terça-feira, 8 de junho de 2021

Operação global usa app de mensagens desenvolvido pelo FBI para prender 800 pessoas em 17 países

Demanda pelo dispositivo Anon disparou conforme os policiais fechavam redes criptografadas rivais mais antigas e era recomendado por figura importante no mundo do crime

       Aplicativo Anom em uma tela de celular exibida em Paris; FBI comercializou aplicativo criptografado próprio para combater o crime  Foto: Olivier Morin/AFP

Quadrilhas de tráfico de drogas, assassinos contratados e traficantes de armas pensaram que estavam usando telefones criptografados seguros e de alto custo que os protegeriam enquanto discutiam abertamente as transações de drogas por mensagem de texto. Teve até fotos de abacaxis embalados com cocaína. Mas o que eles estavam realmente fazendo, investigadores revelaram nesta terça-feira, 8, era canalizar seus planos direto para as mãos de agentes de inteligência dos EUA.

Uma coalizão internacional de policiais e investigadores anunciou que havia capturado supostos criminosos em todo o mundo após induzi-los a usar telefones carregados com um aplicativo de mensagens criptografadas controlado pelo FBI.

Chefe da máfia turca faz sucesso com vídeos em que acusa autoridades de corrupção

O esforço audacioso - liderado pelo FBI, a polícia australiana e uma série de agências europeias de aplicação da lei - deu aos oficiais uma janela para as conversas das redes criminosas, enquanto as pessoas planejavam carregamentos de drogas ilegais, tramavam roubos e fechavam contratos para assassinatos.

Policiais - alguns dos quais mal conseguiram conter sua alegria nesta terça-feira - anunciaram que prenderam mais de 800 pessoas e ganharam um entendimento sem precedentes sobre o funcionamento de redes criminosas modernas que continuariam alimentando investigações muito além dos ataques internacionais coordenados que ocorreram recentemente.

"O esforço foi uma das maiores e mais sofisticadas operações de aplicação da lei até o momento na luta contra atividades criminosas criptografadas", disse Jean-Philippe Lecouffe, vice-diretor executivo de operações da Europol, a agência que coordena a atividade policial entre os 27 países da União Europeia, em uma entrevista coletiva em Haia.

Por quase três anos, os policiais estiveram virtualmente dentro no bolso de trás de algumas das principais figuras do mundo do crime. Celulares personalizados, comprados no mercado paralelo e instalados com a plataforma controlada pelo FBI, chamada Anom, circularam e cresceram em popularidade entre os criminosos à medida que entidades criminosas de alto perfil atestavam sua integridade.

O comissário da Polícia Federal Australiana, Rece Kershaw (D), e o primeiro-ministro Scott Morrison (L) em entrevista coletiva em Sydney  Foto: Dean Lewins/EFE

No passado, o FBI desarticulou plataformas criptografadas usadas por criminosos para se comunicarem e se infiltrou em outras. Desta vez, decidiu comercializar um aplicativo criptografado próprio para combater o crime organizado, o tráfico de drogas e as atividades de lavagem de dinheiro em todo o mundo. O esforço do FBI foi auxiliado por um colaborador pago que anteriormente havia comercializado outros dispositivos criptografados para membros do submundo do crime global.

Autoridades australianas revelaram a operação em virtude da necessidade de interromper tramas perigosas que estavam em curso no aplicativo e por causa do caráter limitado das autorizações legais para interceptar as mensagens. 

Além disso, segundo o FBI, a investigação foi encerrada perto do fim da autorização porque as provas reunidas já seriam suficientes, de acordo com Suzanne Turner, uma das responsáveis pelo caso nos EUA.

Mensagens diretas para a polícia

Um grande avanço veio depois que alguns policiais australianos se reuniram com agentes do FBI em 2018 para tomar algumas cervejas, de acordo com as autoridades. Os australianos, então, desenvolveram uma capacidade técnica para acessar, quebrar a criptografia e ler comunicações na plataforma do FBI. Os usuários acreditavam que seus dispositivos Anom estavam protegidos por criptografia. Eles realmente estavam, mas todas as mensagens também foram enviadas diretamente para os agentes da lei.

“Essencialmente, eles se algemaram ao endossar e confiar no Anom e se comunicar abertamente dentro dele - sem saber que estávamos assistindo o tempo todo”, disse o comissário da Polícia Federal Australiana, Reece Kershaw.

A operação global, conhecida como Operação Especial Ironside na Austrália e Trojan Shield nos Estados Unidos e na Europa, supostamente expôs criminosos ligados a cartéis de drogas sul-americanos, grupos de tríades na Ásia e quadrilhas criminosas com bases no Oriente Médio e na Europa. No total, 17 países participaram do esforço.

Imagem fornecida pela polícia da Nova Zelândia registra parte do dinheiro apreendido na operação policial global  Foto: New Zealand Police via AP

As autoridades disseram que as batidas nesses países nos últimos dias apreenderam mais de 8 toneladas de cocaína, 22 toneladas de maconha e haxixe, 2 toneladas de metanfetamina e anfetamina, 250 armas de fogo, 55 veículos de luxo e mais de US$ 48 milhões em dinheiro e criptomoedas.

"A operação desferiu um forte golpe contra o crime organizado não apenas neste país, mas que ecoará no crime organizado em todo o mundo", disse o primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison.

45 idiomas

Mais de 9 mil policiais estiveram envolvidos, examinando 27 milhões de mensagens enviadas por meio do aplicativo durante os 18 meses de operação. Os criminosos suspeitos usaram o aplicativo como um WhatsApp ilícito ou sistema de mensagem de texto, comunicando-se em 45 idiomas para trocar detalhes de suas atividades, disseram as autoridades. Os países com mais usuários foram Alemanha, Holanda, Espanha, Austrália e Sérvia, de acordo com um processo do FBI em um tribunal federal que foi aberto na noite de segunda-feira.

“Para se ter uma ideia da magnitude de nossa penetração, pudemos ver fotos de centenas de toneladas de cocaína escondidas em carregamentos de frutas. Conseguimos ver centenas de quilos de cocaína escondidos em produtos enlatados”, disse Calvin Shivers, diretor assistente da Divisão de Investigação Criminal do FBI, a repórteres em Haia. “Os resultados são surpreendentes.”

A demanda pelo dispositivo disparou conforme os policiais fechavam redes criptografadas rivais mais antigas, incluindo uma chamada EncroChat que foi desmontada em julho de 2020 e outra, Sky Global, que foi atacada em março. Antes disso, havia cerca de 3 mil usuários de dispositivos vigiados pelo FBI. Depois disso, esse número quase triplicou, disse o processo do FBI.

A operação foi revelada na terça-feira em parte porque um mandado de um terceiro país para encaminhar mensagens às autoridades dos EUA expirou em 7 de junho, disse o documento. O procurador interino dos EUA em San Diego Randy Grossman anunciou na terça-feira que seu escritório acusou 17 estrangeiros de distribuir milhares de dispositivos de comunicação criptografados para grupos criminosos. Oito deles, disse ele, foram presos. Os demais são considerados fugitivos.

“A grande ironia aqui é que os próprios dispositivos que esses criminosos estavam usando para se esconder da polícia eram na verdade faróis para a aplicação da lei”, disse Grossman em um comunicado. 

O procurador americano Randy Grossman apresenta algumas das apreensões na operação global   Foto: Denis Poroy/AP

Os usuários normalmente pagam entre US$ 1.500 e US$ 2.000 por um plano de serviço de seis meses para esses dispositivos e normalmente só conseguem ter acesso ao receber o sinal verde de um usuário atual, afirma o documento, uma etapa que aumenta a confiança do usuário. 

Em uma entrevista coletiva para anunciar a operação, as autoridades americanas disseram que, embora a tecnologia de criptografia tenha benefícios, a operação mostra como pode ser explorada por atores nefastos. “A criptografia também permite que os criminosos operem no mesmo ambiente seguro e protegido, ocultando suas comunicações em um manto de sigilo”, disse Suzanne Turner, a agente especial encarregada do FBI em San Diego.

Policiais globais tiveram sorte com Anom logo no início porque um membro do submundo do crime australiano, Hakan Ayik, um dos criminosos mais procurados do país, elogiou o dispositivo para seus associados e encorajou sua adoção.

“Ele era um dos coordenadores deste dispositivo em particular. Então, ele basicamente entregou seus próprios colegas”, disse Kershaw, o comissário de polícia australiano, a repórteres na terça-feira, dizendo que ele deveria se entregar, considerando a ameaça que enfrenta.

Detalhes

As autoridades descreveram o esforço abrangente e perturbador que esperam que resulte em um sério revés para as redes criminosas em seus países. O processo judicial dos EUA ofereceu detalhes das interações que as autoridades testemunharam no aplicativo: disputas intrincadas sobre os custos de distribuição de drogas, fotos das formas como as drogas eram escondidas, interações amigáveis entre supostos criminosos.

“Há 2 kg colocados em envelopes diplomáticos franceses selados de Bogotá (Colômbia)", escreveu um usuário em março de 2020. “'O único problema é que o COL leva 50/4 Parceiros, incluindo você, precisarão dividir outros 50”.

O processo explicava que os distribuidores colombianos ficariam com 50% dos lucros dos carregamentos de cocaína escondidos na mala diplomática, enquanto outras quatro pessoas dividiriam o restante.

Na Austrália, a polícia usou informações enquanto a operação estava em andamento para apreender 3,7 toneladas de drogas, 104 armas e cerca de US$ 35 milhões em dinheiro. Durante esse tempo, os supostos criminosos não tinham ideia de por que suas drogas estavam sendo apreendidas e suas tramas frustradas, disse a polícia.

A polícia disse que interrompeu uma série de possíveis homicídios, incluindo um complô envolvendo planos para atirar em uma família de cinco pessoas em um café.

Na Suécia, que lutou contra as redes de drogas nos últimos anos, um alto funcionário disse que as autoridades realizaram um dos ataques mais importantes de todos os tempos contra o crime violento e as redes de drogas.

A oficial Linda Staaf, chefe de inteligência da Autoridade Policial Sueca, disse que nos últimos dias, 70 pessoas foram presas. "Muitas delas eram pessoas com papéis essenciais e forte influência no mercado de drogas: aqueles que instigam assassinatos e violência por tiroteios e explosões bem no meio da sociedade sueca.” 

As autoridades dos EUA disseram que entre os presos estavam seis policiais corruptos.

