quinta-feira, 29 de julho de 2021

Joice Hasselmann sobre agressões: "Tenho muitos inimigos políticos"

Deputada não descarta possibilidade de crime político após agressão misteriosa sofrida na madrugada do último dia 18. Em entrevista ao Correio desta quarta-feira (28), a parlamentar detalha o caso

Joice Hasselmann em entrevista a Denise Rothemburg (crédito da foto: Marcelo Ferreira)

A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) destacou em entrevista nesta quarta-feira (28/7) ao programa CB.Poder — parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília — que não descarta a possibilidade de ter sofrido um atentado 10 dias atrás, motivado por questões políticas, visto ser pouco provável, segundo ela, que os machucados tenham ocorridos em razão de queda ou desmaio.

A parlamentar afirma que no último dia 18 ela estava em casa com o marido e, após ambos dormirem, em quartos separados, acordou com ferimentos: dente quebrado, fraturas e hematomas espalhados pelo corpo. O fato ocorreu em um apartamento funcional na Asa Norte, em Brasília. Confira os principais pontos da entrevista com a jornalista Denise Rothemburg:

Galo na cabeça e Depol

Joice Hasselmann conta que estranhou o fato de, ao acordar, estar de bruços e com um galo atrás da cabeça. Após laudo médico, em que foram constatadas cinco fraturas no rosto e uma na coluna, a deputada passou a suspeitar de um atentado, mas não descarta a possibilidade de queda. A deputada ainda afirma que não tem nenhum histórico de convulsão nem de sonambulismo.

“Começamos a levar em consideração que pudesse ter acontecido alguma coisa, que eu pudesse ter caído várias vezes, mas aí a questão é porque eu não lembro, porque se eu tivesse caída de costas, com a cabeça batida onde eu tenho o galo, tem uma justificativa, mas eu estava de frente. Então, nós informamos para a Depol (Polícia Legislativa da Câmara), porque a Depol já estava informada de que eu tinha sofrido um acidente doméstico. Eu tinha até uma agenda naquele domingo (18) e cancelei. Como a Depol me escolta pelas ameaças de morte há bastante tempo, então, quando veio esse laudo nós comunicamos a Depol”, disse.

Suspeitas

Hasselmann não descarta a possibilidade de as agressões serem motivadas por razões políticas. “Eu tenho muitos inimigos políticos, isso não é novidade para ninguém. Mas não vou ser leviana de dar nomes de alguém porque a polícia está investigando. O fato é que estamos em apartamento funcional, e constatamos, depois, a suspeita do caso não ter sido provocado por uma queda ou pancada na cabeça”, disse.

Após perícia no imóvel em Brasília, o Departamento de Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados não identificou a entrada de pessoa estranha no local onde a parlamentar diz ter acordado machucada. “Ainda não encontraram [evidência de impressão digital]. A esse respeito, questionei o delegado sobre um objeto encontrado no apartamento, e ele disse ser possível ”, contou. Segundo Joice, o item em questão foi encontrado “pouco antes de coletiva de imprensa” e posteriormente entregue à polícia.

“Uma coisa fica muito clara: a vulnerabilidade dos imóveis funcionais em relação às câmeras de segurança. Nós não temos câmeras de segurança nas escadas e nem na frente dos apartamentos. Isso poderia ser resolvido imediatamente, ou descartada qualquer hipótese, ou comprovada a invasão no meu apartamento. Então, o fato de ter vários pontos cegos — do qual também pedi análise da Polícia Civil — deixa especialmente as mulheres bastante apavoradas”, completou.

IML

“Claro que eu fiz, gente”, respondeu Hasselmann acerca de versões de que teria se recusado a fazer exames no Instituto Médico Legal (IML). Ela também rebateu notícias falsas de que bateu o carro por estar “drogada”.

Marido

“Eu só lembro de quando estava desacordada no chão. Se alguém entrou no apartamento e me agrediu na cabeça, como é que o meu marido ouviria a três cômodos de distância, e com a porta fechada, assim como eu? Tenho o hábito de dormir com a porta fechada por conta dos meus gatos”, argumentou.

Joice também afirma que o marido, o médico Daniel França — que nega agredir a esposa —, se colocou à disposição para fazer exames a fim de contribuir com as investigações. “Ele fez os exames de corpo delito e toxicológico e está bastante empenhado. Até porque, obviamente junto comigo, ele é a pessoa mais interessada em saber o que realmente aconteceu”, disse.

Por Pedro Ícaro e João Vitor Tavarez, estagiários sob a supervisão de Andreia Castro, do Correio Braziliense. Publicado originalmente em 28.07.2021

Porandubas Políticas

Por Gaudêncio Torquato

Abro a coluna com uma fábula.

Em cinco anos, tudo pode ocorrer

Um poderoso sultão, sábio entre os sábios, possuía um camelo muito inteligente. Obedecia a todas as ordens que nem precisavam ser emitidas de viva voz. Faltava-lhe apenas o dom da palavra. Esse detalhe entristecia sobremaneira o sultão. Um dia, decidiu convocar o Grande Conselho e chamou o grão-vizir.

- Quero que ensine meu camelo a falar!

- Mas isso é impossível.

- Cortem a cabeça dele! Tragam-me o adjunto!

Mesma afirmação de desejo sultanesco, mesma resposta, mesma sentença. A cena repetiu-se diversas vezes e cabeças rolaram. Exasperado o sultão declarou.

- Aquele que ensinar meu camelo a falar será meu grão-vizir.

Silêncio! O sultão repetiu a exortação. Eis que surgiu um humilde ajudante de cozinheiro. Disse:

-Dá-me, ó incomparável senhor, um prazo de cinco anos, e farei falar teu camelo.

Estupefação geral. Seguida do cumprimento da promessa.

-Doravante, és meu grão-vizir! Mas se falhares, sabes o que te espera!

- Bem sei!

Encantado, o jovem fez profunda reverência e saiu correndo para dar a boa notícia à esposa.

- Infeliz, acabas de assinar tua condenação.

- Não é bem assim, meu bem. Pedi cinco anos.Você sabe que muitas coisas poderão acontecer em cinco anos : morre o camelo, morre o sultão...

(Fábula enviada pelo atento Alexandru Solomon). Nada a ver com as próximas eleições.

Queixumes

O amigo de academia militar de Bolsonaro, general Luiz Eduardo Ramos, não gostou de ser defenestrado da Casa Civil. Está desconsolado com a transferência para a Secretaria de Governo, onde estava Onyx Lorenzoni. Dia que como soldado cumpre missão. Mas não há coração que resista a uma promoção para baixo. O general é uma cascata de queixumes.

Guedes resistirá?

Paulo Guedes, de amplo Posto Ipiranga e pau para toda obra, no início do governo, tem sido transformado ao longo do tempo, em mera bomba de gasolina. Bolsonaro corta seu poder. Desmembra seu poderoso ministério da Economia. Guedes é vaidoso. Quer se agarrar nas ancas do poder. Mas resistirá a tanta perda? Tenho dúvidas.

Quarta marcha

O governo Bolsonaro passa a quarta marcha. Antes do tempo. Quer colocar o carro na avenida da campanha. Faz um acordão com o Centrão, abre as comportas da administração, e fecha os olhos para as prioridades. O impulso fisiológico de Bolsonaro em direção ao Centrão pode ser um tiro no pé. O Centrão é pragmático. Se o navio começar a afundar, seus participantes serão os primeiros a desembarcar.

Pequeno conto

"Misia Sert dominava a arte de caçar moscas. Estudava pacientemente os modos destes animais até descobrir o ponto exato em que havia de introduzir a agulha para pregá-las sem que morressem. Exímia na arte de fazer colares de moscas vivas, entrava em frenesi com a celestial sensação do roçar das patinhas desesperadas em seu colo." Pequeno conto de Elias Canetti em Suplicio de Las Moscas.

A máxima de Anacaris

A máxima de Anacaris, um dos sete sábios da Grécia, começa a ser reescrita por aqui: "As leis são como as teias de aranha, os pequenos insetos prendem-se nelas e os grandes rasgam-nas sem custo".

O novo triângulo do poder

Identifica-se, em nossas plagas, o que Roger-Gérard Schwartzenberg cognomina de o novo triângulo do poder nas democracias, que junta o poder político, a administração (os gestores públicos) e os círculos de negócios. Essas três hierarquias, agindo de forma circular, cruzando-se, recortando-se, interpenetrando-se, passam a tomar decisões que se afastam das expectativas do eleitor. A cobiça dos parceiros - gestores, empreendedores privados e núcleos políticos das três instâncias federativas - desafia ainda mais o Estado. É o que tem mostrado a CPI da Covid-19.

O joio e o trigo juntos

Não é fácil separar o joio do trigo e perceber as tênues linhas que distinguem o bem comum do bem privado. A percepção é nítida diante de exageros como casos de superfaturamento, vícios de licitações, apropriação escancarada da coisa pública e flagrantes de ilícitos, por meio de gravações autorizadas pela Justiça. Pode-se aduzir que a lupa dos órgãos de controle ajusta mais o foco nessa planilha. Há a considerar, ademais, que os descaminhos na estrada pública têm sido alargados pela evolução das técnicas.

Aos amigos, pão

A ladroagem é embalada por um celofane tecnológico de alta sofisticação, diferente dos costumes da Primeira República, quando a eleição do Executivo municipal assumiu relevo prático. Naquele tempo, o lema da prefeitada era: "Aos amigos, pão; aos inimigos, pau". O Brasil da atualidade sobe degraus na escada asséptica, apesar das camadas de sujeira que ainda entopem canais da administração pública. O MP acendeu luzes sobre os esconderijos e parece movido por entusiasmo cívico, haja vista a disposição com que se aferra à missão de proteger o patrimônio público e social. O presidente que prometia combate incessante à corrupção cai nas malhas dos negociantes.

A estética

O código estético é o primeiro a se infiltrar na mente. Você imaginaria Jesus Cristo sem a barba? E Abraham Lincoln, seria o mesmo sem a barba? Que tal um Gandhi cabeludo? Elvis Presley sem o topete teria o mesmo charme?

O milionário

"O milionário, ao ser perguntado quanto dinheiro era o bastante, replicou 'só um pouquinho mais'. Reconhecia uma característica essencial da vida humana. Há razões positivas pelas quais o poder tende a ser uma bola de neve e é dado àqueles que o possuem". (Kenneth Minogue)

Personagens

Eduardo Leite

O governador do Rio Grande do Sul terá voz mais forte no processo político. A conferir.

João Doria

Faz uma boa administração em São Paulo. Mas o automarketing o engole.

ACM Neto

Em processo de enfraquecimento. Não tem mais a força de tempos atrás.

