Presidente adota comportamento errático para tornar eventuais blefes mais críveis. Cientistas políticos são céticos em relação à eficácia dessa tática em relações internacionais
O presidente Donald Trump durante entrevista coletiva na Casa Branca - Nathan Howard - 20.jan.26/Reuters
Com suas investidas e recuos, Donald Trump se consagra como usuário da estratégia do homem louco na teoria dos jogos.
Mesmo que o Agente Laranja não esteja muito familiarizado com Von Neumann e Morgenstern nem com os formuladores contemporâneos desse ramo da matemática aplicada, ele já jogou pôquer e é razoavelmente parecido. A ideia por trás dessa estratégia é que, se você de vez em quando se comportar como louco nas interações com outros "players", mais fácil será fazer com que seus blefes sejam aceitos. Você conseguirá arrancar mais concessões com menos esforço.
Ex-presidente dos Estados Unidos fala gesticulando com o braço direito estendido e dedo apontando. Ele está atrás de um púlpito com o selo presidencial, veste terno azul escuro, camisa branca e gravata vermelha. Bandeira dos EUA está ao fundo à direita.
Mas será que essa estratégia funciona? Cientistas políticos tendem a ser céticos quanto à sua eficácia nas relações internacionais. Ela seria até meio perigosa, ampliando o risco de escaladas. A lista de líderes ilustres que a utilizaram inclui Richard Nixon, Nikita Kruschev, Saddam Hussein, Muammar Gaddafi, além de Trump, Putin e Kim Jong-un.
Ainda é cedo para falar dos três últimos, mas os anteriores não terminaram bem. A atitude errática não ampliou consideravelmente seu poder de dissuasão, e a mensagem que julgavam transmitir nem sempre era a captada pelos oponentes.
Meu filho, que é fã de teoria dos jogos expressa em longas equações, diz que, se analisada em contextos mais específicos, nos quais o objetivo do governante esteja claramente definido, a estratégia pode valer a pena. E o problema de Trump e de outros líderes de potências é que eles operam com vários objetivos ao mesmo tempo. Há a geopolítica, a disputa por território, acesso a matérias-primas, relações comerciais etc. Há ainda a questão dos prazos (quatro anos ou quatro décadas) e de quanto os interesses do dirigente se aproximam ou se afastam dos do país.
A minha impressão é que Trump, a fim de enaltecer a própria biografia, sacrifica os interesses mais permanentes dos EUA. Ele já afastou aliados, destruiu a ordem global sob a qual o país prosperou, reduziu a capacidade das universidades de atrair cientistas, entre outras loucuras.
Hélio Schwartsman, o autor deste artigo, é Jornalista. Foi editor de opinião da Folha de S. Paulo. Publicado originalmente na edição de hoje, 24.01.26.
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