quarta-feira, 11 de março de 2026

O lagarto venenoso e as canetas emagrecedoras

Perder peso é o sonho dos que estão acima dele. Até aqui, a medicina quase nada tinha a oferecer além do jargão "mais atividade física e dieta saudável".


(Crédito: Libero/Folhapress)

Cinquenta anos atrás, dispúnhamos de meia dúzia de drogas para moderar o apetite, mas os efeitos adversos eram de tal ordem que poucos conseguiam aderir ao tratamento.

Então surgiram os agonistas do receptor GLP-1, que se ligam a esse receptor presente na superfície de uma série de células do corpo humano. O impacto tem sido tão grande que, em entrevista à revista Nature, Timothy Carvey, professor de endocrinologia da Universidade do Alabama, afirmou: "Esta era do desenvolvimento de novas drogas para o tratamento da obesidade tem potencial para ser um marco na história da medicina, semelhante ao da descoberta da insulina, da penicilina e da vacina contra a poliomielite".

Tudo começou há 40 anos, com um lagarto preto com manchas alaranjadas pelo corpo, venenoso, que vive nos desertos do México e do sudoeste dos Estados Unidos. O interesse por ele veio da habilidade para regular o metabolismo e os níveis de glicose no sangue por longos períodos, mesmo na falta de alimentos.

Num exemplo da importância da pesquisa básica para o desenvolvimento da ciência, um grupo do National Institutes of Health isolou várias substâncias presentes no veneno. Uma delas, a exendina-4, estimulava o pâncreas do animal a produzir e liberar insulina.

Curiosamente, a exendina-4 apresentava configuração molecular semelhante à do hormônio humano GLP-1, que estimula a produção de insulina em resposta ao aumento da concentração de glicose na corrente sanguínea. Mas, enquanto a ação do GLP-1 dura minutos, a de exendina-4 se mantém por horas.

No diabetes tipo 2, a dificuldade para controlar os níveis de açúcar no sangue está ligada ao comprometimento da produção e da ação da insulina. Como a exendina-4 mimetiza a função do GLP-1, porém de modo mais sustentável, a lógica foi testá-la no tratamento do diabetes.

Depois da aprovação pelo FDA americano, o medicamento foi lançado com o nome de Byettta. Em 2006, a empresa que o produziu faturou US$ 430 milhões, vendas que cresceram 50% no ano seguinte.

Nos estudos que precederam o lançamento, ficou evidente que os pacientes perdiam peso.

Em paralelo, o laboratório dinamarquês Novo Nordisk seguia outra linha: sabendo que a ação fugaz do GLP-1 limitava o uso, a atenção foi voltada para o prolongamento de sua persistência na corrente sanguínea. Os estudos levaram ao licenciamento da liraglutida, o princípio ativo de dois medicamentos: Saxenda e Victosa, que ainda tinham o inconveniente de requerer a administração de injeções diárias.

No intento de reduzir a frequência das injeções, os pesquisadores da farmacêutica descobriram que a introdução de uma molécula de ácido graxo à de liraglutida aumentava substancialmente a duração do efeito. Essa versão do GLP-1 foi a semaglutida, comercializada com os nomes de Ozempic e Wegovy, para controle do diabetes tipo 2.

A observação de que os pacientes tratados experimentavam reduções significantes do peso motivou a companhia a iniciar o estudo Step 1, no qual participantes com IMC na faixa de obesidade foram tratados com injeções semanais de semaglutida durante 68 semanas. Em mais da metade, a perda foi acima de 15% do peso, contra 5% no grupo controle que recebeu apenas aconselhamento.

Estudos posteriores mostraram que os benefícios não se limitavam ao emagrecimento. A droga é capaz de reduzir o risco de complicações na insuficiência renal crônica e de eventos cardiovasculares fatais e não fatais, entre outros benefícios associados às alterações metabólicas causadas pela perda de peso.

Os investimentos financeiros nessa área intensificaram a busca de novas drogas. A própria Novo Nordisk lançou a tirzepatida, molécula dotada da propriedade de se ligar a dois receptores: o GLP-1 e o GIP, comercializada com o nome de Mounjaro. Em fase final de testes em outras companhias há medicamentos promissores: retatrutida, cagrilintida, bigramumabe, entre outros.

É inegável que essas drogas estão revolucionando o tratamento da obesidade, mas custam muito caro, provocam reações adversas e precisam ser mantidas por tempo indeterminado.

Compará-las à penicilina e à vacina da pólio é certamente um exagero.

Drauzio Varella, o autor deste artigo, médico cancerologista e escritor. Também autor, dentre outros livros, de “Estação Carandiru”. Publicado originalmente na Folha de S. Paulo, em 11.03.26

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