Mourão

O general Mourão tem merecido respeito. Expressa palavras de bom senso. O presidente continua a dar estocadas no vice. Disse, por último, que "às vezes ele atrapalha". Até quando o general vai aguentar os tiros dados de frente e por trás?

Kassab

Gilberto Kassab sobe, devagar, a montanha de prestígio. Vai transformando o PSD em um grande partido.

Ciro Nogueira

Conheci o pai dele, Ciro, em 1986, quando coordenei a campanha eleitoral de Freitas Neto (PFL/PI). Ciro era um iniciante. O pai, deputado Federal, um grande comerciante. O filho é mais articulado. O pai, falecido, era um perfil sério e de poucas palavras. E descortina grande futuro para o filho. Como ministro da Casa Civil, Ciro servirá o feijão com arroz.

Pacheco

Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, tem boa expressão, é moderado, e exibe boa presença. Pode vir a ser protagonista importante em 2022.

Arthur Lira

Se pleitear a candidatura ao governo de AL, em 2022, será o favorito.

Alckmin

Geraldo Alckmin está em vias de carimbar o passaporte para chegar ao Palácio dos Bandeirantes em 2022 pelas asas do PSD de Kassab.

Rodrigo Garcia

Bom perfil, mas ganhará muita rejeição. Com jeito, pode escalar o morro.

Caiado

Candidato à reeleição. Tem capacidade de arregimentação.

CPI da Covid-19

Serão muitos os crimes a serem atribuídos à gestão Federal. O que a PGR fará? Arruma-se uma gigantesca pizza. A não ser que a crise política suba o pico até meados de outubro.

Responder sem confessar

Nesses tempos de Covid-19, até parece que os depoentes leram a cartilha dos hereges. Seguinte: No tempo da Inquisição, os hereges desenvolviam dez truques para responder sem confessar:

1) A primeira consiste em responder de maneira ambígua.

2) O segundo truque consiste em responder acrescentando uma condição.

3) O terceiro truque consiste em inverter a pergunta.

4) O quarto truque consiste em se fingir de surpreso.

5) O quinto truque consiste em mudar as palavras da pergunta.

6) O sexto truque consiste numa clara deturpação das palavras.

7) O sétimo truque consiste numa autojustificação.

8) O oitavo truque consiste em fingir uma súbita debilidade física.

9) O nono truque consiste em simular idiotice ou demência.

10) O décimo truque consiste em se dar ares de santidade.

(Manual dos Inquisidores - escrito por Nicolau Eymerich em 1376. Revisto e ampliado em 1578 por Francisco de La Peña)

Epílogo

"Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naus, de ilhas, de peixes, de moradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto". (Jorge Luis Borges)

Torquato Gaudêncio, cientista político, é Professor Titular na Universidade de São Paulo e consultor de Marketing Político.

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quarta-feira, 28 de julho de 2021

Brasil registra mais 1.344 mortes por covid-19

Número acumulado de mortes passa de 553 mil. Total de casos notificados da doença passa de 19,7 milhões.

O Brasil registrou oficialmente nesta quarta-feira (28/07) 1.344 mortes ligadas à covid-19, segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass).

Também foram confirmados 48.013 novos casos da doença. Com isso, o total de infecções reportadas no país chega a 19.797.086, e os óbitos oficialmente identificados somam 553.179. 

Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que os números reais devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação.

Em números absolutos, o Brasil é o segundo país do mundo com mais mortes, atrás apenas dos Estados Unidos, que somam mais de 611 mil óbitos, mas têm uma população bem maior. É ainda o terceiro país com mais casos confirmados, depois de EUA (34,6 milhões) e Índia (31,4 milhões).

Já a taxa de mortalidade por grupo de 100 mil habitantes subiu para 263,2 no Brasil, a 6ª mais alta do mundo, atrás apenas de alguns pequenos países europeus e do Peru.

Ao todo, mais de 195,7 milhões de pessoas contraíram oficialmente o coronavírus no mundo, e foram notificadas 4,1 milhões de mortes associadas à doença, segundo dados da Universidade Johns Hopkins.

O Conass não divulga o número de recuperados. Segundo o Ministério da Saúde, 18.466.822 pacientes no Brasil haviam se recuperado da doença até terça-feira.

No entanto, o governo não específica quantos desses recuperados ficaram com sequelas ou outros efeitos de longo prazo. A forma como o governo propagandeia o número de "recuperados" já foi criticada por cientistas, que classificaram o número como enganador ao sugerir que os infectados estão completamente curados da doença após a fase aguda ou alta hospitalar.

Estudos no exterior estimaram que entre 10% e 38% dos infectados sofrem efeitos da "covid longa" meses após o vírus ter deixado o organismo. Um estudo alemão apontou que sequelas podem surgir até mesmo meses depois da fase aguda da doença. Já uma pesquisa da University College London em pacientes de 56 países listou mais de 200 sintomas observados em pacientes com sequelas pós-covid."

Deutsche Welle Brasil, em 28.07.2021

A retribuição da lealdade

Jair Bolsonaro não tem nenhum pudor de criticar publicamente o vice-presidente

Jair Bolsonaro teve grande sorte na escolha de seu companheiro de chapa nas eleições de 2018. O vice-presidente Hamilton Mourão tem se portado com uma lealdade absolutamente ímpar ao presidente da República desde o início do mandato e, de forma muito especial, desde que as ações e omissões de Jair Bolsonaro trouxeram à baila o tema do impeachment.

Há manifestações em todo o País pedindo que o presidente da República seja responsabilizado por sua conduta durante a pandemia. Há lideranças civis e políticas defendendo a necessidade de remover, pelas vias constitucionais, o presidente da República. Mas não há notícia, nem sequer fumaça, de que o vice-presidente Hamilton Mourão tenha dado o menor sinal de apoio a um eventual processo de impeachment.

Hamilton Mourão não tem relação com nenhuma das várias movimentações pelo impeachment do presidente Bolsonaro. O compromisso do vice-presidente com o presidente da República é um fato notório, sobre o qual não recai a menor suspeita contrária.

O comportamento de Hamilton Mourão é, portanto, fonte de tranquilidade para Jair Bolsonaro. O presidente da República contra o qual foram apresentados mais pedidos de impeachment na história do País tem um vice-presidente que lhe é rigorosamente fiel.

Decorridos dois anos e meio de governo, tão pródigos em gerar suspeitas de crimes de responsabilidade, pode-se afirmar, sem exagero, que Hamilton Mourão é o vice-presidente ideal de Jair Bolsonaro. Por mais desprovida de ambição política que fosse, qualquer outra pessoa teria motivos de sobra, em conformidade com a Constituição e a lei, para incentivar, desde a vice-presidência, um processo de impeachment.

Imagine-se, como mera hipótese, se o vice-presidente da República fosse algum político experiente do Centrão. Jair Bolsonaro teria um patamar, bem mais elevado, de preocupação em relação à sua permanência no cargo.

No entanto, apesar da contundente lealdade de Hamilton Mourão, Jair Bolsonaro não tem nenhum pudor de afastá-lo dos assuntos de governo ou mesmo de criticá-lo publicamente. “O Mourão faz o seu trabalho. Ele tem uma independência muito grande, por vezes atrapalha um pouco a gente, mas o vice é igual cunhado: você casa e tem que aturar o cunhado do teu lado. Você não pode mandar o cunhado ir embora”, disse Jair Bolsonaro no dia 26, em entrevista à Rádio Arapuan, da Paraíba.

Mais do que retratar o comportamento do vice-presidente, a fala de Jair Bolsonaro revela com crueza quem é Jair Bolsonaro. Até hoje, Hamilton Mourão cumpriu rigorosamente todas as tarefas de que o presidente Bolsonaro o encarregou. No entanto, Jair Bolsonaro menciona “uma independência muito grande” do vice-presidente.

Tal comentário revela que Jair Bolsonaro não se sente confortável com nenhum outro comportamento que não seja a completa submissão à sua pessoa. Não por acaso, na mesma entrevista, Jair Bolsonaro referiu-se ao anterior ministro da Saúde desta forma: “O general Pazuello, que fez um trabalho fantástico”. No dia em que Eduardo Pazuello assumiu a pasta, havia 14,8 mil mortos por covid no País. Quando deixou o cargo, o número se aproximava dos 300 mil.

É também peculiar a afirmação de Jair Bolsonaro no sentido de que Hamilton Mourão “por vezes atrapalha um pouco a gente”. O vice-presidente não reclama da condução do governo, não critica medidas e atitudes de Jair Bolsonaro, sempre busca motivos para defender as posições do Palácio do Planalto. Desde a posse no cargo, é conhecido por medir cuidadosamente as palavras nas entrevistas, para evitar qualquer impressão de crítica. Mesmo assim, Jair Bolsonaro considera que o vice-presidente “atrapalha um pouco a gente”.

Terá o presidente Bolsonaro tamanha limitação cognitiva para não perceber que os problemas enfrentados pelo governo não são causados por Hamilton Mourão? Ou será que, de fato, o vice-presidente atrapalha os planos de Jair Bolsonaro, impedindo sua integral realização? Tanto num sentido como no outro, a frase de Bolsonaro suscita muito receio.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de S.Paulo, em 28 de julho de 2021 | 03h00

O bazar de Bolsonaro

Presidente posa de zeloso com o dinheiro público, mas avaliza fundo eleitoral de R$ 4 bi 

O presidente Jair Bolsonaro pode ser ignorante em muitas coisas, mas sabe fazer contas à moda dele. Na aritmética bolsonarista, dois mais dois sempre são mais que quatro, conforme o desejo de sua freguesia no Congresso – de cuja fidelidade o presidente depende para sobreviver no cargo.

Foi com base na matemática do fisiologismo que Bolsonaro calculou em R$ 4 bilhões o valor do fundo eleitoral, que distribui recursos públicos para financiar campanhas. É mais ou menos o dobro do que foi destinado para a eleição municipal de 2020 – e um pouco inferior ao que foi bloqueado e cortado no orçamento da Educação deste ano.

Bolsonaro não chegou a esse valor sozinho, é claro. Teve ajuda dos líderes políticos e de partidos que cobram cada vez mais caro para participar da base aliada e defender seu impopular governo.

Como se sabe, o projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2022 encaminhado pelo governo ao Congresso, e aprovado no dia 15 passado, estabelece que o valor do fundo eleitoral seja equivalente a 25% da soma dos orçamentos da Justiça Eleitoral de 2021 e 2022. Técnicos da Câmara calcularam que isso dá em torno de R$ 5,7 bilhões, quase o triplo do fundo eleitoral de 2020.

