quarta-feira, 2 de junho de 2021

Pesquisa que rastreia redes sociais aponta que próxima onda da pandemia será mais grave no Brasil

Base de dados criada a partir de parceria entre o Facebook e a Universidade de Maryland compila informações de usuários e consegue antecipar o nível de contágio duas semanas antes da notificação oficial de novos casos

Pessoas com sintomas de covid-19 aguardam atendimento em um hospital de Ribeirão Preto. A cidade ampliou as medidas restritivas nesta semana.ANDRE PENNER / AP

As redes sociais já conseguem prever que a próxima onda da pandemia que se desenha no Brasil poderá ser ainda mais grave que as anteriores. Uma parceria entre o Facebook e a Universidade de Maryland dos Estados Unidos compila dados de usuários da rede social. Eles são sorteados para responder a uma pesquisa que inclui se eles têm sintomas semelhantes aos da covid-19 e desde quando os sentem. 

A Rede Análise Covid-19 estudou as informações referentes ao Brasil e, ao cruzá-las com os casos oficiais registrados pelo Ministério da Saúde, percebeu uma alta taxa de acerto, capaz de antecipar o cenário da crise sanitária em 15 dias antes do que mostrarão os boletins oficiais. A perspectiva para as próximas duas semanas, porém, não é boa. 

Os dados mostram a proximidade de uma nova onda potencialmente mais grave no país, que já havia estacionado em um patamar elevado, com uma média de quase 2.000 mortes diárias pelo coronavírus e hospitais ainda sob pressão. 

O desfecho do que virá dependerá das medidas restritivas ―hoje relaxadas em grande parte do país― e da possibilidade de espalhamento da variante indiana. O cenário preocupa especialistas, que alertam para a necessidade de políticas efetivas para frear o contágio.

A metodologia desenvolvida pela Universidade de Maryland, que usa o Facebook como ferramenta para atingir usuários, não é absoluta, mas serve como um termômetro para o que virá nos próximos dias. Embora não quantifique exatamente uma previsão de crescimento ―ou seja, quanto a curva poderá subir―, seus dados revertidos em gráficos demonstram neste momento uma curva de crescimento íngrime e, por isso, preocupante. 

“Percebi um aumento de relato de sintomas muito forte, que é uma previsão do que pode acontecer. Já é possível ver uma subida grande no gráfico”, explica o especialista Isaac Schrarstzhaupt, coordenador na Rede Análise Covid-19. Os sintomas considerados na metodologia são febre, tosse e falta de ar. 

A ferramenta é mais uma forma de tentar vislumbrar o futuro próximo da pandemia antes mesmo das notificações de diagnósticos, que costumam demorar cerca de duas semanas para aparecer nos dados oficiais pelas burocracias e tempo de processamento dos testes. Até agora, a curva desenhada nesta base de dados coincide com a curva de novos casos dos boletins oficiais.

No gráfico, a Rede Análise de covid-19 adianta em 15 dias os dados de sintomas reportados (linhas) e os sobrepõe aos casos registrados pelo Ministério da Saúde (barras azuis). A curva final das linhas dão a previsão do que deve vir nas próximas semanas.REDE ANALISE COVID-19 / REPRODUÇÃO

“Se os dados [de covid-19] seguirem o caminho das outras ondas, nos próximos 15 dias teremos uma subida forte. Faço ressalvas porque esta é uma pesquisa, com dados adjacentes”, diz Schrarstzhaupt. Feita a ponderação, o que se vislumbra na análise de dados por Estado é a tendência de uma nova onda de infecções em todo o país. “Está tudo muito ruim e não vejo uma região com um cenário mais grave. O aumento de pessoas reportando sintomas é constante em praticamente todo o país”, explica. A chegada do inverno historicamente já traz o aumento sazonal de doenças respiratórias, mas uma nova aceleração da pandemia guarda outras preocupações. 

Primeiro, os sistemas de saúde não desafogaram o suficiente para conseguir responder a uma nova subida exponencial e já estão pressionados em várias partes do país. As medidas restritivas já foram bastante relaxadas ―o presidente Jair Bolsonaro inclusive acionou o Supremo Tribunal Federal para tentar reduzi ainda mais em alguns Estados― e a circulação de pessoas beira a normalidade. A equação ainda inclui a chegada da nova variante indiana, que pode acelerar ainda mais o crescimento, a depender do seu comportamento com a brasileira P1. Ambas são mais transmissíveis. “O Brasil parece que desistiu de se proteger e ficar recluso”, lamenta Schrarstzhaupt.

Vários Estados com sistemas de saúde pressionados

A curva de aumento no relato de sintomas no país corrobora com a sobrecarga hospitalar já visível em alguns Estados. Há filas de pacientes com covid-19 à espera de um leito de UTI em vários locais, como em regiões do Ceará, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, entre outros. São Paulo, o Estado mais populoso do país, já supera 80% de leitos ocupados e vê a fila por leito crescer no interior. A Secretaria da Saúde de Curitiba afirmou nesta semana ter chegado ao limite da expansão, e a cidade ampliou as restrições. As UTIs lá estão com mais de 100% de ocupação. 

