segunda-feira, 29 de março de 2010

Herodes

Augusto Nunes é um dos mais conceituados jornalistas do Brasil. O que você vai ler a seguir ele veiculou hoje no portal da Veja, sob o titulo – As Isabellas do Maranhão, numa referencia aquela menina que teria sido atirada da janela, em queda mortal.

Os leitores da coluna convivem há meses com a refinada ironia de Celso Arnaldo. Hoje, quem ainda não a conhece será apresentado à indignação do jornalista Celso Arnaldo Araújo. Perplexo com a matança de crianças maranhenses, resultante da falta de leitos na capitania hereditária da famiglia Sarney, ele conta neste post a saga das Isabellas sem-imprensa:

Acompanho, com horror e nojo, a cobertura de mais uma tragédia maranhense: a morte em série de crianças, inclusive recém-nascidas, por falta de leitos de UTI no estado.

Folha deste domingo registra a 16ª morte do ano ─ a vítima é Mayara Francelino, de 8 anos, que agonizava há nove dias, em leito comum, numa sala abafada e imunda, com meningite, à espera de uma vaga em unidade de terapia intensiva em sua cidade, Imperatriz.

Nem uma liminar obtida na Justiça, obrigando o governo maranhense a lhe oferecer UTI, mesmo que fosse em clínica particular, conseguiu materializar a tempo o tratamento que talvez lhe desse alguma chance de sobrevivência. A UTI só apareceu quando era tarde demais.

Mayara é a vítima de número 16 de mais essa incúria do governo instalado no Palácio dos Leões, em São Luís, que há mais de 40 anos abriga, com fausto, pompa e riqueza progressiva, uma família de hienas que se refestelam na carniça de seu povo. O estado tem o pior índice de IDH do país, a pior educação e o pior sistema de saúde, entre outros superlativos do mal.

No ano passado, 43 outras crianças morreram no Maranhão nas mesmas circunstâncias. O mesmo governo que sonega a essas crianças, ainda no útero das mães, condições sociais mínimas de nutrição e bem-estar, mata-as assim que vêm ao mundo, ou um pouco mais tarde, porque devem ter faltado pelo menos 13 milhões de dólares para a instalação dos necessários leitos de UTI infantil, a fim de atender às vítimas da contaminação pela miséria e pelo descaso, que resultam em baixo peso ao nascer, desnutrição, infecções oportunistas.

Ouso afirmar que os 13 milhões de dólares de Fernando Sarney que tomavam sol nas Bahamas têm a ver com as mortes dessas crianças. E que essa tragédia está intimamente relacionada à atuação dos Sarneys, que há 40 anos sugam e desgraçam o Maranhão.

Leio os jornais com horror, nojo e uma ponta de sentimento de culpa: enquanto perco tempo e verve analisando as crônicas mambembes do patriarca dessa família infame, relevo o fato de que ser o pior escritor do mundo é o mais leve de seus delitos.

Teria José Sarney a decência e a coragem de assinar um texto sobre Mayara ─ como se arvorou em fazer, numa crônica da Folha, a respeito de uma menina haitiana que ele identificou como MJ, amputada a sangue frio num hospital de campana improvisado em Porto Príncipe?

A inicial é a mesma. E há outra coincidência: MJ foi vítima de uma catástrofe natural; a pequena Mayara, também ─ a perpetuação do governo Sarney no Maranhão é uma catástrofe natural, e muito mais mortal, porque acumula danos há mais de 40 anos, instabilizando, pela miséria eterna, os níveis subterrâneos do terreno social do estado.

O governo Sarney não socorreu Mayara a tempo ─ nem com ordem judicial. Mas era uma ordem difícil mesmo de cumprir: não há leitos suficientes no estado, nem à força.

Com o cinismo que é de família, a governadora, só depois da morte de Mayara e de outras 58 crianças Sem-UTI, designou 5 milhões de reais para a criação de um punhado de leitos no hospital onde agonizou a menina - o Hospital Municipal Infantil de Imperatriz, conhecido, à propos, como Socorrinho.

Noves fora os 20 ou 30% dessa verba que vão morrer no caminho, sem passar pela futura UTI, até diretores do Socorrinho acham que a coisa vai continuar como está e novas Mayaras morrerão: para abrigar uma unidade da terapia intensiva, o hospital precisaria rever radicalmente seus padrões de higiene, que estão abaixo dos da tenda onde MJ foi amputada.

