sábado, 10 de outubro de 2026

O Brasil precisa escolher o seu futuro

Um país que não consegue escolher suas prioridades deixa que a falta de recursos faça por ele

Estamos começando a conhecer as propostas econômicas dos candidatos que disputarão o segundo turno da eleição presidencial. Mais do que promessas, seria importante saber como pretendem conciliar prioridades com recursos escassos.

Uma experiência recente da China oferece uma oportunidade interessante para essa discussão. Segundo a The Economist, a China prepara um programa de investimentos em infraestrutura estimado em US$ 3,7 trilhões nos próximos cinco anos. O objetivo não é simplesmente construir mais estradas ou ferrovias, mas desenvolver redes de energia, logística, telecomunicações e capacidade computacional, preparando a economia para as próximas transformações tecnológicas.

A tese é que o programa poderá beneficiar não apenas a China, mas também o restante do mundo. Ao absorver internamente parte de sua enorme capacidade industrial, o país poderá reduzir a pressão de seus excedentes produtivos sobre os mercados internacionais. No entanto, aqui existe um paradoxo.

A China já investe muito e consome relativamente pouco. Sem aumentar o consumo das famílias, os novos investimentos poderão ampliar ainda mais a capacidade de produção sem criar demanda interna suficiente para absorvê-la. Para isso, seria necessário fortalecer a proteção social, além de outras ações.

O Brasil enfrenta o problema inverso. Temos um mercado consumidor expressivo e uma estrutura abrangente de proteção social, mas investimos pouco. O País fez uma escolha legítima ao construir seu sistema de proteção social. O problema é a dificuldade de financiá-la de maneira sustentável. As despesas obrigatórias, os benefícios tributários e outros compromissos restringem a capacidade de investir. E, quando faltam recursos, os investimentos acabam frequentemente sacrificados.

A China está descobrindo que não basta investir para crescer. O Brasil precisa descobrir que não basta consumir para crescer. A lição chinesa não está no tamanho dos investimentos, mas na definição de prioridades para o futuro.

O próximo governo brasileiro deveria apresentar um programa de longo prazo que combinasse responsabilidade fiscal, preservação da proteção social e recuperação dos investimentos em infraestrutura, educação e produtividade.

Mas existe uma condição incontornável: não é possível financiar todas as prioridades simultaneamente sem saber como pagar a conta. Prometemos mais proteção social, mais investimentos, mais subsídios, menos impostos e equilíbrio fiscal sem explicar como isso é possível.

A pergunta mais importante aos candidatos não é quanto pretendem gastar, mas quais serão suas escolhas. Afinal, um país que não consegue escolher suas prioridades acaba deixando que a falta de recursos escolha por ele. •

Fábio Gallo, o autor, é Professor de Finanças da Fundação Getúlio Vargas. Publicado origialmente n´O Estado de S. Paulo.em 10.10.26.

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