Uma importante oficial da polícia holandesa ficou satisfeita com o que considerou o sucesso do aplicativo. “Tem boa reputação entre os criminosos. Eles o promovem mutuamente como a plataforma que você deve usar para sua confiabilidade absoluta”, disse Jannine van den Berg, comissária-chefe da unidade nacional da polícia holandesa. “Mas nada estava mais longe da verdade.”/

Redação, O Estado de S.Paulo, em 08 de junho de 2021 | 17h09. Atualizado 08 de junho de 2021 | 19h49 NYT e WASHINGTON POST

Presidente do STF rebate líder do governo que defendeu descumprir decisões judiciais

Deputado Ricardo Barros (Progressistas-PR) criticou o Judiciário e disse que 'vai chegar a hora' de decisões judiciais deixarem de ser cumpridas

O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Fux. Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, reagiu nesta terça-feira, 8, às declarações do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressistas-PR), sobre descumprir decisões judiciais. “O respeito a decisões judiciais é pressuposto do Estado Democrático de Direito”, disse Fux ao Estadão.

Horas antes, em um evento organizado pelo jornal Correio Braziliense e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Barros criticou o Judiciário e disse que “vai chegar a hora” de decisões judiciais deixarem de ser cumpridas.

A ameaça de descumprimento surgiu enquanto o parlamentar falava sobre o que ele considerou como “avanços do Judiciário sobre prerrogativas” do Poder Executivo.

Ao comentar a determinação do STF para que o governo realize o censo demográfico em 2022, o parlamentar reclamou de decisões que não têm “nenhum fundamento”.

“O Judiciário vai ter que se acomodar nesse avançar nas prerrogativas do Executivo e Legislativo. Vai chegar uma hora em que vamos dizer (para o Judiciário) que simplesmente não vamos cumprir mais. Vocês cuidam dos seus que eu cuido do nosso, não dá mais simplesmente para cumprir as decisões porque elas não têm nenhum fundamento, nenhum sentido, nenhum senso prático”, afirmou.

No evento, voltado a debater a reforma tributária, o líder do governo na Câmara sugeriu que a legislação tenha mecanismos que permitam que empresários reajam a juízes, promotores de Justiça e auditores fiscais.

Essas categorias, para o deputado, formam uma “classe de inimputáveis” que fazem “ativismo político” e precisam ser enfrentados. O fato de moverem processos e aplicarem multas e penalidades que, mais tarde, acabam sendo revistas deveria resultar em reparações, na opinião do deputado.

“Promotores, juízes, auditores fiscais podem ir na sua empresa, lhe multar em R$ 100 milhões, bloquear seus bens para garantir esses R$ 100 milhões. E, depois de 10 anos, você vai no conselho de contribuintes, ganha, e o que acontece? Nada”, disse, antes de prosseguir:

“Quando a nossa Constituição diz que todos somos iguais perante a lei, precisamos fazer valer isso porque essa classe de inimputáveis, que faz ativismo político, que prejudica a tantos… para eles é apenas um comentário no cafezinho do fórum: ‘você viu o que eu fiz?’. Isso é uma coisa que o Brasil tem que enfrentar. Se não enfrentarmos, não vamos avançar”.

Vinícius Valfré, de BRASÍLIA para O Estado de S. Paulo, em 08 de junho de 2021 | 18h37

Brasil supera 17 milhões de infectados pelo coronavírus

País teve 52.911 novos casos de covid-19, o que eleva o total de pessoas infectadas para 17.037.129. Com 2.378 novas mortes, número de óbitos em solo brasileiro é de 476.792.    

Vários leitos ocupados vistos de cima em hospital de campo em São Paulo. Total de infecções de covid-19 no Brasil chega a 17.037.129, e os óbitos somam 476.792.

Total de infecções de covid-19 no Brasil chega a 17.037.129, e os óbitos somam 476.792

O Brasil registrou oficialmente nesta terça-feira (08/06) 2.378 mortes ligadas à covid-19, segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass).

Também foram confirmados 52.911 novos casos da doença. Com isso, o total de infecções no país chega a 17.037.129, e os óbitos somam 476.792.

Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que os números reais devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação.

O Conass não divulga número de recuperados. Segundo o Ministério da Saúde, 15.408.401 pacientes haviam se recuperado da doença até estar terça-feira.

Em números absolutos, o Brasil é o segundo país do mundo com mais mortes, atrás apenas dos Estados Unidos, que somam mais de 598 mil óbitos. É ainda o terceiro país com mais casos confirmados, depois de EUA (33,3 milhões) e Índia (28,9 milhões).

Já a taxa de mortalidade por grupo de 100 mil habitantes subiu para 226,9 no Brasil, a 10ª mais alta do mundo, quando desconsiderado o país nanico de San Marino.

Ao todo, mais de 173,7 milhões de pessoas contraíram oficialmente o coronavírus no mundo, e foram notificadas 3,74 milhões de mortes associadas à doença.

Deutsche Welle Brasil, em 08.06.2021

PF indicia líder do governo Bolsonaro sob suspeita de propina de R$ 10 milhões em obras no Nordeste

Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) teria recebido valores em troca de benefícios a construtoras quando era ministro da Integração Nacional

O senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) durante reunião da comissão mista que analisa a Medida Provisória 870/19 - Marcelo Camargo/Agência Brasil

A Polícia Federal indiciou o senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-AL), líder do governo de Jair Bolsonaro no Senado, e seu filho, o deputado Fernando Coelho Filho, por suspeita dos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, associação criminosa, falsidade ideológica e omissão de prestação de contas.

A delegada do caso afirma em seu relatório final de 300 páginas ter encontrado indícios que demonstram que pai e filho receberam R$ 10,4 milhões das empreiteiras OAS, Barbosa Mello, S/A Paulista e Constremac entre os anos de 2012 e 2014.

Os pagamentos, diz a PF, são vantagens indevidas porque foram “realizadas em contrapartida à execução de obras atreladas ao Ministério da Integração Nacional” no governo de Dilma Rousseff (PT), à época comandado pelo atual líder do governo.

O senador ocupou o cargo de ministro entre janeiro de 2011 e outubro de 2013.

Uma das obras citadas é a transposição do rio São Francisco, em que todas as empresas atuavam como contratadas.

O indiciamento é um desdobramento do inquérito aberto pela PF com base no acordo de colaboração de operadores financeiros pernambucanos que atuavam no financiamento e também na intermediação de repasses ao grupo político do senador.

A PF chegou até eles a partir da operação Turbulência, responsável por apurar a compra do avião que caiu em Santos (SP), em 2014, com o então candidato à Presidência Eduardo Campos (PSB).

Os operadores, capitaneados por João Carlos Lyra e Eduardo Leite, assinaram um acordo de colaboração premiada com a procuradoria-Geral da República e detalharam a estrutura financeira que teria sido utilizada nos repasses.

“O recebimento de tais valores ocorreu por um intrincado esquema de movimentação financeira ilícita, como também ocultação de ativos obtidos por meio criminoso, com a crível finalidade de integrar patrimônio adquirido de forma escusa”, afirma a PF.

Em setembro de 2019, para avançar na apuração sobre os relatores dos delatores, o ministro Luís Roberto Barroso, relator do inquérito, autorizou busca e apreensão em endereços do senador, inclusive em seu gabinete. A ação foi batizada de operação Desintegração.

O material apreendido, depoimentos colhidos e dados de quebras de sigilo bancário e telemático são utilizados pela delegada Andréa Pinho Albuquerque da Cunha para detalhar como os valores das empreiteiras teriam transitado por empresas dos operadores e chegaram a pessoas e firmas ligadas ao atual líder do governo Bolsonaro no Senado.

Segundo a PF, as provas amealhadas mostram que as empresas dos operadores financeiros repassaram valores para uma revendedora de veículos, a Bari Automóveis, de Petrolina (PE).

E-mails e mensagens por aplicativos indicam que o senador era quem exercia “efetivamente o poder decisório” na empresa em nome de um familiar.

Também foram encontrados pelos investigadores repasses para empresas ligadas a aliados políticos de Bezerra em Pernambuco e para prestadores de serviço das campanhas de pai e filho.

Uma troca de e-mail da secretária de Bezerra Coelho com uma integrante do diretório do PSB, partido do senador à época, citado pela PF sugere que a empreiteira Barbosa Mello teria sido responsável pelo pagamento de advogados do político.

Sobre a relação do senador com a construtora baiana OAS, a PF fala em “pagamentos sistemáticos” entre 2012 e 2014 e cita as obras da transposição do São Francisco e do Canal do Sertão como contrapartida pelos pagamentos.

Além das informações dos delatores e das transações mapeadas entre a empreiteira e os operadores financeiros, a PF também cita planilhas de um diretor da OAS com referências a pagamentos ao senador.

“A OAS também pagou parte das vantagens indevidas por meio de doações oficiais às campanhas políticas dos candidatos ou a seus partidos”, diz a PF.

A PF aponta para Iran Padilha Modesto, ex-assessor do senador, como seu intermediário entre os operadores financeiros e empreiteiras.

No relatório final, a delegada afirma que ele atuava na “arrecadação de receitas para as campanhas de integrantes da família Coelho” e na “operacionalização do recebimento da propina paga pelas empreiteiras executoras de obras”.

Além do indiciamento, a delegada pede no relatório o bloqueio de R$ 20 milhões em bens do senador e do filho dele.

O valor foi estimado como “o proveito econômico por eles auferidos com as práticas criminosas” comprovadas, segundo a PF.

A defesa do senador afirma que "o relatório final do Inquérito 4513 não passa de opinião isolada de seu subscritor, que, inclusive, se arvora em atribuições que sequer lhe pertencem, sem qualquer força jurídica vinculante".

Segundo os advogados André Callegari e Ariel Weber, a investigação "é mais uma tentativa de criminalização da política, como tantas outras hoje escancaradas e devidamente arquivadas".

Painel da Folha de São Paulo, editado por Camila Mattoso. Reproduzido pelo UOL, em 08.06.2021.

Líder do governo diz que ‘vai chegar a hora’ em que decisões do Judiciário não serão mais cumpridas

Ameaça foi feita ao comentar a determinação do STF para que o governo realize o censo demográfico em 2022

O líder do governo na Câmara, deputado federal Ricardo Barros (Progressistas-PR) Foto: Gabriela Biló/Estadão

O líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (Progressistas-PR), criticou nesta terça-feira, 8, o poder Judiciário e disse que chegará um momento em que as decisões judiciais “simplesmente” não serão mais cumpridas.

A ameaça de desrespeito às decisões judiciais foi feita ao comentar a determinação do Supremo Federal Tribunal (STF) para que o governo realize o censo demográfico em 2022. Barros criticou a decisão dizendo que “ninguém vai abrir a porta para o recenseador no meio da pandemia”.

“O Judiciário vai ter que se acomodar nesse avançar nas prerrogativas do Executivo e Legislativo. Vai chegar uma hora em que vamos dizer (para o Judiciário) que simplesmente não vamos cumprir mais. Vocês cuidam dos seus que eu cuido do nosso, não dá mais simplesmente para cumprir as decisões porque elas não têm nenhum fundamento, nenhum sentido, nenhum senso prático”, afirmou em evento organizado pelo jornal Correio Braziliense e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

O deputado disse ainda ser preciso enfrentar o que chamou de “classe de inimputáveis”, composta, segundo ele, por promotores, juízes e auditores fiscais que “fazem o que querem". “Se um promotor te ofender, não acontece nada. O Brasil tem que enfrentar isso”, completou.