Neste contexto, o saldo deixado pelas ondas anteriores não ajudam. “Na subida anterior, que ocorreu entre fevereiro e março, a gente não conseguiu deixar os hospitais realmente aliviarem”, lembra o pesquisador. Vários Estados retomaram a abertura de atividades mesmo com níveis de ocupação altos e agora começam a frear o ritmo de abertura, com várias cidades até aumentando as restrições.

“A doença pode subir de forma exponencial, mas a alta hospitalar não. As pessoas têm o tempo delas para se recuperar. Como estamos com hospitais muito cheios, mesmo que tivéssemos um aumento que não fosse ultraforte, já seria problemático”, argumenta Schrarstzhaupt. O último boletim do grupo Infogripe da Fiocruz ―que analisa os casos de síndrome aguda respiratória grave no país― aponta que após uma abertura precoce, o cenário é de retomada de alta nas internações em todo o país e vislumbra um agravamento para as próximas semanas.

O aumento dos indicadores da crise sanitária ocorre em cadeia: aumenta-se o relato de sintomas, as internações, os novos casos e, por fim, os óbitos. Com hospitais já saturados, a letalidade também tende a crescer. Isso porque se acumulam filas por terapia intensiva, enfermarias são adaptadas em UTIs, e isso gera uma assistência diferente da que se espera. 

“Eu diria que a nova onda deve ser mais letal porque os hospitais já estão esgotados. Quanto mais demorarmos a agir, mais isso repercutirá nos óbitos. O tamanho da nova onda depende muito das ações que vamos tomar”, explica o pesquisador. 

Fechamentos do comércio e aumento das restrições, defende, seriam fundamentais para amortecer a nova alta que ele já vê como inevitável. “Tem que cortar a cadeia o quanto antes.”

Soma-se a essas questões a chegada da nova cepa indiana, potencialmente mais transmissível e com risco de acelerar o agravamento da crise já em curso no Brasil. As análises com dados da Universidade de Maryland, que já apontam para um aumento exponencial de casos, não a consideram na equação. “Se ela competir com a nossa P1, vai poder acelerar isso”, alerta Schrarstzhaupt. Ele não projeta números absolutos, mas pondera que a covid-19 não tem um teto previsível. “Onde se deixa a doença tomar conta, há números gigantes. Na atual situação do Brasil, um aumento leve já é perigoso”, aponta.

Ministério admite terceira onda

Nesta semana, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, admitiu a possibilidade de o Brasil enfrentar uma nova onda da pandemia, mas creditou a ela uma nova variante. Ele não citou especificamente a cepa indiana, já identificada em ao menos oito pessoas no país. “Estávamos com medidas de bloqueio, mas quando houve mais disponibilidade de leitos, se flexibilizou. E pode haver tendência de aumento de casos, que vai se refletir em nova pressão sobre sistema de saúde. 

Mas também pode ser fruto de uma variante. Nós não temos essa resposta ainda”, afirmou durante uma audiência na Câmara Federal. Ele admite que pode ser necessário adotar medidas mais restritivas e diz que o Ministério da Saúde está vigilante para orientar prefeitos e governadores, mas não sinaliza ações efetivas. Enquanto isso, Bolsonaro segue atacando o isolamento social.

O Brasil parou de ver cair a média diária de mortes pelo coronavírus, estacionada em um patamar que beira 2.000 óbitos. O ritmo de vacinação segue lento ― caiu 17% em maio, em comparação com o mês de abril, segundo a plataforma Info Tracker, mantidas pela Unesp e pela USP. As hospitalizações voltaram a crescer e há especialistas que afirmam que a terceira onda está vindo até antes do previsto. Nesta sexta, o país contabilizou 2.371 novas mortes, chegando a 459.045 vítimas fatais na pandemia. 

“Essa terceira onda está vindo antes do esperado, pelo menos na minha percepção. Eu achei que ela começaria com um pouco mais de força no final de junho, começo de julho, ela está vindo com um mês de antecedência”, afirmou o epidemiologista Pedro Hallal, em entrevista à Globo News.

BEATRIZ JUCÁ, de São Paulo para o EL PAÍS, em 28 MAI 2021, às 19:24 hs

Desfazer a caricatura dos evangélicos

Bolsonaristas ou lulistas? É importante entender que o discurso dos líderes religiosos não é o mesmo da maior parte dos fiéis, principalmente os mais jovens

Jair Bolsonaro conversa com fiéis após um passeio de motocicleta no Rio de Janeiro, em maio de 2021.ANTONIO LACERDA / EFE

As pesquisas eleitorais dos principais institutos do país, divulgadas no mês de maio, trouxeram apreensão ao palácio do planalto. Nelas, o ex-presidente Lula apareceu isolado em primeiro lugar nas intenções de voto do primeiro turno, enquanto, no segundo, apareceu com larga vantagem à frente do presidente Jair Bolsonaro. 