Por força de hábito, mas me sentindo a pior das criaturas, passei os olhos pela crônica de José Sarney na Folha de sexta-feira: ele continua obcecado pelo avanço da internet, que mal conhece, agora ameaçando a sobrevivência dos jornais impressos.

No final, depois daqueles raciocínios escabrosamente sem nexo de que só o pior escritor do mundo é capaz, ele sentencia, bem a seu estilo:
─ Finalmente, como o rádio e a TV não mataram o jornal, a internet não o matará. Só quem pode matá-lo é ele mesmo, querendo ser internet ou fazendo mau jornalismo.

Podemos garantir ao cronista que, mesmo que essa previsão não se concretize, e o jornal impresso vá a encontro de sua morte, as gerações futuras terão acesso, num hipotético arquivo nacional da vergonha e do escárnio, a um pedaço de papel embolorado noticiando a morte de Mayara e das demais crianças maranhenses ─ cuja lembrança, um dia, assombrará também as futuras gerações da família Sarney.

As Isabellas do Maranhão são atiradas para a morte por pais-da-pátria que nem tentam enxergá-las das janelas dos palácios. Morrem sem barulho. E acabam esquecidas na vala comum reservada aos que jamais conseguirão aparecer na primeira página do jornal.

domingo, 28 de março de 2010

Sem Bigode


O atual Presidente do Senado será internado nas próximas horas no Sírio Libanês em São Paulo para retirada, já pela segunda vez, de um tumor na boca.

O tumor, dizem os médicos, é benigno.

O que estaria, no entanto, preocupando o Senador pelo Amapá, um senhor de 80 anos, é a possibilidade de por causa da cirurgia ter que ficar sem o bigode.

É que esse adorno de cabelos supra labiais não apenas lhe ajuda a manter uma marca. Funciona também como talismã que nem a volumosa e extensa cabeleira de Sansão.

Os poderes sobrenaturais de Sansão, é sempre bom lembrar, se acabaram quando, seduzido por Dalila, inconsciente como numa anestesia, ela lhe cortou as melenas.

No fim, Sansão ficou cego e o que lhe restou de forças foi para sacudir as colunas do Templo, o qual desabou também sobre ele.

Transferências

Nessa pesquisa que saiu do DataFolha, Serra recuperando a dianteira de 10 pontos à frente de Dilma, há um dado preocupante para o Governo.

Embora Lula mantenha-se com popularidade altíssima, não há até aqui registro de que os seus admiradores votarão maciçamente na sua candidata a Presidente.

A possibilidade Lula transferir em votos para Dilma a parcela maior da sua popularidade, continua distante.

Entre os que acham o Governo Lula bom/ótimo, 33% tencionam votar em Dilma e 32% se inclinam para Serra.

Mas entre os que não condenam Lula, mas consideram seu Governo apenas regular, Dilma tem a preferência de apenas 9% contra 51% dos que dizem que votam em Serra.

Sabendo disso, Serra não descuidará da estratégia de não bater nem deixar que batam em Lula, que afinal não é candidato a nada.

Bilhões no Ar

Exatos 17 bilhões 44 milhões e 8 mil reais estão soltos no ar sem que ninguém saiba se foram efetivamente aplicados ou não.

O TCU detectou que as prestações de contas dessa dinheirama ainda aguardam exames dos órgãos federais repassadores.

O governo alega falta de estrutura para fiscalizar a efetiva aplicação de tantas liberações.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Fechando o Cerco


Pela segunda vez a Policia Federal aperta o cerco sobre as movimentações financeiras do filho do meio do atual Presidente do Senado do Brasil.

No mês passado, confirmou-se que ele mandou ilegalmente 1 milhão de dólares para um banco na China.

Agora as autoridades suíças bloqueiam 3 milhões de dólares numa conta de uma empresa cujo dono seria ele mesmo, o principal operador financeiro da família.

O GLOBO de hoje conta os detalhes.

Diferenças

Como o auditório alugado só tem assentos para 1.500 pessoas, haverá filtro nos convites para a reunião das direções regionais com as nacionais do PSDB, PPS e DEM, agendada para o dia 10 de abril, em Brasília.

Os três partidos que já formam a base inicial da candidatura de Serra a Presidente não querem, mais uma vez, que uma reunião nacional, ainda que em recinto fechado, transborde para um clima de campanha eleitoral antecipada.

A coordenação do futuro candidato, em tudo que for possível, quererá fazer diferente, sempre demonstrando ao País a vida pregressa de Serra na luta política, desde moço, mas sempre no compromisso com o império da lei, com as instituições republicanas e com a ordem democrática.