Não é a primeira vez que Barros faz declarações críticas a decisões do Judiciário. Em entrevista ao Estadão em fevereiro, o parlamentar defendeu a contratação de parentes de políticos para cargos públicos, o nepotismo. A prática foi proibida pelo STF em 2008 por violar o princípio constitucional da impessoalidade na administração. 

“O poder público poderia estar mais bem servido, eventualmente, com um parente qualificado do que com um não parente desqualificado”, afirmou Barros na época. Na ocasião, ele defendeu a derrubada de artigo da Lei de Improbidade Administrativa que prevê punição ao nepotismo, em discussão na Câmara.

Em maio deste ano, o presidente Jair Bolsonaro nomeou a ex-governadora do Paraná Maria Aparecida Borghetti, mulher do deputado, para compor o conselho da Itaipu Binacional. No caso dela, a nomeação não configura nepotismo porque, embora Barros exerça a função de líder do governo na Câmara, o deputado não tem vínculos formais com o Executivo. O conselho da Itaipu se reúne a cada dois meses e seus integrantes recebem salários de cerca de R$ 25 mil.

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo, em 08 de junho de 2021 | 14h43

Chavismo caboclo

A escalada da crise protagonizada pelo presidente Jair Bolsonaro com os militares sugere que o País corre o sério risco de sofrer forte degradação democrática, a ponto de assemelhar-se à Venezuela chavista.

“Os militares daqui estão enfrentando o que os da Venezuela enfrentaram no início do período chavista”, comparou Raul Jungmann, que foi ministro da Defesa no governo de Michel Temer. Em entrevista ao Estado, Jungmann disse que “Bolsonaro persegue o modelo de Chávez”, isto é, quer transformar as Forças Armadas em braço do bolsonarismo. “Os militares, aqui como lá, guardadas as devidas proporções, evitam o confronto direto com o comandante para não ferir a Constituição, mas o dilema é que assim correm o risco de ver a Constituição destruída junto com a hierarquia e a disciplina”, alertou Jungmann.

Na mesma linha foi o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia. Também ao Estado, Maia descreveu como Bolsonaro está seguindo rigorosamente o manual chavista: tenta envenenar o processo eleitoral, ao questionar as urnas eletrônicas; hostiliza a imprensa livre; intervém na estatal de petróleo, submetendo-a a seus interesses políticos; busca transformar as Polícias Militares estaduais em milícias bolsonaristas; neutraliza o Congresso por meio de distribuição desavergonhada de verbas, abaixo dos radares republicanos; e ataca sistematicamente o Supremo Tribunal Federal, além de inocular os órgãos de fiscalização e controle com a toxina bolsonarista. Como disse a historiadora Lilia Schwarcz à revista The Economist, basta ler o Diário Oficial para perceber que Bolsonaro dá “um golpe por dia”.

Já advertimos várias vezes, neste espaço, sobre a marcha bolsonarista rumo a uma versão cabocla do chavismo (ver especialmente os editoriais O bê-á-bá do chavismo, de 31/1/21, e A hora da verdadeira oposição, de 4/2/21). Os sinais dessa degeneração são tão evidentes que não podem ser mais ignorados, especialmente agora, quando Bolsonaro dá um passo concreto na tentativa de transformar as Forças Armadas em sua guarda pretoriana.

A crise está contratada. Ao levantar dúvidas sobre o processo eleitoral, ao mesmo tempo que amalgama os militares a seu governo, Bolsonaro semeia confusão e tenta intimidar quem porventura não aceite viver sob seu tacão.

Há um ano, à TV Cultura, o ministro do Supremo Tribunal Federal e presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso, descreveu com precisão o cerne do problema: “As Forças Armadas não podem se identificar com o governo porque numa democracia existe alternância de poder. Se as Forças Armadas são governo e o governo é derrotado nas urnas, as Forças Armadas são derrotadas e acabou. Evidentemente isso não pode acontecer”. Na mesma ocasião, o ministro Barroso também já alertava para o que chamou de “chavização”, isto é, a multiplicação de militares em cargos no governo: “Isso é o que aconteceu na Venezuela”.

Não é prudente ignorar tantos alertas e tantos sinais. Quando Bolsonaro se refere ao Exército como “meu Exército”, não é mera figura de linguagem. Ao dobrar o número de militares no governo em relação à administração de Temer, Bolsonaro deixou claro que pretendia enredar as Forças Armadas em seus devaneios golpistas. Considerando-se que cresceu em cerca de 30% a presença de militares da ativa no governo, essa relação fica ainda mais forte – e o caso da submissão humilhante de um general, Eduardo Pazuello, aos interesses de Bolsonaro, sob a vista grossa do Comando do Exército, foi o ponto alto, até agora, dessa genuflexão militar ao presidente.

Timidamente, o Congresso começa a reagir à militarização do governo promovida pelo bolsonarismo, ao articular uma Proposta de Emenda Constitucional que proíbe a atuação de militares da ativa em cargos de natureza civil no Executivo. É uma medida necessária, pois aos militares da ativa é vedada a atividade política – que é essencialmente o que se faz num governo. Mas talvez seja tardia: a esta altura, a identificação forçada por Bolsonaro entre ele e os militares já não depende mais de quem usa o crachá do governo.

A escalada da crise protagonizada por Jair Bolsonaro com os militares sugere que o País corre o sério risco de assemelhar-se à Venezuela chavista     

 A escalada da crise protagonizada pelo presidente Jair Bolsonaro com os militares sugere que o País corre o sério risco de sofrer forte degradação democrática, a ponto de assemelhar-se à Venezuela chavista.

“Os militares daqui estão enfrentando o que os da Venezuela enfrentaram no início do período chavista”, comparou Raul Jungmann, que foi ministro da Defesa no governo de Michel Temer. Em entrevista ao Estado, Jungmann disse que “Bolsonaro persegue o modelo de Chávez”, isto é, quer transformar as Forças Armadas em braço do bolsonarismo. “Os militares, aqui como lá, guardadas as devidas proporções, evitam o confronto direto com o comandante para não ferir a Constituição, mas o dilema é que assim correm o risco de ver a Constituição destruída junto com a hierarquia e a disciplina”, alertou Jungmann.

Na mesma linha foi o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia. Também ao Estado, Maia descreveu como Bolsonaro está seguindo rigorosamente o manual chavista: tenta envenenar o processo eleitoral, ao questionar as urnas eletrônicas; hostiliza a imprensa livre; intervém na estatal de petróleo, submetendo-a a seus interesses políticos; busca transformar as Polícias Militares estaduais em milícias bolsonaristas; neutraliza o Congresso por meio de distribuição desavergonhada de verbas, abaixo dos radares republicanos; e ataca sistematicamente o Supremo Tribunal Federal, além de inocular os órgãos de fiscalização e controle com a toxina bolsonarista. Como disse a historiadora Lilia Schwarcz à revista The Economist, basta ler o Diário Oficial para perceber que Bolsonaro dá “um golpe por dia”.

Já advertimos várias vezes, neste espaço, sobre a marcha bolsonarista rumo a uma versão cabocla do chavismo (ver especialmente os editoriais O bê-á-bá do chavismo, de 31/1/21, e A hora da verdadeira oposição, de 4/2/21). Os sinais dessa degeneração são tão evidentes que não podem ser mais ignorados, especialmente agora, quando Bolsonaro dá um passo concreto na tentativa de transformar as Forças Armadas em sua guarda pretoriana.

A crise está contratada. Ao levantar dúvidas sobre o processo eleitoral, ao mesmo tempo que amalgama os militares a seu governo, Bolsonaro semeia confusão e tenta intimidar quem porventura não aceite viver sob seu tacão.

Há um ano, à TV Cultura, o ministro do Supremo Tribunal Federal e presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso, descreveu com precisão o cerne do problema: “As Forças Armadas não podem se identificar com o governo porque numa democracia existe alternância de poder. Se as Forças Armadas são governo e o governo é derrotado nas urnas, as Forças Armadas são derrotadas e acabou. Evidentemente isso não pode acontecer”. Na mesma ocasião, o ministro Barroso também já alertava para o que chamou de “chavização”, isto é, a multiplicação de militares em cargos no governo: “Isso é o que aconteceu na Venezuela”.

Não é prudente ignorar tantos alertas e tantos sinais. Quando Bolsonaro se refere ao Exército como “meu Exército”, não é mera figura de linguagem. Ao dobrar o número de militares no governo em relação à administração de Temer, Bolsonaro deixou claro que pretendia enredar as Forças Armadas em seus devaneios golpistas. Considerando-se que cresceu em cerca de 30% a presença de militares da ativa no governo, essa relação fica ainda mais forte – e o caso da submissão humilhante de um general, Eduardo Pazuello, aos interesses de Bolsonaro, sob a vista grossa do Comando do Exército, foi o ponto alto, até agora, dessa genuflexão militar ao presidente.

Timidamente, o Congresso começa a reagir à militarização do governo promovida pelo bolsonarismo, ao articular uma Proposta de Emenda Constitucional que proíbe a atuação de militares da ativa em cargos de natureza civil no Executivo. É uma medida necessária, pois aos militares da ativa é vedada a atividade política – que é essencialmente o que se faz num governo. Mas talvez seja tardia: a esta altura, a identificação forçada por Bolsonaro entre ele e os militares já não depende mais de quem usa o crachá do governo.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de S.Paulo, em 08 de junho de 2021 

Sensação de vitória de Bolsonaro no caso Pazuello é só sensação. Alerta disparou

É indefensável que oficiais e policiais se calem em nome da disciplina e da hierarquia, aponta Eliane Cantanhêde em comentário publicado hoje pelo O Estado de S.Paulo.

Foram dois movimentos paralelos, mas têm tudo a ver e acendem a luz amarela em gabinetes e consciências neste país: a decisão do comandante do Exército, que jogou no lixo os princípios basilares das Forças Armadas para agradar ao presidente Jair Bolsonaro, e o ataque também covarde da polícia pernambucana a manifestantes pacíficos, para testar limites da nossa democracia. 

Tudo está dominado e é indefensável que oficiais e policiais se calem em nome da disciplina e da hierarquia. O capitão insubordinado e suas tropas podem implodir esses princípios à vontade, porque os que teriam de garanti-los alegam que “têm de respeitar a hierarquia”. 

Ele se lixa para os protocolos das três Forças, como já fazia há mais de 30 anos, na ativa, mas os que prezam a farda e estão indignados, estupefatos, adotam a mesma postura que criticam do comandante Paulo Sérgio: condenam, mas aos sussurros, no conforto dos seus lares. 

