de eleições é uma "conduta antidemocrática".

Barroso deu a declaração ao discursar na sessão de abertura do semestre no TSE. Disse também que "há coisas erradas acontecendo no país" e que as instituições e a sociedade precisam estar "bem alertas".

O presidente Jair Bolsonaro costuma criticar as urnas eletrônicas e afirmar que houve fraudes nas eleições de 2018, mas nunca apresentou provas. Bolsonaro também passou a dizer que, sem a adoção do voto impresso, pode não haver eleições em 2022. A impressão do voto, contudo, já foi julgada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

"As democracias contemporâneas são feitas de votos, são feitas do respeito aos direitos fundamentais e são feitas de debate público de qualidade. A ameaça à realização de eleições é uma conduta antidemocrática. Suprimir direitos fundamentais, incluindo os de natureza ambiental, é uma conduta antidemocrática. Conspurcar o debate público com desinformação, mentiras, ódio e teorias conspiratórias é conduta antidemocrática", afirmou Barroso.

Em seguida, o presidente do TSE emendou:

"Há coisas erradas acontecendo no país. E todos nós precisamos estar atentos. Precisamos das instituições e precisamos da sociedade civil, ambas bem alertas. Nós já superamos os ciclos do atraso institucional, mas há retardatários que gostariam de voltar ao passado. Parte dessas estratégias inclui o ataque às instituições."

Na sequência do discurso, Barroso afirmou que uma das manifestações do autoritarismo no mundo contemporâneo é o "ataque às instituições, inclusive às instituições eleitorais."

Após o discurso do presidente do TSE, o tribunal decidiu pedir ao STF que o presidente Jair Bolsonaro seja investigado no inquérito que apura a disseminação de fake news. O pedido foi aprovado em plenário por unanimidade (veja no vídeo abaixo).

'Contenção' para o golpismo

Ainda durante o discurso desta segunda-feira, Barroso também disse que a adoção do voto impresso "não é contenção adequada para o golpismo".

Ao se dirigir aos demais ministros do tribunal, o presidente da Corte afirmou ser um "equívoco" e uma "fantasia" afirmar que há fraudes no sistema eleitoral.

"Nos Estados Unidos, por exemplo, insuflados pelo presidente derrotado, 50% dos republicanos acreditam que a inequívoca vitória do presidente Biden foi fraudada. Essas narrativas, fundadas na mentira e em teorias conspiratórias, destinam-se precisamente a pavimentar o caminho da quebra da legalidade constitucional.

"Nos Estados Unidos, isso resultou na dramática invasão do Capitólio, com muitas mortes ocorridas por extremistas, conduzido de maneira irracional por líderes irresponsáveis. Assim, e para que ninguém se iluda, nos Estados Unidos há voto impresso ou em cédula. Voto impresso não é contenção adequada para o golpismo", acrescentou.

Por Fernanda Vivas e Márcio Falcão, TV Globo — Brasília, em 02 de agosto de 2021


O mito de Cuba

É nessa ditadura que o PT e a esquerda desnorteada procuram se espelhar?

Cuba é uma amostra da desordem intelectual reinante na esquerda brasileira, em particular no PT, considerando que esse partido se coloca como alternativa democrática de poder. Desordem tanto mais preocupante porque ela expõe a natureza autoritária do partido e de seu líder, ambos não hesitando em defender e em elogiar um regime político carcomido, criador de miséria, de violação dos direitos humanos, incapaz de produzir vacinas contra a covid-19 para a população que diz encarnar. Regime policialesco que controla no detalhe a vida de seus cidadãos, súditos da ditadura comunista. É esse exemplo de democracia que Lula da Silva e o PT pretendem apresentar nas próximas eleições?

O ex-presidente chegou mesmo ao ápice do hilário ao declarar que, não fosse o embargo americano, Cuba seria a Holanda. Talvez não saiba que na Holanda vigora um regime capitalista, defensor da propriedade privada no campo e na cidade, fruto da tolerância religiosa e de um passado de importante país comercial, que até hoje permanece. Boa parte das exportações brasileiras do agronegócio entra na Europa através de seus portos. Tampouco deve ele saber que se trata de uma monarquia constitucional, assegurando aos seus cidadãos amplo direito de expressão, comunicação, circulação e participação política. É isso que Lula está querendo para Cuba? Pretende ele converter o regime comunista para o capitalismo e a democracia?

Cuba sofre o embargo americano. Diga-se de passagem que é uma medida burra, pois o próprio comércio seria um elemento de dinamização capitalista de sua economia, além de oferecer uma narrativa “anti-imperialista” para o Partido Comunista e para a esquerda mundial, que pensa representar alguma coisa. Dito isto, os americanos não cercaram a ilha com sua frota nem impediram o seu livre-comércio com outros países do mundo. O regime cubano, frise-se, pode comercializar com qualquer país do planeta, salvo os Estados Unidos. Poderia ter um profícuo intercâmbio comercial e tecnológico com a China (a exemplo do Brasil), com a Rússia, com a União Europeia, e assim por diante. Se não o faz é porque é ineficiente economicamente, incompetente no trato diplomático e fechado em si mesmo. Eis as condições de manutenção da ditadura comunista. Quanto menor abertura, melhor para ela.

Aliás, à luz da ideologia comunista, não dá para entender por que a esquerda reclama tanto dos Estados Unidos. Não é um postulado dessa doutrina que o socialismo é superior ao capitalismo? Ora, se o socialismo goza de tal superioridade, não poderia ele precisar de algo inferior e historicamente ultrapassado. Seria uma posição anacrônica reivindicar a liberdade de comércio com a maior potência capitalista do mundo. Deveria, ao contrário, apresentar todos os seus feitos na criação de um novo homem.

Também deveria poder explicar por que tantos cubanos procuraram e procuram escapar desse “paraíso” socialista em busca de uma vida melhor no capitalismo. E o fizeram, no passado, em embarcações improvisadas, com risco da própria vida. Melhor a ameaça da morte do que a felicidade comunista!

A perpetuação do regime castrista pelas últimas décadas, além do férreo controle policial da população, acompanhada de uma narrativa comunista avessa a qualquer crítica, deve-se, primeiro, ao apoio da ex-União Soviética e, depois, ao petróleo do regime chavista, da Venezuela. Os comunistas soviéticos armaram os cubanos, deram alimentos e outros produtos, seguindo o seu próprio projeto ideológico e geopolítico de confrontação com os Estados Unidos. Os chavistas, por sua vez, forneceram o petróleo de que o país tanto necessita, até mesmo em quantidades superiores às suas necessidades básicas. Instaurou-se o socialismo da mesada. Na falta desta, está ruindo!