O conjunto dos dados, olhados por qualquer prisma, é péssimo para o Governo. Aqui, gostaria de chamar atenção para um dos seus aspectos: a intenção de voto dos evangélicos. Tomarei como base os últimos dados divulgados que isolaram esse grupo religioso, fornecidos pela pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada dia 12 de maio. 

Segundo os dados apresentados, 35% desse segmento religioso optam pelo candidato petista já no primeiro turno, contra 34% que preferem Bolsonaro. Em um eventual segundo turno entre os dois, ambos ficam com 45% das intenções de voto. Quando olhamos para os dados de rejeição, a situação é levemente favorável ao petista: 45% do grupo diz que não votaria de jeito algum no atual mandatário, contra 42% em Lula.

Esses números, se confirmados por outras pesquisas, representam uma virada no quadro político dessa fatia importante do eleitorado que, desde 2016, tem optado por candidatos anti-petistas. Tal mudança, no entanto, não deveria surpreender, ainda mais considerando o histórico do posicionamento político dos evangélicos e a situação econômica e social do país em 2021.

Quando olhamos mais atentamente para esse grupo, vemos que apesar dos posicionamentos recentes de aliança e apoio a este Governo e de uma postura majoritariamente conservadora ao longo das últimas décadas, os evangélicos correspondem a um conjunto multifacetado, complexo e plural, que ao longo do tempo viu líderes e instituições oscilarem no posicionamento político. Muitos dos que agora estão com Bolsonaro já foram, inclusive, aliados de governos petistas.

A inclinação política da maior parte dos líderes desse segmento em direção a candidatos de direita e extrema-direita se deu só no final da última década, tendo como pano de fundo a crise econômica pós 2015. Esse posicionamento é perfeitamente explicável a partir da constatação de que os evangélicos correspondem ao grupo religioso com maior contingente de famílias em situação de baixa renda e vulnerabilidade social. 

Parte importante desse segmento abandonou o barco dos governos petistas com a piora da situação econômica. Agora, em um momento de perda do poder de compra, alto desemprego e ausência de perspectivas – situação cada vez mais evidentemente ligada às más escolhas do atual governo –, punem também Bolsonaro.

As chamadas pautas morais, ligadas principalmente às questões de gênero e sexualidade, têm sim sua importância para os evangélicos, mas é importante desfazer caricaturas e entender que o discurso dos líderes religiosos não é o mesmo da maior parte dos fiéis, principalmente os mais jovens. 

Além disso, tais discursos radicalizados, amplificados e distorcidos por fake news para alvejar a esquerda, só ganharam o eco que tiveram em um contexto de insatisfação já existente contra os governos petistas devido à situação econômica. Por fim, ainda que consideremos a persistência dessas pautas moralizantes entre candidatos evangélicos, é preciso ter em mente que elas tendem a gerar um retorno eleitoral mais contundente em candidatos ao legislativo do que ao executivo.

Em outras palavras, os fiéis votam no nome indicado pela igreja no legislativo, mas no executivo, a escolha envolve um conjunto mais complexo de variáveis, em que ganha destaque a situação econômica. É isso que minhas pesquisas de mestrado doutorado em Ciência Política na Universidade de São Paulo, realizadas entre 2011 e 2018, sinalizaram.

A situação econômica do próximo período, bem como os próximos capítulos da CPI da Pandemia, que devem evidenciar a responsabilidade do atual governo para o prolongamento da pandemia e a multiplicação das mortes, deverão sedimentar esse novo quadro. Resta saber o que farão os líderes e políticos da bancada evangélica, hoje abraçados com Bolsonaro. A julgar pelo histórico, podem também facilmente mudar de lado.

VINICIUS DO VALLE, de São Paulo para o EL PAÍS, em 30 de maio de 2021. / Vinicius do Valle é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e autor de “Entre a religião e o lulismo” (Ed. Recriar).

Investigado, Pazuello ganha cargo de "estrategista" no governo Bolsonaro

Ex-ministro da Saúde criticado por gestão marcada por explosão de mortes e por não garantir vacinas suficientes vai assumir cargo de "secretário de estudos estratégicos" dentro do Palácio do Planalto.

Pazuello atuará na Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, que comandou a pasta de maio de 2020 a março de 2021 e é um dos principais alvos da CPI da Pandemia, foi nomeado nesta terça-feira (1º/07) para um cargo dentro da Presidência da República.

General da ativa do Exército, ele exercerá o cargo de secretário de estudos estratégicos da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos, que fica no Palácio do Planalto e é comandada por Flávio Rocha, almirante da Marinha.

A portaria de sua nomeação foi assinada pelo ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, general da reserva, e publicada em edição extra do Diário Oficial da União.

Pazuello terá um cargo DAS 6, a hierarquia mais alta possível para cargos de confiança, com um salário de R$ 16.994,90 que se somará ao seus vencimentos do Exército, sujeito ao teto constitucional de R$ 39,2 mil.

O cargo permite que Pazuello esteja próximo de Bolsonaro, mas não garante ao ex-ministro foro privilegiado – ele pode vir a responder a inquéritos e eventuais ações penais na primeira instância da Justiça.

