A vitória de Lula mostra que ainda é possível despertar o instinto de sobrevivência de um povo e faz do Brasil um farol para um mundo sitiado pela extrema direita.
Luiz Inácio Lula da Silva comemora sua vitória eleitoral neste domingo./Crédito: Amanda Perobelli (REUTERS)
Nunca antes na história do Brasil houve uma reviravolta como esta. Nunca antes na história deste país, como gosta de dizer Luiz Inácio Lula da Silva, se viu algo tão belo. Nem mesmo o movimento de redemocratização, após 21 anos de ditadura, mobilizou tantas pessoas comuns como agora, para derrotar o fascismo representado pela família Bolsonaro. Foi Maria, foi João, foi Ana, foi José contra a Meta de Mark Zuckerberg, que até a ONU apontou ter reduzido o alcance de cargos em favor de Lula. Foi Raimunda, foi Francisco, foi Carolina, foi Paulo que convenceram os indecisos de que o Bolsonarismo não é de direita, muito menos conservador, mas sim fascismo. E agora Lula, reeleito, deve seu mandato ao povo, como deve ser. Porque o que vimos no Brasil nas últimas três semanas foi a democracia sendo exercida em sua capacidade máxima para impedir que o bolsonarismo retorne ao poder, corrompa a Constituição, leve a floresta amazônica a um ponto sem retorno e se curve diante de Donald Trump.
A democracia no Brasil triunfou em um mundo onde o fascismo está em ascensão. A democracia pela qual tantos brasileiros lutaram, pela qual nossos pais e avós lutaram; a democracia pela qual muitos sofreram torturas brutais em defesa, pela qual outros permanecem desaparecidos até hoje e pela qual outros ainda foram assassinados por agentes do Estado. A democracia que começou a enfrentar a violência estrutural contra pessoas negras com o Estatuto de Igualdade Racial e cotas raciais nas universidades. A democracia que tirou o Brasil do mapa da fome. A democracia que permitiu que os mais pobres tivessem acesso ao ensino superior. A democracia que fortaleceu os direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais. A democracia que garantiu o programa social Bolsa Família. A democracia que salvou o que resta da Floresta Amazônica, do Cerrado, do Pantanal, da Mata Atlântica, da Caatinga e do Pampa. A democracia que criou o SUS, o maior sistema público, universal e gratuito de saúde do mundo. A democracia que garantiu o direito de todos viverem sua orientação sexual e formarem famílias com diversas composições de gênero, respeitando as diferenças e reconhecendo que a diversidade é um patrimônio. A democracia que impulsionou a cultura para além dos limites dos círculos de elite. A democracia que nos permitiu ser quem somos.
Após testemunhar o movimento progressista paralisado por tantos anos, imobilizado pelos horrores cometidos por Jair Bolsonaro durante sua presidência e pelo Congresso ao longo de tantas sessões legislativas, o surpreendente despertar após o primeiro turno das eleições transformou o Brasil em um farol para o mundo. Porque é possível despertar o instinto de sobrevivência de um povo. E a maioria dos brasileiros foi às ruas — físicas e digitais — para lutar por suas vidas. Como se o Brasil, em sua mais bela beleza, tivesse se reencontrado.
Isso é motivo de comemoração, mas devemos permanecer vigilantes. A luta continuará sendo muito difícil. O que o Brasil conquistou em 25 de outubro foi adiar o pior. Lula terá que enfrentar quatro anos muito difíceis, em um contexto nacional e global dramático, e em idade muito avançada. O presidente reeleito terá que confrontar um Congresso dominado por apoiadores de Bolsonaro. Lula sozinho não pode deter o ataque fascista que corrói as instituições. O movimento que garantiu sua permanência no poder precisará ser sustentado e ampliado. Não mais apenas um “exército de Lula”, mas comunidades de reflexão e ação. Campanhas nas redes sociais são necessárias, mas muito mais do que isso é preciso: precisamos debater e planejar estratégias. Precisamos construir um caminho para o sucesso até 2030. E talvez o mais difícil de tudo: o Brasil que venceu precisa ouvir os quase 60 milhões de brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro, porque eles têm algo a dizer que não pode ser ignorado.
Por mais espetacular que tenha sido essa recuperação nas atuais circunstâncias adversas, é preciso entender que se trata de uma vitória importante, porém temporária. A democracia brasileira permanece em grave perigo. Agora, o desafio é saber se o poder redescoberto do povo será capaz de sustentar a mobilização necessária no dia seguinte.
Eliane Brum, jornalista, para o EL PAÍS, em 26.10.26

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