Os governistas poderiam ter impedido que essa aberração prosperasse, mas escolheram nada fazer. Assim que a aprovação do aumento do fundo eleitoral tornou-se pública, causando justificada indignação, o presidente Bolsonaro, como já se tornou praxe, tratou de tentar se livrar da responsabilidade. Acusou o vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos, que presidiu a sessão que votou a LDO, de impedir que o aumento do fundo fosse derrubado. O exame do que aconteceu naquela sessão, contudo, mostra que o deputado Ramos apenas seguiu o regimento, enquanto os governistas colaboravam decisivamente para a aprovação.

Para efeito da encenação dos bolsonaristas e de seus associados, nada disso importa. Bolsonaro prometeu vetar o aumento do fundo: “Seis bilhões para fundo eleitoral? Pelo amor de Deus!”, disse o presidente, com fingida indignação.

Passadas duas semanas, Bolsonaro trocou a indignação pela resignação – esta, tão falsa quanto aquela. Informou a seus aduladores no cercadinho do Alvorada que não vetará os R$ 5,7 bilhões, mas apenas “o excesso do que a lei garante”. Segundo Bolsonaro, “a lei (prevê) quase R$ 4 bilhões” e “o extra de R$ 2 bilhões vai ser vetado”. O presidente disse que não pode “vetar o que está na lei”, porque, se o fizer, estará “incurso em crime de responsabilidade”.

Em entrevista à Rádio Itatiaia, Bolsonaro voltou a falar na tal “lei”, provavelmente referindo-se à Lei 13.487, que instituiu o fundo eleitoral. “Diz na lei que a cada eleição o valor tem que ser corrigido levando-se em conta a inflação. Então, eu tenho que cumprir a lei”, disse o presidente. Não há nada disso na lei.

Supondo-se que houvesse obrigação legal de reajustar o fundo eleitoral pela inflação, contudo, o valor jamais chegaria aos tais R$ 4 bilhões anunciados pelo presidente. Se aplicados os índices inflacionários previstos na LDO encaminhada pelo seu próprio governo, e não o peculiar cálculo do presidente, o fundo teria de ser reajustado para R$ 2,197 bilhões.

Portanto, nem as vírgulas do discurso do presidente são verdadeiras, como já não eram verdadeiras no palavrório de Bolsonaro ao informar em 2019 que também não poderia vetar o aumento do fundo eleitoral naquela ocasião porque, ora vejam, corria o risco de sofrer impeachment por crime de responsabilidade.

É evidente, conforme declarou o deputado Marcelo Ramos, que Bolsonaro faz apenas “jogo de cena”, posando de presidente zeloso com o dinheiro público enquanto avaliza, na prática, a duplicação do fundo eleitoral, para alegria dos congressistas. Não se sabe exatamente que instrumento legal o presidente usará para aprovar o fundo eleitoral de R$ 4 bilhões, mas criatividade é o que não falta entre os oportunistas.

Em se tratando de um fundo eleitoral que nem deveria existir, qualquer centavo é imoral. Mas os tempos não são exatamente virtuosos. No bazar presidencial, está tudo a preço de ocasião.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de S.Paulo, em 28 de julho de 2021 | 03h00

A vida versus a burocracia estatal

Useiro e vezeiro em alardear sua autoridade, não custaria a Jair Bolsonaro tornar mais célere a distribuição de vacinas

Governos normais, nada mais do que isto, são capazes de transmitir alguma segurança aos cidadãos em momentos de crise, como, por exemplo, no curso de uma pandemia. Como normal não é, o governo de Jair Bolsonaro, ao contrário, demonstra ter uma capacidade de angustiar os brasileiros que parece não conhecer limites.

O país que o presidente da República deveria governar, se tivesse um plano e não fosse avesso ao trabalho, ultrapassou a terrível marca de 550 mil mortes por covid-19. Já é sabido que só o rápido avanço da vacinação haverá de interromper este morticínio, mas, mesmo assim, o Ministério da Saúde não é sequer capaz de garantir aos Estados e municípios, responsáveis pela aplicação das vacinas, o cumprimento dos prazos para envio das doses que recebe dos fabricantes.

Há mais de uma semana, nada menos do que 16 milhões de doses de vacinas, de diferentes laboratórios, estão armazenadas nos galpões do Ministério da Saúde. “Informes técnicos”, documentos disponíveis para consulta no portal da própria pasta na internet, revelam que este é o quantitativo “estocado”. A inacreditável retenção destas vacinas levou ao menos dez capitais – Belém, Campo Grande, Florianópolis, João Pessoa, Maceió, Natal, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Vitória – a suspender a aplicação da 1.ª dose do imunizante. Goiânia e Cuiabá não chegaram a suspender totalmente a vacinação, mas limitaram a aplicação a menos pessoas. É um absurdo haver tantas vacinas “estocadas” e elas não chegarem rapidamente à população.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), reconhecido por seu empenho em trazer uma vacina para o Brasil diante do descaso de Brasília, indignou-se publicamente pelo descalabro. Em suas redes sociais, o tucano classificou como “vergonhosa” a falta de desvelo na distribuição das vacinas neste momento delicado, em que a pandemia dá sinais de arrefecimento, mas em patamares de casos e mortes ainda muito elevados.

De fato, ao governo federal, que só passou a defender a vacinação da população quando reveses políticos se tornaram incontornáveis, falta o devido senso de urgência. O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), recorreu à ironia. “O senso de urgência do Ministério da Saúde chega a impressionar”, escreveu Paes em suas redes sociais.

Tanto a crítica do governador paulista como a do prefeito carioca são pertinentes. Esta falha do Ministério, no entanto, deve servir para fazer as administrações estaduais e municipais serem mais cautelosas ao divulgarem seus calendários de vacinação. Não foi o primeiro atraso e, seguramente, não há de ser o último.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, reconheceu o atraso na distribuição dos imunizantes e culpou a burocracia estatal. “Não há estoque de vacinas”, disse Queiroga a um grupo de jornalistas. “Quando as vacinas chegam no aeroporto, elas precisam ser avaliadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Depois, precisam passar pelo controle do INCQS (Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde). Também tem a questão da Receita Federal. Só depois é que o PNI (Programa Nacional de Imunizações) prepara as pautas e essas vacinas são enviadas aos Estados e municípios”, explicou o ministro.

Marcelo Queiroga é o ministro da Saúde – o quarto – de um país que já perdeu mais de meio milhão de seus cidadãos para um vírus contra o qual já existem quatro vacinas disponíveis. Se, nesta condição, o ministro não tem a força necessária para encurtar prazos e vencer os entraves do que chamou de “burocracia estatal”, cabe indagar se ele está à altura da posição, como o momento exige, ou se tem recebido o devido apoio de seu chefe. Useiro e vezeiro em alardear sua autoridade como presidente da República, não custaria a Bolsonaro movimentar as engrenagens da administração pública federal para tornar cada vez mais célere a distribuição de vacinas para a população. Mas, primeiro, ele precisa querer que isto aconteça.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de S.Paulo, em 28 de julho de 2021 | 03h00

Bolsonaro faz mudanças no Ministério para estruturar campanha à reeleição

Presidente negocia filiação ao Progressistas, partido do novo ministro Ciro Nogueira, um dos líderes do Centrão; sigla tem forte presença no Nordeste

       Bolsonaro ao lado do novo ministro, Ciro Nogueira, durante em evento em Brasília. Foto: Evaristo Sá/AFP

A entrada do senador Ciro Nogueira (PI) na Casa Civil, confirmada nesta terça-feira, 27, representa um movimento político importante para o presidente Jair Bolsonaro em um momento de crescente perda de popularidade do governo. Ao levar o Centrão para a “cozinha” do Palácio do Planalto, Bolsonaro avança várias casas no jogo para barrar o impeachment, atrai apoio no Senado e tenta alavancar sua campanha ao segundo mandato, em 2022. Presidente do Progressistas, Nogueira foi confirmado ministro e capitão do time bolsonarista com a missão de diminuir o desgaste de Bolsonaro, alvo da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, tirar o governo da rota de colisão e conquistar aliados.

O presidente se reuniu nesta terça-feira, 27, com Nogueira e acertou que ele será o responsável, a partir de agora, pela articulação política do Planalto com o Congresso. Sem partido, Bolsonaro negocia a filiação ao Progressistas e quer contar com a estrutura da sigla PP, forte no Nordeste, em sua tentativa de reeleição.

Com a estratégia de ceder espaço ao Centrão, o presidente faz a 27.ª mudança na equipe em dois anos e meio de mandato e tira o protagonismo de generais sem voto, como o ministro Luiz Eduardo Ramos, que deixou a Casa Civil e foi deslocado para a menos prestigiada Secretaria-Geral, até então ocupada por Onyx Lorenzoni. Visto como um curinga, Onyx já passou por outras três pastas e recebeu a promessa de ser transferido para Emprego e Previdência, que será recriado com o desmembramento do Ministério da Economia.

Nogueira é o quarto titular da Casa Civil. Antes dele ocuparam o cargo o próprio Onyx, Walter Braga Netto – hoje ministro da Defesa – e Ramos. Na prática, o senador assume sob a desconfiança da ala militar do governo, que vem perdendo poder. Ao Estadão, Ramos chegou a dizer, na semana passada, que havia sido “atropelado por um trem” ao saber da troca na Casa Civil. 

Bolsonaro tentou contemporizar o mal-estar, uma vez que Ramos tentou dissuadi-lo da mudança algumas vezes. “O general Ramos é uma excepcional pessoa, é meu irmão. Agora, com o linguajar do Parlamento, ele tinha dificuldade. É a mesma coisa que pegar o Ciro Nogueira e botar ele (sic) para conversar com generais do Exército.”

Diante das críticas de que contrariou promessas de campanha ao se casar de papel passado com o Centrão, Bolsonaro disse que precisa melhorar a interlocução com o Congresso. “Fomos nos moldando”, argumentou ele nesta terça-feira.

A saída de Nogueira – até agora titular da CPI da Covid – põe o senador Flávio Bolsonaro, filho 01 do presidente, como suplente da comissão. A cadeira do presidente do Progressistas será ocupada pelo correligionário Luiz Carlos Heinze (RS) e, para o lugar dele, entra Flávio. Nogueira deve tomar posse na próxima semana. Ao entrar no governo, ele também deixa temporariamente o comando do Progressistas, que passa para o deputado André Fufuca (MA).

“Acabo de aceitar o honroso convite para assumir a chefia da Casa Civil, feito pelo presidente Jair Bolsonaro. Peço a proteção de Deus para cumprir esse desafio da melhor forma que eu puder, com empenho e dedicação em busca do equilíbrio e dos avanços de que nosso país necessita”, escreveu Nogueira no Twitter.

O novo ministro é réu da Lava Jato e responde a cinco processos na Justiça. Entre eles estão inquéritos que investigam propina recebida da Odebrecht e da JBS. Ele nega as acusações.

Na Câmara, Bolsonaro conta com o presidente da Casa, Arthur Lira (Progressistas-AL), mas até agora não tinha nenhum integrante do Senado na equipe. É ali que serão sabatinados o advogado-geral da União André Mendonça, indicado por Bolsonaro para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), e o procurador-geral da República Augusto Aras, candidato à recondução ao cargo.

Nessa nova reforma da equipe, o presidente aumenta para 23 o número de ministros. Seriam 24, não fosse a autonomia do Banco Central (que perdeu status de ministério). Em 20018, sua plataforma de governo previa a redução de pastas e um gabinete enxuto. Naquela campanha, Bolsonaro fazia críticas contundentes à velha política e ao toma lá, dá cá, acusava o PT de fisiologismo e prometia jamais lotear o governo. 

O general Augusto Heleno Ribeiro, hoje ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), chegou a cantarolar uma música trocando o termo “ladrão” por “Centrão”. “Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”, ensaiou Heleno numa convenção do PSL, antigo partido de Bolsonaro, mudando o verso da letra de “Reunião de Bacanas”.

“Eu sou do Centrão”, disse Bolsonaro no sábado, na esteira de críticas à contradição entre seu discurso e a prática, ao lembrar que foi filiado ao Progressistas, então PP, por onze anos.

Estrutura

Em fase de expansão, o partido de Nogueira está filiando ministros, como Fábio Faria (Comunicações), de saída do PSD. O Progressistas tem atualmente a terceira maior bancada na Câmara com 41 deputados. No Senado, são sete parlamentares. Em 2020, consolidou-se como um partido médio no Congresso e cresceu fora dele com as eleições municipais. Foi um dos três partidos com maior aumento no número de eleitos. 

Elegeu 685 prefeitos e 6,3 mil vereadores, atrás apenas do MDB, que tem 784 prefeitos e 7,3 mil vereadores. Nogueira administrou a quarta maior fatia dos recursos do Fundo Eleitoral, que Bolsonaro propõe dobrar para R$ 4 bilhões, no ano que vem. Se o acordo com o Congresso vingar, o Progressistas deve ficar com cerca de R$ 280 milhões para a eleição nacional.

O novo ministro não vê problemas em mudar de lado político. Menos de três anos atrás, Nogueira era aliado dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva – hoje principal adversário de Bolsonaro – e de Dilma Rousseff. Em 2018, durante campanha para conseguir mais um mandato como senador, Ciro chegou a defender no seu Twitter que deixar Lula de fora da disputa presidencial – o petista estava preso – era “tirar do eleitor um direito de escolha”. E ainda afirmou que ficaria com Lula “até o fim”.

Felipe Frazão, Lauriberto Pompeu e Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo, em 28 de julho de 2021 | 05h00

O Brasil de Bolsonaro - um anão no cenário internacional

Na falta total de interlocutores de primeiro escalão, Bolsonaro se encontrou com uma obscura deputada ultradireitista alemã. O encontro sublinha o desastre que o bolsonarismo perpetrou na política externa do país.

Bolsonaro entre a deputada Beatrix von Storch e o marido dela, Sven von Storch

No momento, praticamente não existe um chefe de governo democrático que queira se encontrar com Jair Bolsonaro. Na União Europeia, evita-se prudentemente o presidente brasileiro, pois isso não pegaria bem junto ao eleitorado. Nem mesmo os fãs do britânico Boris Johnson devem ter uma opinião muito boa de Bolsonaro, conhecido no exterior sobretudo por duas coisas: a devastação da Floresta Amazônica e sua catastrófica gestão da pandemia, com mais de 550 mil brasileiros mortos.

Como ninguém quer se encontrar com Bolsonaro, ele aceita o que vem. Nesse caso foi, justamente, Beatrix von Storch, deputada federal e vice-porta-voz da ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD). Não se trata de um partido normal: o Departamento Federal de Proteção da Constituição – uma espécie de Abin alemã – levantou suspeitas de que a sigla abrigaria extremistas e impunha ameaças à ordem democrática, chegando a colocá-la sob observação do serviço secreto.

Além disso, o presidente do Brasil se encontrou com uma mulher que tachou a chefe de governo alemã, Angela Merkel, de "a maior criminosa da história da Alemanha do pós-guerra". O fato de ele se deixar ser visto ao lado dessa pária sublinha mais uma vez o desastre que o bolsonarismo perpetrou na política externa brasileira.

A perda de importância do país é dramática: Bolsonaro reduziu o Brasil de peso-pesado internacional a mero peso-mosca. É mais ou menos como se Merkel marcasse uma reunião com o deputado (e palhaço) brasileiro Tiririca, para discutir com ele o futuro da Europa e da América Latina.

O problema não são os avós

Como mostram as fotos do encontro, Bolsonaro e Von Storch se divertiram à beça. Poucas vezes se viu o presidente com um sorriso tão largo, e a ultradireitista alemã tão relaxada. O problema do encontro não é a ascendência de Beatrix von Storch – como enfatizaram diversos veículos de imprensa brasileiros. De fato, ambos seus avôs estiveram profundamente envolvidos nos crimes nazistas: um como ministro de Adolf Hitler (e criminoso de guerra condenado), e o outro como membro convicto do Partido Nacional-Socialista (NSDAP) e oficial da milícia SA.

Só que milhões de alemães têm antepassados que veneravam Hitler, injuriavam os judeus e se apoderaram de suas fortunas quando foram deportados e assassinados. Os avôs e bisavôs da maior parte dos alemães eram soldados da Wehrmacht, as Forças Armadas nazistas, ou até membros do NSDAP ou da força paramilitar SS.

Um de meus avôs viveu por um breve período num apartamento em Gleiwitz (hoje Gliwice, na Polônia) que pertencia a judeus deportados. A cidade fica próximo ao campo de extermínio de Auschwitz, e minha mãe se lembra até hoje que em certos dias "chovia cinza". Ninguém lhe explicava por quê.

Meu outro avô voltou para casa de um campo de prisioneiros soviético cinco anos após o fim da Segunda Guerra, mudo e sem reconhecer os filhos. Ele jamais falou sobre a guerra. Nós supomos que ele vivenciou coisas terríveis e talvez também tenha participado de atrocidades.

"Pérolas" da ultradireita alemã

Não se pode condenar os alemães de hoje à punição coletiva. E tampouco se pode acusar Beatrix von Storch de ter a família que tem. O que pode lhe ser imputado é ela dar continuidade à ideologia criminosa de seu avô. Ela disse que é lícito atirar em refugiadas e seus filhos que tentem atravessar a fronteira para a Alemanha, e pertence a uma sigla, a AfD, cujos deputados e funcionários disseram coisas como estas:

"Afinal, agora nós temos tantos estrangeiros no país que valeria a pena mais um Holocausto."

"Eu desejo tanto uma guerra civil e milhões de mortos, mulheres, crianças. Para mim, tanto faz. Seria tão bonito. Quero mijar nos cadáveres e dançar em cima dos túmulos. Sieg Heil!"

"Esse tipo de gente [estrangeiros e esquerdistas], é claro que temos que eliminar."

"Quando a gente chegar, vai ter arrumação, vai ter purgação!"

"Homossexuais na prisão? A gente também devia fazer isso na Alemanha!"

"Precisamos atacar e acabar com os meios de comunicação impressos."

"Lares para refugiados em chamas não são um ato de agressão."

"Fuzilar a corja ou mandar de volta para a África abaixo de pancadas."

Solidão patética

É possível que tais declarações nem soem tão estranhas para os leitores brasileiros. Seu presidente já soltou coisas do gênero, por exemplo: "Fazendo o trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil, começando com o FHC. Não deixar pra fora, não, matando. Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente."

Portanto, é inegável o parentesco de espírito entre Bolsonaro e Von Storch. Ambos são representantes da nova ultradireita global, que prega racismo, homofobia e autoritarismo, e para tal se serve de táticas, formulações e teorias de conspiração análogas. O mais absurdo que compartilham é a afirmação de que defenderiam "valores conservadores e cristãos". Eles não defendem valor nenhum!

Jair Bolsonaro e Beatrix von Storch são irmão e irmã no espírito. O fato de o presidente brasileiro – assim como seu filho Eduardo, ou o ministro da Ciência Marcos Pontes – se encontrar com essa pária da política alemã mostra, acima de tudo, quão solitário e absolutamente incompetente esse governo se tornou. Está isolado por ser incapaz de travar um diálogo com quem pense diferente. Diplomacia lhe é uma palavra desconhecida. Para o Brasil, que há poucos anos ainda tinha um peso no mundo como país de referência, é uma tragédia.

Philipp Lichterbeck, ,o autor deste artigo, queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais da Alemanha,Suíça e Áustria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio. Publicado originalmente por Deutsche Welle Brasil, em 28.07.2021

terça-feira, 27 de julho de 2021

Bolsonaro confessa que sem os corruptos do Congresso não poderia governar

Aquele mito chamado por Deus para destruir o Brasil comunista, que obviamente não existia, claudicou e voltou ao redil da velha política, faminta por cargos e poder

Um homem com um boneco representando o presidente Jair Bolsonaro durante os protestos do último sábado. (NELSON ANTOINE / AP)

O presidente Jair Bolsonaro teve um momento de sinceridade e confessou que sem os réus do Congresso não poderia governar. Em uma entrevista à Rádio Arapuan FM da Paraíba, ele afirmou que é necessário conviver com eles: “Se eu afastar do meu convívio parlamentares que são réus, ou têm inquéritos, perco quase metade do Parlamento”.

Bolsonaro deve sentir que está perdendo apoio em diversos setores, começando pelas igrejas evangélicas, e que Lula aparece em todas as pesquisas como ganhador das eleições de 2022. Isso o levou a deixar de lado todas as suas promessas de restauração da política e a se entregar completamente ao coração do poder mais corrupto do Congresso, que por sua vez comemora o retorno do deputado do baixo clero ao seu rebanho.

Sem partido próprio, algo inédito para um presidente da República, Bolsonaro anda implorando por quem o acolha em seu seio. E o curioso é que até agora nenhum partido correu para lhe oferecer abrigo. Temem que ele e seus filhos acabem querendo se apoderar do partido. Com a nomeação do cacique do PP, Ciro Nogueira, como ministro da Casa Civil, o cargo mais importante do Governo, Bolsonaro se casou com a parte do Congresso com maior poder.

Bolsonaro, que conhece muito bem o Congresso e seus pecados por ter peregrinado durante seus 30 anos como deputado por dez partidos do baixo clero, agora se entregou ao Centrão e terá de dividir o poder entre eles e os mais de 6.000 militares já estabelecidos no poder político. Isso será, segundo os especialistas em política, um ponto crucial e perigoso. Bolsonaro tomou a decisão de entregar o poder do Governo ao Congresso, e isso não deixará de ser em detrimento do Exército, que já governa e poderia se sentir passado para trás.