O que Cuba foi capaz de exportar para a Venezuela, em retribuição? Policiais e soldados para controlarem as Forças Armadas e a população deste país: os comissários do “povo” para reprimirem o verdadeiro povo! Os cubanos tornaram-se pilares da ditadura chavista, que destruiu a economia, eliminou a divisão democrática dos Poderes, assenhorou-se do Legislativo, sufocou totalmente as liberdades e submeteu o seu povo à fome e à servidão. Convém lembrar que o mesmo Lula chegou a caracterizar a Venezuela como um exemplo de democracia para o mundo e o Brasil. É nessa ditadura que o PT e a esquerda desnorteada procuram se espelhar?

O passado e, no caso, o presente são plenos de ensinamentos. Dentre eles, considerar um embuste a vocação democrática lulopetista. Se assim não fosse, eles deveriam cessar de defender e elogiar esses regimes liberticidas. É bem verdade que o Brasil se confronta hoje com duas posições autoritárias, uma de extrema direita e outra dessa esquerda, ambas disputando e se alimentando reciprocamente.

Se o País realmente almeja a democracia e o bem-estar de sua população, não pode compactuar com duas alternativas claramente não democráticas. Não se pode acreditar em artimanhas ideológicas. Disso depende nosso futuro!

Denis Lerrer Rosenfiel, o autor deste artigo, é Professor de Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Publicado originalmente n'O Estado de S. Paulo, em 02 se agosto de 2021.

Recordes sinistros

Desemprego, inflação e endividamento batem recordes no Brasil, tornando mais inseguro o dia a dia de famílias ainda sujeitas a uma pandemia mortífera

Desemprego, inflação e endividamento batem recordes no Brasil, tornando mais inseguro o dia a dia de famílias ainda sujeitas a uma pandemia mortífera, num país com vacinação atrasada e governo concentrado em arranjos políticos e objetivos eleitorais. As projeções da inflação ao consumidor já se aproximam de 7% em 2021, superando de longe o teto da meta, mas nenhum sinal de trégua aparece no mercado. Novos aumentos são prenunciados pela alta dos custos de produção, turbinados pelas cotações internacionais de matérias-primas, pelo encarecimento da energia e pela taxa de câmbio. Nem tudo chegará ao comprador final, mas algum repasse ocorrerá, como tem ocorrido, e assim o dinheiro já escasso ficará ainda mais curto.

O surto inflacionário hoje enfrentado pelos brasileiros é um dos legados da grande crise sanitária de 2020. Parte dos problemas é atribuível a desarranjos no sistema produtivo. A oferta de certos insumos e componentes industriais foi prejudicada e nem todos os desajustes foram corrigidos. Pelo menos as pressões daí derivadas devem ser temporárias. Mas, apesar desse adjetivo, a duração desses efeitos ainda é desconhecida. De toda forma, o aumento de custos continua intenso e dificulta qualquer previsão otimista.

Em junho, o Índice de Preços ao Produtor (IPP) foi 1,31% maior que no mês anterior. Em maio havia subido 0,99%. A alta acumulada no ano chegou a 19,11%. Em 12 meses atingiu 36,1%. Esses custos, também conhecidos como preços em porta de fábrica, são contabilizados apenas na indústria, sem impostos e sem frete. Na indústria de transformação esses preços aumentaram 0,76% em junho. A alta chegou a 8,76% na indústria extrativa. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As duas taxas acumuladas, no ano e em 12 meses, são recordes da série iniciada em 2014.

Também os preços por atacado (IPA) medidos pela Fundação Getulio Vargas (FGV) subiram muito, desde o segundo semestre de 2020, e em 12 meses aumentaram 47,53%, segundo o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) de junho. Esse indicador inclui também matérias-primas minerais e agropecuárias.

Só uma parcela dos aumentos mostrados pelo IPP e pelo IPA chega ao varejo de bens e serviços. Ainda assim, as altas de preços no atacado acabam atingindo o consumidor e corroendo seu orçamento, já muito precário no caso da maior parte dos brasileiros. Segundo a prévia da inflação oficial, os preços ao consumidor, no período de 15 de junho a 13 de julho, foram 0,72% maiores que no intervalo mensal imediatamente anterior. Essa foi a maior variação para esse período desde 2004 – mais um recorde sinistro. Os dados são do IPCA-15 de julho, divulgado no dia 23.

Essa onda inflacionária ocorre numa fase marcada por dois outros recordes negativos. O pior deles é o desemprego. No trimestre móvel encerrado em abril os desocupados eram 14,8 milhões, 14,7% da força de trabalho. Essa porcentagem, alcançada já no trimestre de janeiro a março, foi a mais alta da série iniciada em 2012.

Esse quadro se completa com o nível de endividamento familiar. Em abril, as famílias deviam ao sistema financeiro 58,5% de sua renda anual, uma taxa recorde no período a partir de janeiro de 2005. Excluídas as dívidas imobiliárias, sobrariam débitos equivalentes a 36% da renda – também um recorde nesse tipo de sequência. Em abril de 2020, a dívida total das famílias com os bancos estava em 49,2% de sua renda. Com a pandemia, as dificuldades aumentaram e os brasileiros buscaram empréstimos para sobreviver ou para pagar outros compromissos. O quadro seria muito diferente se tivessem tomado financiamentos para melhorar de vida, como em tempos de prosperidade. As informações são do Banco Central.

Os dois últimos recordes infernais – do IPP e do endividamento – foram divulgados na quarta-feira. No dia anterior, o presidente Jair Bolsonaro, distante dessa realidade, havia completado o acerto com o senador Ciro Nogueira, convidado para chefiar a Casa Civil e tomar conta do governo em nome do Centrão.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de São Paulo, em 02 de agosto de 2021 

TSE vai investigar fake news de Bolsonaro e manda ao STF notícia crime contra presidente

Os ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) impuseram duas derrotas ao presidente Jair Bolsonaro na noite desta segunda-feira, 2. Por unanimidade, os magistrados aprovaram a instauração de notícia-crime e inquérito administrativo contra Bolsonaro pelas ameaças ao sistema eleitoral e possível conduta criminosa no âmbito do inquérito das fake news, de relatoria do ministro Alexandre de Moraes. A investigação administrativa pode acarretar em impugnação da candidatura de Bolsonaro nas eleições de 2022.

