segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Depois de nomear seis mulheres para Conselho Econômico, Papa Francisco escolhe mais duas para postos-chave no Vaticano

Francesa é agora subscretária do Sínodo dos Bispos e será a primeira mulher com voto em uma das mais importantes assembleias eclesiásticas da Igreja; Já italiana é a primeira procuradora na Corte de Apelação do Vaticano


No Vaticano, o Papa Francisco dá sua benção. Logo antes, ele fez a oração do Angelus na biblioteca do palácio apostólico e, em sua mensagem aos fiéis, alertou para o risco de violência contra a mulher durante o período de isolamento social para conter o novo coronavírus Foto: VATICAN MEDIA / AFP

O Papa Francisco nomeou duas mulheres para funções no Vaticano que até então só tinham sido exercidas por homens.

Nathalie Becquart - francesa que é membro das Irmãs Missionárias Xavier, uma congregação religiosa fundada na França em em homenagem a São Francisco Xavier - é agora subsecretária para o Sínodo dos Bispos, o departamento que prepara as mais importantes reuniões eclesiásticas, realizadas com intervalos de anos, para discutir assuntos específicos da Igreja, entre elas questões doutrinais, litúrgicas e canônicas.

Francisco já convocou o próximo Sínodo dos Bispos, que está marcado para outubro de 2022, e terá como tema "Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão".

A função de Becquart, de 52 anos, dará a ela direito de voto nas assembleias que, até hoje, eram compostas apenas por homens, uma demanda de mulheres e de alguns bispos.

O Papa também nomeou a magistrada italiana Catia Summaria a primeira mulher promotora de Justiça da Corte de Apelações do Vaticano.

As mulheres têm participado como observadoras e consultoras nos sínodos, mas apenas homens, incluindo bispos e representantes eleitos ou nomeados especialmente, tinham direito a voto sobre os documentos finais elaborados nessas reuniões e mais tarde enviados ao Papa.

No sínodo de 2019, mais de 10 mil pessoas assinaram uma petição pedindo que mulheres pudessem votar.

"Uma porta foi aberta. Veremos que outros passos poderão ser dados no futuro", afirmou o cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo, à imprensa oficial do Vaticano.

O Papa Francisco mantém a proibição de mulheres sacerdotisas na Igreja Católica. criou comissões para estudar a história de mulheres diáconas nos primeiros séculos da Igreja, atendendo ao pedido de mulheres que querem exercer a mesma função hoje.

Em 2020, em uma mesma canetada, ele nomeou seis mulheres para o Conselho Econômico, que fiscaliza as finanças do Vaticano. Francisco também escolheu mulheres para os cargos de vice-ministra do exterior, diretora dos Museus do Vaticano e vice-chefe da Impresa do Vaticano.

O GLOBO on line, em 08.02.2021

Brasil registra 636 mortes por covid-19 em 24 horas

Com mais de 23 mil novos casos confirmados em 24 horas, total de infectados passa de 9,5 milhões. Ao todo, 232 mil pessoas morreram no país em decorrência do coronavírus.    

Paciente em maca é levada por enfermeiros para dentro de hospital

O Brasil registrou oficialmente 23.439 casos confirmados de covid-19 e 636 mortes ligadas à doença nesta segunda-feira (08/02), segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass).

Com isso, o total de infecções identificadas no país subiu para 9.548.079, enquanto os óbitos chegam a 232.170.

Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que os números reais devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação.

O Conass não divulga número de recuperados. Segundo o Ministério da Saúde, 8.397.187 pacientes haviam se recuperado até domingo.

A taxa de mortalidade por grupo de 100 mil habitantes subiu para 110,5 no Brasil, a 22ª mais alta do mundo, quando desconsiderados os países nanicos San Marino, Liechtenstein e Andorra.

Em números absolutos, o Brasil é o terceiro país do mundo com mais infecções, atrás apenas dos Estados Unidos, que somam mais de 27 milhões de casos, e da Índia, com 10,8 milhões. Mas é o segundo em número absoluto de mortos, já que mais de 464 mil pessoas morreram nos EUA.

Ao todo, mais de 106,4 milhões de pessoas já contraíram o coronavírus no mundo, e 2,3 milhões de pacientes morreram.

Deutsche Welle Brasil, em 08.02.2021

A agenda do Brasil

Há muito trabalho a fazer. O tempo vai dizer se Arthur Lira e Rodrigo Pacheco estão à altura do desafio. Jair Bolsonaro, como se sabe, não está.

O País só terá a ganhar com a coordenação de esforços entre os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado para fazer avançar projetos do mais alto interesse público. Tanto melhor seria se a Presidência da República ajudasse. Passada a eleição para as Mesas Diretoras das duas Casas legislativas, é hora de baixar armas, arrefecer tensões políticas e levar adiante a agenda de reformas estruturantes de que tanto o Brasil precisa, e para já.

Os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), mostraram disposição inicial de levar adiante essa agenda vital para o País. No dia 3 passado, eles assinaram uma nota conjunta em que selaram o compromisso das duas Casas legislativas com projetos de universalização das vacinas contra a covid-19, de reativação da atividade econômica e de retomada do auxílio emergencial dentro das “possibilidades fiscais” do País. A ver se o presidente Jair Bolsonaro fará sua parte nessa coalizão. Espera-se que, uma vez superada a alegada hostilidade da antiga direção do Congresso, sobretudo da Câmara, à agenda do Planalto, Bolsonaro, enfim, tome gosto pelo trabalho.

Na nota conjunta, Lira e Pacheco afirmaram que farão avançar projetos para agilizar a compra de vacinas, incluindo possíveis alterações no processo de licenciamento. Ambos também se comprometeram a assegurar que os recursos necessários para aquisição dos imunizantes estarão à disposição do Executivo. É mais do que sabido que só uma campanha de vacinação massiva terá o condão de, além de salvar milhares de vidas, destravar a atividade econômica. O SUS tem capacidade e experiência para empreender uma campanha desta envergadura. Resta ao governo adquirir doses na quantidade necessária para um país como o Brasil.

Em pronunciamento após a assinatura do compromisso, o presidente do Congresso afirmou que “as duas Casas estão alinhadas em priorizar as reformas tributária e administrativa, bem como a votação das Propostas de Emenda à Constituição (PECs) Emergencial, do Pacto Federativo e a que trata dos Fundos Públicos”. É bom saber que os projetos que compõem uma agenda vital para o Brasil estejam no radar da nova cúpula do Legislativo.

O esforço imediato tanto da Câmara como do Senado, de fato, deve estar voltado para a garantia da universalização das vacinas e a análise de viabilidade da extensão do auxílio emergencial. Mas isto não significa que o Congresso possa descuidar das demais reformas, sem as quais não apenas o País permanecerá em estado de crise humanitária, como seus efeitos se agravarão no tempo.

Urge destravar as reformas tributária e administrativa, como bem salientou Rodrigo Pacheco. E uma reforma administrativa que, de fato, reorganize a estrutura do Estado e gere mais eficiência, reduzindo o custo da chamada máquina pública. O que o Executivo propôs no ano passado foi um simulacro de reforma, incapaz de gerar a economia necessária para investimentos públicos em áreas essenciais, como saúde e educação. Responsabilidade fiscal e atenção social, não é demais lembrar, podem e devem andar juntas.

A agenda da educação também não pode ser negligenciada pelo Legislativo. A aprovação do Novo Fundeb foi importantíssima, mas, a rigor, apenas se evitou que a área ficasse sem recursos a partir do início deste ano, o que seria um desastre. É preciso mais do que isso. Bolsonaro, vale lembrar, realizou a façanha de apequenar não só o Ministério da Saúde em meio à pandemia, mas também o da Educação. Impressiona a facilidade com que esse desmonte foi feito sem a devida fiscalização dos demais Poderes.

O Congresso também não poderá se furtar de tratar de projetos voltados à proteção do meio ambiente.

Há muito trabalho a fazer. O tempo vai dizer se Arthur Lira e Rodrigo Pacheco estão à altura do desafio. Jair Bolsonaro, como se sabe, não está.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de São Paulo, em 08 de fevereiro de 2021 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Como as democracias adoecem

Segundo índice da ‘The Economist’, pandemia acentuou deterioração democrática em 2020

A deterioração global da democracia precede a pandemia, mas foi acentuada por ela. É o diagnóstico do Índice da Democracia anual da Economist Intelligence Unit, com base em indicadores como processo eleitoral, funcionamento do governo, participação política, cultura política e liberdades civis. A média global atingiu de longe a pior marca na série iniciada em 2006. “A pandemia resultou numa supressão das liberdades civis em escala massiva e abasteceu uma tendência existente de intolerância e censura das opiniões dissidentes.”

Segundo o Índice, metade da população mundial vive em algum tipo de democracia: 41% em democracias “falhas” e só 8,4% em democracias “plenas”. Mais de 1 em 3 pessoas (35%) vive em regimes “autoritários” – boa parte na China – e 15%, em regimes “híbridos”. Em 2020, uma ampla maioria de países, 116 de 167 (quase 70%), registrou algum declínio, especialmente acentuado em regimes autoritários (e particularmente nos países islâmicos do Oriente Médio e África subsaariana).

Nos regimes democráticos, a maioria das pessoas corroborou restrições temporárias às liberdades como indispensáveis para conter o vírus. Mas isso não justifica as tentativas abusivas de censurar os céticos. As agressões à liberdade de expressão e fracassos da transparência democrática explicam os declínios generalizados em indicadores como Liberdades civis e Funcionamento do governo.

Emblemática é a erosão da democracia nos EUA – hoje considerada “falha” –, que antecedia ao governo Trump, piorou com ele e mais ainda na pandemia. No entanto, há sinais de vitalidade: o engajamento político dos americanos vinha crescendo e cresceu mais com a politização da pandemia; movimentos contra a violência policial e racial; e um comparecimento recorde às urnas. Mas as tendências negativas – como os baixos níveis de confiança nas instituições e partidos, disfunções governamentais, ameaças à liberdade de expressão e um grau alarmante de polarização – superam as positivas. Nada simboliza mais essa degradação que o assalto ao Capitólio.

Na análise regional, o Índice sugere que a pandemia acelerou uma mudança no equilíbrio de poder do Ocidente ao Oriente. Em 2020, enquanto a Europa ocidental perdeu duas democracias “plenas” (França e Portugal) – por falta de transparência dos governos e de restrições abusivas da liberdade de movimentação –, a Ásia ganhou três (Japão, Coreia do Sul e Taiwan). Em geral, os países asiáticos enfrentaram a crise melhor do que quaisquer outros, com baixas taxas de infecção e mortalidade e, consequentemente, com melhor desempenho econômico. A experiência da Sars contou muito para a resposta eficiente das autoridades e da população. No Ocidente, em contraste, as autoridades foram lentas e confusas, alguns sistemas de saúde quase colapsaram e a confiança nos governos declinou.

Tal contraste foi rapidamente explorado pela propaganda chinesa. Mas significativamente o “grande vencedor” da pesquisa foi Taiwan – que, após Hong Kong, é o próximo alvo na linha de tiro do imperialismo chinês.

Similarmente à Europa oriental, a América Latina – com apenas três democracias plenas (Uruguai, Chile e Costa Rica) – regrediu pelo quinto ano consecutivo. “A emergência de saúde pública serviu para escamotear alguns abusos de poder familiares nos últimos anos”, como uma cultura política frágil, dificuldades em criar instituições de salvaguarda do Estado de Direito e uma corrupção endêmica. O desempenho do Brasil (na 49.ª posição) é excelente em termos de Processo eleitoral e pluralismo (9,58 pontos em 10); razoável em Liberdades civis (7,94); medíocre em Participação política (6,11); e pobre em Funcionamento de governo (5,71) e Cultura política (5,63).

A pandemia exerceu formidável pressão sobre a vida das nações. “A pandemia precipitou a maior contração nas liberdades individuais jamais implementada pelos governos em períodos de paz (e talvez mesmo em períodos de guerra)”. É impossível prever se a democracia do século 21 será resistente a esse tipo de choque ou se ele deixará deformidades permanentes. Tudo depende do vigor dos democratas desta geração.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de São Paulo, em 07 de fevereiro de 2021 


Os problemas jurídicos do cidadão Donald Trump

Investigações criminais, ações judiciais e casos bloqueados pela imunidade presidencial aguardam quem na próxima semana se tornará ex-presidente


O então Presidente Trump na Casa Branca, em uma imagem de arquivo. EVAN VUCCI / AP

Donald Trump não perdeu apenas a eleição de 3 de novembro. Ele também perdeu imunidade. A Constituição dos Estados Unidos, que detalha como o Congresso pode destituir um presidente "por crimes e contravenções graves" por meio do processo de impeachment, não diz se ele pode ser submetido a processo criminal no tribunal. Mas, durante décadas, o Departamento de Justiça seguiu a doutrina, expressa em dois memorandos vinculativos de 1973 e 2000, de que um presidente em exercício não pode ser processado. Casa Branca abandonada, a proteção desaparece. Processar um ex-presidente seria um passo sem precedentes nos Estados Unidos. Mas julgamento no Senado por incitamento à insurreição, depois que a Câmara dos Deputados aprovou nesta semana o impeachmentdo presidente, é apenas um dos problemas jurídicos que aguardam o cidadão Donald Trump. Estes são os principais casos e investigações abertas sobre quem se tornará ex-presidente nesta semana:

Fraude fiscal no estado de Nova York. A principal nuvem no horizonte judicial de Donald Trump é colocada por Cyrus Vance, o promotor público de Manhattan. As investigações que vem conduzindo há dois anos constituem a única investigação criminal aberta hoje sobre Donald Trump. Como o procurador é um órgão estadual eleito, e não federal, o caso não depende da vontade política do próximo governo nem seria afetado por eventual autoperdão presidencial. A investigação está paralisada desde setembro passado, quando o presidente entrou com uma ação para bloquear a exigência de sua declaração de impostos e outros documentos, disputa sobre a qual o Supremo Tribunal Federal deve se pronunciar em breve. Pouco se sabe sobre as investigações do Ministério Público,eles são protegidos pelo sigilo do procedimento do grande júri. Mas, ao documentar a batalha para obter as declarações de impostos de Trump, a equipe de Vance falou de "conduta criminosa extensa e prolongada na Organização Trump" e sugeriu que investigasse uma variedade de crimes financeiros em potencial, de fraude de seguro a evasão fiscal, passando por fraude bancária .

Incitamento à insurreição. Depois que hordas de seus seguidores invadiram o Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro, a Câmara dos Representantes aprovou esta semana o segundo impeachment de Donald Trump,para "incitamento à insurreição". O julgamento será realizado em breve no Senado. Embora seja muito provável que aconteça quando Biden estiver na Casa Branca, um veredicto de condenação, exigindo uma votação de dois terços a favor, poderia levar a uma segunda votação (desta vez seria válida com maioria simples) para proibi-lo Trump vai concorrer a um cargo eleito federal no futuro. Independentemente do processo no Congresso, incitar a insurreição é crime federal. Mas o Departamento de Justiça deve abrir um caso separado para persegui-lo.

Obstrução de justiça. O promotor especial Robert Mueller, após dois anos de investigações sobre o complô russo concluído em março de 2019, não encontrou evidências de uma conspiração de Donald Trump com a Rússia, mas evitou exonerá-lo do crime de obstrução à justiça. Ele detalhou vários episódios que, de acordo com um promotor de sua equipe, constituem "evidência suficiente" de que Trump obstruiu a justiça. Mas o impeachment de Trump "não era uma opção", explicou Mueller, uma vez que não se pode imputar um presidente enquanto ele estiver no cargo. Uma vez fora da Casa Branca, o Departamento de Justiça pode decidir ressuscitar a investigação e processar Trump, desencadeando um verdadeiro terremoto político.

Financiamento ilegal de campanha. Durante a primeira campanha presidencial de Trump, abalado por gravações do candidato se gabando de agarrar mulheres pelos órgãos genitais sem seu consentimento, seu ex-advogado e empresário Michael Cohen organizou um complô para desviar dinheiro da campanha e comprar o dinheiro com ele. Silêncio de um filme pornô atriz e modelo da Playboy que afirmou ter tido relações sexuais com a candidata. Cohen foi condenado em 2018 a mais de três anos de prisão por financiamento ilegal de campanha e disse que foi o presidente que está deixando o cargo quem ordenou os pagamentos. O Ministério Público não indiciou Trump, provavelmente em cumprimento à mencionada doutrina do Ministério da Justiça, mas poderá fazê-lo quando ele deixar a presidência. Um dos fatores que fragilizam a acusação é a credibilidade menos questionável da testemunha principal,

Fraude fiscal federal. Quase escondido hoje sob a sucessão de eventos históricos que marcaram a política dos EUA nos últimos meses, o The New York Times lançou uma verdadeira bomba de informações em 27 de setembro sobre a campanha: Donald Trump pagou apenas US $ 750 em imposto de renda em 2016,ano em que foi eleito presidente, e não pagou nada em 10 dos últimos 15 anos. Entre a torrente de informações reveladas pelo jornal, após acessar registros fiscais de duas décadas, há deduções gritantes, como US $ 70 mil para suas próprias despesas de cabeleireiro em seu programa de televisão ou milionários e pagamentos duvidosos de consultoria, alguns dos quais foram para seu filha Ivanka. Se os promotores acreditarem que ele deliberadamente tentou defraudar o estado, eles poderiam mover uma acusação contra Trump, e a autoridade fiscal também poderia reivindicar valores que acredita que ele deveria ter pago e não pagou.

Fraude imobiliária. Há outra investigação aberta, na Procuradoria Geral do Estado de Nova York, liderada por Letitia James, sobre se a empresa da família de Trump mentiu sobre a avaliação de seus imóveis para garantir empréstimos ou benefícios fiscais. A investigação, no momento, é de natureza civil, mas James pode transformá-la em criminal a qualquer momento se detectar evidências de conduta criminosa.

Violação da cláusula sobre emolumentos. Há três ações movidas contra Trump, duas de parlamentares e procuradores-gerais democratas e uma de grupo independente, por suposta violação da chamada cláusula de emolumentos da Constituição. Isso proíbe o presidente de receber presentes de governos estrangeiros, algo que eles acreditam que o presidente fez ao aceitar o dinheiro que autoridades da Arábia Saudita e de outros países gastaram em reservas no hotel Trump em Washington, que se tornou um centro de poder desde seu chegada à capital. Mas esses são processos que visavam principalmente a destituição do presidente de seus negócios privados e, uma vez fora do cargo, provavelmente serão demitidos.

Ação por fraude movida por sua sobrinha. A psicóloga Mary Trump, filha do falecido irmão mais velho do presidente, foi uma crítica feroz de seu tio, que ela define como "o homem mais perigoso do mundo" em seu best-seller Always Too Much and Never Enough (Uranus), que retrata a família Toxic da qual emergiu o 45º presidente. A autora processou seu tio em setembro por conspirar com seus irmãos para enganá-la, usando documentos falsos e outros truques para esconder milhões de dólares dos bens do pai do presidente. Ele afirma que Mary Trump violou uma cláusula de confidencialidade que ela assinou quando aceitou o acordo sobre o testamento.

Ação por difamação contra Jean Carroll. Escritora e colunista popular, Carroll contou em uma prévia de um livro publicado na revista New York em junho de 2019 como o atual presidente supostamente a estuprou em uma loja de departamentos em Manhattan em meados da década de 1990. Trump respondeu que Carroll estava mentindo, que ele nem mesmo a conhecia e que ela não era seu "tipo". Carroll então o processou por difamação. O Departamento de Estado tentou neutralizar a ação, alegando que seus comentários faziam parte de seu trabalho como presidente e, portanto, propondo que o governo substituísse Trump como réu.O que levaria ao indeferimento da reclamação, uma vez que o Governo não pode ser acusado de difamação. Um juiz federal deve decidir sobre a proposta de substituição em breve.

Ação de difamação de Summer Zervos. Concorrente do programa de televisão de Trump, The Apprentice, Zervos afirmou, pouco antes das eleições de 2016, que o presidente cessante a beijou e apalpou quando ela foi pedir-lhe conselhos sobre sua carreira em 2007. Trump negou a acusação e chamou Zervos de mentiroso, o que levou eta para processá-lo por difamação em 2017.

PABLO GUIMON, de Washington, DC, para o EL PAÍS, em 17 DE JANEIRO DE 2021

Apoio ao impeachment reforça racha na direita e deve afetar alianças em 2022

Com novo comando na Câmara, saída de Bolsonaro fica mais difícil; adesão de ex-apoiadores ao movimento sela o fim da frente que o elegeu

Em meio à queda de popularidade e ao aumento da pressão pelo impeachment, com a mobilização de adversários nas redes sociais e a multiplicação de carreatas e panelaços, o presidente Jair Bolsonaro conquistou algumas casas preciosas no xadrez político do País.

Com a vitória dos candidatos do Palácio do Planalto às presidências do Senado e da Câmara dos Deputados, cujo ocupante tem a atribuição de aceitar – ou não – um pedido de impeachment, o afastamento de Bolsonaro parece ter ficado mais distante do que muitos de seus opositores gostariam.

Movimento Vem Pra Rua, que apoiou Bolsonaro em 2018, participa de carreta pelo impeachment em São Paulo. Foto: TABA BENEDICTO/ESTADÃO

“Nós estamos num momento de pandemia, de crise social, de crise econômica. Não precisamos abrir uma crise política”, afirmou o deputado Arthur Lira (Progressistas-AL), novo comandante da Câmara, ao responder a uma pergunta sobre o tema um dia antes de ser eleito para o cargo, em entrevista ao programa Em Foco, da GloboNews.

Líder do Centrão – que avalizou a sua candidatura na Câmara e a de Rodrigo Pacheco (DEM-MG) no Senado –, Lira disse que não via motivos para levar o processo de impeachment adiante. “Se o atual presidente (da Câmara), Rodrigo Maia (DEM-RJ), com muita prudência e muito equilíbrio, não pautou nenhum dos 59 pedidos de impeachment que ele tem na gaveta, é porque sabe que não há nada lá que tipifique uma ruptura política desta gravidade.”

“Tempestade perfeita”

Embora alguns líderes, influenciadores e apoiadores do movimento pelo impeachment afirmem que a mobilização deverá continuar no mesmo diapasão e até crescer nos próximos meses, a postura de Lira poderá esfriar as pretensões do grupo – ao menos enquanto durar a lua de mel de Bolsonaro com o Centrão.

“Acredito que não vai ter mais impeachment, não”, diz Fernando Schuler, cientista político e professor do Insper, escola de economia, engenharia e direito de São Paulo. “Para a gente chegar numa tempestade perfeita de impeachment, que ainda está bem longe, tem de haver uma queda mais forte de popularidade do presidente”, afirma o cientista político Lucas de Aragão, da Arko Advice, uma consultoria de Brasília. “Essa queda de popularidade terá de ser barulhenta, gerar protestos, grandes manifestações.”

Com o recrudescimento da pandemia e as restrições impostas a grandes aglomerações, também parece improvável que as manifestações pelo impeachment alcancem as dimensões necessárias para ampliar o apoio político à medida no Congresso. A não ser que Bolsonaro continue a jogar contra si mesmo, cometendo erros em série e atiçando os adversários com vara curta – o que está longe de ser uma possibilidade remota, considerando o seu retrospecto nos primeiros dois anos de governo.

Entrega de cargos

“O grande adversário do Bolsonaro é ele próprio”, afirma o agrônomo Xico Graziano, ex-secretário da Agricultura e do Meio Ambiente de São Paulo, que deixou o PSDB para apoiar Bolsonaro em 2018 e se “desencantou” com ele, embora não esteja apoiando o impeachment. “A capacidade do Bolsonaro de fazer besteira é muito grande.”

Os analistas apontam ainda que a fidelidade do Centrão, conhecido pelos interesses fisiológicos que costumam pautar as ações de seus integrantes, vai depender muito do cumprimento das promessas feitas por Bolsonaro e da entrega de cargos e emendas aos integrantes do grupo. Dependendo do que acontecer neste quesito, a percepção dos parlamentares do bloco em relação ao impeachment pode mudar subitamente. Até agora, porém, os sinais indicam que Bolsonaro, aparentemente, obteve uma sobrevida no posto.

“Esse grupo não tem lealdade ao presidente, mas a ele mesmo. Se o presidente não andar na linha e cumprir o que prometeu, eles vão começar a mandar recados”, diz Aragão. “O Centrão é aquele namorado, aquela namorada, desconfiado. É um relacionamento naturalmente tenso.”

“Nova esquerda”

Agora, desde já, independentemente dos desdobramentos que o impeachment terá nas ruas, nas redes e no Congresso, o movimento pelo afastamento de Bolsonaro, aliado à sua aproximação com o Centrão, gerou efeitos colaterais que deverão ter uma repercussão considerável no atual cenário político e nas eleições de 2022.

Com a adesão de grupos e personalidades de direita e centro-direita que apoiaram Bolsonaro em 2018 à mobilização pelo impeachment, o racha na frente que viabilizou a sua eleição ganhou contornos de um divórcio litigioso. A turma, chamada de “direita limpinha”, “nova esquerda” ou simplesmente de “traidora” pelas brigadas bolsonaristas, já vinha se afastando do presidente por uma razão ou por outra, mais cedo ou mais tarde, nos dois primeiros anos de governo. Mas, ao abraçar a bandeira do impeachment, até agora defendida apenas pela esquerda, levou as divergências na direita a um novo patamar.

A lista de ex-apoiadores de Bolsonaro que encamparam o impeachment inclui grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua (VPR), que lideraram as manifestações pelo afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff, além de dos lavajatista e muitos liberais, que perderam espaço no governo. Inclui também figuras como o apresentador e comediante Danilo Gentili, que passou a chamar Bolsonaro de “Minto”, em vez de “Mito”, os cantores e compositores Lobão e Raimundo Fagner, o cineasta José Padilha, o músico e youtuber Nando Moura, o ator Carlos Vereza e intelectuais como Denis Rosenfield, Francisco Razzo, Martím Vasques e o professor de filosofia pernambucano Rodrigo Jungmann, que disse fazer parte da “direita com superego”, ao se distanciar do presidente.

Da atuação desastrada na pandemia à quebra da promessa de não disputar a reeleição, da paralisia da privatização e das reformas à aliança com o Centrão e à saída do ex-ministro Sérgio Moro do governo, os motivos que levaram ex-apoiadores de Bolsonaro a se bandear para a oposição e a se juntar ao coro pelo impeachment se contam às dezenas e viraram temas de memes nas redes sociais.

“O caldo bolsonarista foi se juntando com o que há de pior na vida pública brasileira”, afirma Lobão, um dos primeiros a defender o impeachment de Bolsonaro entre seus ex-apoiadores. “O malefício que Bolsonaro está fazendo ao País se tornou indiscutível e insuportável. Ele prometeu combater a corrupção e desarmou as estruturas anticorrupção que levaram anos para ser conquistadas”, diz o empresário Rogerio Chequer, um dos fundadores do VPR e ex-candidato ao governo de São Paulo pelo Novo. “Bolsonaro prometeu acabar com a mamata, com o ‘toma lá, dá cá’, mas se uniu com o Centrão”, afirma o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP), um dos líderes do MBL. “Dizia que era contra a reeleição e agora só pensa em 2022.” 

José Fucs, O Estado de S.Paulo, em 07.02.2021

Crime e castigo

A má conduta de Bolsonaro é amplamente documentada. Não é exagero considerar que várias de suas ações podem constituir crime de responsabilidade.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) abriu investigação preliminar para verificar se há indícios de que o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, cometeram “práticas delitivas” na atuação do governo federal no combate à pandemia de covid-19. No mesmo dia, um grupo de senadores entregou um pedido de abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) também para investigar a atuação do governo. A comissão já é chamada de CPI da Covid.

Como se sabe, Bolsonaro passou os últimos meses dedicando-se a construir uma blindagem tanto na PGR como no Congresso, razão pela qual não são pequenas as chances de que ambas as iniciativas deem em nada.

No primeiro caso, o procurador-geral da República, Augusto Aras, indicado para o cargo por Bolsonaro, informou que a abertura da investigação é apenas praxe, isto é, não significa, por ora, que haja indícios de que Bolsonaro e Pazuello cometeram algum dos crimes apontados no pedido, feito por deputados do PCdoB.

Os parlamentares acusam o presidente e o ministro da Saúde de prevaricação e de colocar em perigo a vida e a saúde dos brasileiros. O foco é o drama dos moradores do Amazonas e do Pará, onde dezenas de doentes de covid-19 morreram asfixiados por falta de oxigênio nos hospitais, sem que isso despertasse especial mobilização do governo federal. “O descompromisso de Bolsonaro e Pazuello com o enfrentamento à Covid-19 deixou gestores locais à deriva, tendo que administrar por conta própria fluxos e demandas que, via de regra, dependem de uma lógica conjunta – a mesma que orienta o Sistema Único de Saúde (SUS), que opera de forma tripartite, envolvendo União, Estados e municípios”, informa a ação.

No segundo caso, a instalação da CPI da Covid depende da autorização do novo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, eleito há alguns dias com o apoio entusiasmado de Bolsonaro. “Com o recrudescimento da covid-19 em dezembro de 2020 e janeiro de 2021, as omissões e ações erráticas do governo federal não podem mais passar incólumes ao devido controle do Poder Legislativo”, diz o requerimento da CPI.

Ainda que nenhuma das duas iniciativas prospere, há um crescente movimento para obrigar Bolsonaro e seu ministro da Saúde, o intendente Pazuello, a responder por seus atos, mais cedo ou mais tarde – mais cedo será melhor para o País, já que mais de mil brasileiros morrem por dia de covid-19. Parte desses óbitos poderia ser evitada se houvesse uma firme liderança do Ministério da Saúde na coordenação dos esforços contra a pandemia – o que dificilmente ocorrerá enquanto Pazuello estiver no Ministério, e Bolsonaro, na Presidência.

A má conduta de Bolsonaro é amplamente documentada. Não é exagero considerar que várias de suas ações podem constituir crimes de responsabilidade. O descalabro da saúde em meio à pandemia deveria bastar para que o presidente fosse pelo menos chamado a se explicar.

Se isso vai acontecer ou não, vai depender das condições políticas. Bolsonaro parece confortável com o arranjo que costurou na PGR e no Congresso. Mas, ao não demitir o ministro da Saúde, que já está sob investigação em inquérito no Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro deixa claro que seu subordinado não agiu senão em razão de orientação superior – afinal, como o próprio intendente declarou outro dia, “um manda e o outro obedece”.

Convém lembrar que Pazuello é o terceiro ministro da Saúde de Bolsonaro – os outros dois perderam o emprego por discordarem da insistência do presidente com o chamado “tratamento precoce”, isto é, o emprego de medicamentos sem eficácia comprovada. O próprio fabricante de um deles, a ivermectina, informou que não há base científica para receitar o remédio contra a covid-19 e, pior, ressaltou que há “preocupante falta de dados de segurança”. Ou seja, Bolsonaro é garoto-propaganda de um elixir que pode causar mal, sem a menor possibilidade de causar bem.

Mas Bolsonaro é irremediável. Segundo ele, seu elixir não faz mal nenhum e não se arrepende de receitá-lo. “Pelo menos eu não matei ninguém”, disse o presidente, exercendo sua especialidade: livrar-se de responsabilidade. Mas o País começa a reagir.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de São Paulo, em06 de fevereiro de 2021 

Réu na linha sucessória não é 'o melhor para o País', afirma Fux


Presidente do Supremo Tribunal Federal fala sobre situação de Arthur Lira e diz que impeachment de Bolsonaro seria um 'desastre' para o Brasil.


O presidente do STF, Luiz Fux, posa para fotos no hall das colunas do Supremo Tribunal Federal com vista do Congresso Nacional e Palácio do Planalto.  Foto: Dida Sampaio/ Estadão

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, avalia que não é o "melhor quadro para o Brasil" ter um réu na linha sucessória da Presidência da República. Em entrevista ao Estadão, Fux foi questionado sobre a situação do novo presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), que responde a denúncias na Corte por corrupção passiva e organização criminosa – ainda em análise de recursos.

"Eu acho que realmente uma pessoa denunciada assumir a Presidência da República, seja ela qual for, é algo que até no plano internacional não é o melhor quadro para o Brasil", afirmou o ministro.

Segundo na linha sucessória, Lira pode ser impedido de substituir o presidente Jair Bolsonaro e o vice Hamilton Mourão. Um precedente do tribunal já impediu o então presidente do Senado, Renan Calheiros (MDB-AL), de ocupar interinamente a cadeira no Planalto por ser réu na época.

Em sua primeira entrevista após a abertura do Ano Judiciário, Fux disse que o impeachment de Bolsonaro seria "um desastre" para o País.

O deputado Arthur Lira pode, eventualmente, substituir Bolsonaro e Mourão, mesmo com denúncias já recebidas pelo STF?

Nessas questões limítrofes, você tem duas posições. Uma que entende que, se já teve a denúncia recebida, e a nossa Constituição elege a moralidade no âmbito da política e das eleições como um valor principal, ele não possa assumir. E tem outro aspecto importante, a ação penal não teve ainda a eficácia de torná-lo réu porque há (em análise) embargos de declaração (um tipo de recurso) que impedem que a decisão (de tornar Lira réu) seja considerada definitiva.

E qual a opinião do senhor?

Eu falo em geral, abstrato. Pelo princípio da moralidade, eu entendo que os partícipes da vida pública brasileira devem ter ficha limpa. Sou muito exigente com relação aos requisitos que um homem público deve cumprir para a assunção de cargos de relevância, como a substituição do presidente. Eu acho que, realmente, uma pessoa denunciada assumir a Presidência da República, seja ela qual for, é algo que até no plano internacional não é o melhor quadro para o Brasil.

O STF tem tido um papel fundamental no sistema de freios e contrapesos. Com dois aliados de Bolsonaro no comando do Congresso, o protagonismo da Corte vai ser ainda maior?

É preciso que o Parlamento se autovalorize e saiba exercer as suas competências, em vez de empurrar para o Supremo uma função que não é dele. O Parlamento tem de procurar resolver os seus problemas.

Mas um Congresso alinhado a Bolsonaro não pode obrigar o Supremo a exercer ainda mais esse papel de contraponto?

Bem ou mal, o presidente foi eleito com 60 milhões de votos. Por que não se permitiu a reeleição (na cúpula do Congresso) agora, muito embora tanto Davi Alcolumbre quanto Rodrigo Maia tenham sido bons na função que exerceram? Porque, se o STF abrir a brecha da violação da Constituição, realmente nós perdemos todos os critérios. Aquela ação não deveria nem ter chegado ao Supremo.

A atuação do governo na pandemia reforçou o discurso a favor do impeachment de Bolsonaro. Qual a opinião do senhor?

O impeachment é um processo político que o Supremo não pode nem se intrometer no mérito. Mas, em uma pós-pandemia, em que o País precisa se reerguer economicamente, atrair investidores e consolidar a nossa democracia, eu acho que seria um desastre para o País. O Brasil não aguenta três impeachments. O Brasil tem de ouvir o povo e o povo é ouvido através de seus representantes que estão no Parlamento. Acho que o impeachment seria desastroso.

O senhor vê mobilização popular para o impeachment?

Pela leitura acadêmica e histórica que a gente faz, você verifica que o impeachment é uma situação política que também depende muito da mobilização social. 

Bolsonaro já disse que, sem voto impresso, “nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos”, em referência à invasão do Capitólio. No Brasil, as instituições serão fortes para evitar qualquer tipo de golpe?

Não tenho a menor dúvida. Eu não acredito que ocorra 10% do que aconteceu nos Estados Unidos. Uma minoria inexpressiva não vai ter apoio. Absolutamente, não. Em conversas espontâneas, os generais têm uma posição muito firme de que a democracia brasileira não pode sofrer nenhum tipo de moléstia. Todos eles. Eu acho o voto impresso uma coisa muito antiquada, completamente desnecessária, porque as urnas são superseguras. E o voto impresso gera uma despesa bilionária para o Brasil. A palavra do Supremo está dada (contra o voto impresso). Uma despesa bilionária, depois da decisão do Supremo, é inaceitável. Não tem sentido.

Bolsonaro repete que não pode fazer nada para enfrentar a pandemia porque foi impedido pelo STF. Não é um equívoco?

O que o STF disse foi o seguinte: todas as Unidades da Federação têm responsabilidade em relação à pandemia. É uma gestão compartilhada, mas tem um aspecto maior, porque a Constituição atribui à União uma competência de coordenação nos casos de calamidade pública. O STF nunca eximiu o governo federal, absolutamente. Ninguém exonerou ninguém de responsabilidade.


O STF virou uma espécie de bode expiatório dos negacionistas, que tentam culpar a Corte pelos efeitos da pandemia?

Houve má interpretação da decisão judicial por parte do estafe do governo. O Supremo tem função precípua de esclarecer aquilo que efetivamente julgou. A decisão ficou tão clara que não houve embargos de declaração do aparato jurídico do governo, que é muito bom. Foi uma decisão claríssima.

Luiz Fux, presidente do STF, durante sessão da Corte Foto: Rosinei Coutinho/STF

O senhor enxerga má-fé ou uma tentativa de usar isso politicamente?

Enxergo como uma percepção alternativa de uma ciência que foi preconizada até alhures pelo (então) presidente dos Estados Unidos (Donald Trump), alguns líderes mundiais também. Em um primeiro momento, eram contra o lockdown, contra o isolamento, e pagaram preço caro por isso. 

É preciso uma apuração rápida no inquérito que investiga se houve omissão do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, no colapso da rede pública de Manaus?

É preciso deixar bem claro que o Supremo absolve inocentes e condena culpados. Não se tem ainda elemento para se formar uma convicção. O que houve, no meu modo de ver, foi o fator-surpresa, porque alguns países também foram surpreendidos com falta de oxigênio.

Esse inquérito deveria ser prioridade?

A prioridade no momento é decidirmos tudo que possa influir na questão da saúde. Saúde primeiro, e depois a verificação de fatos ilícitos que ocorreram de maneira despudorada. Na verdade, era inimaginável, num momento de pandemia, que os homens públicos ainda tivessem a ousadia de cometer ilícitos diante dessa dor e desse flagelo da população.

Um dos pontos destacados para investigar Pazuello é a distribuição de hidroxicloroquina, medicamento sem eficácia comprovada. Isso não pode ser crime?

A grande verdade é que autoridades médicas do País, até médicos famosos, disseram que passaram pela doença e tomaram hidroxicloroquina. Eu fiquei doente e não tomei. Tive uma covid caprichada. Levei três, quatro meses para voltar a me exercitar, e ainda não estou no auge, não.

O senhor defende a volta do auxílio emergencial?

Tem de haver uma Justiça caridosa, e uma caridade justa. Nós hoje estamos pagando o preço de termos deixado 50 milhões de brasileiros à deriva. Isso era para ter sido visto há muito tempo. Não dá para ser feliz sem pensar no outro. Foi o consumo dessa gente que recebeu o auxílio emergencial que movimentou a economia. Se eu pudesse imaginar a possibilidade de o Brasil continuar com esse auxílio, eu seria superfavorável. É temerário nesse momento deixar essas pessoas à deriva. Nós já as deixamos há muito tempo.

Os escândalos de corrupção não cessam no País. Não é frustrante?

Quando terminou o julgamento do mensalão, eu dizia ‘o Brasil nunca mais vai voltar a ser o que era’. Depois da Lava Jato, eu falei, ‘bom, agora realmente o Brasil nunca mais vai voltar a ser o que era’. Agora, esse flagelo da corrupção, que desmoraliza o Brasil, parece que está introjetado na cultura de determinadas pessoas, porque a falta de amor à coisa pública é aberrante. É inaceitável que uma pessoa queira maximizar suas rendas através do desvio de bens públicos.

A Lava Jato nunca foi tão atacada quanto agora. Teme pelos resultados obtidos na investigação?

A Lava Jato trouxe transformações sem precedentes para o Brasil, que passou a ser respeitado internacionalmente pela atuação contra desvio de dinheiro público. É verdade que, ao longo dos últimos anos, esse movimento teve perdas. Mas o País já mudou. E, na minha avaliação, o combate à corrupção não vai retroceder.

O Judiciário acaba sendo um grupo privilegiado perante o País. O senhor defende uma reforma administrativa que também envolva a magistratura?

Tem de haver uma reforma com relação ao tamanho do Estado. O Estado é muito grande e as despesas públicas são muito grandes. Eu acho que a reforma administrativa tem de obedecer ao princípio da igualdade, tem de obedecer ao princípio da isonomia. O que é ruim para o Brasil tem de afastar para todo mundo também.

O que o senhor acha da ideia do presidente Jair Bolsonaro de escolher um nome “terrivelmente evangélico” para o STF?

Isso é uma prerrogativa do presidente da República. Agora, o Supremo é um tribunal pluri-religioso, tem gente de todas as religiões aqui. O que faria um juiz, terrivelmente evangélico, num colegiado de dez não evangélicos? É preciso ter em mente que, depois da assunção ao cargo, a independência jurídica do membro do Supremo é absolutamente olímpica.

Rafael Moraes Moura e Andreza Matais, O Estado de São Paulo, em 07.02.2021

China autoriza uso da Coronavac em toda a população

Vacina já estava sendo usada em caráter emergencial no país, mas em grupos limitados. Sinovac deverá pedir registro definitivo também à Anvisa, que recebeu a mesma solicitação da Pfizer e da AstraZeneca

A Coronavac é a segunda vacina produzida localmente a ser liberada para uso geral na China

O governo da China concedeu registro para uso comercial e mais amplo da Coronavac, vacina contra a covid-19 desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac, que agora poderá ser aplicada em toda a população do país, informaram autoridades neste sábado (06/02).

A aprovação pela agência reguladora de produtos médicos da China marca a segunda vacina produzida localmente a ser liberada para uso geral no país, depois de um imunizante desenvolvido pela empresa Sinopharm ter recebido o aval definitivo em dezembro.

A Coronavac já vinha sendo aplicada desde julho de 2020 em território chinês, mas em caráter emergencial, sendo limitada a grupos mais vulneráveis ao coronavírus. Com a nova aprovação, toda a população poderá agora ter acesso à vacina.

Com as pesquisas ainda em andamento, a Sinovac será obrigada a apresentar dados de acompanhamento às autoridades, bem como relatórios de qualquer efeito colateral que venha a surgir após a vacina ser vendida no mercado. Os dados completos dos ensaios clínicos de fase 3 deverão ser publicados em breve em uma revista científica, disse um porta-voz do laboratório.

Com o aval na China, a Sinovac deverá fazer o mesmo pedido de registro definitivo à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que até então aprovou apenas o uso emergencial da vacina no Brasil. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, a solicitação poderá ser feita já na próxima semana.

A Coronavac, desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan, ligado ao governo de São Paulo, já foi vendida a pelo menos dez outros países e também recebeu autorização emergencial em nações como Chile, Colômbia, Uruguai, Indonésia e Turquia.

Em testes realizados no Brasil, a Coronavac obteve uma eficácia geral de 50,38%. O índice indica a capacidade da vacina de proteger contra todos os casos da doença, independente da gravidade.

O imunizante requer duas doses para atingir sua eficácia máxima de proteção, e pode ser armazenado em temperatura de geladeira, o que facilita a logística de distribuição pelo país.

Disputa política no Brasil

No Brasil, a Coronavac esteve no centro de uma disputa política entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), seu desafeto. Enquanto o governo paulista fechava acordo com a Sinovac para a compra da vacina, o presidente por muito tempo criticou o imunizante chinês e afirmou várias vezes que o governo federal não o compraria.

Quando São Paulo anunciou um plano estadual de vacinação independente do governo federal em dezembro, Bolsonaro e seu ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, mudaram de estratégia e passaram a correr atrás da imunização.

Por falta de doses da vacina da AstraZeneca-Oxford, aposta do governo federal, a vacinação no Brasil teve início com a Coronavac, em 17 de janeiro, mesmo dia em que a Anvisa aprovou o uso emergencial de ambos os imunizantes no país.

Pfizer pede registro definitivo

Enquanto a Sinovac deverá pedir o registro definitivo à Anvisa em breve, a agência já recebeu solicitação para uso definitivo da vacina da AstraZeneca-Oxford. O prazo de análise é de 60 dias.

Neste sábado, a Pfizer, por sua vez, também enviou um pedido de registro definitivo de seu imunizante à Anvisa. A vacina, que não foi aprovada ainda para uso emergencial no Brasil, é desenvolvida em parceria com a empresa alemã Biontech e é uma das que estão sendo testadas no país em ensaios clínicos de fase 3.

O governo federal chegou a acertar um memorando de entendimento com a empresa para a compra de 70 milhões de doses da vacina contra a covid-19, mas desde então as negociações não avançaram.

Em comunicado, a Anvisa afirmou que o processo de concessão do registro definitivo "é a avaliação completa com dados mais robustos dos estudos de qualidade, eficácia e segurança, bem como do plano de mitigação dos riscos e da adoção das medidas de monitoramento".

Deutsche Welle Brasil, em 06.02.2021

Multidão desafia militares em ato contra golpe em Mianmar

Liderado por jovens, protesto reúne até 100 mil pessoas em rejeição à tomada de poder pelo Exército: "A próxima geração pode ter democracia se acabarmos com esta ditadura militar".

Estimativa é de que até 100 mil pessoas saíram às ruas de Yangun para protestar

Com gritos de "Abaixo a ditadura”, dezenas de milhares de manifestantes desafiaram a repressão e foram às ruas de Yangon, maior cidade do país, neste domingo (07/02) em mais um protesto contra o golpe militar.

O protesto, liderado por jovens, foi o maior já registrado dede que, na última segunda-feira, o Exército declarou estado de emergência, deteve o presidente Win Myint e outros líderes políticos, como a Nobel da Paz  Aung San Suu Kyi, e assumiu o controle do país.

Algumas estimativas colocam o número de manifestantes em Yangun em 100 mil, e há registros de grandes manifestações em outras cidades.

"Não tenho medo da repressão"

"Eu desprezo completamente o golpe militar e não tenho medo da repressão", disse Kyi Phyu Kyaw, estudante de 20 anos. "Vou me juntar todos os dias até que Amay Suu (mãe Suu) seja libertada".

Muitos em meio à multidão vestiam vermelho, a cor da Liga Nacional pela Democracia (NLD), de Suu Kyi. O partido garantiu uma vitória esmagadora nas eleições nacionais de novembro de 2020 em Mianmar, mas os generais se recusam a aceitar o resultado e alegam fraudes – justificando assim a tomada de poder na segunda-feira. No entanto, observadores internacionais e a própria Comissão Eleitoral birmanesa declararam o pleito justo e livre.

A polícia bloqueou o caminho dos manifestantes em vários pontos da cidade, mas uma multidão pôde se reunir perto da prefeitura de Yangon sem nenhum confronto.  Alguns manifestantes entregaram rosas para os policiais.

Vamos lutar até o final

Muitos fizeram a saudação de três dedos inspirada nos filmes Jogos Vorazes, que se tornou um símbolo de resistência durante os protestos pró-democracia na Tailândia no ano passado.

"Vamos lutar até o final", disse Ye Kyaw, estudante de economia de 18 anos. "A próxima geração pode ter democracia se acabarmos com esta ditadura militar".

O aumento da resistência popular durante o fim de semana superou o bloqueio da internet em todo o país.

O serviço de monitoramento NetBlocks disse que o acesso à internet foi parcialmente restaurado em algumas redes móveis na tarde de domingo em Mianmar, mas as plataformas de mídia social permaneceram bloqueadas.

Durante toda a noite, panelaços puderam ser ouvidos na cidade.

O Escritório de Direitos Humanos da ONU disse que as autoridades de Mianmar "devem assegurar que o direito à reunião pacífica seja plenamente respeitado e que os manifestantes não sejam submetidos a represálias".

Também houve protestos em Mandalay, a segunda maior cidade de Mianmar, e em Mawlamyine.

Deutsche Welle Brasil, em 07.02.2021

Brasil registra 978 mortes por covid-19 em 24 horas

País identificou mais 50 mil casos da doença e total está próximo de 9,5 milhões. Número de mortes supera 231 mil.

O Brasil registrou oficialmente 50.630 casos confirmados de covid-19 e 978 mortes ligadas à doença neste sábado (06/02), segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass).

Com isso, o total de infecções identificadas no país subiu para 9.497.795, enquanto os óbitos chegam a 231.012.

Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que os números reais devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação.

O Conass não divulga número de recuperados. Segundo o Ministério da Saúde, 8.326.798 pacientes haviam se recuperado até sexta-feira. 

A taxa de mortalidade por grupo de 100 mil habitantes subiu para 109,5 no Brasil, a 23ª mais alta do mundo, quando desconsiderados os países nanicos San Marino, Liechtenstein e Andorra.

Em números absolutos, o Brasil é o terceiro país do mundo com mais infecções, atrás apenas dos Estados Unidos, que somam mais de 26,8 milhões de casos, e da Índia, com 10,8 milhões. Mas é o segundo em número absoluto de mortos, já que mais de 460 mil pessoas morreram nos EUA.

Ao todo, mais de 105,1 milhões de pessoas já contraíram o coronavírus no mundo, e 2,3 milhões de pacientes morreram.

Deutsche Welle do Brasil, há 14 hs. 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Miguel Reale Júnior: A História se repete como farsa

O ministro da Justiça revive Armando Falcão com Lei de Segurança Nacional contra críticas

Em janeiro de 1970, sendo ministro da Justiça Alfredo Buzaid, o governo militar editou o Decreto-Lei n.º 1.077, estabelecendo a censura, visando a “preservar a moral e os bons costumes”. O obscurantismo cresceu no governo seguinte com Armando Falcão no Ministério da Justiça, quando se montou plano de combate sistemático a publicações “obscenas e subversivas”, propondo aplicar a Lei de Segurança Nacional, pois a censura e a “benigna” Lei de Imprensa seriam insuficientes na guerra psicológica adversa (confira-se: Douglas Atilla Marcelino, Subversivos e Pornográficos: censura de livros e diversões nos anos 1970).

Livros extraordinários foram proibidos e inquéritos policiais-militares, instaurados por crime contra a segurança nacional, como sucedeu com Rose Marie Muraro (A Mulher na Construção do Mundo Futuro), Renato Carvalho Tapajós (Em Câmara Lenta) e Lourenço Diaféria, sendo os últimos até presos.

Em maio de 2018 escrevi nesta página que com Bolsonaro haveria risco da volta da ditadura. Hoje o ministro da Justiça revive Armando Falcão, aplicando a Lei de Segurança Nacional a críticas jornalísticas.

Em parecer conjunto ofertado ao Conselho Federal da OAB, Alexandre Wunderlich e eu analisamos a origem e o significado do conceito de segurança nacional, como próprio de regime autoritário, razão por que deve haver nova lei de defesa do Estado. Segurança nacional vinha a ser uma estratégia para garantia da consecução dos “objetivos nacionais permanentes”, visando, primordialmente, a assegurar a mantença do regime militar por via da contenção de qualquer efetiva oposição nos campos político, econômico, psicossocial e militar, reprimindo opiniões, emoções e atitudes contrárias ao sistema vigente.

A Lei de Segurança Nacional hoje em vigor, editada em 1983, guarda graves resquícios autoritários, bastando lembrar que os artigos 16 e 17 admitem ser a lei apropriada para tutela do regime excepcional vigente.

Numa democracia, a crítica ao presidente não se inclui como lesão ao Estado de Direito, pois não abala a estrutura do sistema democrático, inserindo-se no campo da liberdade de expressão como questão de interesse público. Essa teleologia não corresponde à postura do ministro da Justiça ao representar para enquadramento de crítica como crime contra a segurança nacional ou crime comum.

Hélio Schwartsman, em artigo na Folha de S.Paulo  (Por que torço para que Bolsonaro morra), pondera que o presidente, em seu negacionismo, prejudica a vida de muitos, argumentando que, sob a ótica do consequencialismo, o sacrifício de indivíduo pode ser válido, se dele advier um bem maior. O ministro da Justiça viu nesse texto, cujo título é de mau gosto, crime contra a segurança nacional onde há mera avaliação crítica, longe de causar qualquer abalo à estrutura democrática.

Foi, aliás, nesse sentido a decisão do ministro Mussi, do STJ, ao apreciar habeas corpus: “Não é possível verificar, em análise preliminar, que tenha havido motivação política ou lesão real ou potencial aos bens protegidos pela Lei de Segurança Nacional, capaz de justificar o eventual enquadramento de Schwartsman”.

Sem aprender a lição, o ministro de Justiça requisitou inquérito contra o advogado Marcelo Feller em vista de opinião exarada em debate na televisão sobre a frase do ministro Gilmar Mendes de estar o Exército se associando, na pandemia, a um genocídio. Para o advogado, “o discurso e a postura do presidente da República são diretamente responsáveis por pelo menos 10% dos casos de covid no Brasil”. É, alias, o entendimento de muitos infectologistas.

O procurador federal João Gabriel Morais de Queiroz solicitou o arquivamento do inquérito, com judiciosas considerações: “A lei de segurança não pode ser empregada para constranger ou perseguir pessoa que se oponha licitamente externando opiniões desfavoráveis ao governo (...) a lei de segurança nacional, como instrumento de defesa do estado, deve ser reservada para casos extremos(...)”. A Justiça Federal arquivou o inquérito.

Mas o incansável ministro da Justiça requisitou inquérito policial agora pelo crime de induzimento ao suicídio contra os jornalistas Ruy Castro e Ricardo Noblat, que replicara artigo de Ruy no qual se aventava ser o suicídio a forma de o presidente Trump entrar para a História como herói, tal como Getúlio Vargas, argumentando que “se Trump optar pelo suicídio, Bolsonaro deveria imitá-lo”.

O ministro viu nessa frase “desrespeito à pessoa humana, à nação e ao povo de ambos os países”. E mais: um crime de induzimento ao suicídio, que vem a ser criar na mente da vítima a vontade firme de se aniquilar, atuando no plano psíquico com potencialidade para a levar ao suicídio.

A requisição de inquérito por crime de induzimento ao suicídio, em vista de ideias jocosas em artigo de jornal, seria apenas de um ridículo atroz se não consistisse em abuso de poder do ministro da Justiça, por perseguir criminalmente críticos do governo com tipificação penal forçada de fato absolutamente anódino.

Até quando?

Miguel Reale Júnior, Advogado, é Professor Titular Sênior da Faculdade de Direito da USP. Membro da Academia Paulista de Letras. Este artigo foi publicado originalmente em O Estado de São Paulo, edição de 06.02.2021.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Brasil passa marca de 230 mil mortos por Covid-19; média móvel é de 1.050 por dia

País contabilizou 230.127 óbitos e 9.449.088 casos por Covid-19 desde o início da pandemia, segundo balanço do consórcio de veículos de imprensa. Já são 16 dias seguidos com a média móvel de mortes acima de 1 mil

O consórcio de veículos de imprensa divulgou novo levantamento da situação da pandemia de coronavírus no Brasil a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde, consolidados às 20h desta sexta-feira (5).

O país registrou 1.244 mortes pela Covid-19 nas últimas 24 horas, chegando ao total de 230.127 óbitos desde o começo da pandemia. Com isso, a média móvel de mortes no Brasil nos últimos 7 dias foi de 1.050. Já são 16 dias com essa média acima da marca de 1 mil. A variação foi de +3% em comparação à média de 14 dias atrás, indicando tendência de estabilidade nos óbitos pela doença.

