sábado, 10 de outubro de 2026

Convicção ou Responsabilidade?

Além de perguntar se algum merece nosso voto, é preciso perguntar se a diferença entre as consequências de suas vitórias é grande o bastante para justificar uma escolha sem adesão

O primeiro turno da eleição presidencial deixou um retrato diferente daquele que os percentuais de votos válidos costumam mostrar. Dos 158,7 milhões de eleitores aptos a votar, Flávio Bolsonaro recebeu 56,1 milhões de votos, equivalentes a 35,3% do eleitorado; Lula, 53,9 milhões, ou 33,9%; e todos os demais candidatos, juntos, 9,3 milhões, ou 5,9%.

Restaram 39,4 milhões de eleitores, quase um quarto do total, que não deram voto válido a nenhum candidato: 6 milhões votaram em branco ou anularam e 33,5 milhões não compareceram às urnas.

Somados aos 9,3 milhões que votaram em outros candidatos, são quase 49 milhões de brasileiros, três em cada dez, que não deram seu voto a nenhum dos dois finalistas. Estou entre eles. Não formamos um bloco: não ter votado nos finalistas não significa rejeitar ambos. Mas imagino que parte desses eleitores se faça agora uma pergunta incômoda: o que fazer quando nenhum dos dois candidatos que chegaram ao segundo turno merece o nosso voto?

Quem vota em branco ou anula, qualquer que seja o motivo, deixa de participar da escolha entre os dois. Seu voto não é considerado válido nem é transferido a ninguém. E os brancos e nulos, mesmo que somados superem a votação do vencedor, não anulam a eleição.

Tenho enfrentado esse dilema desde muito antes da eleição. Pelo lado jurídico, a questão é simples. Pelo lado moral e político, nem tanto.

Para mim, o voto, além de ser um instrumento para escolher quem governará, é também um ato de consciência, pelo qual damos nossa contribuição pessoal para investir alguém da autoridade de governar. Reconheço, porém, que essa concepção não é pacífica.

Para quem entende o voto essencialmente como um instrumento de escolha, o caminho parece claro: diante de duas alternativas, cabe compará-las e escolher a melhor, ou a menos ruim. Mas, se o voto tem também uma dimensão de consciência, o eleitor pode estabelecer limites além dos quais não está disposto a dar sua aprovação a ninguém.

Hannah Arendt desconfiava da doutrina do “mal menor”. Escrevendo em circunstâncias incomparavelmente mais dramáticas do que as de uma eleição democrática, advertia para o risco de aceitarmos sucessivamente aquilo que consideramos errado porque a alternativa nos parece ainda pior. O contexto é outro, mas a pergunta continua perturbadora: existe um ponto em que escolher o menos ruim deixa de ser responsabilidade e passa a ser transigência com as próprias convicções?

Max Weber nos obriga a olhar para o outro lado. Em sua distinção entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade, não propunha que abandonássemos os princípios em nome das consequências. Via as duas como complementares. A convicção estabelece os limites dentro dos quais estamos dispostos a agir; a responsabilidade nos impede de ignorar os efeitos previsíveis de nossas decisões.

Conheço os dois lados por experiência. Em 2022, votei em Lula sem acreditar em seu projeto, porque via no adversário um risco para a democracia, e ali a responsabilidade falou mais alto. As instituições foram postas à prova e resistiram; o governo que ajudei a eleger me decepcionou profundamente, e essa parte da conta também é minha.

Votar em alguém não significa aderir a tudo o que essa pessoa representa. Pode ser apenas o reconhecimento de que as consequências de sua eleição serão preferíveis às da alternativa. A rejeição aos dois, portanto, não dispensa a comparação entre eles. Além de perguntar se algum merece nosso voto, é preciso perguntar se a diferença entre as consequências de suas vitórias é grande o bastante para justificar uma escolha sem adesão.

Mesmo depois de ponderá-las, o eleitor pode concluir que nenhum dos candidatos reúne as condições mínimas para receber seu voto. Nesse caso, votar em branco ou nulo não é necessariamente indiferença ou omissão. Pode ser uma decisão de consciência, tão refletida quanto a de escolher um candidato. A diferença é que, ao recusar ambos, o eleitor deixa aos demais a decisão sobre quem governará o país, sem se eximir das consequências.

A democracia organiza a escolha coletiva, mas não resolve o conflito de consciência de quem vota. Não há resposta que dispense o confronto entre convicção e responsabilidade. É desse confronto, necessariamente individual e solitário, que poderá nascer a melhor decisão sobre qual tecla apertar.

Pedro Parente, o autor, é economista e administrador de empresas. Publicado originalmente n`O Globo, em 10.10.26

Nenhum comentário: