O princípio simples e universal da bondade tornou-se revolucionário.
Turistas e moradores passeavam pelo centro de Sevilha no final de dezembro passado.(Crédito: David Arjona (EFE)
Os ingênuos. Os frágeis. As almas inocentes. Aqueles que chamam de preguiçosos, mornos, bem-intencionados e coisas piores. Aqueles que não gritam. Aqueles que escutam . Aqueles que se colocam no lugar dos outros, mesmo daqueles que não conhecem. Aqueles que se importam e perguntam como você está com genuína curiosidade. Os honestos, diretos e francos. Aqueles que revidam mesmo quando criticados, porque sempre criticam. Aqueles que fazem o que acreditam que devem fazer.
Aqueles que duvidam, mas compreendem claramente a diferença entre o certo e o errado. Aqueles que questionam, mas permanecem neutros; aqueles que questionam justamente para evitar a neutralidade. Aqueles que poderiam dormir profundamente, mas permanecem acordados. Aqueles que sofrem e convivem com um mal-estar que não é apenas seu, mas também afeta os outros. Aqueles que ousam dizer: "Não estou bem, algo está errado". Aqueles que se preocupam com os rumos que o mundo está tomando. Aqueles que sabem onde reside a injustiça e se rebelam contra ela.
Aqueles que argumentam que os mais fortes e oportunistas sempre vencem. Aqueles que acreditam que seus pequenos gestos, seus gestos insignificantes que ninguém parece notar, fazem a diferença, e constroem ao seu redor um pequeno, porém seguro refúgio, um oásis sem algoritmos. Os discretos. Os que dançam. Os que riem. Os que não passam os dias com raiva, sufocados pela amargura de suas recriminações. Os que reconhecem seus rancores e sabem o que fazer com sua raiva. Os que sabem qual é o seu lugar e de que ponto de vista devem olhar para os outros com desdém.
Aqueles que tentam mudar algo, mesmo reconhecendo que o mundo globalizado é, na verdade, controlado por poucos. Aqueles que acreditam na humanidade e lembram que, mesmo após os horrores da Segunda Guerra Mundial, Camus escreveu sobre a solidariedade entre as pessoas e elogiou aqueles que cumpriram seu dever, independentemente de sua ideologia. Aqueles que estendem a mão amiga. Aqueles que não perdem a esperança porque distinguem o realismo da resignação.
Aqueles que ouvem os gritos e ainda assim acham que vale a pena. Aqueles que se lembram, agora mais do que nunca, que a alegria se tornou revolucionária, mesmo que não alcance o mesmo nível de outro princípio simples e universal: tentar ser uma boa pessoa.
José Luis Sastre (Alberic, 1983), o autor deste artigo, é licenciado em Jornalismo pela Universidade Autónoma de Barcelona (UAB), tendo-se graduado com distinção. Trabalhou como redator, editor, correspondente político e apresentador na rádio Cadena SER. Criador de vários podcasts, atualmente apresenta o programa "Sastre y Maldonado". É subdiretor do programa radiofónico "Hoy por Hoy" e colunista do jornal "El País". É autor do livro "Las frases robadas" (Plaza y Janés). Publicado originalmente no EL PAÍS, em 11.03.26
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