A notícia-crime foi apresentada pelo presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, que se tornou o alvo preferencial dos ataques de Bolsonaro. Barroso se baseou em transmissão ao vivo pelas redes sociais realizada por Bolsonaro, na quinta-feira, 30, para pedir a “apuração de possível conduta criminosa” relacionada ao inquérito das fake news. Na live, Bolsonaro recuou do discurso encampado desde 2018 de que apresentaria provas de fraudes eleitorais e disse ter somente “indícios”, que se resumiam a notícias falsas, vídeos fora de contexto e análises enviesadas do processo de auditagem das urnas. O relator do inquérito, Alexandre de Moraes  poderá decidir sozinho se acata o pedido, ou se leva para julgamento no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF).

Na outra frente de contenção das ameaças golpistas do presidente, o corregedor-geral da Justiça Federal, Luis Felipe Salomão, justificou ser necessária a instalação do inquérito administrativo na corte eleitoral para  “tomar as providências cabíveis para sanar ou evitar abusos e irregularidades”. Salomão pede para que Bolsonaro seja investigado por abuso de poder econômico e político, uso indevido dos meios de comunicação social, corrupção, fraude, propaganda eleitoral antecipada e ataques ao sistema eleitoral que venham a comprometer as eleições de 2022.  As apurações tramitarão em caráter sigiloso.

“O inquérito administrativo compreenderá ampla dilação probatória, promovendo-se medidas cautelares para colheita de provas, com oitivas de pessoas e autoridades, juntada de documentos, realização de perícias e outras providências que se fizerem necessárias para a adequada elucidação dos fatos”, escreveu Salomão. “Considerando que a preservação do Estado Democrático de Direito e a realização de eleições transparentes, justas e equânimes demandam pronta apuração e reprimenda de fatos que possam caracterizar abuso”.

O TSE, personificado na figura de seu presidente, se tornou o maior inimigo de Bolsonaro e seus apoiadores na cruzada pela aprovação do voto impresso. O tribunal eleitoral, que abriga ministros do Supremo, é alvo constante dos ataques do governo federal. A crise entre o Judiciário e o Executivo foi impulsionada pela intensificação da onda de ameaças do Palácio do Planalto à Corte eleitoral frente à reunião de ministros do Supremo com dirigentes de partidos para reverter a tendência de aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do voto impresso pelo Congresso.

Após a ameaça de Braga Netto ao sistema eleitoral, com insinuações de golpe das Forças Armadas, caso não seja aprovado o voto impresso, houve reação pública de três magistrados — Gilmar Mendes, Edson Fachin e Luís Roberto Barroso –, e se chegou a considerar uma nota conjunta a respeito. A medida foi descartada, mas abriu espaço para reações individuais enfáticas dos líderes do Judiciário ao modo intransigente e beligerante com que as autoridades do Executivo têm tratado as questões eleitorais.

Na manhã desta segunda-feira, 2, Barroso assinou uma nota conjunta com todos os ex-presidentes da Corte desde a redemocratização, em 1988, em que defendem a urna eletrônica e rechaçam o voto impresso. O documento também contou com as assinaturas do vice-presidente do TSE, Edson Fachin, e de Alexandre de Moraes, que presidirá a instituição na reta final das eleições de 2022. À tarde, o texto foi seguido de um duro discurso do presidente do STF, Luiz Fux, na sessão de retomada dos trabalhos na Corte após o recesso do Judiciário.

Em um movimento coordenado, o presidente do Supremo disse, horas antes, que “os juízes precisam vislumbrar o momento adequado para erguer a voz diante de eventuais ameaças”. Foi ainda mais direto: “Harmonia e independência entre os poderes não implicam impunidade de atos que exorbitem o necessário respeito às instituições.”

À noite, Barroso encerrou a vigorosa onda de recados ao Planalto. Antes de apresentar a notícia-crime que pode culminar em responsabilização criminal do presidente, o ministro discursou de forma veemente defendendo que “ameaça à eleição é uma conduta antidemocrática”.

“Suprimir direitos fundamentais, incluindo os de natureza ambiental, é uma conduta antidemocrática. Conspurcar o debate público com desinformação, mentiras, ódio e teorias conspiratórias é conduta antidemocrática. Há coisas erradas acontecendo no País, e nós todos precisamos estar atentos”, afirmou Barroso. “Nós já superamos os ciclos do atraso institucional, mas há retardatários que gostariam de voltar ao passado. E parte dessas estratégias incluem o ataque às instituições.”

Barroso disse que líderes populistas, autoritários e extremistas, embora eleitos pelo povo, agem contra o estado de direito. Afirmou, ainda, que o Brasil está à beira da “erosão da democracia”. “Uma das manifestações do autoritarismo no mundo contemporâneo é precisamente o ataque às instituições, inclusive às instituições eleitorais que garantem um processo legítimo de condução aos mais elevados cargos da República”, argumentou o presidente do TSE.

O silêncio diante dos sucessivos insultos de Bolsonaro ao Supremo e ao TSE foi rompido nesta segunda-feira, 2,  com declarações claras de que aventuras golpistas e tentativas de ruptura institucional não serão toleradas pelo Judiciário.
       
Weslley Galzo, de BRASÍLIA para O Estado de São Paulo, em 02 de agosto de 2021 

‘Ameaça à eleição é uma conduta antidemocrática’, diz Barroso em resposta a Bolsonaro

Em um dia marcado por duros recados do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Fux, na direção do Palácio do Planalto, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso, subiu ainda mais o tom e disse que a “ameaça à realização de eleição é uma conduta antidemocrática”.


Foto: Reprodução

“Nós já superamos os ciclos de atraso institucional, mas há retardatários que querem voltar ao passado”, afirmou Barroso, na abertura da primeira sessão do TSE no segundo semestre. Sem citar Bolsonaro, o ministro disse que ‘voto impresso não é contenção adequada para o golpismo’.

“A ameaça à realização de eleições é uma conduta antidemocrática. Suprimir direitos fundamentais incluindo de natureza ambiental é uma conduta antidemocrática. Usurpar o debate público com desinformação, mentiras, ódio e teorias conspiratórias é uma conduta antidemocrática. Há coisas erradas acontecendo no país e nós todos precisamos estar atentos, precisamos das instituições e da sociedade civil alertas”, afirmou. O ministro afirmou que os movimentos reacionários passam, necessariamente, pelos ataques às instituições.

“Uma das manifestações do autoritarismo no mundo contemporâneo é o ataque às instituições e inclusive às instituições eleitorais que garantem um processo legítimo de condução aos mais elevados cargos da República”, disse. Ao falar sobre os avanços autoritários, o ministro destacou que os líderes que correm a democracia foram eleitos pelo povo e gozam de legitimidade, que, no entanto, não os impede de uma vez no poder desconstruir os pilares da democracia “concentrando os poderes no Executivo, procurando demonizar a imprensa e colonizar os tribunais constitucionais que atuam com independência”. Barroso frisou que a receita é conhecida em diferentes partes do mundo.