Atualmente, além de alvo da CPI, que já o convocou para um segundo depoimento e pode solicitar o seu indiciamento, Pazuello é investigado pela Polícia Federal por conta de suas decisões quando estava à frente do Ministério da Saúde, em especial o caso da falta de oxigênio em hospitais de Manaus.

Em 23 de maio, Pazuello participou de um ato político no Rio de Janeiro ao lado do presidente, apesar de o regulamento disciplinar vedar participação de militares nesse tipo de evento. Pela participação no ato, o general está respondendo a um procedimento administrativo no Exército, que deve ser decidido em breve.

Pazuello comandou o ministério da Saúde entre maio de 2020 e março deste ano, e sua gestão foi alvo de críticas. Quando o general assumiu a pasta, o Brasil acumulava 233 mil casos e 15.633 mortes associadas à covid-19. Quando o substituto do general na pasta foi anunciado, o número de casos passava de 11,5 milhões, e o de mortes se aproximava de 280 mil, com o país ocupando o segundo lugar entre as nações com mais óbitos na pandemia. Pazuello também deixou o cargo sem garantir vacinas suficientes para a população.

Deutsche Welle Brasil, em 01.06.2021

Do medo da covid-19 à desolação: enfermeiros enfrentam danos psicológicos do trabalho na pandemia

"Os enfermeiros já enfrentavam, antes da pandemia, problemas de saúde mental relacionados a longas jornadas de trabalho, como estresse, esgotamento e havia até relatos de pensamentos suicidas. 

A gente sabia que a situação pioraria com a pandemia, mas não pensávamos que pioraria tanto", diz Dóris, como a enfermeira é conhecida, à BC News Brasil.

Duramente afetados pela rotina da pandemia, profissionais de enfermagem têm relatado diversas dificuldades a voluntários de projeto focado em saúde mental. (Crédito: Getty Images).

Logo no início da pandemia de covid-19, a enfermeira Dorisdaia Humerez, de 62 anos, propôs que o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) criasse uma iniciativa para cuidar da saúde mental dos profissionais que estão na linha de frente do combate ao novo coronavírus.


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Coordenadora da Comissão Nacional de Saúde Mental do Cofen, ela recebeu apoio do conselho para criar o projeto "Enfermagem Solidária". De forma gratuita, 24 horas por dia, a iniciativa fez cerca de 8 mil atendimentos virtuais de trabalhadores de todo o país no ano passado, segundo Dóris.

Depressão, ansiedade e pensamentos suicidas foram alguns dos temas que os cerca de 150 voluntários leram em relatos dos profissionais de saúde.

Entre os casos que acompanhou, Dóris destaca um que a deixou muito comovida: uma enfermeira que se sentia culpada após a mãe morrer em decorrência do novo coronavírus. "Ela acreditava que tinha sido a responsável por infectar a mãe. Foi uma das situações mais difíceis", relata.

O "Enfermagem Solidária" ajudou até mesmo a idealizadora do projeto. Em novembro passado, o marido de Dóris morreu em decorrência da covid-19.

"Percebo que o "Enfermagem Solidária" até me ajuda a compreender melhor a perda que eu tive", diz.

Os enfermeiros na linha de frente

Desde o começo da pandemia, os profissionais de saúde que estão na linha de frente contra a covid-19 enfrentam situações extremas de esgotamento físico e mental, que se tornaram mais agudas nos picos da pandemia, como hospitais sobrecarregados, falta de equipamentos de segurança e ausência de medicamentos para intubar pacientes.

Esses trabalhadores também vivem com o medo de serem vítimas do novo coronavírus e lidam com a saudade de colegas que morreram em decorrência da covid-19.


Em março do ano passado, Dóris deu início ao "Enfermagem Solidária" para ajudar aqueles que estão na linha de frente da pandemia. (Crédito: Arquivo Pessoal)

Em todo o Brasil foram registrados, desde o começo da pandemia, 56,1 mil casos de infecções pelo novo coronavírus entre profissionais de enfermagem e 784 mortes, segundo dados atuais do Observatório de Enfermagem, do Cofen.

Doutora em saúde mental e professora aposentada da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Dóris afirma que desde o princípio da pandemia não havia dúvidas da necessidade de uma iniciativa para apoiar os profissionais de enfermagem. Após autorização do Cofen, ela procurou outros enfermeiros que também são especialistas em saúde mental. Em poucos dias, o projeto recebeu diversos voluntários.

O "Enfermagem Solidária" entrou em funcionamento a partir do fim de março de 2020. Meses depois, passou a atender também alguns trabalhadores da área da radiologia.

A responsável pela iniciativa ressalta que o projeto não tem o objetivo de substituir sessões de terapia ou acompanhamento psiquiátrico.

"O que fazemos é uma escuta empática, para acolher esses trabalhadores. O objetivo é que esses profissionais desabafem. Se necessário, criamos uma rotina com aquela pessoa, pedimos para ela voltar em outro momento também para conversar", explica Dóris.

"Alguns psicólogos ligaram para tentar ajudar no projeto, mas o meu objetivo era reunir voluntários que fossem da enfermagem e com especialização em saúde mental. Era um sentimento de que outros enfermeiros poderiam dar um apoio melhor aos colegas de profissão no atual momento, porque conhecem a rotina de trabalho", acrescenta.


Em novembro, o médico Oswaldo Humerez, marido de Dóris, morreu em decorrência da covid-19

Os relatos ao longo da pandemia

O projeto funciona por meio de um chat no site do Cofen. Ali, profissionais de enfermagem desabafam com os voluntários por meio de textos. "Acredito que quando eles escrevem o que sentem, também refletem sobre aquilo", afirma Dóris.

Ela comenta que os desabafos dos profissionais de saúde mudaram ao longo dos meses de pandemia. No início, segundo Dóris, a maior parte dos relatos eram referentes ao medo intenso de contrair o novo coronavírus e infectar a família.

"Era uma situação quase geral. Os profissionais se queixavam que não havia equipamento de proteção adequado ou, quando havia, não recebiam treinamento para usá-los. Era uma situação na qual ainda estavam se ajustando, pois era começo da pandemia", relata.

Meses depois, segundo a enfermeira, o medo da contaminação pelo vírus desapareceu. "A impressão foi de que todos já haviam aceitado que estavam contaminados ou seriam contaminados em algum momento. Muitos profissionais passaram a mudar de casa para proteger a família. Alguns alugaram casa com colegas de profissão para não colocar os parentes em risco", diz Doris.

"Com o passar do tempo, essa distância da família causou uma sensação de desamparo, porque estavam distantes dos entes queridos. Alguns diziam que passavam na rua abanando a mão para o filho ou para a mãe. Foi um período sofrido e de desamparo, porque eles precisavam da família naquele momento", comenta a enfermeira.

Outra situação que se tornou frequente entre os relatos foi sobre o estigma que passou a ser associado aos profissionais que trabalham em hospitais.

"Em determinado momento, começaram a aplaudir os profissionais de saúde. Mas ao mesmo tempo, esses trabalhadores foram estigmatizados. Houve situações de enfermeiros hostilizados no transporte público ou até nos condomínios em que moravam. Parecia que a sociedade queria os profissionais de saúde cuidando, mas não queriam eles por perto. Queriam que eles morassem no hospital e ficassem por lá", diz Dóris.

Quando os casos começaram a reduzir no país, por volta do fim do ano passado, o "Enfermagem Solidária" ficou desativado por cerca de 20 dias. Porém, o projeto logo voltou a funcionar, no período em que a situação no Amazonas voltou a ficar crítica.

"Quando chegou essa segunda onda no Amazonas, começamos a atender o caos. Nesse período, percebemos que os enfermeiros começaram a se perguntar: o que estamos fazendo aqui? Para que estamos aqui? Isso não vai acabar? Havia muitos óbitos e muitos diziam que não queriam mais trabalhar em UTIs", relata.

No início deste ano, segundo Dóris, o cansaço extremo e os temores relacionados à pandemia aumentaram entre os profissionais do país, em razão da explosão de casos de covid-19.

Desencanto com a profissão na pandemia é um dos relatos mais comuns entre os profissionais de enfermagem. (Crédito: Getty Images).

"Eles viram quantidades de óbitos que nunca haviam visto. Antes, eles eram como salvadores, pois conseguiam salvar muitas vidas. Eles estudaram e se especializaram para isso. 

Mas nos primeiros meses deste ano se desencantaram com tantos óbitos. Eles pensavam: isso não vai ter fim, o que estou fazendo aqui?", relata Dóris.

Após enfrentar explosão de mortes pela covid-19 no primeiro quadrimestre do ano, o Brasil registrou queda nos números de óbitos. Nos últimos dias, porém, os números voltaram a subir em algumas regiões do país.

No mês passado, os óbitos pelo novo coronavírus entre os enfermeiros caíram em 71% em comparação ao mês anterior. Enquanto em março foram 83 mortes pela covid-19 na categoria em todo o país, em abril foram 24. Os dados são do Cofen, que aponta que fatores como a vacinação — profissionais da saúde são prioritários — e melhor conhecimento sobre os protocolos para combater o novo coronavírus foram fundamentais para reduzir as mortes desses trabalhadores.

Apesar do cenário atual mais ameno, em comparação aos primeiros meses deste ano, Dóris afirma que o desencanto com a profissão ainda é frequente entre os trabalhadores da saúde. "É o que estamos sentindo nos relatos atualmente", diz. Esse sentimento, aponta a enfermeira, ocorre por tudo o que ocorreu nos últimos meses e pelo temor de uma nova explosão de covid-19 no país.

No período recente, o "Enfermagem Solidária" faz uma média de 80 atendimentos diários.

Do início do projeto até hoje, muitos daqueles que buscam ajuda são trabalhadores que sofrem de depressão, transtorno do pânico ou ansiedade generalizada. "Alguns já haviam sido diagnosticados por psiquiatras", relata Dóris. Muitos desses transtornos foram agravados durante a pandemia. "A depressão com vontade de desistir de tudo é a situação mais frequente", afirma a enfermeira.

'Ela dizia que foi a responsável por infectar a mãe'

Um dos casos mais marcantes para Dóris no "Enfermagem Solidária" ocorreu em maio de 2020. Na época, uma enfermeira que havia perdido a mãe para a covid-19 buscou ajuda.

"Ela dizia que estava chorando muito porque havia sido a responsável por infectar a mãe. Foi um caso muito difícil, tentei explicar para ela que qualquer um poderia contaminar o outro durante a pandemia", relata Dóris.

No relato, de maio do ano passado, a enfermeira contou que a mãe era muito cuidadosa em relação à prevenção contra a covid-19. "Essa moça dizia que não tinha dúvidas de que a mãe tinha morrido por causa dela. Era uma culpa tão grande essa moça tinha até ideação suicida. Era muito doído, porque ela acreditava que precisava pagar por ter contaminado a mãe", relembra Dóris.


Em todo o país, mais de 770 profissionais de enfermagem morreram em decorrência da covid-19 desde março do ano passado. (Crédito: Getty Images)

"Ela falava que a mãe era saudável e feliz. Cada vez mais, ela se culpava pela morte da mãe. Foi uma história muito triste", diz a enfermeira.

Dóris conversou com a moça por diversas vezes ao longo dos meses. "Consegui fazer com que ela se sentisse melhor. De vez em quando, ela ainda me escreve e diz que está um pouco melhor. É muito importante termos esse retorno positivo, que recebemos em muitos casos", comenta.

A perda do marido

Enquanto liderava o projeto, Dóris sofreu uma perda que a afetou duramente. O marido dela, o médico Oswaldo Humerez, de 70 anos, morreu em decorrência da covid-19 em novembro passado.

Ele trabalhava em uma unidade de saúde do Guarujá, em São Paulo — cidade em que o casal morava. Emocionada, a viúva relata a situação na qual o companheiro acredita ter contraído o novo coronavírus. "Ele estava saindo da unidade de saúde quando viu que um médico mais novo estava intubando um paciente. Ele quis ajudar e recebeu uma carga viral enorme, porque não estava com todos os equipamentos de proteção, apenas com a máscara. Quando ele chegou em casa, me disse; se eu peguei o coronavírus, foi hoje."

O marido dela apresentou os primeiros sintomas da doença. Logo a situação se agravou e Oswaldo precisou ser internado. Ele ficou cinco dias intubado, mas não resistiu às complicações do novo coronavírus.

"Foi tudo muito rápido e inesperado. Ele não tinha comorbidades, era esportista, jogava tênis e até dava uma surfadinha. Ele era muito vivo", lamenta Dóris, que também contraiu o novo coronavírus e teve sintomas leves.

"Pelo menos depois me informaram que o paciente que ele intubou conseguiu se salvar. Ao menos uma coisa boa", acrescenta.

Dóris e Oswaldo foram casados por 40 anos. Eles tiveram uma filha. Logo após a perda do marido, a profissional de saúde relata que ficou deprimida e com medo em relação ao projeto "Enfermagem Solidária".

"Não sabia se daria conta de ajudar aqueles vários voluntários que acreditavam em mim e no meu projeto. Mas o fato de achar que eles precisavam de mim fez com que eu criasse coragem para voltar", relata.

Quando retornou ao "Enfermagem Solidária", recebeu apoio intenso dos outros voluntários. "Todo mundo me deu força e isso me ajudou", diz Dóris.

Ela confessa que os atendimentos mais difíceis atualmente são os de profissionais de saúde que perderam parentes para a covid-19. "Tenho que ficar firme quando atendo casos que são semelhantes ao meu, senão eu choro também. Apesar de difícil, eu tento ajudar aquela pessoa que também está passando por isso, porque sei como é uma situação muito pesada", diz Dóris.

"Tenho a impressão de que está sendo um período difícil para todo mundo, para mim também", acrescenta.

Enquanto a pandemia segue sem prazo para acabar, o "Enfermagem Solidária" continua em funcionamento. No primeiro quadrimestre deste ano foram, ao menos, 3,5 mil atendimentos.

"Depois que a pandemia for controlada, vamos pensar em um novo modelo de projeto para acompanhar a saúde mental dos profissionais de enfermagem", afirma Dóris.

Vinícius Lemos - @oviniciuslemos, de São Paulo para a BBC News Brasil, em 02.06.2021.

Afinal, Brasil vacina pouco ou muito? Confira 5 dados do ranking global

Como as quase 500 mil mortes são atualmente incontornáveis, as críticas ao governo de Jair Bolsonaro e os contrapontos têm se concentrado no desempenho brasileiro na vacinação.

Imagem reproduz uma pessoa que trabalha na área da saúde aplicando uma vacina em um símbolo de interrogação. (CRÉDITO,GETTY IMAGES)

Praticamente todos os dados que tratam da situação do Brasil na pandemia de coronavírus são questionados, comparados, recortados ou distorcidos desde que a doença chegou oficialmente ao país, em fevereiro de 2020.

Afinal, o Brasil vacina pouco ou muito?

