segunda-feira, 22 de março de 2010

A Subversão dos Blogs

A não ser com as pessoas se comunicando livremente dizendo, umas às outras, o que pensam e refletindo em conjunto sobre o que sabem não é possível empreender avanços desses que volta e meia são indispensáveis para se mudar, e sempre para melhor, o rumo da história.

Vendo que não poderia ficar limitado à comunicação verbal, o homem inventou a escrita em símbolos marcados em pedras. A informação em meio estático, que não se movia, precisava da fala de cada um que a lia para transformar-se em mensagem adiante.

A caligrafia depois, permitindo a reprodução dos textos, ainda que em quantidade bem limitada, fez com que a informação se movesse, mas como só alcançava a poucos era um privilégio e assim também fonte de poder.

O conhecimento não podia, e àquelas alturas nem deveria, chegar a todos.

A religião se assenhoreou dos calígrafos e copistas e de sua produção. A Bíblia, por exemplo, só era acessível ao Papa e a alguns iluminados cardeais. A sua interpretação escorria nas bulas papais, que se diluíam em ordenamentos verbais indiscutíveis entre o restante na hierarquia do clero.

E era tudo em latim, o que já restringia bastante o acesso ao conhecimento.

O Século XVI registra o primeiro impacto da grande revolução, a partir da qual as pessoas se movem conquistando mais liberdades e descobrindo mais direitos, melhorando assim o mundo em que vivemos.

Quem não já ouviu falar em Martinho Lutero?

Mas poucos sabem sobre Leão X.

Lutero foi o clérigo que não entendendo algumas lógicas das bulas papais resolveu questioná-las, primeiro escrevendo à mão diretamente ao Vaticano, onde passou a não ser bem visto.

Lutero não desistiu nos questionamentos, ele não queria romper, estava apenas querendo entender algumas lógicas das bulas papais, mas os hierarcas continuaram o subestimando.

Leão X era o Papa, o Sumo Pontífice infalível, que não arredando de sua hermenêutica, não sabia que na Alemanha um ourives chamado Gutembergue acabara de inventar a imprensa, e que o primeiro livro saído de sua prensa foi exatamente a Bíblia.

MacLuhan diria que Gutemberg ao inventar a imprensa deu extensão ilimitada aos olhos e à fala da humanidade.

Claro que Lutero usou a nova invenção para dar maior alcance à difusão das suas idéias. Se não convenceu Leão X, mas atraiu para a sua lógica milhões e milhões de dissidentes do Vaticano.

O protestantismo, apesar das reações mais severas, ganhou corpo sendo considerado ainda hoje por muitos como um movimento moderno.

Sem a imprensa, a Reforma de Lutero não teria vencido.

Em termos numéricos não sei como Alvin Tofler classificaria essa onda.

Depois da imprensa, o código Morse, o telefone, o rádio, o cinema, a televisão, e agora a internet. Todos meios de comunicação, difundindo as mensagens, democratizando o conhecimento.

A produção e difusão da informação, enquanto privilegio de poucos, começa a se tornar acessível a muitos deixando, assim, de ser aquela inesgotável fonte de poder.

Manter um jornal em circulação ainda hoje não custa pouco dinheiro. Manter uma televisão funcionando custa muito dinheiro. Manter uma estação de radio no ar ainda custa algum dinheiro.

Tudo isso depende de patrocinadores, cada vez mais esses patrocínios são buscados no poder publico, e quando isso ocorre o resultado é uma aliança nefasta contra a verdade dos fatos, restando censura e manipulação política.

A sofisticação dos meios de comunicação e o encarecimento dos custos de produção, por conseqüência, tornaram ainda mais poderosos os donos dessas mídias na medida em que só eles conseguem manter suas engrenagens funcionando, em alianças, muitas delas espúrias, com o poder público.

O lucro que buscam é apenas o do capital político porque é com esse capital que, manipulando a verdade dos fatos, em redes de mentira única, apostando sempre na impunidade e no medo que impõem a muitos, seguram o poder estatal sem o qual não sobrevivem.

Em contraponto, começa agora a era da subversão dos blogs.

Blog, como explica Hugh Hewitt, é a contração da palavra inglesa weblog.

Log significa diário, aquele diário de bordo dos capitães dos navios ou dos comandantes dos aviões. Web é essa rede solta no espaço.

Lógico que nem todos os blogs têm emissões diárias, muitos ficam semanas no ar sem novidade alguma. Apesar da instantaneidade com que podem ser postados os textos, os blogs podem se distinguir quanto à periodicidade.

Há apenas 11 anos, portanto, em 1999, surgiu o primeiro blog. Calcula-se que mais de 5 milhões de blogs navegam hoje no cyber-espaço.

Hoje em dia qualquer um dentre nós para ser fotografo basta ter um celular e para ser editor de noticias ou de opinião basta ter um blog.

A tecnologia necessária para se manter um blog é grátis se comparado com a que os conglomerados de comunicação – jornais, rádio e TV precisam pagar.

No nosso caso, com 20 reais por ano podemos obter um domínio ponto com fora do Brasil, por exemplo, o que de algum modo resulta mais seguro. O resto, com qualquer note book você faz.

A amplificação dessa liberdade em guetos de atraso político e de pobrezas econômica e social, como no Estado onde vivemos, ainda depende muito da massificação das tecnologias de banda larga e de maior acesso popular ao computador.

Em parcerias com a iniciativa privada comprometida com o desenvolvimento, com envolvimento dos movimentos sociais e das entidades não governamentais será possível superar os obstáculos que ainda impedem que os blogs em sua função transformadora cheguem a qualquer hora à maioria das pessoas neste Estado.

Fora das nossas fronteiras já estamos sensibilizando simpatias e apoios à causa revolucionária, transformadora. A ferramenta eficaz nesse campo tem sido os blogs.

O blog é hoje a mídia que inspira maior confiança porque resulta da ação de pessoas que, bem intencionadas, não querem perder sua inocência, recusando-se à cumplicidade com os que conspurcam contra princípios morais e éticos, negando os fundamentos da República, impedindo os avanços da Democracia.

Nos blogs você confia. Pode discordar ou não, mas confia quando quer fazer um juízo de valor. O blogueiro é, por assim dizer, em regra, pessoa de pensamento independente.

(Tem as exceções, é verdade, naqueles que sendo empregados fazem de tudo, e ate se tornam craques em mentira, para não perderem o emprego.)

Mas no geral o blogueiro é um ser inocente, patriota, cidadão que, como a maioria do Povo, sonha por uma sociedade mais justa e progressista. Não usa disfarces e assume, corajosamente, em suas tendências.

Na língua portuguesa há a palavra – subversão, por conta da qual muita gente penou, inclusive eu, sob a ditadura militar ao ser tachado de subversivo.

Segundo o Dicionário Houaiss, subversivo é aquele que prega ou executa atos visando à transformação ou derrubada da ordem estabelecida.

O que nós pregamos e o que queremos?

Queremos derrubar pelos meios pacíficos disponíveis o anacronismo político que por décadas seguidas nos impõem o atraso social e econômico através de modelos arcaicos de administração.

Neste contexto, somos, sim, subversivos. Neste contexto, o blog é um indispensável instrumento à luta subversiva!

Vamos acelerar a subversão. (Palestra no II Encontro dos Blogueiros do Maranhão, em Pinheiro, em 20.03.10).

terça-feira, 16 de março de 2010

Mulher, Mulheres

Primeiro, as mulheres!

Sim, porque sem elas nada acontece. Como poderíamos ter nascido? Nós homens somos exclusivos e completos dependentes delas.

E por isso mesmo, por conta dessa dependência absoluta, cada um de nós tem direito a, pelo menos, cinco mulheres.

Não uma de cada vez, mas todas ao mesmo tempo.

Aí o mulheril se assanha, erguendo os braços, e com o dedo indicador de cada mão em riste protesta sonoramente – não, não, falando bem alto só uma, só uma, e eu digo não, mostro os dedos da mão direita, cinco, cinco mulheres no mínimo e sem essa de uma de cada vez.

Consigo criar o tumulto que eu queria.

E insisto que cada homem, por ser dependente total das mulheres, tem direito, sim, a ter na vida pelo menos cinco mulheres, não uma de cada vez, mas todas cinco ao mesmo tempo, concomitantemente.

O frisson aumenta, eu insisto e elas nem me deixam explicar porque nós, homens, temos direito, cada um, a pelo menos cinco mulheres se misturando todo dia em nossas vidas.

Dou um tempo, peço calma e à medida que vou me explicando elas vão achando graça e muitas até já me ajudam na conta, e quando menos esperamos já passam de cinco as mulheres a que, insisto eu, temos direito todo dia em nossas vidas.

A primeira mulher, é claro, é a mãe. A ela se juntam, não necessariamente nessa ordem, a tia, a irmã, a avó, a namorada ou a esposa, a professora, a nora, a sogra, a cunhada e também aquela amiga de fé quase irmã camarada, e por aí vamos montando na realidade de cada um formidável elenco feminino.

Então, é às mulheres em especial a nossa primeira saudação.

Quem de nós, homem, consegue viver bem sem o apoio ou a cumplicidade de pelo menos duas ou três delas? A conta de cinco, no mínimo, é bem melhor.

Quando saímos à luta no mundo lá fora, depois da porta da rua, e quando voltamos esfaimados é no afeto delas que vamos em conforto de alma nos reencontrar.

E a professora misto de mãe e de namorada oculta cuja ternura nos impregna no tempo como tatuagem invisível marcada na memória?

Uma vez passando férias com minha avó em São Domingos chegou a noite sobre as casas turvando as ruas e eu nada de chegar.

Estava eu naquela do poema do Fernando Pessoa de serões de meia província, de me amarem e eu ser menino.

Minha avó Isabel notou que eu chegara um tanto mais alegre, um pouco diferente, achou muita graça e disse vou rezar para que não pegues uma doença. A reza valeu, naquela primeira vez nenhuma doença do mundo me pegou. Valeu,valeu, dona Cleópatra.

A mãe tem aquilo de querer tudo certinho, cada coisa a seu tempo, em seu lugar. Se der errado ela reprova, mas não falta nunca com o apoio em público, nem em particular. Só a mãe consegue ser inteiramente, o tempo todo, cegueira e amor total.

A avó, não. Em se tratando de amor é isso tudo, mas é também a grande cúmplice, uma doce cúmplice, que nem a irmã e a tia. Porém, um pouco mais.

O homem criado na mistura dessas mulheres quando alcança a porta da rua para todo o sempre consegue ganhar o mundo de uma maneira muito mais inspiradora, mais irradiante, mais confiante, mais corajosa e mais criativa.

Isto porque as cinco mulheres que, no mínimo ainda estão em sua vida, o terão ensinado a compreender o mundo com uma visão mais humana e mais solidária, inclusive também na respeitosa relação com os outros.

Todo dia, gente, é Dia da Mulher! Dia Internacional da Mulher!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Boi Voando


Houve, sim, a reunião. E foi em Brasília.

Jackson, primeiro Vice - Presidente nacional do PDT, esteve com Guerra, Presidente nacional do PSDB, e os dois se acertaram sobre o Maranhão.

Exceto se acontecer algo sobrenatural, sabendo-se que em política só ainda não se viu foi boi voando, mas elefante sim, Magalhães disse a Tancredo que viu, o PSDB e o PDT marcharão juntos, coligados, para o Governo e para o Senado.

E obvio também que o PDT indicando o candidato a Governador, no caso Jackson, e apoiando também o Senador do PSDB, dará palanque a Serra para Presidente.

Castelo, o Prefeito de São Luis, do PSDB, anda muito risonho e dizendo que política se faz somando e não dividindo os parceiros.

