quarta-feira, 7 de março de 2012

Logradouros

Quando as pessoas têm seus nomes oficialmente gravados nas placas que denominam as ruas, as praças, as avenidas e, nos mapas, também as cidades, a idéia não é endeusá-las, penso, mas consagrar referências históricas e de bons exemplos.

As gerações que vão despontando novas, cada uma a seu tempo, sem informações sobre os grandes momentos da história precisam das referencias positivas que lhes apontem os caminhos do bem que lhes sirvam de inspiração nas jornadas que houverem por bem empreender.

A verdade, porém, é que nos tempos de ultimamente nos quais vivemos o poder público, e também as ainda sobreviventes lideranças comunitárias, não parecem muito interessadas nos bons exemplos do passado que serviam de espelho e estímulos aos mais jovens, em especial.

Você vai ao Rio de Janeiro e passando pelo Largo do Machado se depara com um Machado de Assis em bronze lodoso, polvilhado de coco de pombos. Nem há mais no monumento a anotação de quem foi aquele velho de barbicha que, chova ou faça sol, dia e noite, só devora livros. Quem ali saberá quantos livros, e com histórias bonitas, ele escreveu?

Em Copacabana, no calçadão da praia, há um Carlos Drummond de Andrade em pose reflexiva e já não se contam as vezes em que os vândalos lhe quebraram os óculos. O mesmo se deu em S. Luis com outro poeta, o Bandeira Tribuzi.

No tempo em que a Praça da Biblioteca, também conhecida como Praça do Panteon, na capital do Maranhão, abrigava lembranças em bronze dos grandes vultos da prosa, da poesia e das ciências, lembranças que só exalavam orgulho aos maranhenses, os fãs e amigos do Tribuzi inauguraram seu busto no Panteon.

O busto era de uma argamassa na cor de bronze. Os empreendedores da homenagem ainda iam fazer a vaquinha indispensável ao custeio da escultura definitiva, um bronze eterno.
Aqui abre-se um parêntese.

Quando foi levado preso por conta do golpe militar de 64, acusado de ser comunista, Tribuzi protestou corrigindo que era socialista. O coronel do IPM/Inquérito Policial Militar não se conteve qualificando-o como perigoso aliciador da juventude para o comunismo. Socialismo e comunismo - sentenciou o coronel, é a mesma coisa. Fecha o parêntese.

Mais de uma década depois, o poeta já morto num enfarte após ser constrangido a tocar piano num dos órgãos de segurança do regime, ainda havia clima no Estado para o CCC, o Comando de Caça aos Comunistas, cujos militantes não só lhe quebraram os óculos e o nariz como ainda escreveram com letras vermelhas baboseiras das intolerâncias típicas deles.

Hoje é fácil, muito fácil, sair por aí festivamente se dizendo comunista, socialista, muito embora muitos nem saibam o que, na prática, efetivamente, isso signifique.

Quantos de nós, na ingenuidade da infância ou na adolescência sonhadora, não quisemos ser como aqueles que nossos pais ou nossos mestres nos estimularam a conhecer e a admirar pelos livros da escola?

É certo que por muito tempo um poeta, o Gonçalves Dias, nascido na Mata do Jatobá e criado ali na Rua do Cisco, em Caxias, muito me intrigou. Na praça principal da cidade, com o seu nome, havia – e não há mais – um busto dele e a inscrição – homenagem dos caxienses ao cantor das selvas.

Eu, menino, ficava um tempão olhando aquele cara barbudo e cabeludo querendo entender porque lhe chamavam de cantor das selvas.

Como ninguém me explicasse o que eu sei hoje – o cara era antropólogo e poeta indigenista – eu concluía que era um doido. Parecido com o João Golinha, só podia ser doido.

Daí que na infância eu não quis ser Gonçalves Dias. Sair cantando pelas selvas – conclui - era coisa de doido...

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