Quando isso não foi mais possível, a força da ditadura impondo-se sobre a ordem democrática, Serra foi para o exílio, de onde voltou antes mesmo da lei da anistia, reengajando-se na luta pela convocação da Assembléia Nacional Constituinte.

Ao contrário do PT, que pagará 18 mil mensais a Dilma enquanto for candidata, dando-lhe ainda casa, comida, carros, roupa lavada e engomada e o que mais precisar, Serra lembra que sempre teve onde morar em São Paulo.

Em Brasília, ficará em hotéis. Percorrerá o País em campanha como da última vez em que foi candidato, usando os meios próprios do comitê responsável pelas doações.


 

quinta-feira, 25 de março de 2010

Esclarecimento

Não foi de 13 milhões de dólares o total bloqueado da conta de Fernando Sarney na Suíça, esclarece Lauro Jardim, em seu blog no portal da Veja.

O governo suíço bloqueou 3 milhões de dólares.

Treze milhões de dólares é o valor com que a conta foi aberta mas, segundo informaram as autoridades suíças ao governo brasileiro, 10 milhões de dólares já haviam sido remetidos para o paraíso fiscal de Liechtenstein antes do bloqueio.

Em Liechtenstein, o dinheiro foi depositado na conta de uma empresa pertencente ao filho do presidente do Senado.

A conta, segundo informações que o governo brasileiro já possui, pode ser movimentada tanto por Fernando como por Tereza Sarney, sua mulher.

A existência da conta de Fernando Sarney na Suíça foi revelada em reportagem da Folha de S. Paulo de hoje.


 

Um Estranho Desce o Rio


O poeta Bernardo Almeida, a quem sucedi na Academia Maranhense de Letras, tinha um enredo para um romance sobre o qual muito me falava, mas nunca o escreveu.

Chamar-se-ia Um Estranho Desce o Rio.

Era a história de uma banda de música que percorria cidades às margens do Rio Parnaíba, ora do lado do Piauí, ora do lado do Maranhão, num calendário que começava no Natal, passava pelas festas do Ano Novo, passava pelo carnaval e se encompridava até a Semana Santa.

Para cada tipo de evento a orquestra tinha a partitura compatível.

Aconteceu que numa dessas descidas pelo rio a balsa que transportava a orquestra encalhou perto de Fordão, um povoado entre Regalo e Tapuio, no lado do Piauí.

Aqui entra o estranho da história que o Bernardo, a mesma história, muitas vezes me contou.

O estranho, um cara excêntrico e com alguma grana, convence o mestre balseiro e este convence o maestro a saltar com a orquestra.

Acabam num cabaré desses de beira de rio e a animação é tamanha que atrai gente de outros povoados, as alegrias se prolongam, mas lá muito mais abaixo na outra margem do rio, em Bom Princípio, no Maranhão, há um padre em desespero.

O carnaval acabara e as vésperas estavam na regressiva da semana santa. A orquestra já tinha o repertorio pronto para a procissão do Senhor Morto.

Mas a festa na zona de Fordão continuava a atrair a caboclada, até então acostumada só a som de foles, zabumba, triangulo, no máximo rabeca, que era o mais sofisticado.

Leite de onça corria solto, o consumo de leite condensado esgotara o estoque nas vendas e o padre lá, em Bom Princípio, no desespero.

Que mierda, esconjurava o padre, essa orquestra não chega!

O problema é que a orquestra já era tradicional, a grande atração, na procissão do Senhor Morto.

O que fez o padre? Não podendo parar o tempo, prorrogou por mais duas semanas a Semana Santa na esperança que nesse intermezzo a balsa chegasse trazendo a orquestra, afinal, para a boa fé de todos e alegria geral.

Estou lendo que, para economizar energia, Hugo Chavez, o gênio político produzido pela corrupção ate então reinante na política e pelo anacronismo ate então dominante na administração pública da Venezuela, gênio este, venezuelano, que ainda não saiu da garrafa, decretou a prorrogação da semana santa por mais três semanas.

Solução Liberdade

Um rombo em qualquer orçamento implica em cortes de despesas, começando-se por aquelas não que não contam muito nas prioridades governamentais.

A Califórnia, por exemplo, resolveu agora, por conta do rombo no seu orçamento, soltar os presos antes do prazo de cumprimento das penas. Claro que conforme alguns critérios.

O problema maior é que 70% dos presos da Califórnia são reincidentes nos crimes pelos quais foram condenados, embora 6.500 deles estejam entre os considerados como de baixa criminalidade.