Por outro lado, o presidente, que vê seu apoio cair, precisa dos militares para tentar se reeleger. Como eles reagirão tendo agora de perder poder no Governo? Principalmente porque já está mais que demonstrado que os militares não estão dispostos a perder poder tão facilmente no mundo da política, ao qual foram levados pelo antigo capitão que eles mesmos tinham expulsado do Exército, aquele que lhes deu um poder que agora deverão dividir com o Congresso.

É difícil saber como Bolsonaro poderá conviver com essa ambiguidade. No momento, porém, o que menos lhe importa é o Governo, para o qual, como ficou claro, ele não estava preparado. Sua única obsessão é ganhar novamente as eleições e, principalmente, derrotar Lula. Todo o resto lhe importa menos, e para isso ele está disposto a deixar que os caciques do Congresso, até os mais corruptos, governem, desde que o ajudem a ser reeleito.

Isso revela que aquele Bolsonaro das eleições, o mito chamado por Deus para destruir o Brasil comunista, que obviamente não existia, claudicou e voltou ao redil da velha política, faminta por cargos e poder.

A aposta de Bolsonaro, no entanto, é arriscada. Após sua conversão, será difícil convencer os milhões que votaram nele por suas promessas de trazer uma nova visão da política de que, agora, voltou a se deitar nos braços daquele Congresso que ele acusou, na campanha, de ser velho e corrupto.

As hipóteses levantadas são muitas. Há quem garanta que Bolsonaro não mudará e continuará com suas investidas contra as instituições porque o que ele busca é o poder absoluto, que não precise compartilhar com ninguém. Daí suas ameaças de — e seus flertes com — um golpe autoritário que possa permitir que ele governe fora das ataduras da democracia.

O que outros profetizam é que, com sua nova aposta de entregar o Governo ao Centrão, ou ele muda e trai suas promessas eleitorais ou será a velha política que acabará por abandoná-lo quando for interessante para ela. Eles querem o poder e isso basta, não querem ouvir falar de golpes nem de pureza política. Esse é o grande dilema de um Bolsonaro que acabará preso entre seus antigos sonhos golpistas ou voltará ao que sempre havia sido, um obscuro deputado que se distinguiu por sua incapacidade de estar ao lado de quem realmente mandava no Congresso, relegado ao velho baixo clero.

Há até quem tenha suposto que durante seus longos anos de deputado ele nunca apareceu envolvido em grandes escândalos de corrupção porque os grandes empresários nunca tiveram a intenção de corrompê-lo, já que sabiam que era só um obscuro deputado sem poder influir na aprovação de leis ou emendas importantes.

Por isso, teria tido que se conformar com a pequena corrupção das rachadinhas, que acabou ensinando a seus filhos. Agora que os grandes caciques que mandam no Congresso começam a se aproximar do presidente, ele se sente, de algum modo, adulado. É como ter passado da terceira para a primeira divisão.

Bolsonaro poderá continuar dizendo “aqui quem manda sou eu”, mas a verdade é que cada dia ele mandará menos, e não é impossível que até os militares acabem por abandoná-lo antes de se ver preteridos e enganados. Ou, o que é pior, ser vistos como participantes de casos de corrupção como o nebuloso mundo da compra de vacinas e a incapacidade de gestão no importante Ministério da Saúde durante o pico da pandemia.

As águas do Governo estão cada dia mais agitadas e confusas, e hoje ainda é impossível saber qual poderá ser o final da macabra aventura daquele que já é visto dentro e fora do país como o pior presidente desde o fim da ditadura e que flerta com os governos fascistas que começam a renascer na Europa.

O imponderável Bolsonaro continua sendo um enigma enredado em seus sonhos de poder ditatorial, e não é fácil adivinhar qual poderá ser seu final, que certamente não será glorioso.

Juan Arias , o autor deste artigo, é jornalista e escritor, com obras traduzidas em mais de 15 idiomas. É autor de livros como ‘Madalena’, ‘Jesus esse grande desconhecido’, ‘José Saramago: o amor possível’, entre muitos outros. Trabalha no EL PAÍS desde 1976. Foi correspondente deste jornal no Vaticano e na Itália por quase duas décadas e, desde 1999, vive e escreve no Brasil. É colunista do EL PAÍS no Brasil desde 2013, quando a edição brasileira foi lançada, onde escreve semanalmente. Publicado por EL PAÍS, em 27 JUL 2021 - 18:36 BRT

Brasil tem 1.333 mortes por covid-19 em 24 horas

Autoridades confirmam ainda 41 mil novos casos. Média móvel de mortes diárias está em 1.094, queda de 8,2% em relação a sete dias atrás. Já a média móvel de casos está em 47.091, alta de 23,2% no mesmo período.

São 551.835 óbitos pela doença até esta terça

O Brasil registrou oficialmente nesta terça-feira (27/07) mais 1.333 mortes ligadas à covid-19, segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass).

Também foram confirmados 41.411 novos casos da doença. Com isso, o total de infecções reportadas no país chega a 19.749.073, e os óbitos oficialmente identificados somam um total de 551.835.

Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que os números reais devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação.

A média móvel de novas mortes (soma dos óbitos nos últimos sete dias e a divisão do resultado por sete) está em 1.094, queda de 8,2% em relação a sete dias atrás. E a média móvel de novos casos está em 47.091, alta de 23,2% no mesmo período.

Já a taxa de mortalidade por grupo de 100 mil habitantes subiu para 262,6 no Brasil, a 8ª mais alta do mundo, atrás apenas de alguns pequenos países europeus e do Peru.

Em números absolutos, o Brasil é o segundo país do mundo com mais mortes, depois dos Estados Unidos, que somam mais de 610 mil óbitos, mas têm população bem maior. É ainda o terceiro país com mais casos confirmados, após EUA (34,5 milhões) e Índia (31,4 milhões).

O Conass não divulga o número de recuperados. Segundo o Ministério da Saúde, 18.398.567 pacientes no Brasil haviam se recuperado da doença até a noite de segunda.

No entanto, o governo não especifica quantos desses recuperados ficaram com sequelas ou outros efeitos de longo prazo. A forma como o governo propagandeia o número de "recuperados" já foi criticada por cientistas, que classificam o número como enganador ao sugerir que os infectados estão completamente curados da doença após a fase aguda ou alta hospitalar.

Estudos no exterior estimaram que entre 10% e 38% dos infectados sofrem efeitos da "covid longa" meses após o vírus ter deixado o organismo. Um estudo alemão apontou que sequelas podem surgir até meses depois da fase aguda da doença. Já uma pesquisa da University College London em 56 países listou mais de 200 sintomas observados em pacientes com sequelas pós-covid.

Ao todo, mais de 195 milhões de pessoas contraíram oficialmente o coronavírus no mundo, e foram notificadas 4,17 milhões de mortes associadas à doença, segundo contagem da Universidade Johns Hopkins, dos EUA.

Deutsche Welle Brasil, em 27.07.2021

Líder do Centrão aceita convite para ser ministro da Casa Civil

Presidente do Progressistas, senador Ciro Nogueira assume principal ministério do governo Bolsonaro, em esforço do presidente para manter o apoio do Centrão e se blindar de possível pedido de impeachment.

Ciro Nogueira, que chamou Bolsonaro de "fascista" em 2017, é hoje um de seus principais defensores no Senad

O senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas e um dos principais nomes do Centrão, grupo de partidos que apoia o governo em troca de cargos e verbas para bases eleitorais, anunciou nesta terça-feira (27/07) que aceitou o convite do presidente Jair Bolsonaro para assumir a chefia da Casa Civil.

"Acabo de aceitar o honroso convite para assumir a chefia da Casa Civil, feito pelo presidente Jair Bolsonaro. Peço a proteção de Deus para cumprir esse desafio da melhor forma que eu puder, com empenho e dedicação em busca do equilíbrio e dos avanços de que nosso país necessita", escreveu o senador piauiense no Twitter, após encontro com Bolsonaro no Palácio do Planalto.

"Muito feliz em fazer parte desse grande time de ministros, trabalhando unidos, sob a liderança do presidente Jair Bolsonaro, pelos brasileiros. Tenho certeza também de que contaremos com o apoio do meu querido amigo Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, nessa honrosa missão", escreveu em outro post, acompanhado de uma foto em que aparece ao lado de Bolsonaro e alguns ministros.

Para especialistas, a ida de Nogueira à principal pasta do Palácio do Planalto fortalece ainda mais o Centrão, que, desde o ano passado, vem conseguindo conquistar cada vez mais cargos no governo. A jogada é vista como fundamental para assegurar o apoio dos partidos do bloco ao seu governo e garantir a aprovação de pautas e, principalmente, a não abertura de um processo de impeachment.

O presidente havia feito o convite há uma semana, mas Nogueira estava de férias no México e a resposta dependia de uma conversa pessoalmente com o presidente. O encontro deveria ter ocorrido da segunda-feira, mas foi adiado para esta terça, pois Nogueira enfrentou problemas no voo de volta ao Brasil.

Com a minirreforma ministerial anunciada por Bolsonaro na semana passada, o atual ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, assumirá a Secretaria-Geral, hoje chefiada por Onyx Lorenzoni, que por sua vez comandará o novo Ministério do Emprego e da Previdência.

Também nesta terça-feira, Ramos postou no Twitter uma foto ao lado de Bolsonaro e Nogueira.

"Seja bem-vindo, Ciro Nogueira, ao time de Jair Bolsonaro. Desejo muito sucesso na Casa Civil. Agradeço aos servidores que estiveram comigo nessa jornada e sigo em nova missão determinada pelo presidente na Secretaria-Geral. Tenham certeza que mais uma vez darei o meu melhor em defesa do Brasil", escreveu na rede social.

Ex-aliado de Lula e investigado pelo STF

Nogueira era aliado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o seu governo. Em entrevista em 2017, ele disse que o petista havia sido o "melhor presidente da história deste país" e que era seu candidato para as eleições do ano seguinte, a qual Lula foi impedido de participar por ter sido condenado em segunda instância, decisão revertida pelo Supremo neste ano. Na mesma entrevista, ele disse que Bolsonaro era "fascista".

O novo ministro foi denunciado ao Supremo Tribunal Federal (STF) duas vezes pela Procuradoria-Geral da República (PGR), em processos relacionados à Operação Lava Jato, mas a Corte ainda não decidiu se aceita ou rejeita as denúncias. Ele também é alvo de um inquérito que apura pagamento de propinas pelo Grupo J&F.

Questionado sobre as investigações contra Nogueira, Bolsonaro minimizou a situação. Em entrevista nesta segunda-feira a uma rádio da Paraíba, o presidente disse que, caso cortasse relação com deputados e senadores que respondem a inquéritos, "perderia metade do parlamento". Ele citou ele próprio como exemplo para justificar a resposta.

