quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Itamaraty corre perigo se Flávio Bolsonaro subir a rampa

Candidato à Presidência nomeará o irmão Eduardo ao cargo de chanceler em um eventual governo

Canibalismo é estranho à diplomacia brasileira

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o irmão Eduardo, ex-deputado federal - Daniel Cole/REUTERS

De todas as propostas de Flávio Bolsonaro, a mais tóxica veio na semana passada: seu irmão Eduardo será o chanceler de seu eventual governo e fará "uma faxina" nos quadros da diplomacia brasileira.]

Pindorama já provou esse veneno. Em 2019, seu pai nomeou o diplomata Ernesto Araújo para o cargo. Sua gestão foi desastrosa mesmo para os padrões do ex-capitão e ele teve que substituí-lo em 2021. Para o lugar foi o embaixador Carlos França, que restabeleceu o estilo da Casa.

Veio a eleição, Bolsonaro foi derrotado e a tradição prevaleceu. França foi mandado para a embaixada no Canadá, onde exerce sua função como um profissional correto. O canibalismo é estranho à vida do Itamaraty.

Em 1964, deposto João Goulart, seu chanceler, Araújo Castro, foi mandado para Atenas. Em 1985, terminada a ditadura, o chanceler Ramiro Guerreiro foi nomeado pelo presidente José Sarney para negociar a dívida externa.

O Brasil tem uma diplomacia respeitada porque não tem lugar para canibais. O Barão do Rio Branco dava-se mal com o Visconde de Cabo Frio, diretor-geral do Ministério. Esperou que morresse, o que se deu em 1907.

Os Bolsonaro deveriam ler "O Mundo em que Vivi", as memórias do embaixador Pio Corrêa (1918-2013), um verdadeiro e destemido conservador.

O Judiciário na semana da Criação

Se o Judiciário brasileiro estivesse presente na semana da criação, ele obrigaria o padre eterno a:

1º dia: Deus criaria a luz, mas manteria nas trevas os processos envolvendo magistrados;

2º dia: Deus criaria o firmamento, separando uma área para os gabinetes e casas dos magistrados;

3º dia: Deus criaria as plantas e os pomares dos magistrados que teriam safras contínuas;

4º dia: Deus criaria os astros, com prioridade para familiares de magistrados e tribunais superiores e seus familiares;

5º dia: Deus encheria os mares com peixes e as águas dos magistrados com salmões;

6º dia: Deus criaria os animais e o ser humano, com imortalidade e juventude eterna para os magistrados;

7º dia: Deus descansaria, com direito a férias retroativas.

Élio Gáspari, Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada". Publicado originalmente na Folha de S. Paulo, ediçãoimpressa, em 07.1026

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