Em casos confirmados, desde o começo da pandemia 9.449.088 brasileiros já tiveram ou têm o novo coronavírus, com 51.319 desses confirmados no último dia. A média móvel nos últimos 7 dias foi de 47.087 novos diagnósticos por dia. Isso representa uma variação de -8% em relação aos casos registrados em duas semanas, o que indica tendência de estabilidade nos diagnósticos.

Oito estados e o Distrito Federal estão com alta nas mortes: PR, DF, GO, AC, PA, BA, CE, MA e PI.

As secretarias dos estados do Rio Grande do Norte e de Roraima não divulgaram novos dados até o fechamento do balanço do consórcio desta sexta-feira.

Brasil, 5 de fevereiro

Total de mortes: 230.127

Registro de mortes em 24 horas: 1.244

Média de novas mortes nos últimos 7 dias: 1.050 (variação em 14 dias: +3%)

Total de casos confirmados: 9.449.088

Registro de casos confirmados em 24 horas: 51.319

Média de novos casos nos últimos 7 dias: 47.087 por dia (variação em 14 dias: -8%)

(Antes do balanço das 20h, o consórcio divulgou um boletim parcial às 13h, com 229.097 mortes e 9.406.817 casos confirmados.)

Estados

Subindo (8 estados e Distrito Federal): PR, DF, GO, AC, PA, BA, CE, MA e PI

Em estabilidade (10 estados): ES, MG, RJ, SP, MT, AM, RO, TO, AL, PB

Em queda (6 estados): RS, SC, MS, AP, PE, SE

Não divulgaram (2 estados): RR e RN

Essa comparação leva em conta a média de mortes nos últimos 7 dias até a publicação deste balanço em relação à média registrada duas semanas atrás (entenda os critérios usados pelo G1 para analisar as tendências da pandemia).

Vale ressaltar que há estados em que o baixo número médio de óbitos pode levar a grandes variações percentuais. Os dados de médias móveis são, em geral, em números decimais e arredondados para facilitar a apresentação dos dados.

Vacinação

Balanço da vacinação contra Covid-19 desta sexta-feira (5) aponta que o Brasil já aplicou 3.366.706 de doses, segundo dados divulgados até as 20h. A segunda dose já foi aplicada em 1.962 pessoas no estado de Pernambuco.

Publicado por G1, em 05.02.2021

"Corrigir erros da Lava Jato sem desmontar sistema anticorrupção é desafio"

Avaliar que decisões da força-tarefa devem ser revistas é tarefa delicada e pode acentuar ceticismo quanto à luta contra corrupção, diz professora da FGV. Há um projeto em curso para enfraquecer combate a crimes, aponta.

Manifestante apoia a Lava Jato em protesto em Brasília em 2016

O fim da Lava Jato em Curitiba, anunciado nesta quarta-feira (03/02) pelos procuradores da força-tarefa, coloca um dilema diante do Brasil: como corrigir os erros da operação e repreender os guardiões da lei que ultrapassaram seus limites e, ao mesmo tempo, preservar aprendizados da força-tarefa e proteger o sistema de combate à corrupção de ataques do atual governo. A análise é de Raquel Pimenta, professora da FGV Direito SP e especialista em corrupção, desenvolvimento e poder econômico.

Em entrevista à DW Brasil, Pimenta afirma que a Lava Jato ultrapassou limites e adotou práticas controversas no processo penal, na separação entre acusação e julgadores, na dinâmica interna do Ministério Público e na relação com a imprensa.

Parte desses problemas será discutida pelo próprio Judiciário: neste semestre, o Supremo Tribunal Federal (STF) deve julgar a suspeição do juiz Sergio Moro e decidir se anula a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso do triplex do Guarujá, sob o impacto de mensagens entre o magistrado e procuradores que vieram à público no escândalo que ficou conhecido como Vaza Jato.

A professora da FGV Direito SP alerta que calibrar o grau de repreensão à Lava Jato será uma tarefa delicada, pois simplesmente anular todos os processos em que Moro atuou acentuará um ceticismo que atravessa a sociedade brasileira em relação ao combate à corrupção, uma sensação de "de que nunca nada acontece". "O que faremos com tudo o que já se sabe nesses processos?", questiona.

A necessária revisão crítica de práticas da Lava Jato, diz, se torna ainda mais complexa no momento em que o atual governo do presidente Jair Bolsonaro e parcela do Poder Legislativo tentam desfazer pilares do sistema de combate à corrupção, como a autonomia da Polícia Federal e a atividade do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

O fato de a Lava Jato ter terminado justamente no governo de um líder eleito na onda da força-tarefa explica-se, segundo ela, por um paradoxo comum a grandes operações do tipo, já identificado por pesquisas acadêmicas. Quando a corrupção é inerente ao sistema político, investigações de amplo alcance podem levar ao colapso do próprio sistema e causar danos à democracia. Um exemplo dessa dinâmica foi a eleição de Bolsonaro, o "resultado mais trágico" da Lava Jato, diz.

Um caminho para o futuro, segundo Pimenta, seria remodelar as relações entre o público e o privado não por meio do endurecimento de punições, mas elevando a transparência e definindo regras melhores sobre lobby, conflito de interesses e concorrência. "A política anticorrupção deve ser uma política de acesso ao poder político", afirma.

DW Brasil: A Lava Jato em Curitiba chegou ao seu fim nesta semana. De uma forma geral, como você avalia as ações da força-tarefa?

Raquel Pimenta: Ela revela pontos de aprendizado institucional e desafios para o futuro do combate à corrupção. Entre os pontos que devem ser preservados, a força-tarefa desvendou esquemas de corrupção de grande escala e recuperou ativos de uma forma que nunca tinha sido vista no Brasil. Há também a importância da cooperação entre polícia e Ministério Público, que não é uma constante no nosso sistema de Justiça, e o modelo de especialização, pois os procuradores ficavam focados em um caso, e isso permite ganho de expertise.

Nos desafios, estão as zonas fronteiriças nas quais a força-tarefa acabou se embrenhando. Por exemplo, por muito tempo a sua estratégia era concentrar tudo em Curitiba, com prejuízos não só aos réus e às empresas, mas para o aprendizado do próprio Ministério Público. E há outros, atinentes ao modo de condução dos processos, sobretudo os criminais, que testaram o limite do nosso sistema criminal e da separação entre acusação e julgadores, como a gente viu na Vaza Jato, e interpretações do direito criminal muito controversas.

Alguns especialistas afirmam que a Lava Jato não testou, mas ultrapassou os limites.

Sim, ultrapassou. Isso será pautado, e o nosso desafio, não olhando para trás, mas para frente, é com qual profundidade daremos a devida repreensão a esses desvios da Lava Jato. Vamos anular todos os processos em que Sérgio Moro foi juiz? Ou vamos anular apenas os processos nos quais há evidência dessa conversa inadequada entre o Ministério Público e Moro?

É uma tarefa delicada. O que faremos para mostrar aos guardiões da lei que existem limites aos seus poderes e a como eles devem exercer suas atividades, dados pelo Estado democrático de direito? Por outro lado, o que faremos com tudo o que já se sabe nesses processos? É importante mostrar que aqueles que guardam a lei devem respeitá-la, mas a depender do nível [de anulação de decisões], é possível gerar um certo ceticismo, que já atravessa a sociedade brasileira em relação ao combate à corrupção, o ceticismo de que nunca nada acontece.

A Lava Jato fortaleceu ou enfraqueceu a democracia e o Estado de direito?

Existe uma literatura no campo dos estudos da corrupção que aponta um paradoxo, sobretudo em grandes investigações. A corrupção é em si um problema para a democracia, porque tira a legitimidade das decisões, fecha os acessos aos governos a quem pode pagar e distorce o mercado. Mas há grandes investigações, como as que aconteceram no Brasil, na Itália, e há exemplos também do estado de Illinois, nos Estados Unidos, que acabam em si também enfraquecendo a democracia. Porque quando a corrupção é sistêmica ao funcionamento do sistema político, há potencial de colapso do sistema político.

Em segundo lugar, é comum a utilização dos instrumentos de combate à corrupção contra adversários políticos, seja porque existe uma vontade de alijar do sistema político certos atores, seja porque muitas vezes o combate à corrupção olha para os fatos pretéritos, para quem ocupava o governo, e acaba atingindo um grupo político de forma mais intensa. É uma combinação explosiva, e a gente viu isso na Lava Jato.

Mas não podemos ter uma análise simplista e dizer que isso ocorreu apenas pela Lava Jato. É pela Lava Jato, mas é também responsabilidade do sistema político, que não se reformou quando teve chance, e da sociedade brasileira, que aceitou em parte que o nosso arranjo político fosse permeado por atos de corrupção.

Dito isso, só o colapso do sistema político causado pelas investigações anticorrupção explica a emergência de uma figura como Jair Bolsonaro para se tornar presidente do Brasil. Esse é o resultado mais trágico da Lava Jato, abrir espaço para alguém que mobiliza o discurso da corrupção em um viés moralista e de tolerância zero, e não num viés de reformas institucionais e de aperfeiçoamento do Estado. Mas que, na verdade, tem uma aderência superficial à pauta anticorrupção, e uma vez no governo começa a desfazer os próprios mecanismos que garantem a política de controle da corrupção, que é muito maior do que a Lava Jato. Assim, a ascensão dessa figura em decorrência do colapso do sistema é pior para a própria política de controle da corrupção, que uma parte da sociedade brasileira tanto desejava que fosse fortalecida.

Daqui para frente, como promover ações anticorrupção sem desestruturar o sistema político?

Existem formas diferentes de se conceber uma política de controle da corrupção. O Brasil fez uma aposta de reforma do Estado e das relações público-privadas pela punição. Se a gente punir muita gente, isso vai gerar algum ímpeto de reforma. Existe outra forma: a política anticorrupção deve ser uma política de acesso ao poder político, e combina elementos de punição com elementos de participação e de aprofundamento democrático. Como o fortalecimento de regras de transparência das relações público-privadas, regulamentação do lobby, fortalecimento das regras sobre conflito de interesse, garantir que o Estado não tenha acesso apenas a uma ou outra voz nas suas decisões econômicas, fortalecer a diversidade de empresas que contratam com o poder público. É uma visão mais ambiciosa, mas que no longo prazo tende a ser mais estabilizadora.

Não foi a primeira vez na história do Brasil que a luta contra a corrupção foi instrumentalizada por políticos que queriam derrubar quem estava no poder. No governo Getúlio Vargas, por exemplo, a oposição dizia que o país estava tomado por um "mar de lama". Por que a sociedade acaba embarcando no discurso de corrupção de quem não necessariamente está interessado no fim da corrupção?

Corrupção é um tema de alta voltagem política, pois mobiliza nas pessoas as ideias de justiça e injustiça, de desigualdade. Por isso, a corrupção não sai da pauta política. Você deu o exemplo do mar de lama, mas teve também o caçador de marajás do [Fernando] Collor e outros. A ideia de desigualdade, de justiça, são tarefas inacabadas da democracia brasileira, e as pessoas se deixam instrumentalizar porque, de formas diferentes, a corrupção toca em temas fundamentais da nossa democracia. Também por isso é um erro imaginar que dá para ter combate à corrupção sem democracia.