O presidente do TSE se tornou o alvo preferencial do presidente da República por se opor ao Projeto de Emenda à Constituição (PEC), de autoria da deputada bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF), que tem o objetivo de instituir o voto impresso como mecanismo adicional de auditagem das urnas eletrônicas. Atualmente, o sistema eleitoral brasileiro dispõe de nove etapas de auditagem dos votos. Bolsonaro já chamou o presidente do TSE de “imbecil” e “idiota” e insinuou que ele estaria tentando manipular o curso das eleições.

O discurso na sessão desta segunda-feira foi mais um capítulo do movimento coordenado de reação dos representantes das mais altas cúpulas da Justiça Federal diante das ameaças golpistas que partem do Planalto e até da Esplanada em relação à realização de eleições no ano que vem.

A crise entre o Judiciário e o Executivo se intensificou depois que ministros do Supremo se reuniram com dirigentes de partidos para reverter a tendência de aprovação do voto impresso pelo Congresso. Após a ameaça de Braga Netto ao sistema eleitoral, com insinuações de golpe das Forças Armadas, caso não seja aprovado o voto impresso, houve reação pública de três magistrados — Gilmar Mendes, Edson Fachin e Luís Roberto Barroso –, e se chegou a considerar uma nota conjunta a respeito.

Na arde desta segunda-feira, Bolsonaro voltou a pregar a adoção do voto impresso como condição para “eleições limpas” e, mais uma vez, atacou Barroso. Os ataques do presidente à mais alta Corte da Justiça Eleitoral ocorreram momentos após o presidente do STF discursar em defesa da estabilidade democrática e sinalizar ao Palácio do Planalto que a “harmonia e independência entre os poderes não implicam impunidade de atos que exorbitem o necessário respeito às instituições”.

Em resposta velada à possibilidade de punição aventada por Fux, o presidente da República se queixou de que “não se pode falar a verdade” no Brasil, sob pena de sofrer processo “até de impeachment”, como é o seu caso. “Queremos uma farsa no ano que vem ou uma eleição marcada por suspeição?”, perguntou Bolsonaro, em cerimônia no Planalto. “Se nos calarmos, nos curvarmos ao politicamente correto para atender às velhas práticas, (…) nós todos sucumbiremos”, afirmou. Para o presidente, as alianças estratégicas com políticos do Centrão para se manter no cargo não se enquadram no escopo de velhas práticas da política nacional.

Ao mesmo tempo em que se enfraquece politicamente com o avanço das investigações da CPI da Covid e a queda crescente de popularidade, Bolsonaro eleva o tom contra as instituições do Judiciário.

No último domingo, 1, em discurso a apoiadores durante manifestação a favor do voto impresso, Bolsonaro se amparou no apoio de sua base eleitoral para tensionar a relação com os Poderes e exigir a aprovação do projeto. Como resposta aos acenos antidemocráticos de políticos do alto escalão do governo federal, o ministro Barroso assinou nesta segunda-feira uma nota conjunta com os ex-presidentes do TSE em que defendem a urna eletrônica e rechaçam a possibilidade de contagem manual dos votos. O documento contou, ainda, com a assinatura do atual vice-presidente do TSE, Edson Fachin, e do ministro Alexandre de Moraes, que presidirá o tribunal durante as eleições de 2022.

“Em demonstração de coesão, todos os ex-presidentes do TSE, desde 88, assinaram nota em defesa do sistema eletrônico de votação. E todos concordam: contar publicamente 150 milhões de votos significará a volta das fraudes, superadas com a urna eletrônica”, escreveu Barroso nas redes sociais.

Weslley Galzo, de BRASÍLIA para O Estado de São Paulo, em 02 de agosto de 2021 

TSE vai investigar fake news de Bolsonaro e manda ao STF notícia crime contra presidente

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou na noite desta segunda-feira, 2, por unanimidade, duas medidas contra o presidente Jair Bolsonaro por conta das declarações infundadas de fraude no sistema eleitoral e das ameaças à realização das eleições de 2022. 

Presidente Jair Bolsonaro. (FOTO: JOEDSON ALVES/EFE)

Os ministros decidiram abrir um inquérito administrativo e, ainda, pedir a inclusão do presidente no chamado “inquérito das fake news” que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes.

O inquérito administrativo, proposto pela Corregedoria-Geral da Justiça Eleitoral, vai apurar se ao promover uma série de ataques sem provas contra a Justiça Eleitoral e o sistema eletrônicos de votações, o presidente praticou “abuso do poder econômico e político, uso indevido dos meios de comunicação, corrupção, fraude, condutas vedadas a agentes públicos e propaganda extemporânea”. O inquérito eleitoral, segundo técnicos do TSE, pode acarretar em impugnação de registo da candidatura de Bolsonaro ou inelegibilidade do presidente.

A apuração foi aprovada à unanimidade pelos ministros da Corte. Na última quinta-feira, 29, o presidente usou uma transmissão pelas redes sociais para lançar uma série de vídeos antigos e informações falsas contra as urnas eletrônicas para alegar que o sistema é fraudável. Na live, o presidente admitiu não ter provas das fraudes, mas, por mais de duas horas, apelou para informações falsas e descontextualizadas contra a Justiça Eleitoral.

As medidas foram aprovadas pelo TSE na sessão que marcou a abertura dos trabalhos no segundo semestre. O presidente da Corte Eleitoral, ministro Luís Roberto Barroso, fez duro discurso contra as ameaças à democracia.

O TSE também aprovou o envio de notícia-crime ao STF para que Jair Bolsonaro seja incluído como investigado no inquérito das fake news. A investigação, que tramita aos cuidados do ministro Alexandre de Moraes, já relaciona uma rede de aliados do presidente em ações para desacreditar adversários e instituições.

Weslley Galzo, de BRASÍLIA para O Estado de São Paulo, em 02 de agosto de 2021 | 20h37

Ministros do STF e ex-presidentes do TSE defendem urna eletrônica

Contra Bolsonaro, juristas divulgam carta afirmando que sistema usado há 25 anos é seguro e que adotar voto impresso seria retornar a um passado de "fraudes generalizadas".

"Urnas eletrônicas são auditáveis em todas as etapas do processo", afirmam os juristas

Nove ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e nove ex-ministros que presidiram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgaram uma nota nesta segunda-feira (02/08) na qual defendem o atual sistema de votação eletrônica e rebatem as acusações de fraude feitas pelo presidente Jair Bolsonaro.