Bem fizeram os generais Fernando Azevedo e Silva e Edson Pujol, o almirante Ilques Barbosa e o brigadeiro Antônio Carlos Bermudes, ao comandar as Forças Armadas como instituições de Estado, não de governos que vêm e vão. Eles tinham um limite e caíram por saber de que lado da história ficar. Agora, precisam agir e falar. 

Devem estar se remoendo diante da decisão de Paulo Sérgio, com aval do Alto Comando, de deixar para lá a grave insubordinação de Pazuello, que passou por cima do Estatuto Militar e do Regimento Disciplinar do Exército para se aboletar num trio elétrico da campanha pré-eleitoral de Bolsonaro. Nem uma mísera advertência? 

A desculpa de Pazuello é que não era ato político. Não?! Então, era o quê?! Ele, deliberadamente, fez o comandante e o Alto Comando de bobos. E só fez isso, e deve ter dado gargalhadas ao fazê-lo, porque tinha costas quentes. “O que manda” engoliu “os que obedecem”, de véspera, na Amazônia. Instalou-se a anarquia, é só aguardar as eleições de 2022 para ver. 

Ao pularem no barco de Bolsonaro em 2018, os militares achavam que teriam a bússola e o manche. Ledo engano. O capitão encheu o Planalto de generais e o governo de variadas patentes, mas subjugou todos eles. “Quem manda sou eu”, repete, enquanto dá medalha para o dócil comandante do Exército e um gordo aumento para “seus generais”, em meio à pandemia e ao desemprego feroz. 

Não se ouve nenhum oficial-general das três Forças capaz de defender a impunidade absurda de Pazuello, mas, aparentemente, empurraram para dois civis, os ex-ministros da Defesa Raul Jungmann e Aldo Rebelo, o papel de porta-vozes do descontentamento. Entre corajosas exceções, mais uma vez, o general Santos Cruz. 

Como satisfação, ou tentativa de acalmar os ânimos, oficiais sérios e com senso de responsabilidade informam que a sensação de vitória de Bolsonaro no episódio é só isso mesmo, uma sensação. Segundo eles, o presidente alimentou a cizânia, aprofundou a divisão e disparou o sinal de alerta. Onde ele quer chegar? Quer fazer as Forças Armadas de marionetes? 

Essas questões se tornam ainda mais inquietantes com o comandante da PM do DF usando o slogan eleitoral de Bolsonaro (“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”), e vai-se desenrolando o fio que permitiu que a polícia de Pernambuco cegasse dois civis indefesos num protesto pacífico. 

As outras duas pontas já estão desencapadas: o vínculo comprovado com as milícias e a obsessão de armar e ampliar a munição de civis. 

Se Bolsonaro perder a reeleição e um bando de alucinados invadir o Congresso e o Supremo, o que fará a PM? E como reagirão as Forças Armadas? Esse risco é tão óbvio que só não vê quem não quer. O Exército não quer ver? E a Marinha? E a Aeronáutica? Todos vão tapar olhos, ouvidos e bocas, esperando o carnaval chegar?

Eliane Cantanhede é comentarista da Rádio Eldorado, da Rádio Jornal (PE) e do Telejornal GloboNews "Em Pauta". Este artigo foi publicado originalmente n'O Estado de São Paulo, em 08.06.2021

Mandetta: “Se tiver 3, 4, 5 candidaturas de centro, não conte comigo. Acho que é entrar para vencer a eleição”

Ex-ministro da Saúde tem viajado o país para tentar costurar uma aliança de centro em 2022. Médico avalia que a CPI da Pandemia ainda atua de forma errática e critica manifestações contra o Governo, que segundo ele, geram aglomerações e contribuem para proliferar o coronavírus

Luiz Henrique Mandetta em Brasília, em fevereiro de 2020, quando ainda era ministro da Saúde, no início da crise sanitária no país.ADRIANO MACHADO / REUTERS

Depois de assumir o protagonismo da gestão contra a pandemia de coronavírus por meio de coletivas de imprensa diárias, no início da crise sanitária no Brasil, e de irritar o presidente Jair Bolsonaro, que o demitiu, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (Campo Grande, 1964) diz “estar pronto” para as eleições presidenciais de 2022. Ele tem viajado para várias cidades e articulado conversas com nomes que vão de Ciro Gomes (PDT) a João Dória (PSDB) em busca de construir uma terceira via alinhada ao “centro político” ―em alternativa a Lula e a seu ex-chefe, Bolsonaro, que lideram as últimas pesquisas eleitorais. Em entrevista dada por vídeoconferência ao EL PAÍS, na última segunda-feira, ele diz acreditar que há grande margem política para trabalhar o campo alternativo e diz buscar um consenso para não fragmentar as opções. “Se fragmentar esse centro, se tiver três, quatro, cinco candidaturas, não conte comigo. Eu não vou fazer esse papel pra conspirar, para que os extremos consigam, com os seus cercadinhos de radicais, ir pro segundo turno. Acho que é pra entrar para vencer a eleição”, defende. Mandetta não descarta que ele próprio seja o nome para representar este centro político, com o capital eleitoral que ganhou após deixar o Governo em abril do ano passado por discordâncias com Bolsonaro sobre medidas de isolamento social e o uso de cloroquina na pandemia.

O médico, que tem feito inúmeras críticas ao mandatário e depôs na CPI da Pandemia no início do mês, avalia que a comissão do Senado ainda está sendo trabalhada de forma errática ao discutir o uso da cloroquina, embora veja bastante material para identificar a digital de Bolsonaro na demora para comprar vacinas. “Eu me arrependo de ter acreditado que Bolsonaro queria um trabalho técnico”, afirma.

Pergunta. Você tem se colocado na linha de frente dos políticos de centro-direita para apresentar um nome para a eleição presidencial de 2022. Hoje já conseguem apresentar uma candidatura única?

Resposta. O que a gente está trabalhando agora é esse conceito de uma pré-aliança. De uma coisa aonde a gente já possa nascer, para discutir, fazer os debates. É para que a gente possa ter um ponto de convergência. Temos um bom caminho, um bom número de partidos já preparados pra ir para essa fase. E temos alguns partidos que estão ainda discutindo questões internas, de quem é o nome [a ser apresentado], como o PSDB, que está muito confuso. O PSDB tem quatro possíveis candidatos, está pensando em fazer prévias, não sabe se a prévia vai ser em outubro ou em março do outro ano. Então, não é possível aguardá-los indefinidamente. A gente está tentando se organizar pra ver se consegue iniciar essa construção no final desse primeiro semestre. Queremos conversar com uma parte significativa da sociedade que não quer os dois extremos. Tem muita gente que não quer nem esse presente amargo, nem esse passado tenebroso.

P. E quais desses partidos estão mais maduros nesta composição?

R. Eu acho que o Democratas já está com o processo bem avançado para uma sinalização de que não estará ligado aos dois polos. Também estão o Cidadania, o PV, o Podemos, talvez o Novo. Eles são partidos que não aderiram a Bolsonaro ou ao Lula. Os que aderiram a eles não têm opção, são satélites dos campos de extremos. O PSD é um partido que está discutindo internamente, está amadurecendo, o MDB também. Com esses a gente vai mantendo os diálogos, vai conversando, vai mostrando caminhos. O pano de fundo disso é a construção das candidaturas regionais.

P. Esses debates não foram precipitados?

R. Os partidos estão numa fase que, normalmente, levaria esse ano inteiro. E se chegaria no início de 2022 com a apresentação de candidaturas. Com Lula e Bolsonaro fazendo campanha desde já, colocando pessoas na rua, eles estão forçando esse debate.

P. Pretende se candidatar ao Planalto? Com quem tem conversado?

R. Está todo mundo conversando com todo mundo. Eu converso muito com o Ciro Gomes (PDT), com o pessoal do PSDB —governador Eduardo Leite (RS), senador Tasso Jereissati (CE), presidente do partido Bruno Araújo, governador João Dória (SP), Arthur Virgílio (ex-prefeito de Manaus)... Falo com o João Amoedo (NOVO), com o [ex-juiz e ex-ministro] Sérgio Moro, com o general e ex-ministro Santos Cruz, com o pessoal do Republicanos, do PV, com o PSB. Enfim, de A à Z. Eu quero fazer parte desse projeto. Se for consenso pra não fragmentar. Se esse centro tiver três, quatro, cinco candidaturas, não conte comigo. Eu não vou fazer esse papel pra conspirar, para que os extremos consigam, com os seus cercadinhos de radicais, ir pro segundo turno. É pra entrar para vencer a eleição. E é possível de vencer.

P. É uma visão um tanto otimista, não?

R. Se a gente conseguir essa unidade, a probabilidade de ir pro segundo turno é enorme. E a probabilidade de vencer os extremos também. Vamos supor, se eu for o candidato e vou pro segundo turno contra o Lula. Os votos lá do campo do Bolsonaro migram pro anti-Lula. Se for o contrário, eu for pro segundo turno contra o Bolsonaro. Os votos do Lula migram pro anti-Bolsonaro. Essa é uma eleição pra que esses personagens, esses partidos do centro, entendam que ela é uma eleição de um turno só, é do primeiro turno. O segundo turno vai ser o apoio natural.

P. Neste contexto, na sua avaliação, entraria o apoio do ex-presidente Fernando Henrique ao Lula. É isso?

R. O Fernando Henrique falou que se for Lula contra o Bolsonaro, ele vota no Lula. Eu queria perguntar pro Lula. “Se for eu, Mandetta, contra o Bolsonaro, você vota em quem?” Ele provavelmente vai votar em mim. Aí, eu vou postar uma foto com o Lula, falando, “ó, acabo de receber do Lula a informação de que vota em mim no segundo turno”.

P. E o contrário também? Declararia apoio a Lula contra Bolsonaro no segundo turno?

R. Eu vou fazer um trabalho muito grande para que esse pesadelo não aconteça. O que tem de pior que pode acontecer para o país é um segundo turno entre Lula e Bolsonaro. Poderia levar o país para uma situação de violência, de conflito. Eu vou fazer o possível e o impossível pra isso não acontecer. Se isso acontecer, eu vou deixar pra acordar no segundo turno e pensar o que vou fazer. Eu não tenho, agora, como exercitar esse quadro de retrocesso.

P. Os números de todos vocês de centro-direita que estão se articulando são baixíssimos hoje. Ninguém chega a dez pontos percentuais. Por que acreditar que conseguiriam chegar ao segundo turno?