"Eu sou réu no STF, sabia disso? Aquele caso da Maria do Rosário. Então não deveria estar aqui também. Acho que todos nós só somos culpados depois de a sentença ser apresentada em julgado. Então se o Ciro ou qualquer outro ministro meu for julgado e condenado, obviamente se afasta do governo. Mas, no momento, é o que eu tenho para trabalhar em Brasília", declarou

Bolsonaro é reu no STF em um processo por ofensas à deputada federal Maria do Rosário (PT-RS). Em 2014, ele afirmou que a petista "não merece ser estuprada" por ser "muito feia".  

Objetivos da reforma

As alterações no primeiro escalão do governo têm três objetivos principais: fortalecer a aliança de Bolsonaro com o Centrão para proteger o presidente de pedidos de abertura de processo de impeachment e aprimorar a articulação para a campanha presidencial de 2022; melhorar a interlocução de Bolsonaro no Senado, onde ocorre a CPI da Pandemia e serão decididas as recentes indicações do presidente para o Supremo Tribunal Federal e para a Procuradoria-Geral da República; e tentar acelerar a formulação de políticas públicas para reduzir o desemprego, que hoje atinge 14,7 milhões de pessoas e é um ponto frágil para a sua campanha à reeleição.

Um dos pilares da campanha eleitoral de Bolsonaro em 2018 foram as críticas ao que se chamava de "velha política". O então candidato prometeu que não adotaria a prática de ceder verbas e cargos para partidos em troca de apoio ao Planalto, um dos elementos na formação de coalizões governamentais no presidencialismo brasileiro. Em outubro de 2018, antes do segundo turno, Bolsonaro afirmou que não aceitaria o "toma lá dá cá" caso fosse eleito.

Em meados de 2020, porém, após o início da pandemia de covid-19 e com dificuldade na relação com o Congresso, Bolsonaro começou a abrir espaço para partidos do Centrão no governo. Um marco foi a nomeação, em agosto, do deputado Ricardo Barros (PP-PR) para o cargo de líder do governo na Câmara, hoje envolvido em escândalos relacionados à compra de vacinas.

A aproximação se aprofundou nos meses seguintes, e alcançou um novo patamar com o engajamento do Planalto na eleição do deputado Arthur Lira (PP-AL), um expoente do Centrão, para o cargo de presidente da Câmara. Em março de 2021, Bolsonaro nomeou a deputada Flávia Arruda (PL-DF) para a Secretaria de Governo.

Também durante a campanha de 2018, Bolsonaro prometeu enxugar a estrutura do governo federal para 15 ministérios, mas não chegou a essa meta. Com a nova pasta da Previdência e Emprego criada para contemplar Onyx, que ficaria sem um cargo de ministro, o governo terá agora 23 ministérios.

Deutsche Welle Brasil, em 27.07.2021

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Mistério ronda a agressão a Joice Hasselmann

Deputada acordou no chão do seu quarto ensanguentada e diz ter achado que havia tido um AVC. Mas exames revelaram fraturas que sugerem uso de força. Chegou-se a suspeitar de que marido a tivesse agredido, o que ambos negam. Parlamentar vê possível ataque quando estava dormindo e apontou dois suspeitos para o Departamento da Polícia Legislativa, que investiga o caso

A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) é fotografada com hematomas no rosto em seu apartamento funcional em Brasília, na última sexta-feira.GABRIELA BILO / ESTADÃO CONTEÚDO

A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) surpreendeu o Brasil na semana passada ao expor seu rosto inchado, o queixo machucado e vários hematomas, além de imagens de um dente que quebrou. Segundo ela mesma relatou a vários jornais, ela acordou de bruços no chão do seu quarto, no domingo, 17, e notou que havia sangue no chão. A deputada sentiu dor em várias partes do corpo e procurou recobrar os últimos acontecimentos para entender o que pode ter acontecido. Havia adormecido vendo uma série na TV por volta da uma hora da manhã e dali em diante não lembrou mais de nada. Foi se arrastando até a mesa de cabeceira para pegar o celular e descobriu que eram 7h03. Ligou para o marido, o neurocirurgião Daniel França, que dormia em outro quarto e fez os primeiros socorros da esposa.

Hasselmann vive no edifício funcional a que os parlamentares têm direito em Brasília, na Asa Norte da cidade. Tem a ministra da Agricultura, Teresa Cristina, como sua vizinha de baixo. Sem memórias dos momentos anteriores, acreditou, a priori, tratar-se de um tombo que pudesse ter impactado a cabeça, ou ainda um eventual mal súbito ou AVC, como contou em várias entrevistas, incluindo uma coletiva neste domingo em sua casa ao lado do marido, com quem se casou em 2016. De mãos dadas, responderam a todos os questionamentos, inclusive sobre a suspeita que correu no país todo de que fosse um caso de violência doméstica. “Todo mundo me conhece, eu seria a primeira pessoa a fazer todo barulho, trazer polícia aqui para dentro e o colocando para fora se ele ousasse falar alto comigo”, disse a deputada com firmeza, sem soltar a mão de França, que garantiu: “Nunca agredi ninguém”.

A parlamentar é famosa por se expor nas redes sociais e não é dada a dissimulações. Ao contrário, ganhou inimigos políticos por não ter freios para falar em qualquer circunstância. Já chorou em público quando sofreu ataques virtuais de toda sorte, incluindo aqueles referentes a sua aparência. É aqui que entra um mistério que a deputada espera que as autoridades decifrem. França dorme em outro quarto porque, segundo ele, ronca muito. “Eu estava dormindo com a porta fechada no meu quarto, que não é do lado do quarto dela. Eu imaginei que tinha caído já sem consciência”, disse França na coletiva. “Ela me disse ‘eu caí' e imaginei que era um acidente doméstico”, conta.

Embora a esposa reagisse bem, o marido diz que insistiu para que ela fizesse exames mais detalhados diante dos ferimentos pois ela sentia muita dor na face e nos joelhos. Foi quando os exames saíram que o casal passou a se preocupar. Os médicos acreditavam que ela havia caído da escada ou havia sofrido um acidente, pois havia galos na cabeça, na nuca, além de fraturas no rosto e na coluna.

Reprodução

“Até quarta de manhã eu achava que era um tombo. Minha mãe já teve princípio de AVC mais ou menos na minha idade”, relatou Hasselmann, ainda com curativos no queixo. O histórico familiar poderia justificar uma queda, acreditou. Diante da surpresa dos exames, a deputada e o marido descartaram essa hipótese ou a de um apagão inesperado. E começaram a pensar em algo mais grave. Um ataque que a tivesse deixado desacordada enquanto apanhava. Alguém que possa ter entrado no apartamento e dado uma surra na deputada, algum desafeto de Brasília que conhecesse sua rotina. Uma hipótese que pode configurar uma tortura sofisticada, da qual o mundo político ainda não tinha notícia. “Eu tenho duas suspeitas”, contou a deputada, que denunciou o caso ao Departamento de Polícia Legislativa (Depol), incluindo os nomes que ela cogita como responsáveis.

Suas suspeitas ficaram mais fortes quando expôs sua situação e a foto do rosto inchado e machucado na última quinta-feira. Enfrentou a fúria das milícias virtuais, que começaram a desacreditá-la e passaram a atacar o seu marido. A máquina de fake news atuou a todo vapor, incluindo montagem de um jornal com o logotipo do Estadão de que ela na verdade teria sofrido um acidente. “Uma fonte do GSI [Gabinete de Segurança Institucional] me contou que queriam vazar a tese do acidente”, relatou ela, que virou inimiga número 1 dos bolsonaristas depois que rompeu com o presidente Jair Bolsonaro, de quem chegou a ser líder de Governo.

A tese levantada pelo casal despertou toda sorte de questionamentos. Se ela era sonâmbula, se não era uma reação a algum remédio, se não estariam ocultando uma briga, se de fato não teria saído de casa, ou misturado bebida com medicação. Na coletiva deste domingo, eles responderam a tudo por mais de uma hora de conversa. Falando com serenidade. Ela contou que sofre de insônia e há 20 anos toma uma dose de sonífero que a deixa dormir por três horas. “Não houve nada de diferente de outros finais de semana em casa”, diz. Contaram que os apartamentos funcionais têm algumas falhas de segurança. Como não avisar quando um convidado está chegando, e ele bater à porta sem prévio aviso. Ela relatou que a Câmara tem cópias de chaves dos apartamentos funcionais. Detalhes que a deputada pediu pra serem investigados pelo Depol. “Eu recebo ameaças de morte, que eles já investigam”, relata Hasselmann, que teme qualquer interferência em investigação num Governo que pressiona a Polícia Federal sobre seus desafetos.

Ao tornar o assunto público, a deputada ajuda a blindar a investigação. A expectativa agora é levantar evidências em câmeras de segurança do prédio e dos arredores, bem como uma pesquisa acurada dos que circulam no imóvel só frequentado por parlamentares para chegar a alguma conclusão. “Três meses atrás apareceu um caixa de cigarros aqui. Ninguém fuma”, contou, aumentando o mistério em torno do episódio.

CARLA JIMÉNEZ, de São Paulo para o EL PAÍS, em 25 JUL 2021 - 19:51 BRT

Ossos de boi, arroz e feijão quebrado formam cardápio de um Brasil que empobrece

A pandemia aprofundou ainda mais a situação precária vivida por milhões de brasileiros. A insegurança alimentar leva centenas de pessoas ao açougue Atacadão da Carne, em Cuiabá, em busca de doação

São Paulo (SP), 29/06/2021 - Homem em situação de rua revira o lixo na Av. Paulista, SP.  (Roberto Casimiro/Fotoarena/Agência O GloboROBERTO CASIMIRO / FOTOARENA)

Em Cuiabá, a capital de Mato Grosso e do milionário agronegócio brasileiro, uma fila se forma na rua lateral do Atacadão da Carne antes das 9h desta quarta-feira. O açougue é conhecido pelo preço “mais em conta”. Mas na última semana ganhou uma involuntária fama nacional justamente por causa dessa fila, onde centenas de pessoas esperam horas debaixo do sol quente, sentados na calçada, até que uma porta lateral se abra às 11h e um funcionário comece a distribuição do que restou da desossa do boi. São, de fato, ossos com resquícios da carne vendida e que servem de uma improvisada fonte de proteína da população mais humilde. “É a maior felicidade a gente conseguir um ossinho aqui, porque está feia a crise! Eu estou desempregado e não tem para onde a gente recorrer. Faz tempo que eu não como carne, se não fosse o ossinho. Tudo está caro!”, conta Joacil Romão da Silva, de 57 anos.