Os ministros e ex-presidentes do TSE também se posicionam contrariamente à adoção do voto impresso, como defendem Bolsonaro e seus apoiadores, que realizaram atos neste domingo em várias capitais do país sobre o tema.

O voto impresso é uma das principais bandeiras atuais de Bolsonaro, que afirmou diversas vezes, sem apresentar provas, que o sistema eleitoral brasileiro é vulnerável e que houve fraude em eleições anteriores. Neste domingo, em videochamadas transmitidas nos atos, o presidente voltou a ameaçar o pleito de 2022 se não for adotado o voto impresso – ao qual ele se refere como auditável, apesar de a urna eletrônica já ser auditável.

Críticos apontam que Bolsonaro – assim como fez o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump – semeia dúvidas sobre o processo eleitoral para abrir caminho para não aceitar o resultado das eleições de 2022 caso seja derrotado.

Há uma Proposta de Emenda à Constituição tramitando na Câmara dos Deputados que estabelece a adoção do voto impresso, que pode ser votada nesta quinta (05/08) pela comissão especial que analisa o tema. O presidente da Câmara, Arthur Lira, aliado de Bolsonaro, afirmou na última sexta que essa discussão é "perda de tempo" e que levantar dúvidas sobre a lisura das eleições "é ruim para o país".

O único ministro da atual composição do Supremo que não assinou o manifesto divulgado nesta segunda é Kassio Nunes Marques, indicado à Corte por Bolsonaro. Os demais nove ministros da Corte são signatários, incluindo o atual presidente do TSE, Luís Roberto Barroso.

Todos os ministros que presidiram o tribunal eleitoral desde a Constituição de 1988 também assinam a carta. São eles: Marco Aurélio Mello, Carlos Ayres Britto, Carlos Velloso, Sepúlveda Pertence, Nelson Jobim, Ilmar Galvão, Sydney Sanches, Francisco Rezek e Néri da Silveira.

Voto impresso é "menos seguro"

A carta afirma que, desde 1996, quando o sistema de votação eletrônica foi implantado, "jamais se documentou qualquer episódio de fraude nas eleições" e que, nesses 25 anos, "a urna eletrônica passou por sucessivos processos de modernização e aprimoramento, contando com diversas camadas de segurança".

"As urnas eletrônicas são auditáveis em todas as etapas do processo, antes, durante e depois das eleições. Todos os passos, da elaboração do programa à divulgação dos resultados, podem ser acompanhados", diz a carta.

Os juristas também afirmam que o sistema eletrônico conseguiu "eliminar um passado de fraudes eleitorais que marcaram a história do Brasil, no Império e na República", e que adotar o voto impresso, como deseja Bolsonaro, abrirá espaço para o retorno desse cenário de fraudes.

"Voto impresso não é um mecanismo adequado de auditoria a se somar aos já existentes por ser menos seguro do que o voto eletrônico, em razão dos riscos decorrentes da manipulação humana e da quebra de sigilo. (...) A contagem pública manual de cerca de 150 milhões de votos significará a volta ao tempo das mesas apuradoras, cenário das fraudes generalizadas que marcaram a história do Brasil", afirmam.

Deutsche Welle Brasil, em 02.08.2021

Presidente do STF em resposta a Bolsonaro: “Estamos atentos a ataques que corroem valores democráticos”

Fux critica no retorno da corte atitudes que “deslegitimam veladamente as instituições do país”. Ex-ministros do TSE assinam carta que defende segurança das eleições, atacada por Bolsonaro e aliados

O presidente do STF, Luiz Fux, em audiência em março deste ano.(FELLIPE SAMPAIO/STF)

Bolsonaro confessa que sem os corruptos do Congresso não poderia governar

O Supremo Tribunal Federal (STF) respondeu aos ataques do presidente Jair Bolsonaro ao sistema eleitoral brasileiro, que subiram de tom nos últimos dias. Sem citar nomes, o presidente do STF, Luiz Fux deu uma advertência ao Governo federal durante a reabertura dos trabalhos do segundo semestre da corte mais alta do país. “Numa sociedade democrática, momentos de crise nos convidam a fortalecer —e não deslegitimar— a confiança da sociedade nas instituições. Afinal, no contexto atual, após 30 anos de consolidação democrática, o povo brasileiro jamais aceitaria que qualquer crise, por mais severa, fosse solucionada mediante mecanismos fora dos limites da Constituição”, afirmou Fux.

“Democracia é o exercício da liberdade com responsabilidade”, continuou o presidente do tribunal, ao defender que a independência entre os poderes não implica impunidades. “O regime democrático necessita ser reiteradamente cultivado e reforçado, com civilidade, respeito às instituições e àqueles que se dedicam à causa pública. Ausentes essas deferências constitucionais, as democracias tendem a ruir.”

Fux disse que o Supremo está atento “aos ataques de inverdades à honra dos cidadãos que se dedicam à causa pública”, em atitudes que “deslegitimam veladamente as instituições do país” e “corroem sorrateiramente os valores democráticos consolidados ao longo de séculos pelo suor e pelo sangue dos brasileiros que viveram em prol da construção da democracia de nosso país”. O ministro lembrou que a história ensina que a democracia “nos liberta do obscurantismo, da intolerância e da inverdade, permitindo que possamos exercer em plenitude a nossa dignidade e as nossas capacidades humanas”.

A reação do Supremo acontece num momento em que Bolsonaro instiga sua base contra o sistema eleitoral do país e, sem constrangimento algum, ameaça as eleições presidenciais de 2022. “Sem eleições limpas e democráticas, não haverá eleição”, disse Bolsonaro em videochamada realizada neste domingo. “Nós mais que exigimos, podem ter certeza, juntos, porque vocês são de fato meu Exército —o nosso Exército—, que a vontade popular seja expressada na contagem pública dos votos”, afirmou o presidente a sua base eleitoral, que voltou a pintar as ruas de verde e amarelo no último domingo para exigir o voto impresso. Os ministros da Supremo, especialmente Luís Roberto Barroso, que preside o Supremo Tribunal Eleitoral (TSE), foram o principal alvo de descontentamento desses manifestantes, acusados de serem “comunistas de toga” e “inimigos do povo” pela defesa da transparência e segurança das eleições no país.

Nesta segunda-feira, 2, 18 ex-presidentes do TSE assinaram uma carta em que reforçam a segurança do voto eletrônico, assegurando que as instituições que marcaram a virada democrática do país “conseguiram eliminar um passado de fraudes eleitorais que marcaram a história do Brasil, no Império e na República”. Os ministros destacaram que desde 1996, quando foi implantada a urna eletrônica, “jamais se documentou qualquer episódio de fraude nas eleições”. Também afirmaram que urna eletrônica passou “por sucessivos processos de modernização e aprimoramento” e que as eleições são auditáveis em todas as etapas do processo.

“O voto impresso não é um mecanismo adequado de auditoria a se somar aos já existentes por ser menos seguro do que o voto eletrônico, em razão dos riscos decorrentes da manipulação humana e da quebra de sigilo”, ressaltaram os ministros. Segundo eles, a contagem pública manual de cerca de 150 milhões de votos “significará a volta ao tempo das mesas apuradoras, cenário das fraudes generalizadas que marcaram a história do Brasil”.

Ameaça militar às eleições

Na semana passada, o ministro do STF Gilmar Mendes também encaminhou à Procuradoria-Geral da República (PGR) quatro ações que pedem que o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, seja investigado por suspeita de ameaçar a realização das eleições de 2022. O general, um um dos principais assessores de Bolsonaro, defende uma proposta de emenda constitucional que tenta recriar o voto impresso no país. O procurador-geral da República, Augusto Aras, que atua alinhado às pautas bolsonaristas, terá de se manifestar sobre o tema. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, Braga Netto disse em 8 de julho por meio de um interlocutor ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que não haveria eleições em 2022 se não houvesse voto impresso e “auditável”. Nas últimas sondagens eleitorais, Bolsonaro tem aparecido atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de seus principais adversários, incluindo o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

Apesar das reações dos ministros às posturas antidemocráticas de Bolsonaro e seus aliados, a velocidade de resposta da Justiça costuma ser bem inferior ao potencial do ataque da extrema direita às instituições. O próprio Fux admitiu em seu discurso que o “tempo da Justiça não é o tempo da política”. Talvez por isso, o presidente da corte tenha pedido uma maior abertura ao diálogo. “Nunca é tarde para o diálogo e para a razão. Sempre há tempo para o aprendizado mútuo, para o debate público compromissado com o desenvolvimento do país, e para a cooperação entre os cidadãos bem-intencionados”, afirmou. A questão é que o Brasil entrou em clima de campanha presidencial antecipada e diálogo nunca foi o forte do período pré-eleitoral. Aliás, desde 2018, sabe-se que mesmo sem debate é possível ganhar eleição.

Pensando nisso, alguns ministros da corte até já optaram por um diálogo porta a porta, ao adotar uma postura evangelizadora contra a PEC de autoria da deputada bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF), que instituiria o voto impresso auditável. Uma força-tarefa de bastidores feita por ministros do TSE e STF conseguiu evitar que o projeto prosperasse. Eles se reuniram com presidentes dos 11 partidos, que fecharam acordo para engavetar a proposta já na comissão especial que a avaliava.

Íntegra do pronunciamento do ministro Luiz Fux

Sessão Plenária de 2 de agosto de 2021

Senhoras ministras, Senhores ministros, Senhoras e Senhores, Imbuído de singular senso responsabilidade institucional, início mais um semestre de atividades jurisdicionais do Supremo Tribunal Federal.

Este Tribunal, no exercício de suas competências, não tem medido esforços para assegurar que a nossa Constituição permaneça como a certeza primeira dos brasileiros. Deveras –nunca é demais lembrar– a nossa Carta Maior é a âncora do Estado Democrático de Direito e a bússola que deve guiar as nossas aspirações de presente e de futuro, bem como a de todos os demais poderes da nação. Movido por esse espírito, o Supremo Tribunal Federal, seja nos momentos de calmaria, seja nos momentos de turbulência, tem cumprido o seu papel de salvaguardar a Constituição, atuando em prol da estabilidade institucional da nação, da harmonia entre os Poderes e da proteção da democracia, sempre pelo povo e para o povo brasileiro.

Numa sociedade democrática, momentos de crise nos convidam a fortalecer –e não deslegitimar– a confiança da sociedade nas instituições. Afinal, no contexto atual, após trinta anos de consolidação democrática, o povo brasileiro jamais aceitaria que qualquer crise, por mais severa, fosse solucionada mediante mecanismos fora dos limites da Constituição. Ambientes democráticos garantem aos cidadãos liberdade para pensar, inovar, empreender e se expressar. A História nos ensina: a democracia nos liberta do obscurantismo, da intolerância e da inverdade, permitindo que possamos exercer em plenitude a nossa dignidade e as nossas capacidades humanas.

Não por acaso, o economista Daron Acemoglu (MIT) preconiza que a chave para o desenvolvimento de uma nação perpassa a construção de um ambiente sólido de respeito às instituições, balizado em uma cultura política íntegra e proba. Nações que souberam construir instituições fortes, independentes e inclusivas alcançaram ciclos virtuosos de prosperidade.Trago uma advertência, porém: democracia é o exercício da liberdade com responsabilidade. Tratando-se de higidez democrática, não há nada automático, natural ou perpétuo. Ao revés, o regime democrático necessita ser reiteradamente cultivado e reforçado, com civilidade, respeito às instituições e àqueles que se dedicam à causa pública. Ausentes essas deferências constitucionais, as democracias tendem a ruir.

Por isso mesmo, a democracia, mais do que uma ideia, é uma prática constante; mais do que um direito, é um dever compartilhado por todos os cidadão se pelos poderes públicos. É dizer, a manutenção da democracia exige permanente vigilância, a ser executada por muitos olhos, mãos e vozes, com obediência a inafastáveis pressupostos: 1) sociedade civil educada e consciente de seus direitos e deveres; 2) imprensa atuante e independente; 3) atores políticos cumpridores das regras do jogo democráticoe responsivos aos diversos interesses da população; 4) magistrados independentes, fiéis à Constituição e às leis; e 5) instituições fortes, inclusiva se estáveis.

Nesse ambiente plural de responsabilidades, cada um dos atores contribui a seu modo para a necessária proteção do Estado Democrático de Direito, nos limites das normas constitucionais. Os cidadãos e a imprensa questionam, criticam, erguem contundentemente seus pontos de vista; propõem novos direitos; denunciam e aplaudem, e devem ser respeitados. Os atores políticos debatem na arena pública e fazem confluir os diversos interesses de cada um dos grupos que compõem o tecido social, seja aprovando leis,seja executando políticas públicas. Os Poderes em geral atuam independentes e harmônicos, sem que haja superpoderes entre aqueles instituídos pela ordem constitucional.