R. Há quantos anos o Lula é candidato a Presidente da República? Eu era líder estudantil no Rio de Janeiro, eu devia ter 19 anos, o Lula já era candidato. Tem quase 40 anos. Ele governou o Brasil durante oito anos. O Bolsonaro começou a candidatura dele em 2014 e foi candidato, de fato, em 2018, ganha a eleição e é pré-candidato à reeleição desde o dia que recebeu faixa presidencial. Os outros nomes não. São nomes que vão ser colocados agora. Num passado seria muito difícil de chegar a informação sobre essa nova candidatura nos rincões do Brasil. Agora, com a internet, essa velocidade de informação é muito rápida. Segundo ponto, é que enquanto colocarem nas pesquisas cinco, seis, sete nomes pra serem testados, é esse o resultado. Não vai sair muito disso, vai ficar um com três, outro com seis, outro sete, outro com oito, outro com dez, outro com doze. Aí, a gente vai chegar no final e falar, “puxa, se vocês tivessem maturidade, vocês poderiam vencer”. Eu acho que se você fizer uma pesquisa com Lula, Bolsonaro e só um nome do centro, Mandetta, Ciro, sei lá, bota um nome só, você vai ver que esse nome já vai chegar perto de 20 pontos. Quando a gente tiver essa solução não fragmentada ela vai chegar em dois dígitos. Chegando nos dois dígitos, é outro cenário. Hoje, a maioria da população, 51%, não quer nem Lula nem Bolsonaro. O que ela ainda não tem é o caminho, o cardápio.

Passagem pelo Governo Bolsonaro

P. Você se arrepende de ter feito parte do Governo Bolsonaro?

R. É uma coisa dúbia, porque, se eu não estivesse lá, acho que a mortandade dessa epidemia teria sido muito maior. Eu não me arrependo do trabalho que foi feito pelo SUS e da importância que esse trabalho teve, mesmo ele tendo sido interrompido, foi ele quem segurou. Se eu não estivesse ali, se estivesse um general de plantão, se eu tivesse falado, não vou e tivesse vindo uma pandemia dessa daí e eu tivesse vendo os erros, as calamidades que eles cometeram, eu acho que eu não iria me perdoar nunca de não ter aceito o cargo de ministro. Agora, quando eu fui convidado, era pra fazer um trabalho técnico, tanto que a minha equipe era eminentemente técnica. Eu me arrependo em ter acreditado que ele, Bolsonaro, queria um trabalho técnico. Ele nunca quis um trabalho técnico, ele queria um trabalho político de segunda categoria. Queria que o Ministério da Saúde saísse do enfrentamento da pandemia e jogasse a culpa em governadores e prefeitos. Isso faz com que a gente olhe e se pergunte: “como que eu fui estar ao lado de uma pessoa que tem esse tipo de raciocínio, esse tipo de decisão?” Ele é um líder totalmente tóxico.

P. Tóxico?

R. Sim. Você não precisa de um líder para ficar causando crises artificiais e falando que é o solucionador de crises artificiais. Você precisa de líder quando você tem crises verdadeiras, quando você tem guerra, quando você tem uma hiperinflação, luta contra a corrupção, você precisa de uma liderança muito forte. No momento que a história pôs uma pedra no meio do caminho dele, ao invés de guiar o povo pra desviar da pedra, ele quis bater a cabeça na pedra ou quis negar que existisse uma pedra. E forçou as pessoas às soluções terríveis. Então, nesse ponto da conduta dele, sim, profundo arrependimento de ter feito parte disso. Mas fiz parte e me comportei da maneira que os meus valores e minha consciência me ditavam o que fazer. Do ponto de vista individual, eu acho que eu ajudei muito. Ele faz com que qualquer um que tenha votado ou qualquer um que tenha pensado que ele poderia ser esse líder que o Brasil precisava ter um arrependimento profundo. É por isso que ele está com 22%, 23% de apoio e com uma rejeição de mais de 50%.

P. No último fim de semana, mais de 200 cidades realizaram manifestações contra a política do Bolsonaro na pandemia. Qual a avaliação faz desses atos? Chegou a participar?

R. Não. O único ser que foi nesses atos e vai nos atos a favor do Bolsonaro é o vírus. O vírus agradece a essas aglomerações. Isso não é hora de incitar as pessoas para irem para rua, para manifestar, para gritar, nem pra ir em jogo de futebol. Agora é a hora de você enfrentar uma situação muito grave, que é ir para a terceira onda num espaço curto de tempo. Achei aquilo dali de péssimo gosto. Foi um erro muito grande e mostra que os dois, Lula e Bolsonaro, raciocinam igual.

P. Na sua visão, esse protesto do fim de semana não seria também um grito de desespero em relação à taxa elevada de mortalidade na pandemia?

R. Você tem várias maneiras de se manifestar sem precisar expor as pessoas. Quem agradeceu muito foi o vírus, ele estava lá presente nas duas manifestações e vai estar nas próximas também. Eu acho que a gente precisa criar a consciência coletiva, conversar com o máximo possível de pessoas, recriminar quem faz diferente, manter a coerência, está errado fazer isso.

P. E a Copa América no Brasil? É um erro sediar este torneio?

R. É o legado da Copa do Mundo do PT sendo usado pelo Governo Bolsonaro pra fazer um gol contra. A Copa América é um gol contra a vida. Só o vírus que está comemorando, ele vai dar a volta olímpica, vai entregar a taça lá no Cemitério do Araçá. Não tem razão de ser. É uma agressão, um deboche, um cinismo que passa pela CBF e pela CONMEBOL. Não pode fazer a Copa América no fim do ano, no ano que vem com o povo todo vacinado? Como é que vai proteger o entorno do torneio? Vai vacinar todo mundo? E essa questão de fronteiras, de organização, de cepa indiana, de variantes, pra cima e pra baixo, vai expor todo mundo? Aceitar sediar a Copa América é dançar em cima de cadáver. Não tem pé nem cabeça.

P. Quais os piores erros do Governo Bolsonaro na pandemia?

R. O primeiro erro foi ter se assessorado mal. Ele tinha uma informação por parte do Ministério da Saúde de todos os passos que tinham que ser dados e das consequências. Eu mostrei para ele o número de óbitos que teríamos neste caminho que ele foi, que era 180.000 óbitos até o fim do ano passado. E bateu, deu 191.000. Então, o primeiro foi erro ter montado uma assessoria paralela que vivia e vive de internet. O segundo é desmanchar a equipe técnica, que era muito boa e estava encaixada. No lugar dessa equipe, colocaram pessoas que não são do ramo de saúde. São militares, que devem ser muito bons para terem sido escolhidos, mas para a Saúde são uma tragédia. Depois, criar uma balbúrdia em cima de um remédio que não tinha evidência científica é de uma crueldade muito grande, porque isso veio acompanhado de médicos que agrediram os princípios de ciência. Isso trouxe para a população uma sensação de que existiria um remédio. Agora, o pior, o mais grave e que não tem como relevar, é o Governo ter o dinheiro na mão, receber e-mails de uma empresa para vender vacinas e não comprar. O Brasil não mandou e-mail para ninguém. O Governo tinha que ter ido atrás da Pfizer, da Moderna, de todas elas. Essa parceria do Butantã com a Sinovac [para a Coronavac), o Governo Federal tinha que ter entrado e falado para duplicar a fábrica que ia fazer, dobrar a produção. Ele debochou e tratou aquilo politicamente. Não ter enfrentado a crise com vacinas é responsável por mortes e pela não abertura da economia, mas alguns culpam governadores e prefeitos. Não consigo entender, ainda mais que o próprio ministro da economia [Paulo Guedes] dizia que, entre saúde e economia, ficava com a economia. Você vai atrasar a economia brasileira oito meses por causa dessa discussão equivocada?

P. O que vislumbra sobre a nova onda que se aproxima no país?

R. Tem um número que não estou vendo o Governo anunciar que era uma bússola muito importante: quantos por cento da população tem anticorpos? Chama-se inquérito epidemiológico. Eu fui até São Paulo ajudar a cidade a se preparar para a segunda onda. A primeira coisa que eu pedi foi o inquérito epidemiológico. Em janeiro eles tinham feito, e 12,6% das pessoas tinham anticorpos. Começamos a vacinar as pessoas em fevereiro, março e em abril desencantou essa segunda onda. Eu mandei pedir um inquérito. No último que fizeram, São Paulo tem 41% de pessoas com anticorpos. A segunda onda contaminou 16% daquela população. Com 59% ainda sem imunidade, você tem potencial de fazer uma nova onda do tamanho da segunda. Só que numa faixa etária mais jovem. A maior parte da população brasileira, entre 25 e 45 anos, está suscetível a essa doença. Você vai ter muita gente precisando de hospital. De novo, esse paciente resiste muito e o tempo de permanência dele em hospital é maior, embora ele tenha mais chance de sair. Cadê o estoque de oxigênio? Cadê o estoque de medicamentos? Na última crise que passamos, há 60 dias, faltou medicamento para intubar. Teve muita gente que morreu por falta de medicamento. Será que o Brasil inteiro se reorganizou e refez os seus estoques? Então, você tem um risco sim. A juventude esgotada da sua ausência em bar e baladas. Os pais precisando que os filhos voltem às aulas. O Brasil da Copa América. O presidente dizendo que reúne milhares de pessoas, o PT reúne milhares de pessoas no outro domingo. A vacinação a passos de tartaruga. Com esse quadro, o Brasil é um covidário, o índice de transmissão é alto. Então só vai aumentar. A gente vai ter mais uma onda de perda de muita gente.

P. O senhor indicou na CPI a existência de um ministério paralelo da Saúde. Quem era exatamente esse grupo?

R. Lá você tinha um ex-secretário de saúde e deputado federal, que era o [Osmar] Terra. O sonho do Terra parece que era ser ministro da Saúde, que ele só se preocupava com aquilo dali. Ele começou a desenvolver e dar a voz para todas as teorias terraplanistas que existiam no universo. A do calor, a do isolamento vertical, a da Suécia, falar que não ia ter 2.000 mortos, que o presidente estava certo. Então, aquilo vinha com um verniz de um cara que era ex-secretário de saúde, que tinha sido do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass). Ele fazia reuniões lá dentro com estes médicos que estavam nessa linha de tratamento precoce, como a Nise Yamaguchi. Quando o presidente fez na televisão aquele pronunciamento de que era só uma gripezinha e do passado dele de atleta, no dia seguinte teve uma reunião de ministros. E todos os ministros falaram: ‘mas o senhor não se aconselhou com ninguém de nós para falar isso?’ Teve ministro que ficou sabendo que ele convocou a rede nacional quando entrou na televisão. Quando a gente entrava lá na reunião, estava o filho do presidente, vereador Carlos Bolsonaro, lá dentro tomando nota. Não participava, não falava comigo ou com os outros ministros, mas estava dentro do gabinete do presidente, com aquele povo de internet, eu não sei o nome de todos. Se é direito do presidente ter esse tipo de assessoramento paralelo ou não, se isso é legal ou ilegal, deixo para os outros falarem. É uma constatação que eu vi que ele se pauta muito por esse mundo de internet e por essas pessoas que estão ali no entorno dele. Alguns apareceram depois que eu saí, com teorias. O Carlos Wizard, quando apareceu, falou que a primeira coisa era fazer é o inventário de quem morreu. Será que ele vai fazer necropsia? Será que ele vai mandar desenterrar para tirar um fragmento, para ver se tem vírus? Depois da saída do Eduardo Pazuello, me parece muito claro essa figura oculta. Essa lógica paralela se prestou para validar o que o presidente fazia, para criar influência, para começar a fazer associação de prescritor de cloroquina, para fazer muita gente ganhar dinheiro com isso daí.