Se a comparação considerar apenas o número total de doses que cada país aplicou, o Brasil aparece em quarto lugar no ranking global de dados oficiais compilados pela Universidade de Oxford, no Reino Unido. Um patamar esperado para o sexto país mais populoso do mundo, com 212 milhões de habitantes.

Mas quando a comparação do total de doses aplicadas leva em conta o tamanho da população de cada país, o Brasil aparece em 78º entre 190 nações e territórios.

A comparação pode ser feita também com o próprio Brasil. O Ministério da Saúde afirma que o país tem capacidade instalada de vacinar 2,4 milhões por dia. E já chegou a vacinar 18 milhões de crianças em campanha contra a poliomielite. Mas desde 17 de janeiro de 2021, o Brasil só superou dez vezes a marca de 1 milhão de vacinados em 24h.

Até o momento, 840 milhões de pessoas receberam pelo menos uma dose contra a covid-19 ao redor do mundo, equivalente a cerca de 11% da população.

Que porcentagem da população recebeu pelo menos uma dose? Brasil em 72º lugar

Até o dia 02/05, o Brasil havia aplicado pelo menos uma dose em 21% da população brasileira. Isso coloca o país em 72º lugar no ranking de 190 nações e territórios.

Na América, o Brasil figura em 15º lugar. O país mais bem posicionado do continente é o Chile, que aplicou pelo menos uma dose em 55% da população. E mesmo com o avanço expressivo da vacinação por lá, o país sul-americano também tem enfrentado desafios graves no sistema de saúde, o que indica que a contenção da pandemia precisa ser associada a medidas eficazes de distanciamento social e uso universal de máscaras capazes de evitar a infecção.

Parcela da população vacinada contra covid ao longo do tempo. Taxa de pessoas que receberam pelo menos uma dose da vacina, em %.  .

Que porcentagem da população recebeu duas doses? Brasil em 74º lugar

Com exceção da vacina da farmacêutica Janssen, todos os imunizantes precisam de duas doses para atingir a máxima eficácia contra o coronavírus. Em geral, uma pessoa pode ser considerada completamente imunizada duas semanas depois de receber a segunda dose.

Alguns países decidiram ampliar o período entre as duas doses, a fim de garantir logo a imunização parcial de uma fatia maior de sua população, como o Reino Unido.

No ranking da proporção da população que recebeu duas doses, o Brasil (10,4%) aparece em 74º no mundo e 18º na América.

Qual é a velocidade do programação de vacinação? Brasil em 89º lugar

No quesito velocidade de doses aplicadas diariamente por cada 1 milhão de habitantes, o Brasil (3.561) aparece em 89º no mundo e 13º na América. O ritmo tem caído: em meados de maio o Brasil aplicava 4.207 doses por cada 1 milhão de habitantes.

Desde fevereiro, o Brasil leva de 12 a 14 dias para aplicar 10 milhões de doses contra a covid-19.

Como dito acima, o Brasil tem uma enorme capacidade instalada por trás de um programação nacional de vacinação reconhecido mundialmente, mas a falta de vacinas impede o país de atingir os níveis de imunização de outras décadas. Na pandemia de H1N1, por exemplo, o Brasil imunizou quase 80 milhões de pessoas em três meses.

Na pandemia atual, o governo federal distribuiu de 17/01 a 02/06 quase 97 milhões de doses para Estados e municípios, mas apenas 68,2 milhões tinham sido aplicadas, segundo dados do Ministério da Saúde.

Média de vacinas contra covid-19 aplicadas diariamente no Brasil. Brasil atingiu 1 milhão de doses aplicadas num dia em 10 dos 135 dias de vacinação .  .

A diferença entre o número de doses distribuídas e aplicadas no Brasil se explica em parte à necessidade de reservar uma quantidade como segunda dose, e uma eventual escassez poderia afetar a imunidade dos vacinados. A eficácia contra a covid só é garantida semanas depois da aplicação da segunda dose.

Um estudo recente da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) apontou que que Brasil precisa vacinar 2 milhões por dia para controlar pandemia em até um ano. E atualmente o país mal tem conseguido passar de 1 milhão por dia. Isso ocorreu em 10 dos 135 dias do programa de vacinação.

Quantas doses foram compradas ao todo? Brasil em 6º lugar

A aceleração das aplicações na pandemia esbarra em um problema mundial: a falta de vacinas.

No caso brasileiro, isso se agravou porque o governo Bolsonaro recusou sucessivas ofertas da Pfizer, apostou todas as fichas na vacina AstraZeneca-Oxford, ameaçou boicotar a Coronavac por disputas políticas com o governo de São Paulo e só decidiu comprar outras vacinas quando a fila de países compradores já "dobrava a esquina".

No papel, o cronograma atual do Ministério da Saúde prevê 563 milhões de doses, e a entrega de 154 milhões delas no primeiro semestre de 2021, considerando apenas vacinas aprovadas pela Anvisa: Coronavac, AstraZeneca-Oxford e Pfizer.

Isso seria suficiente para imunizar o grupo prioritário inteiro, mas não significa que todas essas 78 milhões de pessoas estariam vacinadas antes de julho — o Brasil tem conseguido aplicar cerca de metade das doses disponíveis e há um intervalo de semanas entre a primeira e a segunda dose.