Por sua vez, magistradas e magistrados do país reforçam a democracia diuturnamente, no âmbito de suas decisões judiciais. Quando chamados a pacificar conflitos, juízes fazem girar as engrenagens da democracia constitucional e, ao assim agirem, estimulam o respeito ao funcionamento adequado do regime político escolhido pelo povo brasileiro. Por outro lado, a sociedade não espera de magistrados o comportamento que é próprio e típico de atores políticos. O bom juiz tem como predicados a prudência de ânimos e o silêncio na língua. Sabe o seu lugar de fala e o seu vocabulário próprio.

Igualmente, o tempo da Justiça não é o tempo da Política. Embora diuturnamente vigilantes para com a democracia e as instituições do país,os juízes precisam vislumbrar o momento adequado para erguer a voz diante de eventuais ameaças. Afinal, numa democracia, juízes não são talhados para tensionar. Nesse ponto, é de sabença que o relacionamento entre os Poderes pressupõe atuação dentro dos limites constitucionais, com freios e contrapesos recíprocos, porém com atuação harmônica e alinhamento entre si em prol da materialização dos valores constitucionais. Porém, harmonia e independência entre os poderes não implicam impunidade de atos que exorbitem o necessário respeito às instituições.

Permanecemos atentos aos ataques de inverdades à honra dos cidadãos que se dedicam à causa pública. Atitudes desse jaez deslegitimam veladamente as instituições do país; ferem não apenas biografias individuais, mas corroem sorrateiramente os valores democráticos consolidados ao longo de séculos pelo suor e pelo sangue dos brasileiros que viveram em prol da construção da democracia de nosso país. De Tiradentes à Esperança Garcia, da Princesa Isabel a Rui Barbosa, de Oswaldo Cruz à Irmã Dulce, a história brasileira é farta de exemplos que nos permitem vaticinar: o tempo é o melhor juiz de nossas trajetórias.

Daqui a algumas décadas, as próximas gerações, mais distanciadas das paixões que inebriam as controvérsias de nossos dias, saberão perfeitamente a quem reverenciar. As instituições sólidas republicanas e os bons propósitos,esses sim, permanecerão imorredouros. Por fim, como protagonistas de nossos tempos, não olvidemos que o maior símbolo da democracia é o diálogo. Nunca é tarde para o diálogo e para a razão. Sempre há tempo para o aprendizado mútuo, para o debate público compromissado com o desenvolvimento do país, e para a cooperação entre os cidadãos bem-intencionados.

Entretanto, relembro: palavras voam; ações fortificam. Diálogo eficiente pressupõe compromisso permanente com as próprias palavras. O brasileiro clama por saúde, paz, verdade e honestidade. Não deseja ver exacerbados os conflitos políticos; quer a democracia e as instituições em pleno funcionamento. Não quer polarizações exageradas; quer vacina, emprego e comida na mesa. Saibamos ouvir a voz das ruas para assimilarmos o verdadeiro diálogo que o Brasil, nesse momento tão sensível, reclama e deseja. Nós, do Supremo Tribunal Federal, ainda quando nossas atuações tenham que ser severas, jamais abdicaremos dos nossos deveres e responsabilidades. No exercício de nosso nobre mister constitucional, trabalharemos para que, onde houver hostilidade, construa-se respeito;onde houver fragmentação, estabeleça-se diálogo;e onde houver antagonismo, estimule-se cooperação.

No exercício dessa missão desafiadora que tem sido a Presidência deste Tribunal nesses tempos de pandemia e de dissonâncias, agradeço a colaboração incondicional dos meus pares, que ao meu lado tem unissonamente trabalhado na defesa institucional de nossa democracia e da Suprema Corte do Brasil. Seguindo os nossos bons desígnios, retomaremos a pauta de julgamentos do Plenário, exercendo nossa função presencialmente tão logo possível, pacificando conflitos constitucionais que contribuam para a segurança jurídica, para a garantia de um ambiente estável dos negócios e para o fortalecimento do nosso Estado Democrático de Direito.

Nesse ponto, cumprindo o meu dever de ofício, informo que 94% dos processos selecionados para julgamento por este Plenário, durante o segundo semestre de 2021, encontram-se vinculados a um ou mais Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas, conforme expressamos recentemente em evento global. Senhoras ministras, Senhores ministros, Senhoras e Senhores, nós do Supremo Tribunal Federal trabalhamos e existimos pelo povo brasileiro.

Que Deus nos abençoe nesta nova jornada.

Ministro Luiz Fux

REGIANE OLIVEIRA, de São Paulo para o EL PAÍS, em 02.08.2021

sábado, 31 de julho de 2021

Uma dívida fora dos padrões

Jogadas políticas ameaçam o acerto das contas fiscais e a contenção da dívida

Maior economia da América Latina, o Brasil se destaca também pelo peso da dívida pública, de R$ 6,73 trilhões, equivalente a 84% de seu Produto Interno Bruto (PIB). Esse endividamento supera de longe a média dos países emergentes e de renda média, estimado em 65% do PIB pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Supera até o valor do PIB de qualquer outra economia latino-americana. Reconhecida no Ministério da Economia como fora dos padrões, essa condição é percebida também, no mercado, pelos financiadores do governo, sempre atentos à situação financeira e ao grau de solvência de seus devedores. É preciso, segundo nota do Tesouro, levar o endividamento brasileiro a “níveis prudenciais” e assim “garantir os fundamentos para o crescimento econômico sustentável”. Pressões políticas e objetivos eleitorais serão os principais obstáculos.

A dívida bruta de R$ 6,73 trilhões aparece nas contas de junho do governo geral. Esse conjunto inclui as finanças da União, dos Estados e municípios e também do INSS. Entre maio e junho o quadro melhorou ligeiramente, com o peso da dívida passando de 84,6% para 84% do PIB, segundo as estatísticas fiscais elaboradas pelo Banco Central (BC), mensalmente, e divulgadas ontem.

Mas o Brasil continua muito longe do padrão médio de sua categoria. Além disso, o desafio real, neste ano e nos próximos, é controlar o endividamento e depois tentar reduzi-lo em relação ao PIB. Isso dependerá em parte do crescimento econômico e em parte da condução das finanças públicas.

A gestão financeira poderá ser perigosamente afetada pelas pressões do Centrão, agora instalado na Casa Civil da Presidência da República, pelos arranjos políticos do presidente Jair Bolsonaro e pela ação de vários ministros. Alguns deles defendem furar ou alterar o teto de gastos para dar espaço a um aumento do Bolsa Família. Esse aumento, defendido principalmente pelo ministro da Cidadania, João Roma, pode servir à campanha de reeleição do presidente Bolsonaro.