“Bolsonaro trabalhou para o contágio”

P. O que ouviu durante a sua gestão à frente da Saúde que permite se desenhar a estratégia de buscar uma imunidade de rebanho sem vacinas, mesmo às custas de tantas mortes?

R. Eu vi o início. Eu vi aquela frase de que o brasileiro precisa ser estudado, que ele mora no esgoto e pega todas as doenças e não morre. Aquilo era um indício, uma frase típica de quem está falando: ‘bom, deixa ele se contaminarem’. Osmar Terra, na época, falando de imunidade de rebanho. Ele sabia que um vírus de gotícula leva de três a quatro anos para se atingir uma imunidade de rebanho. Então vindo de uma pessoa que, em tese, estava se informando, me parecia uma teoria feita para validar a teoria da imunidade de rebanho. Depois, a imunidade de rebanho em Manaus se mostrou ser uma balela, porque houve a segunda onda e eles não estavam preparados pra enfrentar aquilo. Vejo que eles foram provavelmente criando uma narrativa para aguardar que isso acontecesse. Acho que calcularam mal quais seriam os efeitos disso, eles não acreditaram que isso daria nestes números, que vamos chegar em meio milhão de mortos em 15, 20 dias. Isso não tá sendo suficiente para mudar este comportamento do presidente. Consciente ou inconscientemente, ele trabalhou para o contágio.

P. Esta tragédia toda é culpa do Planalto? Consegue ver responsabilidade dos Estados e municípios nisso?

R. Primeiro, é uma responsabilidade mundial. Fora do Brasil, você tem uma total falta de liderança. A coisa veio errada lá de fora, depois entra aqui. O presidente fragmenta o pacto federativo, colocando o Ministério da Saúde como um ator, e ele, presidente, apontando o dedo, jogando a culpa em governadores e prefeitos. Aí vem uma eleição para prefeito. Nós passamos os meses de outubro, novembro e dezembro com uma agenda municipal, trocas de equipes e a cepa nadando de braçada. Governos estaduais ficaram espremidos, entre um Governo Federal hostil e Governos municipais na lógica política. Governantes ficaram assimétricos pela falta de união e entendimento. Todos eles erraram em não trazer a sociedade civil para a tomada de decisões, que foram sempre a reboque do vírus. O vírus sempre esteve a um passo ou dois dos governantes brasileiros.


P. Um documento enviado pelo ministro Braga Netto à CPI da Pandemia indica que a ordem para turbinar a produção de cloroquina partiu do Ministério da Saúde durante a sua gestão. Autorizou o pedido ou deu esta ordem?

R. A Organização Mundial de Saúde falava no uso compassivo em hospitais, e era o que tínhamos no Ministério da Saúde. Podem fazer a prescrição nos hospitais brasileiros desse medicamento, então a gente tem que disponibilizar o medicamento aos hospitais. O segundo ponto é que esse medicamento é usado para lúpus, mas é usado para malária numa quantidade grande. Então, sim, o Ministério da Saúde tinha que tê-los. Agora, jamais o Ministério da Saúde solicitou para o Exército produção para atender o que estava no kit ilusão, que era jogar esse medicamento para a atenção primária. O Exército na época nos informou que tinha em estoque X comprimidos. Falamos: pode mandar para o Ministério da Saúde pra gente atravessar esse período. Eu nunca fiz agenda com o Exército para aumento da produção.

P. E qual é a sua avaliação da CPI? Onde que ela vai chegar?

R. Muito difícil, porque eu acho que eles estão trabalhando de uma maneira errática. Ainda não tem um caminho. É normal que depois de um mês, CPIs comecem a pegar o eixo. Está tateando. Acho que essa questão de ficar discutindo remédio é típica dessa situação, isso aí o planeta inteiro já superou. No capítulo das vacinas, acho que eles têm algum material. Agora, toda CPI carrega consigo um elemento político que a gente não sabe qual será o desdobramento. Elementos eles têm vários, não precisam nem fazer perguntas, basta procurar tudo que foi dito na imprensa e tudo que foi feito por cada um.

BEATRIZ JUCÁ, de Brasília e AFONSO BENITES, de São Paulo, em 06 JUN 2021 para o EL PAÍS 

Comunicação do Governo priorizou economia à saúde no combate à pandemia, revelam documentos da CPI

Relatório do Ministério das Comunicações mostra que campanha publicitária sobre vacina só ganhou força após investigação iniciada pelo Senado. Postagens mostram amplo incentivo à cloroquina

Um extenso relatório elaborado pelo Ministério das Comunicações a pedido da Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia mostra que o Governo Jair Bolsonaro preferiu divulgar ações que o Executivo realizou na área da economia do que na de saúde durante o combate à pandemia de coronavírus entre os meses de março de 2020 e abril de 2021. Das 2.596 postagens do Governo em seus canais oficiais, 64% (ou 1.648) se referiam à preocupação do Governo com empregos, renda e auxílio emergencial, e 36% (948) tratavam de entregas feitas na área de saúde, dos repasses de verbas obrigatórios aos Estados e Municípios, das medidas de prevenção e da compra de vacinas. Os dados constam em um documento de 1.889 páginas recebido pela CPI no último dia 27 de maio.

Além disso, até o dezembro passado, havia mais publicações sobre cloroquina e outros ineficazes medicamentos no tratamento da doença do que sobre os imunizantes. O quadro só começou a mudar a partir de janeiro deste ano, quando a Anvisa autorizou o uso emergencial dos imunizantes Oxford/AstraZeneca e Coronavac. Até dezembro havia apenas 37 postagens tratando de negociações de vacinas ou criando narrativas de que o Governo Bolsonaro não era a favor do movimento anti-vacinacinação, apesar de pouco ter se esforçado para adquirir os imunizantes. Enquanto isso, outras 85 peças defendendo o kit covid, principalmente a cloroquina, já haviam sido produzidas. Em abril, quando o Supremo Tribunal Federal mandou o Senado Federal abrir a CPI da Pandemia, intensificou-se a produção de postagens sobre a vacinação. Foram 49. Ao total, no período documentado pelo Ministério da Comunicações, foram 142 peças tratando de vacinas.

Em uma primeira análise uma conclusão possível sobre a demora em se divulgar o tema vacinas poderia ser que a campanha de imunização ainda não havia iniciado e, por essa razão, não faria sentido se falar de vacinas. Mas quem atua com saúde pública entende que o ideal é iniciar as divulgações sobre a importância de vacinação com uma longa antecedência. “Toda campanha de vacinação é precedida por ampla divulgação. Mesmo com todos atrasos nas compras, em dezembro, já sabíamos que teríamos vacinas pouco tempo depois. Então, já era hora de começar essa divulgação”, afirmou a enfermeira Ethel Maciel, doutora em epidemiologia e professora da Universidade Federal do Espírito Santo.

Na avaliação desta especialista, o Governo só começou a se movimentar quando a CPI da Pandemia deu sinais de que causaria problemas políticos ao presidente. “A comunicação sobre a vacinação tem de ser muito clara porque precisa atingir todos os públicos e isso não ocorreu até agora, quando há pessoas que querem escolher qual vacina tomar”, afirmou Maciel. Ela fez parte de um grupo de divulgadores científicos que produziam materiais de incentivo à vacinação, enquanto Bolsonaro falava de que as pessoas poderiam virar jacaré caso tomassem um dos imunizantes.

Outro ponto a destacar foi a mudança na mensagem nas postagens do Governo Federal. Nas primeiras ações, o ministério destacava o direito das pessoas se vacinarem, algo parecido com que o presidente Bolsonaro defende em seus discursos oficiais e aos seus militantes, de que a vacinação não deveria ser obrigatória. Uma das postagens, embasadas em uma fala do assessor especial da presidência Filipe Martins tratava exatamente desse tema. “Nenhum país optou pela obrigatoriedade da imunização contra o coronavírus, nem mesmo os ditatoriais; e até a OMS se posicionou contra a ideia. Mas, no Brasil, há quem queira te obrigar a tomar, às pressas, uma vacina cuja segurança e a eficácia sequer são conhecidas”.

Foi só com o passar do tempo que as informações mudaram e houve um empenho em mostrar que era importante todos se cuidarem. Nas mais recentes, veiculadas em abril, há a preocupação que, mesmo com o avanço da vacinação, é importante manter os cuidados de distanciamento social e uso de máscaras de proteção facial.

Ao mesmo tempo em que preferia dedicar sua comunicação a outros temas, que não a vacina, a gestão Bolsonaro também ignorou ofertas de vacinas, conforme revelaram à CPI o diretor da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, e o presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas. Na última sexta-feira, o senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP) revelou que os parlamentares já têm em mãos documentos que provam que a Pfizer enviou 53 e-mails para representantes do Governo Federal no intuito de vender sua vacina ainda em 2020. O contrato, no entanto, só foi firmado neste ano. Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, o laboratório norte-americano ofereceu ao Brasil o imunizante pela metade do preço cobrado à União Europeia.

Na série de documentos entregues à CPI ainda constam os gastos com as peças publicitárias produzidas por todos os ministérios sobre a pandemia. De acordo com o Ministério das Comunicações, até o fim de maio estão planejados gastos de 124,4 milhões de reais com propagandas na TV, rádio, internet e em mídia exterior (outdoors e telas em shoppings ou elevadores de prédios comerciais, por exemplo). Ao menos 20 peças foram produzidas até o momento.

O incentivo à cloroquina

Algo que está patente no relatório do Ministério das Comunicações é o incentivo à cloroquina. A primeira vez que ela recebe a divulgação em um canal oficial foi em 31 de março do ano passado. De lá para cá apareceu em diversas postagens. Em uma delas, o ex-assessor presidencial Arthur Weintraub, apontado como um dos membros de um suposto ministério de aconselhamento paralelo, diz que Bolsonaro sempre defendeu o uso dessa droga. Em outra, o presidente Bolsonaro posa ao lado do primeiro ministro indiano, Narendra Modi, agradecendo o envio do ineficaz medicamento no tratamento da covid-19.

Houve também os destaques às falas duras de Bolsonaro, quando, por exemplo, ele disse que era preciso ter coragem de enfrentar o vírus, algo que tem sido apontado pelos senadores da CPI como uma tentativa de expor a população ao contágio massivo para que se atingisse uma imunidade de rebanho sem a vacinação.

Esses contrastes deverão ser explorados pelos senadores da CPI no seu relatório final. Nesta terça-feira, a comissão retoma os trabalhos com uma nova oitiva do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Essa será sua segunda ida ao colegiado. Na quarta, será a vez do ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, o coronel Élcio Franco e, na quinta, do governador do Amazonas, Wilson Lima.

