sábado, 24 de janeiro de 2026

O que é preciso para conter Trump? Não basta o ‘barulho político’

 Trump não se sustenta apenas nos radicais, mas numa coalizão real — republicanos, interior do país, parte do empresariado e eleitores que se sentem ignorados – que o torna resiliente

A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, ouve conversa do presidente Donald Trump com repórteres a bordo do Air Force One após deixar o Fórum Econômico Mundial, em Davos, rumo a Washington, na quinta-feira, 22 Foto: Evan Vucci/AP

Uma velha lenda indígena diz que, dentro de cada pessoa, moram dois lobos: um alimentado por empatia e prudência — o bem; outro, por medo, ressentimento e raiva — o mal. No fim, vence o lobo que a pessoa alimenta mais. Trump parece ter feito dessa disputa interna um método de governo.

Seu combustível não é apenas ganância — é status, dominação e a necessidade constante de conflito. Ele transforma adversários em inimigos, divergências em humilhação e política em vingança. E, como todo animal treinado para caçar, ele se fortalece quando o país inteiro entra na arena emocional que ele mesmo cria.

A despeito de todo esse aspecto negativo e contrário ao que se quis construir com o multilateralismo e diálogo, sua aprovação geral é de 41%, segundo Reuters/Ipsos. Trump não se sustenta apenas nos radicais, mas numa coalizão real — republicanos, interior do país, parte do empresariado e eleitores que se sentem ignorados – que o torna resiliente.

Afinal de contas, Trump é um mal ou um bem para a humanidade? Na perspectiva da paz ele alega que acabou com oito guerras em nove meses. Essa alegação é no mínimo exagerada — há intervenções e acordos parciais, mas “acabar com oito guerras” não se sustenta como fato estabelecido.

Na economia, elevou custos gerais, desorganizou cadeias e aumentou a volatilidade. Mas não devemos nos enganar que um discurso sobre ética ou tratar o que de bom ele poderia fazer para a humanidade vai tirá-lo da atual trajetória.

Trump é perigoso porque normaliza coerção e imprevisibilidade, recua quando precisa, mas insiste no objetivo. A única coisa que realmente o limita é o mercado e a economia real, tendo como ponto crítico a estrutura financeira dos EUA.

Hoje, os dados não mostram um cenário “derruba-Trump”. Pelo contrário, a inflação está abaixo de 3%, juro de longo prazo em torno de 4,25% e Bolsa perto de recorde. O que derrubaria Trump não é o barulho político, mas um tripé de ruptura com inflação explodindo, juros longos bem mais altos e Bolsa descendo de elevador.

Em resumo, Trump só fica vulnerável quando a dor do bolso vira real. Enquanto isso, o mundo ensaiou duas respostas. Mark Rutte, à frente da Otan, tentou domar a fera com pragmatismo, elogios e ganhos concretos. Lula seguiu pela via oposta: enfrentamento retórico e soberania — sem aceitar chantagem.

Derrubar Trump não é “ganhar dele”. É esvaziá-lo. É negar o combustível que o alimenta — medo, raiva e espetáculo. No fim, a fera cai quando deixa de receber comida.

Fabio Gallo, o autor deste artigo, é Professor de Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV - SP).  Publicado originalmente n'O Estado de S. Paulo, em 24.01.26

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