sábado, 29 de novembro de 2025

Quando Celso de Mello enxovalhou o general Villas Bôas

A hora e vez de Nhô Celso quando Villas Bôas Bem-Bem meteu o bedelho na política. Ministro do STF foi vencido, mas pôs a casta verde-oliva no devido lugar

Bruna Barros/Folhapress

Está quatro a três. O time de ex-presidentes presos (Lula, Temer, Collor, Bolsonaro) vence o escrete dos sem-cela (FHC, Itamar, Dilma) desde a volta das eleições diretas. Ver o sol nascer quadrado é o novo normal.

O anormal é a ida para o xilindró de três quatro-estrelas (Augusto Heleno, Braga Netto, Paulo Sergio Nogueira) e um almirante (Almir Garnier). Os caciques da tribo fardada tinham até então o mesmo estatuto dos yanomamis isolados: eram inimputáveis.

Milicos de alto coturno encarcerados: onde iremos parar? A resposta depende do que ocorre agora, no presente, que por sua vez decorre do passado –do fluxo contínuo de fatos, no mais das vezes caóticos, a que se dá o nome de história.

Para aprender com a história há que se selecionar, no turbilhão dos fatos, os momentos marcantes, aqueles em que as decisões e ações humanas moldam o futuro. Bolsonaro foi protagonista de alguns desses momentos.

Boicotou as vacinas contra a peste e contribuiu para a morte de milhares. Atiçou o lumpesinato contra as eleições. Mandou a Polícia Rodoviária sabotar a votação. Traficou e afanou joias. Articulou o banzé na porta de quartéis e a vandalização da Praça dos Três Poderes. Deu OK ao homicídio de Lula, Alckmin e Xandão. Foi chamado de "seu Jair" pela técnica que examinou a tornozeleira eletrônica que arrebentara.

Ao centro da imagem uma onça pintada está olhando para frente enquanto bebe água agachada na beira de um rio. Atrás dela, manchas verdes de lápis de cor sugerem uma vegetação.

"A história é um pesadelo do qual tento acordar", diz um personagem de James Joyce em "Ulysses". Pois a ascensão do Ogro foi um pesadelo que convém recordar. Há quem situe na revolta de 2013 o início da crise que o arremessou ao Planalto. Ou nos abusos da Lava Jato. Ou na missa negra da derrubada de Dilma, na qual exaltou Ustra, o torturador-mor.

Bolsonaro não se elegeu em 4 de abril de 2018, mas esse foi um dia decisivo da história recente, do pesadelo que assaltou o sono da nação. Duas mulheres e quatro homens deixaram que a milicada metesse o bedelho num assunto que a Constituição manda manterem distância, a política.

Lula foi condenado no caso do duplex no Guarujá, que Sergio Moro julgara ser propina da Odebrecht. Seus advogados pediram-lhe um habeas corpus. Com ele seria possível recorrer da sentença em liberdade. Ou seja, o STF decidiria naquela quarta-feira se enjaulava Lula.

A onça rosnou na véspera. O chefão do Exército, general Eduardo Villas Bôas, soltou um tuíte que rascunhara com o Alto-Comando. Como "todos os cidadãos de bem", os pintores de meio-fio externavam "repúdio à impunidade", diziam-se atentos a suas "missões institucionais". Em português de gente: se Lula ficasse livre, ai dos capas-pretas.

Chegara a hora da onça beber água. A expressão designa um instante tenso e perigoso, o cair da tarde, quando a pintada vai ao rio matar a sede. O pavor se espalha pela mata e a bicharada não dá bobeira na hora da onça beber água.

O STF, pois, tinha de tomar uma decisão prévia à do destino de Lula: afrontar a fera ou ficar na toca. Por seis a cinco, o Supremo se acoelhou diante de Darth Vader. Barroso, Cármen, Fachin, Fux, Moraes e Weber fingiram que Villas Bôas não lhes disparara um tuíte na testa.

Poderiam se abster em sinal de protesto. Abandonar o plenário e explicar por quê. Até votar pela prisão do ex-presidente, mas rechaçar a ingerência dos azeitonas. Eram várias as maneiras de se afirmar o poder civil. As seis togas preferiram se submeter à espada.

"A Hora e Vez de Augusto Matraga" é uma novela de Guimarães Rosa que fala do difícil dia em que um homem tem de decidir quem, à vera, é. Rufião regenerado, Nhô Augusto tem de optar entre silenciar ou combater o bandoleiro mais afamado das Gerais, Joãozinho Bem-Bem, "o arranca-toco, o treme-terra, o come-brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta, o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha".

Celso de Mello, o decano do STF, não tinha nada do Matraga que acariciou a lâmina da faca e o pescoço da carabina ao encarar Joãozinho Bem-Bem. Lhano, olhou a onça no olho, tomou-se de ira santa e lhe disse na fuça que o "pronunciamento" era "de todo inadmissível", típico de um "pretorianismo que cumpre repelir". Lembrou os "dias sombrios" da ditadura e alertou seus pares e o país: as "intervenções castrenses" causam "danos irreversíveis ao sistema democrático".

Como Gilmar Mendes, Lewandowski, Marco Aurélio e Toffoli, Nhô Celso foi vencido. Mas esteve à altura do momento, teve sua hora e vez quando, altivo como Matraga, enxovalhou Villas Bôas Bem-Bem e pôs a casta verde-oliva no devido lugar.

Mário Sérgio Conti, o autor deste artigo, é jornalista. Autor de "Noticias do Planalto", o mais completo livro-reportagem sobre a era-Collor. Publicado originalmente na Folha de S. Paulo, em 28.11.25, edição impressa.

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