É relevante que a Lava Jato tenha chegado ao fim justamente no governo Bolsonaro -  eleito na onda criada pela operação e que chegou a ter Moro como ministro - e na mesma semana em que o Centrão assumiu o comando da Câmara, com um presidente da Casa que é réu da Lava Jato e membro do PP, o partido com o maior número de investigados e denunciados pela operação?

É muito relevante. Uma visão sistêmica da política brasileira anticorrupção, que não olhe apenas para Lava Jato, mostra que há nesse governo um projeto em curso de enfraquecimento e desfazimento dos pilares do controle da corrupção. Veja quantas vezes temas de transparência foram ameaçados. Mesmo na relação que o governo tem com a mídia. Há movimentações institucionais muito relevantes, e Augusto Aras também é produto dessas movimentações - o primeiro procurador-geral da República indicado fora da lista tríplice desde que ela passou a ser uma prática no Brasil que garantia um tanto de independência do Ministério Público. Outro elemento são notícias de possíveis interferências na Polícia Federal.

A Lava Jato acabar neste momento deve nos colocar diante da pergunta: o que vem adiante? Além de termos que acertar as contas com o passado e entender o que a gente preserva e o que a gente deve repelir da operação, temos que nos preocupar em como a política anticorrupção pode ser preservada nos próximos anos. Temos visto uma regressão clara em diversas frentes.

A 3ª Turma do TRF-1 recentemente considerou ilegal a produção de um relatório de inteligência financeira pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) contra Frederick Wassef, que era advogado do presidente, e ordenou que a Polícia Federal investigasse o órgão. Qual é o risco de vermos uma investida ainda maior contra o sistema de monitoramento de lavagem de dinheiro e corrupção?

Corremos um risco enorme. Uma política anticorrupção funciona em rede, e é preciso que alguém produza a informação que vai ser utilizada numa investigação e depois levada ao Judiciário. As movimentações sendo feitas hoje procuram desfazer e focar seus esforços em só alguns elementos da política. Porque, como é uma política que trabalha em rede, se a gente enfraquece o Coaf, as investigações se tornam menos consistentes e a possibilidade de punição também. É interessante esse modo de desfazimento: não precisa dizer que a corrupção está liberada no Brasil, é só atacar certos órgãos. Falávamos do Poder Executivo, mas existe uma parte considerável do Legislativo que também concorda com um certo arrefecimento dessas instituições.

Aras e outros especialistas apontavam que a Lava Jato tinha se tornado autônoma em relação ao Ministério Público e que acumulava muito poder. Como avalia essa tensão?

Há um dilema no coração do Ministério Público, não resolvido, entre a unicidade, ser um Ministério Público único, e a autonomia dos seus membros. Experimentamos, nos últimos anos, a autonomia de uma força-tarefa. A autonomia, por um lado, garante que não exista bloqueio se existir uma investigação que o comando do Ministério Público não quer que seja feita. Por outro lado, a força-tarefa de Curitiba testou os limites da unicidade, concentrando competências em Curitiba, não compartilhando informações, por serem sigilosas mas também por uma estratégia da própria força-tarefa. E chegou ao limite no caso do fundo da Petrobras [composto por recursos pagos pela estatal para criar uma associação privada destinada ao combate à corrupção], de assinar um documento que não poderia ter assinado sem [a então procuradora-geral da República] Raquel Dodge.

A Lava Jato estruturou-se com farto uso de prisões preventivas, delações premiadas e proximidade com a imprensa. É uma fórmula adequada para a ação do Ministério Público?

Os instrumentos de colaboração vieram para ficar, tanto de colaboração do indivíduo, criminal [delação premiada], como de colaboração das empresas [acordo de leniência]. Eles contribuem para permitir que empresas e indivíduos tragam evidências, possam ter uma redução de pena e, no caso das empresas, continuem a operar, acertando as contas com o passado. A colaboração é importante, sobretudo para crimes de difícil detecção, como corrupção. A questão é que esses instrumentos são extremamente recentes no nosso ordenamento, então teve um certo aprendizado institucional sobre como firmá-los, como deve ser uma negociação, que tipos de evidências devem ser cobradas.

Sobre prisões preventivas, houve vários momentos que a Lava Jato as usou de forma abusiva, e isso é uma discussão que o meio jurídico já tem, bastante intensa.

A relação entre a mídia e os procuradores foi conduzida por alguns fatores. Um era a disponibilidade imensa de informações. Os processos ficarem disponíveis online não era antes um padrão tão claro. Agora, tem que ter muito discernimento entre o que é uma tese de acusação e o que o que é a notícia, sobre o que a sociedade precisa ser informada. Por vezes, a imprensa noticiou teses de acusações como verdades, com uma consciência grande dos procuradores, que estavam fomentando esse tipo de interação e notícia. Os procuradores e Moro fomentaram um tipo de interação com a mídia que era benéfica às suas teses. Não era apenas transparência, tinha um jogo de avanço processual nessa relação.

Deutsche Welle Brasil, em 05.02.2021

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Deputado aconselha irmão senador a não entrar no governo: 'Extrema-direita prendeu e torturou nosso pai'

Nelsinho Trad (PSD-MS) foi sondado e pode ser indicado por Davi Alcolumbre (DEM-AP) para assumir um ministério

O senador Nelsinho Trad (PSD-MS) Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Fabio Trad, deputado federal, tem 51 anos. Nelsinho Trad, seu irmão, 59. É senador e foi cotado como ministro do governo Jair Bolsonaro. Mesmo sendo mais novo, Fabio arriscou dar conselhos ao irmão: é melhor "preservar a independência".

— Ele perguntou o que eu achava. Falei Nelson, é um governo de extrema-direita, a extrema-direita prendeu e torturou nosso pai (o ex-deputado Nelson Trad, falecido em 2011). Ele falou "é verdade, irmão. Vou pensar."

Ambos são do PSD, mas Fábio Trad tem uma postura de maior oposição em relação a Bolsonaro. Nelsinho deve ser indicado pelo ex-presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), para um posto em um ministério.

Há a possibilidade de o senador ser indicado para Desenvolvimento Regional ou Minas e Energia. Ao GLOBO, Nelsinho disse que recebeu com "muita alegria" a sondagem e que há ainda um "longo oceano" até a indicação.

— Eu li que o Davi não quer ser ministro pra preservar sua imagem de independência. Ele também deveria preservar a independência dele. É um governo de extrema-direita, que se não fosse a sociedade civil, já teria restringido as liberdades individuais há muito tempo — comentou Fábio.

Nesta quinta-feira, ele escreveu sobre a possibilidade de o irmão se tornar ministro em suas redes sociais. "Nelsinho, meu irmão, sondado para integrar o ministério de Bolsonaro. O que devo dizer como irmão mais novo? Mais importante que ser ministro é refletir sobre o governo a que o ministro servirá. É isso! Que Deus o ilumine!", comentou Fabio Trad no Twitter.

Há também integrantes do governo que demonstram resistência ao nome de Nelsinho Trad pelo fato de ele ser primo do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, também do Mato Grosso do Sul.

Natália Portinari, de Brasília, para o GLOBO on line, em 04.02.2021

A Lava Jato lutou contra um sistema que foi feito para não funcionar

Muitas coisas mudaram em sete anos. A corrupção e a impunidade, infelizmente, não. Leia o artigo de procuradora que integrou força-tarefa da operação em Curitiba

O clã Odebrecht: Norberto (ao fundo), Marcelo (à esquerda) e Emílio à direita. Empresa foi alvo da Lava Jato

Fevereiro de 2021 marca o enterro da Operação Lava Jato. A morte dela já estava anunciada pelo menos desde o final de 2018 e ela respirava por aparelhos há muito mais tempo. Foi um caso emblemático que teve conhecimento e apoio público como grande diferencial e trouxe luzes a grandes casos de corrupção que assolam a administração pública brasileira em todas as esferas. Alertou a sociedade sobre as malezas causadas pela corrupção e trouxe à tona a discussão sobre a ineficiência do sistema penal e processual penal brasileiro.

Foram quase sete anos de luta contra um sistema que foi feito para não funcionar, mas sim para proteger os aliados do poder político e econômico. Sete anos de muitas batalhas perdidas, erros e acertos, que trouxeram esperança de que os trilhos da impunidade pudessem ser alterados para alcançar a eficácia da persecução criminal e de que o ciclo corrupção x impunidade x corrupção pudesse ser quebrado de forma a permitir o alcance da punição adequada e suficiente à prevenção e à repressão dos crimes de colarinho branco.

Enquanto o sucesso da Lava Jato era latente, a ampla maioria aplaudiu, muitos colheram seus louros e poucos teceram críticas que seriam construtivas e poderiam ter sido decisivas naquele momento. Mas, a partir do declínio da operação, mesmo ela tendo processado e condenado políticos de diversos partidos, os apontamentos de falhas e excessos pareceram superar um legado de que deveria persistir de maneira perene.

Nos últimos anos, não foram poucos os que levantaram a bandeira do combate à corrupção, mas foram escassas as medidas para alterar o quadro de corrupção sistêmica vivenciado. Palavras ao vento não modificam o estado das coisas e essa verdadeira doença que assola o país parece cada vez mais distante de encontrar tratamento adequado.

Pelo contrário, os poucos avanços que pareciam ter sido alcançados desde 2014 hoje estão cada vez mais distantes, pois soterrados diante de tantos retrocessos legislativos, jurisprudenciais, administrativos e até mesmo em palavras, tanto que já se fala em corrupção tolerável porque feita “por todo mundo”, como se um fato criminoso deixasse de ser típico por ser generalizado.

Fato é que aos poucos se vai esquecendo de tudo que a Lava Jato significou para o Brasil, tanto em termos de fortalecimento das estruturas de combate à corrupção, quanto no sentido de permitir à sociedade conhecer o funcionamento do processo penal e principalmente os meandros dos esquemas de corrupção existentes.

A história, neste ponto e talvez em nome de disputas notoriamente estranhas ao mundo jurídico, repete o triste fim da italiana Operação Mãos Limpas, apagando marcas que poderiam significar uma verdadeira mudança no sistema de combate à corrupção e à criminalidade.

Muitas coisas mudaram em sete anos. A corrupção e a impunidade, infelizmente, não.

Jerusa Burmann Viecili é Procuradora da República e foi integrante da Força-Tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba. Publicado originalmente por EL PAÍS, em 04. FEV. 2021

Derrocada da Lava Jato expõe Moro como guia da força-tarefa, e escândalo cai no colo do Supremo

Mensagens do ex-juiz com procurador Deltan Dallagnol obtidas pela defesa do ex-presidente Lula têm potencial de anular processos em andamento, segundo juristas. Caso já é chamado de “maior escândalo da Justiça no Brasil”

Ex-ministro da Justiça e ex-juiz da Lava Jato, Sergio Moro, em Brasília. (Foto de ADRIANO MACHADO / REUTERS)

Sete anos após provocar uma reviravolta sem precedentes na política e na economia do Brasil, a outrora poderosa Operação Lava Jato viveu nesta quarta-feira, 3 de fevereiro, um melancólico apagar de luzes com o anúncio de que já não existe mais —ao menos não da forma como ficou conhecida. A força-tarefa de Curitiba deixa de existir e torna-se um apêndice do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). O desfecho acontece após a operação entrar numa espiral de descrédito no mundo jurídico, que culminou com a exposição de diálogos entre o ex-juiz Sergio Moro e o então chefe da força-tarefa, Deltan Dallagnol.