Metade da população brasileira hoje enfrenta a fome e a falta de direitos

Famílias que perderam tudo com a crise e agora estão em situação de rua, em São Paulo.

Pandemia leva famílias para as ruas de São Paulo e acelera mudança de perfil da população sem-teto

A pandemia de coronavírus aprofundou ainda mais a situação precária vivida por milhões de brasileiros. O desemprego aumentou, os preços subiram e a fome explodiu. São mais de 19 milhões de brasileiros passando fome, segundo a última pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN). Em 2018, eram 10,3 milhões. A perda de poder aquisitivo deixou, ainda, mais da metade do Brasil sem acesso pleno e permanente a alimentos. São 116,8 milhões de brasileiros (55,2% da população) que não necessariamente comem as três refeições por dia (insegurança alimentar). Três anos atrás, o IBGE registrava 36,7% da população nesse status, o que já era alto em comparação com 2013: 22,9%.

A ação do açougue de Cuiabá já ocorre há mais de 10 anos. Mas, antes da pandemia, a fila reunia entre 20 e 30 pessoas, segundo Edivaldo Oliveira, de 58 anos, dono do local. “Agora, triplicou ou mais. Hoje são 200 pessoas. Estamos com dificuldade para atender e a gente está se esforçando ao máximo. Mas é muita gente mesmo”, conta. Os sinais de desarranjo estão por toda parte. Nos preços, que saltaram 15,3% entre julho de 2020 e junho 2021 somente no caso dos alimentos (IPCA). No alto desemprego, que já atinge cerca de 15 milhões de pessoas no Brasil. No aumento da população morando nas ruas e nas filas de doação de marmita vista em qualquer ponto de São Paulo.

Os supermercados já oferecem opções mais baratas inclusive para substituir o arroz e o feijão, os dois principais alimentos da dieta brasileira. Um pacote de cinco quilos de arroz ficou 48% mais caro no último ano e pode chegar a 30 reais em alguns locais. Assim, algumas marcas oferecem nos supermercados os chamados “fragmentos de arroz”, opção mais barata, por vezes usada como ração para animais. Uma das empresas que passou a oferecer é a Rampinelli, que colocou esse produto no cardápio em 2016. Os mercados também já têm disponível a “bandinha de feijão” —feijão quebrado. O preço do feijão preto subiu 22% no último ano e o pacote de um quilo chega a custar 10 reais em alguns supermercados, enquanto que as bandinhas de feijão valem metade do preço.

Ana Paula dos Anjos, de 38 anos, também busca ajuda no Atacadão da Carne. O preço do alimento subiu 38% no último ano. Além disso, ela conta que há um ano e dois meses está afastada do trabalho por causa de um acidente que sofreu na empresa. Sem assistência do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e sem auxílio da empregadora, virou rotina frequentar a fila em busca de doação. “Estou me virando, passando por necessidade. Sou eu quem sustento a casa e muitas vezes deixo de comer para alimentar meus filhos. Três vezes na semana estou aqui”, conta ela, que cuida dos quatro filhos sozinha. “Meus filhos choram querendo as coisas para comer e o jeito é pedir ajuda.”

Mulher mostra nesta quarta-feira, 21 de julho, o saco plástico com ossos de boi doados pelo açougue Atacadão da Carne, em Cuiabá (MT).PEDRO BRITES

Além de recorrer ao Atacadão da Carne para a alimentação diária, Celina Mota, de 56 anos, também consegue no mercadinho do bairro legumes e frutas que não foram vendidos e seriam descartados. “Conversei com o rapaz lá e ele me arranjou essas verduras, que eu cozinho um pedaço a cada dia. Com os ossinhos vai ajudar. Dá para ir vivendo”, garante ela, que também está desempregada. É com a ajuda que recebe que ainda consegue alimentar os netos. “Eu faço ensopado, frito, corto tudinho e congelo para ir comendo durante a semana. E assim vou me virando”, complementa, mostrando tomates, banana e batata doce que conseguiu arrecadar.

O açougue não atende somente pessoas dos bairros periféricos da região. De acordo com Edvaldo Oliveira, o dono do local, já houve registro de pessoas de cidades vizinhas enfrentando a chamada “fila dos ossinhos”. “Eu vejo que a fome e a necessidade dessas pessoas são muito grandes. Para pegar uma sacolinha de um quilo ou um quilo e meio de ossinho, elas chegam antes das 9h e ficam às vezes até 13h esperando. E elas são gratas por isso, por algo que as pessoas que têm mais estabilidade não dão valor algum”, comenta. A esposa do comerciante, Samara Oliveira, de 38 anos, espera que a exposição que o açougue ganhou inspire outros empresários a serem solidários. “Não é só de carne que eles precisam, eles precisam de arroz, feijão, precisam de uma farmácia que venha aqui ajudar com remédios, de roupas. É um ‘oi, como vai, você está bem?’”, afirma.

A fila tornou-se um ícone da pobreza do Brasil de hoje e foi noticiado em todo o país. Gente, como Gustavo da Silva Costa, de 25 anos, se solidarizou e levou mais de 20 quilos de frango para doar. “É uma quantidade que, infelizmente, foi pouco devido à quantidade de pessoas aqui”, afirma. A distribuição dos frangos não demorou nem um minuto, as pessoas correram até onde o rapaz estava para receber um pacote. “Eu vi uma reportagem e decidi ajudar. Muita gente pode somar e ajudar essas pessoas, que realmente precisam. No mercado de trabalho, infelizmente, não tem mais oportunidades”, afirma o motoboy.

RENAN MARCEL e FELIPE BETIM, de Cuiabá e São Paulo para o EL PAÍS, em  25 JUL 2021 - 10:26 BRT

Radiografia das ‘lives’ e discursos de Bolsonaro mostra escalada de autoritarismo e desinformação

Análise do vocabulário do presidente feita pela Lagom Data para o EL PAÍS expõe aumento de falas contra o sistema eleitoral, maior simbiose com Exército e informações erradas sobre vacinas. YouTube retirou do ar vídeos do presidente com dados médicos incorretos

Jair Bolsonaro durante gravação de pronunciamento oficial sobre vacinas contra covid-19. Nas 'lives', presidente segue lançando dúvidas sobre a vacinação. (ISAC NOBREGA/PR)

No primeiro semestre de 2021 Jair Bolsonaro subiu o tom de suas falas, intensificando a frequência a referências autoritárias. A 14 meses das eleições presidenciais, reforçou a campanha de desconfiança sobre o sistema eleitoral brasileiro. Passou também a usar com mais frequência em suas lives no YouTube expressões como “meu Exército” e “minhas Forças Armadas”, em que evoca simbiose com os militares e se apropria para uso pessoal da atribuição constitucional de que foi incumbido. E se finalmente o Governo Bolsonaro abraçou a campanha de vacinação contra a covid-19, nas transmissões nas redes sociais o presidente seguiu difundindo informações errôneas sobre a doença. É o que aponta uma análise dos padrões de falas e discursos do presidente, feita com exclusividade para o EL PAÍS pelo estúdio de inteligência de dados Lagom Data. É esse discurso que molda as decisões políticas e sanitárias do Governo, ainda que as ideias afrontem a democracia e a ciência.

Vários dos vídeos em que Bolsonaro espalha desinformação sobre a covid-19 foram tirados do ar pelo YouTube na última quarta (21), numa decisão inédita. “Nossas regras não permitem conteúdo que afirma que hidroxicloroquina e/ou ivermectina são eficazes para tratar ou prevenir a covid-19, garante que há uma cura para a doença; ou assegura que as máscaras não funcionam para evitar a propagação do vírus”, explicou o canal. O vocabulário desses vídeos entrou na análise antes que ela saísse do ar. As regras do YouTube batem em cheio sobre o conteúdo produzido pelo presidente, arma poderosa para amalgamar o apoio de seus eleitores, que multiplicam quase instantaneamente as informações divulgadas por Bolsonaro.

Para a análise, o Lagom Data coletou a íntegra do texto dos 406 discursos de Bolsonaro disponíveis no site oficial do Planalto, além das legendas automáticas de 89 das 110 lives do presidente, entre sua vitória eleitoral, em 2018, e o final do primeiro semestre de 2021. Destas, ao menos 10 lives parecem ter sido removidas pelo YouTube, em uma nova análise feita nesta quarta pelo estúdio de inteligência de dados. Ao todo, 14 vídeos ao vivo foram retirados do canal do presidente.

“Se eu levantar minha caneta Bic e falar ‘Shazam’, eu vou ser ditador. Vou ficar sozinho nessa briga? O meu exército que tenho falado o tempo todo é o povo. Sempre digo que eu devo lealdade absoluta ao povo brasileiro, e esse povo está em toda sociedade, inclusive o Exército fardado”, disse na transmissão ao vivo do YouTube em 11 de março de 2021. Em 20 de maio, o presidente utilizou a expressão novamente para criticar as medidas de isolamento impostas pelos Governos locais por conta da pandemia. “Eu já falei várias vezes que o meu exército jamais irá às ruas para manter o povo dentro de casa, como as forças policiais de alguns governadores”.

Quando menciona a caserna, Bolsonaro gosta de fazer reminiscências do seu passado militar (ele foi capitão do Exército), afirmações grandiloquentes sobre sacrificar a própria vida e soberania do povo e elocubrar sobre “o inimigo”, uma referência velada ao combate ao “comunismo” muitas vezes tratado como sinônimo de esquerdismo ou petismo. Presidente que mais empregou militares na administração pública desde o fim da ditadura, Bolsonaro, desde a posse, já falou em 31 formaturas de academias militares e policiais ―23 das Forças Armadas, 8 de polícias militares, uma frequência de participação que não era comum a outros presidentes.

“Quando estava no Exército, Bolsonaro era um estorvo que foi afastado por motivos políticos em 1988. Em 2014, 2015, ele foi transformado num mito. No poder, virou um cavalo de troia, para que esse grupo ocupasse os espaços de poder. Cabeça, tronco, membros, entranhas e alma do Governo”, afirmou ao repórter Afonso Benites o coronel da reserva do Exército Marcelo Pimentel, que enxerga no comando do país um “Partido Militar”.

Caos nas eleições e vacinas

Em março de 2020, um ano e cinco meses após ser declarado vencedor da eleição presidencial, Bolsonaro prometeu em Miami apresentar supostas evidências de que, devido a uma fraude, não conseguiu vencer no primeiro turno as eleições de 2018. Desde então, tem se esquivado de apresentar essas tais provas às autoridades competentes, o que não o impede de voltar a fazer as mesmas acusações.

A análise do seu vocabulário mostra que as eleições de 2022 têm presença constante no seu discurso desde os primeiros meses do seu mandato. Essas menções vêm se avolumando desde outubro de 2020, e cresceram no primeiro semestre de 2021. Desde janeiro, as expressões “voto impresso” e “voto auditável” também aparecem com mais frequência na fala do presidente. Nas lives, elas já apareceram 27 vezes. Em discursos, 16.