AFONSO BENITES, de Brasília para o EL PAÍS, em  07 JUN 2021 

Exército impõe 100 anos de sigilo para processo de Pazuello

Instituição nega a jornal acesso a processo já arquivado sobre participação do general e ex-ministro da Saúde em ato político ao lado de Bolsonaro, argumentando que a documentação contém informações pessoais.


Pazuello participou de uma manifestação no Rio de Janeiro convocada por apoiadores de Bolsonaro

O Exército Brasileiro negou acesso e atribuiu um sigilo de 100 anos ao processo sobre a participação do general da ativa e ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello num ato político ao lado do presidente Jair Bolsonaro, noticiou o jornal O Globo nesta segunda-feira (07/06).

Em resposta a um pedido de acesso feito pelo jornal, o Exército respondeu que o processo administrativo, já arquivado, contém informações pessoais. Além disso, a instituição citou um dispositivo da Lei de Acesso à Informação que prevê o sigilo por 100 anos em casos do tipo. A decisão, no entanto, ignora entendimentos anteriores da da Controladoria-Geral da União (CGU).

Pazuello participou no dia 23 de maio de uma manifestação no Rio de Janeiro convocada por apoiadores de Bolsonaro, que contou com uma carreata de motocicletas liderada pelo presidente. O ex-ministro subiu num carro de som ao lado do chefe de Estado, apesar de as Forças Armadas vetarem a participação dos seus membros em atos políticos.

Na quinta-feira passada, o Exército informou, no entanto, que não vai punir Pazuello pela participação no ato. Segundo a instituição, o comandante do Exército, Paulo Sergio Nogueira, acolheu os argumentos de Pazuello e avaliou que "não restou caracterizada a prática de transgressão disciplinar" por parte de Pazuello. Dessa forma, o processo disciplinar aberto contra o general em maio acabou sendo arquivado.


Bolsonaro lidera carreata de motos em ato no Rio do qual Pazuello participou, em 23 de maio

A avaliação entra em choque com o decreto nº 4.346/02, que aborda o Regulamento Disciplinar do Exército. Mais especificamente, as ações de Pazuello contrariaram o item 57 do Anexo I, que classifica como transgressão o ato de "manifestar-se, publicamente, o militar da ativa, sem que esteja autorizado, a respeito de assuntos de natureza político-partidária". Segundo veículos da imprensa brasileira, Bolsonaro pressionou o Exército para que Pazuello não fosse punido.

Na defesa entregue ao Exército no fim de maio, Pazuello argumentou que o ato organizado por Bolsonaro - uma espécie de carreata formada por motocicletas que cruzou o Rio - não era um ato político. Segundo o general, o ato não poderia ser "político-partidário" porque o país não está em período eleitoral e o presidente Bolsonaro não é no momento filiado a nenhum partido político. Pazuello também afirmou que o ato não passou de um passeio de moto, embora tanto ele quanto Bolsonaro tenham subido num caminhão de som para falar a apoiadores, como se estivessem em um comício.

Após o arquivamento pelo Exército, O Globo tentou obter acesso ao processo disciplinar, mas o Serviço de Informação ao Cidadão da instituição esclareceu que "a documentação solicitada é de acesso restrito aos agentes públicos legalmente autorizados e à pessoa a que ela se referir".

A decisão, que poderá ser alvo de recurso, ignora determinações anteriores da CGU, que, em casos similares, considerou que os procedimentos administrativos devem ficar sob sigilo somente enquanto a apuração está em andamento, o que não se aplica ao processo contra Pazuello. Após o fim da apuração, qualquer pessoa pode requerer e deveria obter o acesso ao processo. Se o Exército mantiver a determinação de sigilo por 100 anos, há a possibilidade de que a CGU seja acionada.

Ex-ministro ainda acumula problemas

Apesar de ter se livrado do procedimento disciplinar no Exército, Pazuello ainda acumula problemas. No momento, ele é investigado pela Polícia Federal por conta de decisões e omissões quando estava à frente do Ministério da Saúde, especialmente no caso da falta de oxigênio em hospitais de Manaus.

Pazuello comandou o Ministério da Saúde entre maio de 2020 e março deste ano, e sua gestão foi alvo de críticas. Quando o general assumiu a pasta, o Brasil acumulava 233 mil casos e 15.633 mortes associadas à covid-19. Quando o substituto do general na pasta foi anunciado, o número de casos passava de 11,5 milhões, e o de mortes se aproximava de 280 mil, com o país ocupando o segundo lugar entre as nações com mais óbitos na pandemia. Pazuello também deixou o cargo sem garantir vacinas suficientes para a população.

Mesmo com um histórico de gestão criticado à frente da Saúde, o general foi nomeado no início de junho para um cargo dentro da Presidência da República. Ele atuará como secretário de estudos estratégicos da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos, que fica no Palácio do Planalto e é comandada por Flávio Rocha, almirante da Marinha.

Deutsche Welle Brasil, em 07.06.2021

segunda-feira, 7 de junho de 2021

FDA aprova 1ª droga eficaz contra doença de Alzheimer

 Medicamento Aduhelm é capaz de remover placas beta-amiloides no cérebro e desacelerar o avanço da doença. Efeitos benéficos ainda não são totalmente conhecidos, mas os resultados dos testes são promissores, diz agência.

    

Pesquisador examina radiografia do cérebro de um paciente. Doença de Alzheimer é a sexta maior causa de mortes nos Estados Unidos.

A Food and Drug Administration (FDA), agência do governo dos Estados Unidos que regulamenta o uso de medicamentos no país, aprovou nesta segunda-feira (07/06) o primeiro fármaco considerado capaz de combater a doença de Alzheimer.

O medicamento aducanumab, da farmacêutica Biogen, é capaz de remover eficazmente do cérebro as placas prejudiciais chamadas beta-amiloides (também conhecidas como A-beta) nos pacientes no estágio inicial da doença, de modo a impedir as ações dessas placas, que acarretam em perda de memória e na incapacidade de uma pessoa de cuidar de si própria.

"É uma boa notícia para os pacientes com a doença de Alzheimer. Jamais tivemos uma terapia modificativa da doença aprovada”, comemorou o médico Ronald Petersen, especialista em Alzheimer da Mayo Clinic, nos Estados Unidos. O medicamento que será comercializado com o nome Aduhelm.

"Isso não é uma cura. A esperança é que ela possa desacelerar o progresso da doença”, alertou. "Este é um grande dia, mas não podemos prometer demais.” A doença de Alzheimer é a sexta maior causa de mortes nos Estados Unidos.

A FDA afirma em seu portal de internet que os dados dos testes para o tratamento eram complexos no que diz respeito aos benefícios clínicos do medicamento. A agência, contudo, ressaltou que "há provas substanciais suficientes de que o Aduhelm reduz as placas beta-amiloides no cérebro e que essa redução faz com que seja razoavelmente provável antecipar benefícios importantes para os pacientes”.

Grupos de defesa dos pacientes e alguns neurologistas exaltam o Aduhelm como sendo uma opção eficiente para as pessoas com Alzheimer. Entretanto, alguns médicos avaliam que os resultados dos testes clínicos são inconsistentes e que são necessárias ainda mais evidências.

A Biogen entrou com o pedido de aprovação do Aduhelm na FDA em 2019 e na Agência Europeia de Medicamentos (EMA) em 2020.

Estudos em pessoas saudáveis

Os criadores do fármaco, Roger Nitsch e Christoph Hock, são da Universidade de Zurique, na Suíça. Inicialmente eles não analisaram pacientes com a doença de Alzheimer, mas idosos saudáveis e em boa forma. Os pesquisadores se concentraram na busca específica por células do sistema imunológico capazes de produzir anticorpos contra placas A-beta. E as encontraram.

Por meio de trabalhos meticulosos, os cientistas decifraram os anticorpos e os recriaram em laboratório. Juntamente com a empresa americana Biogen, eles levaram então o princípio ativo para os testes clínicos.

A grande maioria dos pesquisadores concorda que a doença progride de maneira extremamente lenta e em efeito cascata, no qual se sucedem vários processos de decomposição das células cerebrais.

Central para isso é a formação das placas A-beta, seguida pela ativação da defesa imunológica celular e a formação posterior de outros depósitos, as chamadas placas tau. Estas surgem quando as proteínas tau estabilizadoras são liberadas do citoesqueleto das raízes nervosas e então depositadas entre os neurônios, onde se tornam então provavelmente tóxicas.

Neste processo em cascata, os pesquisadores também veem o maior dos problemas: a perda de memória só pode ser interrompida de maneira sustentável se for combatida em um estágio inicial.

Em entrevista à DW, o professor de neurodegeneração molecular Christian Haas, do Centro Alemão de Doenças Neurodegenerativas (DZNE) em Munique, comparou a progressão da doença com uma queda d'água: "Se quisermos interromper o fluxo a partir do topo, precisamos fazer isso diretamente com a amiloide. Se chegarmos tarde demais, teremos passado da amiloide, e a proteína tau talvez já consiga continuar a operar a cascata por conta própria."

O sucesso do tratamento, portanto, depende de quão cedo os médicos detectam a doença e se eles conseguem intervir com o princípio ativo adequado. O problema é que o Alzheimer não costuma ser diagnosticado num estágio inicial, evoluindo de forma silenciosa ao longo dos anos – e quando a perda de memória se torna evidente, já é tarde demais. O mesmo problema foi constatado também nos ensaios clínicos com aducanumab.

Os ensaios clínicos

Antes de entrar com um pedido de aprovação na FDA e na EMA, a Biogen realizou três estudos clínicos, batizados de Prime, Emerge e Engage. A avaliação dos resultados dos estudos feita pelos pesquisadores mudou diversas vezes. Foi como uma montanha-russa.

No estudo Prime, em 2016, o aducanumab combateu com sucesso as placas A-beta em 166 pacientes com Alzheimer. As pesquisas que se seguiram, Emerge e Engage, tiveram um total de 3,2 mil participantes, mas acabaram levando a conclusões contraditórias. Em março de 2019, ambos os estudos foram interrompidos, pois os resultados provisórios não mostraram melhoras cognitivas nos voluntários. "E essa é a única coisa que realmente importa no final", diz Haas.

Mas em outubro de 2019, os pesquisadores mudaram seu parecer: em pacientes do estudo Emerge pôde ser comprovado um efeito positivo no desempenho de memória. A Biogen solicitou então a aprovação da FDA. Pouco depois, no entanto, um painel independente de especialistas comissionado pela agência americana afirmou mais uma vez que o fármaco tinha pouco eficácia, contrariando, portanto, uma avaliação preliminar do órgão. A FDA então estendeu o processo de revisão do medicamento até junho de 2021.

Aparentemente, as diferentes avaliações em torno da eficácia do aducanumab também estariam associadas à dosagem administrada entre os pacientes de cada estudo. De acordo com os médicos, o efeito mais forte foi observado entre aqueles que receberam doses particularmente altas. Neles, o declínio no desempenho cognitivo pareceu sofrer desaceleração.