O PDT deve coligar com o PSDB também no Paraná apoiando o Beto, Prefeito de Curitiba, filho do Richa, para Governador.

Sem Comer Cru

Atenta àquele ditado de que o apressado come cru, a coordenação da campanha de Serra deixa vazar a estratégia de que não quer as coisas muito na carreira, mas também não muito devagar.

Cada coisa a seu tempo, e acha que o cronograma que já vem sendo cumprido para o Serra está dando certo.

Até aqui ele se poupou de polêmicas e de denúncias quanto a campanha antecipada no TSE e da polarização que Lula queria, tipo assim nós do Governo contra eles da Oposição.

Serra traçou o seu caminho e não vai fazer o jogo do adversário. Só se anunciará candidato quando estiver deixando o Governo de São Paulo e não falará sobre quem será seu Vice.

Está pedindo que parem de pressionar Aécio nesse rumo e garante que só tratará disso em junho, às vésperas da Convenção Nacional do PSDB.

domingo, 14 de março de 2010

A Diferença

Serenidade, critica sincera e nada de agressão, eis aqui o Serra, paz e amor, se aprontando para a campanha em que espera ser eleito Presidente da República.

No discurso de lançamento da candidatura, que acontecerá em Brasília no segundo fim de semana de abril, sexta ou sábado, defenderá o novo modelo de Estado na linha do que ensaiou, e seu deu bem, em São Paulo, o Estado Ativo.

O ativismo governamental defendido por Serra relega ao passado o modelo estatal todo - poderoso e apenas desenvolvimentista, e também o Estado da pasmaceira, avesso à produção.

- A questão nacional e a questão do desenvolvimento continuam no presente.

- O objetivo de materializar as condições de uma plena cidadania exige políticas nacionais, exige ativismo governamental na procura do desenvolvimento e da maior igualdade social.

Serra entende que políticas sociais, como bolsa família, são justas e necessárias, mas desde que o Estado se empenhe em promover o desenvolvimento para não transformar os pobres em clientela cativa do assistencialismo.

A campanha de Serra dará ênfase a propostas possíveis e rejeitará promessas que não possam ser cumpridas.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Caramba!


O diabo mora no Vaticano e muitos bispos são ligados a ele. O ataque que o Papa Bento XVI sofreu na noite de Natal a caminho do altar onde celebraria, e acabou celebrando, a Missa do Galo foi obra do demônio.

Quem está dizendo estas coisas é o Padre Gabriele Amorth, exorcista chefe da Igreja Católica, no cargo há 25 anos.

Num livro que escreveu e que está prestes a ser lançado, ele diz que o diabo costuma agir de duas formas – numa ele te aconselha a te comportares mal, a fazer coisas ruins e até a cometer crimes.

Na outra, ele possui a pessoa, se encarna nela. Foi o caso, segundo o exorcista, de Adolf Hitler e demais nazistas.

Avisa o chefe dos exorcistas do Vaticano que o capeta é poliglota, é capaz de falar qualquer língua e muitas vezes aparece de forma até muito simpática às pessoas que escolhe para se encarnar.

Razões de Cardoso

Um dos Deputados de grande categoria, moral e intelectual, do PT de São Paulo, José Eduardo Cardoso acaba de anunciar que se retira da disputa eleitoral. Diz que não lhe é mais possível concorrer num campo em que o debate das idéias cede lugar à fisiologia da caça aos votos. Cardoso é um intelectual, Professor de Direito na USP, pessoa de grande respeito no Congresso Nacional.

No ano passado ele veio a São Luis apoiar a chapa de Augusto Lobato à direção do PT estadual sendo recebido em almoço na nossa casa. Conversamos bastante sobre o futuro do Maranhão nessa atual circunstância do Brasil. José Eduardo Cardoso é um excelente interlocutor. Vamos continuar conversando.

Renuncia à candidatura à reeleição, mas continua Secretário Geral do PT nacional. Em longa mensagem dirigida aos seus companheiros de partido ele dá as razões da sua desistência.