Na live de 25 de junho, o alvo foi a campanha contra o sistema eleitoral: “Ministro [Edson] Fachin, o mesmo que proibiu policiais militares do Rio de Janeiro de entrar na comunidade atrás de vagabundo, o mesmo que proibiu que helicópteros façam operações dentro de comunidades, agora disse que quem luta pelo voto auditável comete um ato de violência contra a Constituição. Dá para entender? Dando palpite. Palpiteiro!”, disse Bolsonaro.

Se nos discursos, geralmente em ocasiões solenes, o presidente usa um vocabulário mais comedido e muitos cumprimentos, é nas lives, destinadas a sua base mais fiel e radicalizada, que ele afrouxa a gravata e faz a maior parte das menções distópicas. Em média, Bolsonaro fala durante 49 minutos em suas transmissões ao vivo semanais. Seus discursos, por sua vez, tendem a ser mais curtos. A live mais longa, de 1º de julho deste ano, teve quase uma hora e cinco minutos. Com isso, o conjunto completo de falas analisadas forma uma massa de vocabulário mais extensa do que a Bíblia: são 871.412 palavras ―sites religiosos estimam que o texto completo da Bíblia tenha até 810.000 palavras, dependendo da tradução.

Essas diferenças entre discurso formal e o feito sob medida para mobilizar para seus seguidores também fica claro no manejo discursivo da pandemia de covid-19. No segundo semestre de 2020, a bala de prata favorita de Bolsonaro para enfrentar a covid-19 era a cloroquina, ou hidroxicloroquina, remédios prescritos para malária que o Governo transformou em política de Estado pela qual agora nenhum ministério se responsabiliza, como mostrou o EL PAÍS.

As menções ao fármaco se reduziram a quase nada no final do ano, quando a busca pelas vacinas se tornou o principal assunto do Brasil. As citações ao remédio voltaram, agora de maneira defensiva, após a abertura da CPI da Pandemia, no final de abril. Neste mês, o órgão técnico que assessora o Ministério da Saúde finalmente enviou documento à CPI no qual afirma que os remédios do chamado “kit covid” promovido pelo Planalto, mas também por clínicas privadas, não têm qualquer efeito para mitigar a covid-19. E e o YouTube tomou sua primeira reação oficial contra esses vídeos, o que pode culminar com a suspensão do próprio canal pessoal do presidente.

As falas de Bolsonaro sobre a vacina neste ano flertam com contradições o tempo inteiro: numa mesma live, ele pode questionar a eficácia e a segurança das vacinas num momento para, minutos depois, afirmar que por virtude sua o Brasil é um dos países que mais vacinam no mundo. Na live de 24 de dezembro, por exemplo, ele disse que a eficácia da Coronavac ―de tecnologia chinesa e fabricada ao Brasil pelo Instituto Butantan por iniciativa do Governo de São Paulo― seria “lá embaixo”.

Mesmo depois de fazer um discurso em cadeia de rádio e TV em março defendendo a imunização, Bolsonaro segue sabotando a campanha pela vacina com informações equivocadas, como a de quem já teve covid-19 não precisa se vacinar: “Todos que contraíram o vírus estão vacinados, até de forma mais eficaz que a própria vacina porque você pegou o vírus para valer. Então, quem contraiu o vírus, não se discute, esse está imunizado”, afirmou Bolsonaro em live em 17 de junho.

Antes da iniciativa desta semana do YouTube, outras dez lives já haviam sido retiradas do ar, especialmente quando afirmações feitas por Bolsonaro tiveram consequências jurídicas. É o caso do vídeo de 14 de janeiro, dia em que faltou oxigênio em Manaus ―mais de 30 pessoas morreram na capital amazonense em dois dias de falta de oxigênio. Ao lado do então ministro Eduardo Pazuello, foram feitas oito afirmações checadas pela Agência Lupa. O presidente louvou, mais uma vez, os medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença e o ex-ministro disse não saber se o distanciamento social funciona. Também desapareceu a live de 26 de março de 2020, logo no início da pandemia, quando ele dizia que a covid-19 não seria problema porque brasileiro mergulha no esgoto e não acontece nada.

Limitação de dados e transparência

Além dos vídeos retirados do ar, há uma limitação importante nos dados das lives, o que remete a mais uma questão de falta de transparência do Governo Bolsonaro. Se os discursos oficiais são transcritos rotineiramente pelo cerimonial da Presidência e publicados no site oficial do Planalto desde o Governo Fernando Henrique Cardoso, as transmissões em rede social, embora contem com infraestrutura oficial, são tidas iniciativa pessoal do presidente. Algumas chegaram a ter meio milhão de espectadores. De todo modo, como estão publicadas no YouTube, foi possível extrair a transcrição automática da maioria delas.

Para análise, essas transcrições foram mantidas como vieram, sem revisão. O algoritmo de reconhecimento de voz depende da clareza da dicção, o que não é uma marca constante das falas de Bolsonaro. Com isso, é possível que algumas menções a palavras de interesse possam ter ficado para trás porque o presidente gaguejou ou embaralhou sílabas. Palavras pouco comuns também podem ser transcritas com erro. É o caso do ministro Edson Fachin, do STF, cujo sobrenome a transcrição automática do YouTube compreende como “Faquinha”. Também não é possível automaticamente separar o que Bolsonaro diz do que seus convidados falam ―por isso, não foram analisadas palavras como “presidente”, que podem indicar uma saudação do interlocutor.

Outras transmissões ao vivo estão sem a legenda gerada pelo computador. Todas as lives de dezembro de 2020 estão nessa situação. Uma consulta ao noticiário sobre as lives do período mostra que foram nessas transmissões que Bolsonaro mais fez senões às vacinas contra a covid-19. O período coletado tampouco abrange as revelações que surgiram em julho na CPI da Pandemia sobre os negócios suspeitos que teriam sido endossados por autoridades do Ministério da Saúde para comprar vacinas tendo empresas improvisadas como atravessadoras.

“Parte da imprensa”

É nas lives, de longe, que Bolsonaro faz a maior parte dos seus ataques à imprensa. Menções genéricas às palavras “imprensa” e “mídia” se avolumam ao sabor das críticas recebidas pelo presidente, e tiveram seu ápice em junho de 2020. Foi naquele mês, logo após a entrada de Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, que o Governo tomou medidas para tentar ocultar dados de mortes causadas pela covid-19.

Desde meados de maio, a divulgação dos dados atrasava um pouco mais a cada dia, até que, questionado por jornalistas, Bolsonaro estourou: “Acabou matéria do Jornal Nacional”. Os dados eram propositalmente atrasados para que não fossem mostrados em horário nobre. Naquele dia, o Jornal Nacional entrou com boletim urgente na TV assim que os dados foram anunciados. Na semana seguinte, numa decisão que teve a participação do empresário Carlos Wizard, aliado de Bolsonaro e agora alvo da CPI da Pandemia, o Ministério da Saúde deixou temporariamente de publicar os dados diários sobre a covid-19 até que o Supremo Tribunal Federal ordenou que voltasse a publicá-los.

As menções à imprensa também se avolumam ao longo do primeiro semestre deste ano. As palavras Folha e Globo, nomes de duas das maiores empresas de comunicação do Brasil, foram mais citadas neste semestre do que em todo o segundo semestre de 2020. Em 2020, tem destaque o uso da expressão fake news por parte do presidente, tanto para defender a si e a aliados de processos por atos democráticos e desinformação quanto para acusar empresas de comunicação de mentir.

Em diagrama que mostra a estrutura do discurso, chamada de árvores de palavras, é possível ver estatisticamente a frequência com que outras palavras acompanham os termos de interesse na fala de Bolsonaro, em lives e em discursos. É mais fácil ele fazer referências à “grande mídia” e “parte da imprensa” em lives do que em situações formais, por exemplo.

MARCELO SOARES para o EL PAÍS, em 25 JUL 2021 - 18:44 BRT

Brasil supera os 550 mil mortos por covid-19

Marca é alcançada 37 dias depois de o país ter registrado 500 mil óbitos pela doença. Média móvel de novas mortes por dia está em 1.107, e total de infectados vai a 19,7 milhões.

Homem coloca cruzes na praia de Copacabana

O Brasil superou nesta segunda-feira (26/07) a marca das 550 mil mortes ligadas à covid-19. Foram mais 578 óbitos nas últimas 24 horas, elevando o total a 550.502, segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass).

O número foi alcançado 37 dias depois de o país ter registrado 500 mil mortes pela doença. Nesse período, a oposição realizou três protestos de rua em centenas de cidades do país contra as medidas adotadas pelo governo para lidar com a pandemia, e uma CPI no Senado revelou escândalos relacionados à compra de vacinas.

Também foram confirmados nesta segunda 18.999 novos casos da doença. Com isso, o total de infecções reportadas no país chega a 19.707.662.

Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que os números reais devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação.

A média móvel de novas mortes (soma dos óbitos nos últimos sete dias e a divisão do resultado por sete) ficou em 1.107, e a média móvel de novos casos, em 45.117.

Já a taxa de mortalidade por grupo de 100 mil habitantes subiu para 262 no Brasil, a 8ª mais alta do mundo, atrás apenas de alguns pequenos países europeus e do Peru.

Em números absolutos, o Brasil é o segundo país do mundo com mais mortes, depois dos Estados Unidos, que somam mais de 610 mil óbitos, mas têm população bem maior. É ainda o terceiro país com mais casos confirmados, após EUA (34,4 milhões) e Índia (31,4 milhões).

O Conass não divulga o número de recuperados. Segundo o Ministério da Saúde, 18.349.436 pacientes no Brasil haviam se recuperado da doença até a noite de domingo.

No entanto, o governo não especifica quantos desses recuperados ficaram com sequelas ou outros efeitos de longo prazo. A forma como o governo propagandeia o número de "recuperados" já foi criticada por cientistas, que classificam o número como enganador ao sugerir que os infectados estão completamente curados da doença após a fase aguda ou alta hospitalar.

Estudos no exterior estimaram que entre 10% e 38% dos infectados sofrem efeitos da "covid longa" meses após o vírus ter deixado o organismo. Um estudo alemão apontou que sequelas podem surgir até meses depois da fase aguda da doença. Já uma pesquisa da University College London em 56 países listou mais de 200 sintomas observados em pacientes com sequelas pós-covid.

Ao todo, mais de 194 milhões de pessoas contraíram oficialmente o coronavírus no mundo, e foram notificadas 4,16 milhões de mortes associadas à doença, segundo contagem da Universidade Johns Hopkins, dos EUA.

Deutsche Welle Brasil, em 26.07.2021