No entanto, altas dosagens geram outro problema: sobretudo em pessoas com uma certa predisposição genética chamada APOE4, o aducanumab pode causar inchaço no cérebro. Pacientes que apresentaram tais alterações, contudo, foram imediatamente retirados do estudo. "Tais mudanças parecem estar regredindo", relata Haas. A condição é que sejam reconhecidas corretamente.

Curiosamente, são justamente os pacientes com essa predisposição genética que melhor respondem ao aducanumab. "Parece haver uma conexão. Só não está claro qual", diz Haas.

Mas de maneira alguma isso deve ser motivo para descartar o medicamento, defende o pesquisador de Munique. "Afinal, o aducanumab é uma droga que consegue eliminar de forma quase completa do cérebro do paciente a patologia primordial." Isso pôde ser comprovado de forma muito clara através de imagens. "Trata-se de uma história fantástica: quanto mais desse anticorpo se fornece, mais a patologia se decompõe." Agora, continua Haas, tais conexões precisam ser estudadas mais a fundo.

Quanto antes, melhor

Quando se trata de Alzheimer, o importante é interromper a cascata neurodegenerativa o mais cedo possível. "Em todos os ensaios clínicos chega-se tarde demais", avalia Haas. A doença começa geralmente de dez a 20 anos antes que algo seja detectado pelos médicos. "E se as proteínas tau já estiverem lá, uma terapia à base de amiloide não irá mais funcionar."

Mas até mesmo pequenos avanços no tratamento de Alzheimer já representam um grande sucesso. "Seria maravilhoso se pudéssemos estabilizar a condição de um paciente no estado mental com o qual 

Estudo sobre Alzheimer monitora 30 mil pessoas até o fim da vida

No início do tratamento, muitos dos afetados ainda se locomovem de forma completamente independente. "Eles costumam vir de carro ou de transporte público", conta Haas. "Eles ainda são totalmente capazes de ter uma vida normal e de maneira independente."

No futuro, portanto, a ideia seria iniciar o tratamento medicamentoso quando a memória do paciente ainda estiver completamente normal. É por isso que os médicos agora estão canalizando seus esforços para identificar biomarcadores que possam ajudar na detecção precoce da doença. Mas até agora ainda não está claro se, no final, isso será suficiente para intervir a tempo com anticorpos A-beta, como o aducanumab.

As células que ativam o descarte de 'lixo' no cérebro

Quando se trata de combater e eliminar as placas cerebrais, o descarte de lixo celular também desempenha um papel importante. Em pacientes com Alzheimer, tal processo começa bastante cedo – provavelmente como uma reação à formação das primeiras placas A-beta. Por um lado, essa defesa imunológica é considerada parte do problema, mas os pesquisadores também querem usá-la no combate ao Alzheimer.

As micróglias, responsáveis por tal limpeza, são únicas: essas células do sistema imunológico servem, por um lado, como fagócitos e, ao mesmo tempo, como células precursoras das células nervosas.

Se forem superestimuladas, elas podem desencadear reações inflamatórias perigosas – reações autoimunes – algo que pode ser detectado em pacientes em estágio avançado de Alzheimer.

Por outro lado, também pode acontecer que as micróglias permaneçam inativas, embora sejam urgentemente necessárias para prevenir a formação de placas. Atualmente, Haas está trabalhando com a empresa norte-americana Denali no desenvolvimento de um anticorpo correspondente a ser utilizado em testes clínicos iniciais em humanos. A ideia é que as células microgliais sejam treinadas a tempo de reconhecer e combater tais placas.

Elas também poderiam então ser usadas em conjunto com o novo medicamento. Funcionaria da seguinte forma: "O aducanumab se deposita nas placas. As placas são então mais facilmente reconhecidas pelas células microgliais estimuladas pelos anticorpos e passam assim a ser fagocitadas logo no início", diz o pesquisador.

Deutsche Welle Brasil, 07.06.2021 

Brasil registra 1.010 mortes por covid-19 em 24 horas

País teve 37.156 novos casos da doença, o que eleva o total de infectados desde o início da epidemia para 16.984.218. Número acumulado de mortes aumenta para 474.414.

Manifestante acende vela em protesto com cruzes no gramado em frente ao Congresso Nacional em Brasília. Brasil é o segundo país do mundo com mais mortes, atrás apenas dos EUA.

O Brasil registrou oficialmente nesta segunda-feira (07/06) 1.010 mortes associadas à covid-19, segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass).

Também foram confirmados 37.156 novos casos da doença. Com isso, o total de infecções no país chega a 16.984.218, e os óbitos somam 474.414.

Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que os números reais devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação.

O Conass não divulga número de recuperados. Segundo o Ministério da Saúde, 15.408.401 pacientes haviam se recuperado da doença até esta segunda-feira.

Em números absolutos, o Brasil é o segundo país do mundo com mais mortes, atrás apenas dos Estados Unidos, que somam mais de 597,8 mil óbitos. É ainda o terceiro país com mais casos confirmados, depois de EUA (33,3 milhões) e Índia (28,9 milhões).

Já a taxa de mortalidade por grupo de 100 mil habitantes subiu para 225,8 no Brasil, a 10ª mais alta do mundo, quando desconsiderado o país nanico de San Marino.

Ao todo, mais de 173,4 milhões de pessoas contraíram oficialmente o coronavírus no mundo, e foram notificadas 3,73 milhões de mortes associadas à doença.

Deutsche Welle Brasil, em 07.06.2021

Denis Lerrer Rosenfield: A ema, o policial e o intendente

Eles simbolizam o governo Bolsonaro: a política anticientífica, o arbítrio e a anarquia

Jair Bolsonaro segura uma caixa de cloroquina do lado de fora do Palácio da Alvorada - REUTERS/Adriano Machado
Jair Bolsonaro segura uma caixa de cloroquina do lado de fora do Palácio da Alvorada
Imagem: REUTERS/Adriano Machado

A ema foi sábia. Ao ver o presidente com a caixinha de cloroquina, dele fugiu, mostrando ter melhor discernimento do que boa parte dos brasileiros, que aderem a poções mágicas. Deve ter ela pensado: será que perdeu o juízo? Perguntou-se, mesmo, pelo tipo de humano que ele representa ao negar a ciência, pregar a morte e impor a desordem sanitária. No reino dito animal, isso não seria possível, quanto mais não seja, porque sempre procuram instintivamente a própria sobrevivência. Ora, se os humanos foram agraciados com a razão, eles obtiveram o uso da liberdade de escolha para, em princípio, melhor organizarem suas relações, progredindo no conhecimento. Vacinas seriam um dos melhores exemplos disso.

Contudo uma porção dos humanos, continuava ela a pensar, prefere empregar a liberdade de escolha para o mal e o ódio ao próximo. Em vez da escolha pela vida, optam pela morte. A ema, em seu bom senso, preferiu afastar-se, correndo, para ter maior segurança. Será que os humanos brasileiros não deveriam fazer a mesma coisa? Em todo caso, impeachment e eleições foram instrumentos criados constitucionalmente por eles para darem conta de tais anormalidades.

O policial que ameaçou prender um cidadão por se negar a tirar de seu carro um adesivo antibolsonarista expôs o arbítrio da extrema direita em ação. Um indivíduo fardado se acredita dotado da missão de aplicar por ele mesmo a Lei de Segurança Nacional, como se fosse a encarnação de um tribunal, do Poder Judiciário e do Ministério Público. Quando isso chega a acontecer, é porque todos os limites estão sendo ultrapassados, o que significa dizer que doravante reinarão a desordem e políticas liberticidas. Qualquer pessoa passará a ficar temerosa de expor suas opiniões, expressar seus pensamentos e criticar o presidente e suas políticas. É o medo pairando sobre todos. Eis por que a ideologia bolsonarista tem como norte de suas ações o domínio das Polícias Militares, Civis e Federal. Elas passariam a ser uma força auxiliar do grupo encastelado no poder, aplicando seus próprios objetivos, na mais completa violação da lei e da Constituição.

A ema deve ainda ter se perguntado: será que os outros humanos vão contemporizar com isso? Se o fizerem, serão insensatos, correndo para o abismo.

Entretanto, a sábia ema ainda não tinha visto tudo, o que a deixa ainda mais espantada, perplexa. O presidente escolheu para ministro da Saúde um general com a missão de aplicar a cloroquina e outras drogas inúteis, embaladas num tal de “tratamento precoce”. Pensou em seus antecessores medievais que acreditavam em toda espécie de barbaridade médica.

Felizmente, naquele então, e mesmo hoje, os animais não humanos não compartilhavam de tais superstições e fórmulas absurdas. Isso se tornou ainda mais ininteligível pelo fato de os humanos terem entrado na rota do progresso no que diz respeito à ciência e ao conhecimento, com descobertas incríveis a partir de experiências criteriosas em empresas, centros de pesquisa e universidades. Surgem, porém, agora os representantes do atraso de antanho, lutando com todas suas forças contra a ciência e seus avanços. Uma coisa é a superstição anterior à ciência, outra a posterior, que pretende combatê-la. Até onde os brasileiros humanos suportarão tal forma de inumanidade?

E como o horrível parece não ter fim, o intendente nomeado para o Ministério da Saúde, ao contrário de seus antecessores, que agiram dignamente, mostrou-se totalmente servil ao presidente, acompanhando-o na política da morte e desonrando a farda que ainda usa por ser general da ativa. Numa mostra típica de ausência de pensamento, subordinando-se, proferiu uma frase memorável: “Um manda, outro obedece”. Escaparam-lhe pensamentos básicos, como o da desobediência devida quando a ordem se afasta de valores e princípios. Ordens arbitrárias não são, nem devem, ser seguidas. Trata-se de uma conquista civilizatória, válida para a vida civil e a militar. Oxigênio faltando em hospitais, pessoas morrendo sufocadas, e ainda lhes era recomendado o uso da cloroquina! A ema achou melhor esconder sua cabeça.

Coroando todo o processo, o general seguiu orientação presidencial para desrespeitar o regulamento militar ao comparecer a uma manifestação política, o que é vedado. A consequência não poderia ser outra senão a punição. Ora, sob pressão do presidente, o comandante do Exército optou por nenhuma punição, apagando o corrido, fazendo do feito uma desfeita para sua própria instituição. Escancarou a porta para a anarquia militar.

Os fundadores da República inscreveram na Bandeira o lema positivista “ordem e progresso”. Comte entendia que nenhum progresso, fruto da ciência, poderia realizar-se sem mudanças ordenadas, na ausência do que prevaleceriam a desordem, a ruptura e a violência. No que devem estar pensando os fundadores militares da República?

Denis Lerrer Rosenfield, o autor deste artigo, é Professor de Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Publicado originalmente n'O Estado de São Paulo, em 07.06.2021.