O conteúdo, tornado público nesta segunda-feira, 1, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandovski a pedido da defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, confirma parte das informações que já haviam sido reveladas pelo The Intercept Brasil, na série Vaza Jato. Publicada desde 9 de junho de 2019, a série trazia alguns diálogos de Dallagnol e Moro, mas principalmente conversas entre os procuradores da força-tarefa do Ministério Público Federal do Paraná. Um total de 105 reportagens foram escritas por diversos veículos de imprensa, incluindo o EL PAÍS Brasil, a partir do material obtido pelo The Intercept.

No entanto, o material exposto nesta segunda-feira vai muito além do que o exposto pela Vaza Jato. E tem o potencial de reescrever a história da operação. Em 50 páginas de mensagens selecionadas pelo perito Cláudio Wagner, a pedido da defesa do ex-presidente Lula, lê-se de maneira cristalina como Moro, que deveria ser neutro para julgar os processos apresentados pelos procuradores do Ministério Público Federal (MPF) de Curitiba, tinha comunicação permanente com integrantes da força-tarefa, especialmente com o ex-chefe da operação, Deltan Dallagnol. Entre setembro de 2015 e junho de 2017, há registros de trocas sistemáticas de diálogos entre os dois pelo aplicativo Telegram —fora dos ritos processuais— para tratar de detalhes de decisões em andamento, em que o então juiz do caso cobra informações e sugere ao menos uma fonte para ser ouvida pelo Ministério Público no processo do ex-presidente Lula. “O material que o moro nos contou é ótimo. Se for verdade, é a pá de cal no 9 e o Márcio merece uma medalha”, diz Dallagnol numa comunicação feita pouco depois das 19h, em 29 de julho de 2016. As mensagens estão sendo apresentadas neste texto com a grafia em que aparecem nos arquivos apreendidos; o número “9” é como os procuradores tratavam, de forma pejorativa, o ex-presidente Lula, em função da ausência de um dos dedos da mão, perdido em um acidente de trabalho.

Não era a primeira vez que Moro sugeria caminhos para a investigação. Em trecho de 7 de dezembro de 2015, ele dá dicas ao procurador: “Entao. Seguinte. Fonte me informou que a pessoa do contato estaria incomodado por ter sido a ela solicitada a lavratura de minutas de escrituras para transferências de propriedade de um dos filhos do ex Presidente. Aparentemente a pessoa estaria disposta a prestar a informação. Estou entao repassando. A fonte é seria”, lembrou o juiz. No que Deltan agradeceu a corteisa. “Obrigado!! Faremos contato”. Para Moro valia a pena seguir a pista, afinal, “seriam dezenas de imóveis”. A fonte, em questão, não se mostrou crível como apontou a continuação do diálogo. A fala havia sido revelada em junho de 2019 pelo The Intercept. Na ocasião, Moro afirmou ao Estadão, que repercutiu a fala, que “tudo o que chegava que era relevante, ou a gente encaminhava para a polícia ou Ministério Público, seja lá se a informação eventualmente beneficiava defesa ou acusação”. Segundo ele, o objetivo era “descobrir a verdade”. Os métodos tornados públicos agora, porém, são considerados condenáveis por irem contra todo o princípio de imparcialidade que se espera, ainda mais num caso de extrema delicadeza com potencial de alterar os rumos políticos do país —a Lava Jato foi responsável por enquadrar o ex-presidente na Lei da Ficha Limpa e retirá-lo da corrida presidencial contra Bolsonaro em 2018.

Em outro trecho de 14 de dezembro de 2016 Deltan informa Moro sobre o andamento de duas denúncias. “Denúncia do Lula sendo protocolada em breve. Denúncia do Cabral será protocolada amanhã”, informa o procurador, citando ali o ex-governador do Rio, Sergio Cabral. O então juiz responde a comunicação extraoficial quase como um torcedor: “Um bom dia afinal”, seguido de um emoticon feliz.

As conversas fora dos autos foram captadas pela Operação Spoofing, a investigação da Polícia Federal que prendeu hackers que invadiram celulares dos procuradores da Lava Jato e tiveram acesso aos arquivos de mensagens dos procuradores no aplicativo Telegram —e foram base para a Vaza Jato. Depois, os diálogos foram obtidos na íntegra pela PF. A defesa de Lula solicitou os trechos que diziam respeito ao processo do ex-presidente. Nelas, os dois maiores protagonistas da Lava Jato mostram intimidade de parceiros de trabalhos, partilhando emojis, risos em linguagem de internet, pedindo reuniões reservadas com parte dos integrantes da força-tarefa e até orientando melhores caminhos para a comunicação com a imprensa. “Precisamos conversar com urgência. Hj as 1430 ou as 1500 vcs podem? Mas melhor virem em poucos pois melhor mais reservado. Quem sabe vc, o lima, Athayde e Orlando?”, propõe Moro a Dallagnol, mencionando, possivelmente, Carlos Fernando Lima, Athayde Ribeiro Costa e Orlando Martello Jr.

Se a Vaza Jato provocou um terremoto e representou uma perda de prestígio da operação e de Moro, as mensagens conhecidas nesta segunda podem jogar uma pá de cal na credibilidade de algumas decisões tomadas pela Lava Jato, segundo juristas ouvidos por este jornal. O escândalo bate à porta do Supremo Tribunal Federal que tem um encontro marcado com Moro no julgamento do pedido da defesa do ex-presidente Lula de suspeição do ex-juiz e consequente anulação da condenação do petista no caso do triplex do Guarujá. Lula foi preso em abril de 2018 por ter supostamente recebido o apartamento em seu nome em troca de favores para a empreiteira OAS. Saiu 580 dias depois, em novembro do ano seguinte, após uma mudança de interpretação do STF sobre prisão de condenados em segunda instância.

A comunicação fluída entre Moro e Dallagnol viola a relação juiz-procurador e rompe o princípio da imparcialidade aos olhos do Direito. “Este é o maior escândalo da história da Justiça no Brasil”, diz o jurista Rafael Valim. Marco Aurélio de Carvalho, líder do grupo Prerrogativas —que reúne cerca de 1000 juristas, incluindo advogados de réus da Lava Jato que militam contra as práticas açodadas da operação—, segue a mesma linha. “O Supremo tem uma chance única de reacreditar o sistema de Justiça. Nesse processo, perdeu-se muito de credibilidade com a politização do Judiciário”, diz Carvalho.

A Lava Jato participou de investigações que levaram a 278 condenações, algumas de réus confessos, como o empresário Marcelo Odebrecht, que sustentava um departamento de propina para políticos na empreiteira, ou Pedro Corrêa, ex-deputado do PP, que mencionou troca de apoio aos Governos petistas em troca de ministérios, além de cargos em diretorias de empresas públicas como a Petrobras. “O mesmo que se fazia nos Governos anteriores. Inclusive com o entendimento e favores a empresários, igualzinho a todos os Governos que participei desde 1976”, ressaltou ele, em entrevista ao Paraná Portal. Em sua delação aos procuradores, Correia apontava corrupção na Petrobras desde o Governo de Fernando Henrique Cardoso (1994-1998 e 1999-2002).

O problema são os juízos onde as investigações tiveram atropelos com consequências diretas para os rumos políticos do Brasil. A Vaza Jato já havia revelado conversas que mostravam as estratégias de divulgação para a imprensa e o contato direto dos procuradores com movimentos de rua que torciam pela queda da então presidente Dilma Rousseff em 2016, retroalimentando a pressão popular para favorecer os pleitos da Lava Jato. Mesmo quando passavam por ilegalidades, como a exposição de um telefonema entre o ex-presidente Lula e Rousseff, em que eles discutiam a futura noemação do ex-presidente para um cargo de ministro. A celeridade da condenação de Lula também causou uma clara sensação de parcialidade, incluindo a confirmação de pena em segunda instância.

Divisor de águas

O julgamento da suspeição de Moro pode, assim, ser um divisor no passado de glórias da Lava Jato e vai determinar o futuro do combate à corrupção no Brasil. Os trechos de arquivos apreendidos pela Operação Spoofing mostram que o sucesso da operação teve um custo alto para a imagem da Justiça brasileira, com excessos que afetam a credibilidade do sistema Judiciário. Ignorar esses desvios seria um golpe que contaminaria o mesmo Supremo. O processo está nas mãos do ministro Gilmar Mendes, que pediu vistas e já avisou que ele poderá ser julgado pela Segunda Turma do Supremo ainda no primeiro semestre deste ano. Em tese, as informações divulgadas tornariam mais difícil aos ministros da Corte justificarem um comportamento que vai contra o princípio da imparcialidade do Direito brasileiro.

A dúvida, no entanto, é se eles vão admitir as mensagens como legítimas ou tomá-las como provas ilícitas, diz o advogado Alberto Toron, que defende réus da Lava Jato. “Reconhecidamente esse material foi interceptado de forma ilícita [pelos hackers que invadiram os celulares dos integrantes da Lava Jato e de Moro], o que abre uma grande discussão no processo penal, pois não valem para acusar alguém. Mas e para se defender ou mostrar parcialidade de um juiz?”, questiona Toron.

A montanha de mensagens confirma o que advogados de defesa dos réus reclamavam desde o início da operação, em 2014. “Um juiz precisa ser equidistante e assegurar à acusação e à defesa as mesmas condições. Isso é a negação radical desse princípio fundamental do exercício da magistratura”, afirma o advogado Maurício Dieter, professor de criminologia da USP. Os procuradores e o juiz encarnaram uma espécie de “tenentismo togado”, como escreve o jurista e cientista político Christian Edward Cyril Lynch —numa alusão aos tenentes que se revoltaram contra a República Velha na década de 1930— os novos heróis, no caso juízes e promotores da Lava Jato, assumiram para si a tarefa de limpar a política, “se não mais a golpes de metralha, pelo menos de vazamentos, delações premiadas e rigorosas condenações judiciais”. Foram bem sucedidos por um tempo em sua “Revolução Judiciarista”.

Moro nunca reconheceu o teor das conversas e sempre afirmou que podiam ter sido adulteradas. Após o movimento de Lewandowski, o ex-ministro da Justiça do Governo Jair Bolsonaro voltou a repetir sua justificativa: “Não reconheço a autenticidade das referidas mensagens, pois como já afirmei anteriormente não guardo mensagens de anos atrás”, disse em nota. “As referidas mensagens, se verdadeiras, teriam sido obtidas por meios criminosos, por hackers, de celulares de procuradores da República, sendo, portanto, de se lamentar a sua utilização para qualquer propósito, ignorando a origem ilícita”. O problema desse argumento é que a própria Polícia Federal, acionada pelo então ministro Moro quando a Vaza Jato publicava suas reportagens, fez a perícia das mensagens e constatou que são verdadeiras. O MPF de Curitiba informou por meio da assessoria de imprensa que não comenta o caso.

Carla Jimenez, Felipe Betim e Regiane Oliveira, de São Paulo para o EL PAÍS, em 04.Fev.2021