Na contramão das pressões políticas, a equipe econômica tem estudado uma alteração da meta fiscal de 2022, um déficit primário de R$ 170,5 bilhões. Tem-se discutido no Ministério da Economia uma redução desse rombo para algo próximo de R$ 100 bilhões, segundo o Estado. A melhora da receita, propiciada principalmente pela retomada econômica, poderia facilitar esse esforço de austeridade. Além disso, a reforma do Imposto de Renda proposta ao Congresso poderá proporcionar um ganho de arrecadação, mas isso ainda é muito incerto, porque há resistência ao projeto.

Com a recuperação da economia, depois da contração de 4,1% em 2020, o setor público tem arrecadado muito mais que no ano passado e, além disso, tem ficado livre de facilidades fiscais concedidas na pior fase da crise. Nesse quadro mais favorável, o déficit primário do setor público, no primeiro semestre, foi reduzido de R$ 402,70 bilhões em 2020 para R$ 5,21 bilhões neste ano, de acordo com o levantamento do BC. No caso do governo central, a redução foi de R$ 417,24 bilhões para R$ 55,15 bilhões. Governos estaduais e municipais foram superavitários.

Somados os juros, o resultado geral – ou nominal, pela nomenclatura do BC – foi um buraco de R$ 150,63 bilhões, ou 3,66% do PIB. Em 12 meses esse déficit bateu em R$ 589,69 bilhões, ou 7,36% do PIB. No período encerrado em janeiro a proporção era de 13,57%.

No começo de 2020, antes da pandemia, o Ministério da Economia fixou para a dívida bruta do governo geral o teto de 80% do PIB. Com a crise, esse limite foi estourado, mas algum avanço ocorreu em 2021. Para levar o endividamento a proporções mais aceitáveis, o governo precisará de superávits primários, mas isso, pelas projeções do mercado, só deverá ocorrer depois de 2024. O cenário inclui crescimento econômico de 5,30% neste ano, 2,10% em 2022 e 2,50% em cada um dos dois seguintes. Está pressuposta, naturalmente, alguma seriedade na gestão pública. O aumento do PIB em 2021 parece garantido. O resto dependerá do dia a dia das jogadas políticas.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de S.Paulo, em 31 de julho de 2021 | 03h00

Bolsonaro insulta o Brasil

É muito provável que Jair Bolsonaro continue sua campanha para minar a democracia, ao lançar dúvidas sobre a lisura das eleições

O presidente Jair Bolsonaro insultou o Brasil inteiro ao mobilizar as atenções do País para o espetáculo imoral e degradante que protagonizou na noite de quinta-feira. Usando recursos públicos, com transmissão pela TV Brasil e pelas redes oficiais da Presidência, desde o Palácio da Alvorada, residência oficial, e ao lado do ministro da Justiça, Anderson Torres, Bolsonaro disseminou mentiras escandalosas para minar a confiabilidade do sistema de votação brasileiro. Foi um ataque direto e inequívoco à democracia.

Bolsonaro passou a semana prometendo apresentar “provas” – uma “bomba”, segundo definiu – de que as urnas eletrônicas foram fraudadas para prejudicá-lo na eleição passada. Faz três anos que Bolsonaro anuncia ter as tais “provas”, mas nunca as mostrou. Chegado o momento, o presidente passou mais tempo ofendendo o Tribunal Superior Eleitoral – em particular seu presidente, ministro Luís Roberto Barroso, acusado por Bolsonaro de impedir que haja eleições “limpas”, para favorecer o petista Lula da Silva – do que demonstrando a alegada vulnerabilidade do sistema.

Quando afinal resolveu exibir as tais “provas”, limitou-se a mostrar vídeos com falsas denúncias que circulam há anos na internet, um deles produzido por um astrólogo que diz fazer acupuntura em árvores, e a dar crédito a análises estatísticas claramente distorcidas.

Por fim, admitiu candidamente que “não temos prova” e que “não tem como comprovar que as eleições foram ou não foram fraudadas”. Bolsonaro disse haver “indícios”, mas nem isso foi apresentado pelo presidente.

As agências de checagem de informações e a Justiça Eleitoral trabalharam dobrado para verificar, em tempo real, todas as mentiras de Bolsonaro. Mas, na prática, é ocioso esperar que a exposição da patranha seja suficiente para constranger o presidente, pois a mentira é a essência de Bolsonaro e do bolsonarismo.

Afinal, a Justiça Eleitoral já demonstrou inúmeras vezes que o sistema de votação, um dos mais modernos do mundo, é confiável e totalmente auditável. Ou seja, se tivesse um mínimo de boa-fé, Bolsonaro já teria abandonado suas acusações a respeito das urnas eletrônicas.

É muito provável, portanto, que Bolsonaro continue sua campanha para minar a democracia, ao lançar dúvidas sistematicamente sobre a lisura das eleições e ao informar, de forma clara, que não pretende aceitar o resultado do pleito do ano que vem, caso perca.

Evidência disso é que, no mesmo pronunciamento em que pretendeu desmoralizar o sistema de votação, Bolsonaro convocou sua militância a ir às ruas protestar contra o atual sistema de votação. “Eu tenho certeza, se eu pedir ao povo no dia tal, comparecer na Paulista, em São Paulo (...), vai comparecer 1 milhão de pessoas lá”, jactou-se. E emendou: “Se a demonstração popular não sensibilizar as autoridades do Brasil, o que podemos esperar? Que o povo se revolte? Queremos isso?”.

Trata-se de ameaça explícita de insurreição. Ao agir dessa maneira, Bolsonaro torna-se tóxico para a democracia e, convém lembrar, para quem a ele se alia.

Não faz muito tempo, acreditava-se que os militares da ativa e da reserva que integram o governo fossem capazes de moderar o presidente, um insubordinado desde seus tempos de Exército. Se tentaram, fracassaram.

Agora, imagina-se que o Centrão, na figura do novo ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, conseguirá refrear os ímpetos liberticidas de Bolsonaro, no mínimo para evitar um impeachment. Contudo, na mesma semana em que nomeou Ciro Nogueira, Bolsonaro chocou o País com seu pronunciamento golpista contra o sistema de votação, reiterou suas acusações levianas contra a Justiça Eleitoral, disse que o Supremo Tribunal Federal “cometeu crime” ao defender o princípio federativo no combate à pandemia de covid-19 e, de quebra, chamou os eleitores de Lula da Silva de “jumentos”.

Bolsonaro, portanto, é caso perdido. Mesmo que quisesse, não saberia ser moderado. O conflito permanente é seu combustível, e arruinar a democracia, sua meta. Nesse caso, só a lei é capaz de moderar Bolsonaro. Está na hora de aplicá-la.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de S.Paulo, em 31 de julho de 2021 | 03h00