Trechos da mensagem:

* Hoje um político sério no Brasil pode vir a ser punido ou mesmo correr o risco de perder o seu mandato, por um mero descuido ou erro formal. Será então exposto à impiedosa execração pública que o tratará como um criminoso de alta periculosidade, com seu nome e fotografia estampado pelos órgãos de comunicação, sem que se busque saber, exatamente qual "delito", de fato, ele cometeu. Seus familiares, mesmo conscientes da lisura ética do punido, amargarão a vergonha e a zombaria pública, recebendo também uma sanção social implacável.

* Já os corruptos cuidadosos que podem pagar bons e caros técnicos que os assessoram, costumam não cometer erros desta natureza, ao engendrarem suas grandes "falcatruas". Bem assessorados, quase sempre saem "limpos" das disputas eleitorais e aptos a continuar a assaltar os cofres públicos com a mesma desenvoltura de sempre. Quando, porém, eventualmente, são pegos pelas malhas da lei, já possuem os cofres nutridos para pagar bons advogados e fortuna suficiente para fugir da execração social em lugares acolhedores do mundo.

* Não bastasse isso, a generalização e a banalização da idéia de que todo político é "desonesto", não pode deixar de abater ou desestimular os que buscam comportar-se com a dignidade e a ética que o respeito ao voto popular exige. Não há nada pior para alguém que vive com dignidade no mundo da política, do que, diante de uma acusação qualquer, ver que a sua palavra ou a ausência de provas incriminadoras, não afasta nunca a "certeza" da sua "culpa".

* Se na vida comum se costuma dizer injustamente que "onde há fumaça há fogo" (injustamente, porque a fumaça pode ter outras "causas químicas"), na vida de um político, o senso comum costuma sentenciar que se há "a leve aparência da fumaça, a existência do fogo é certa". E não admite, jamais, prova em contrário.
Por isso, me empenhei muito na defesa da reforma política. Defendi o financiamento público das campanhas, por entender que as formas atuais de financiamento privado das eleições geram corrupção e uma real ausência de isonomia entre os candidatos.

* Defendi o voto em lista partidária porque entendo que, em uma eleição, um partido deve disputar seu programa de forma unitária, sem que pessoas que estão do mesmo lado busquem os votos um dos outros, personalizando a competição e reduzindo a chance de uma politizada e madura disputa eleitoral. Tinha e tenho consciência de que somente uma reforma política aguda e radical poderia romper com a cultura dominante de execração preconceituosa de todos os que optam pela vida política, forçando a diferenciação do joio do trigo pela sociedade. Mas junto com outros companheiros de luta, fui derrotado.

Admiro e aplaudo, portanto, todos aqueles companheiros que, tendo a mesma visão ética que possuo da ação política, ainda conseguem transformar o desestímulo em energia para uma disputa proporcional dentro deste sistema eleitoral e desta conjuntura adversa, como, aliás, fiz tantas vezes. Só que todos devem saber respeitar os seus limites e avaliar, diante do que sentem e vivem, quando poderão ser mais úteis em outras frentes de luta, na defesa da mesma causa.

* É o que hoje, após tantos anos de atividade parlamentar, percebo em mim mesmo diante da perspectiva de participar de um novo pleito eleitoral para a disputa de uma vaga na Câmara dos Deputados. Aprendi na minha vida a não entrar em disputas quando não se tem ânimo para enfrentá-las ou não se sente prazer e alegria em fazer um bom embate, mesmo quando a vitória é possível.

* O sistema político brasileiro traz no seu bojo o vírus da procriação da corrupção e das práticas não republicanas, mas também inocula , ao mesmo tempo, outro vírus que atinge o ânimo dos que gostam do Parlamento, mas não gostam das condições, das regras, das calúnias e das incompreensões que forjam o caminho do acesso e o exercício de um mandato proporcional. Embora tenha lutado muito contra o primeiro, fui, lamentavelmente, atingido pelo segundo.

* Por isso, deixarei, ao final deste ano, a Câmara dos Deputados, mas não abandonarei a militância política. Estarei sempre à disposição do meu Partido e do projeto político-ideológico que defendo para o país, para assumir qualquer tarefa que me traga ao espírito o ânimo e a alegria do bom embate, na construção de uma sociedade justa e fraterna. Peço de todos os que sempre me apoiaram, mesmo que eventualmente agora os decepcione, a compreensão deste gesto fundado em razões estritamente pessoais e de foro íntimo.

*  Minha decisão não é uma renúncia à causa, mas apenas uma mudança do campo de atuação política. Quero deixar a paralisia que o desestímulo em disputar uma candidatura proporcional me traria, transformando-a em energia positiva para novos embates políticos. Quero me voltar integralmente à construção da nossa candidatura presidencial, à eleição dos nossos governadores e governadoras, e à eleição de uma bancada parlamentar forte que possa comandar a realização de uma verdadeira reforma política democrática.

Ócios do Ofício

Ciro acaba de declarar que nunca mais vai querer ser Deputado na vida.

Ele já foi Deputado Estadual duas vezes, no Ceará, por onde se elegeu Deputado Federal nas últimas eleições, com a maior votação do Brasil, em termos proporcionais. Mas antes já foi Prefeito de Fortaleza e Governador do Estado. Está na terceira tentativa para ser Presidente da República.

Como Deputado Federal está entre os que mais acumulam ausências não justificadas, passando a maior parte do tempo com a sua agenda cheia, viajando pelo País fazendo palestras, expondo as suas idéias.

Olha aqui a razão indicada por Ciro Gomes para nunca mais querer ser Deputado. "Não tenho mais paciência para ficar nove horas por dia conversando fiado e não fazendo nada pela vida de ninguém".

Luiz Vicente


Você conhece e convive com umas certas pessoas e pensa que elas são imortais.

Quando a vida inventa distâncias geográficas, um num canto, o outro mais longe, ainda assim, se ela é do bem, nunca passa pela sua cabeça a tenebrosa idéia de que um dia você vai ficar sabendo que ela morreu.

É agora o caso do Luiz Vicente, quero dizer do Cernicchiaro.

Na UnB dos anos 70, sob a reitoria do Azevedo, Landim dirigindo a Faculdade de Direito, eu estudando lá, o que para muitos apaixonados parecia cinza de chumbo, para os que pensavam o Brasil precisando se abrir para a democracia, firmava-se o ambiente arejado para a floração livre das idéias republicanas e democráticas.

Cernicchiaro, então um jovem Juiz no DF, recém chegado de Roma, Itália, onde concluíra um doutorado em Direito Penal, era a atração nos seminários do auditório Dois Candangos e nas salas de aulas.

Não fui seu aluno na graduação, mas desde então colamos um no outro uma amizade.

Depois ele foi meu Professor de Criminologia, na Pós Graduação. Depois fomos colegas no Superior Tribunal de Justiça, onde o sucedi na Presidência da Terceira Seção, especializada em Direito Público.

Ele fazia o julgador tipo prafrentex, eu às vezes mais conservador, às vezes mais à frente. Tivemos mais convergências do que divergências.

Sempre estivemos muito próximos. O seu livro Direito Penal na Constituição o escreveu por sugestão minha para indicá-lo aos meus alunos na UnB.

Recebo agora a notícia que de o Luiz Vicente morreu em Brasília. Já estava com 81 anos de idade. Ele foi um dos que ficaram no STJ até a última hora do último dia da véspera da aposentadoria compulsória.

Teve pouco tempo para viver a vida, que ele a dedicou mais e muito mais aos estudos e ao trabalho.

Eu lhe dizia o que tenho repetido aos meus outros amigos Juízes – isso é trajetória, gente; não pode ser estrada porque estar Juiz até o ultimo dia do prazo não é vida, é renúncia à vida. Muitos dos que saem desse ramo no último dia do prazo saem não sabendo fazer mais nada na vida. Só raciocinam em termos de ementa, relatório e voto.