Cronograma previsto de entregas mensais de vacina contra covid-19. Em março, governo Bolsonaro mudou cinco vezes previsão de doses abaixo, em milhões.  .

Mas os constantes atrasos em importações de insumos e vacinas, além de problemas na produção em território nacional e a não aprovação de outros imunizantes por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) fazem com que esse cronograma seja cada vez mais difícil de ser atingido.

Levantamento da Universidade de Duke aponta que o Brasil é o sexto maior comprador de vacinas no mundo, com 370 milhões de doses compradas (e outras 208 milhões com opção de compra negociada).

Ele fica atrás da União Europeia (1,8 bilhão), dos EUA (1,2 bilhão), do consórcio Covax (coordenado pela Organização Mundial da Saúde para beneficiar países mais pobres com 1,1 bilhão de doses), da União Africana (670 milhões) e do Reino Unido (457 milhões).

Quantas doses foram aplicadas ao todo? Brasil em 4º lugar

O dado do total de doses aplicadas no Brasil é o principal argumento utilizado para exaltar o avanço do programa de vacinação brasileiro.

Nesse quesito, o Brasil aparece em 4º lugar no ranking global, com 67 milhões de aplicações até o dia 02/06. Fica atrás de China (661 milhões), EUA (294 milhões), e Índia (210 milhões).

Matheus Magenta, de Londres para a  BBC News Brasil, em 02.06.2021.

terça-feira, 1 de junho de 2021

Amartya Sen: “A desigualdade corrói as vantagens das democracias”

Economista indiano, ganhador do Prêmio Princesa de Astúrias de Ciências Sociais em 2021, prevê uma crise de qualificação profissional entre os desempregados deixados pela pandemia

Amartya Sen, professor de economia e filosofia de Harvard, Nobel de Economia e ganhador do Prêmio Princesa de Astúrias, em uma foto de 2015.GRETCHEN ERTL / AP

Amartya Sen foi agraciado na terça-feira passada com o Prêmio Princesa de Astúrias de Ciências Sociais de 2021. Poucas horas depois, da sua casa em Cambridge (Estados Unidos), sede da Universidade Harvard, o economista (Santiniketan, Índia, 87 anos) atendia ao EL PAÍS cheio de gratidão pelo júri e destacando seus vínculos com a cultura espanhola. Entre constantes telefonemas de felicitação, ele conversou sobre duas de suas grandes preocupações: o recrudescimento da pobreza por causa da pandemia e a situação política e social do seu país natal, a Índia.

Seus estudos há décadas influenciam as políticas de combate à desigualdade extrema desenhadas por diversas organizações internacionais. Entretanto, após anos de avanços, a pandemia do coronavírus causou um sério retrocesso nessa tarefa. Em um recente relatório, a ONU alertou que a pior recessão em 90 anos levou à perda de 114 milhões de postos de trabalho e empurrou 120 milhões de pessoas para a pobreza extrema.

“Esta crise foi uma péssima notícia na luta contra a pobreza. Não só pela perda de renda que gerou para muitos trabalhadores, mas também porque muitos dos que ficaram sem trabalho perderão as habilidades que tinham adquirido anteriormente. Quanto mais você se isola, menos eficiente tende a ser”, responde do outro lado do telefone.

O economista e filósofo repete várias vezes que o maior golpe do coronavírus é a perda de vidas humanas. “Se você não estiver vivo, tanto faz se antes era rico ou pobre. A grande tragédia é a morte”, reflete.

Amartya Sen não é muito pessimista sobre a saída da crise. Considera que não será preciso esperar muitos anos para recuperar o nível de riqueza anterior à chegada do vírus que deixou o mundo de pernas para o ar. “A riqueza perdida poderia ser recuperada mais ou menos rapidamente, mas isso não devolverá a tragédia de que tanta gente tenha morrido”, acrescenta.

O novo ganhador do Princesa de Astúrias se mostra cético sobre a ideia de que as políticas de recuperação oferecidas pelo presidente dos EUA, Joe Biden, possam alterar o paradigma econômico que nasceu na década de 1980 com a revolução conservadora de Thatcher e Reagan: “Não acredito. Não acredito que estejamos pensando de uma nova forma”, diz.

Sen emergiu nos últimos anos como um dos grandes flagelos do Governo nacionalista indiano encabeçado pelo primeiro-ministro Narendra Modi. Agora, com a trágica situação no país por causa da expansão da epidemia, o também ganhador do Nobel de Economia acredita que muitos dos males das políticas impulsionadas pelo partido nacionalista BJP, de Modi, estão vindo à tona. “A resposta do Governo à covid foi péssima. Não foi claro em suas políticas. E teve uma atuação muito lamentável, sobretudo para os pobres, os que mais estão sofrendo a pandemia”, salienta.

Mas as críticas a Modi vão além da gestão dos últimos meses. “Esta má reação ocorreu também em outras decisões políticas, como as políticas econômicas, a falta de atenção à educação e à saúde. A situação na Índia é muito desigual e muito injusta. E a pandemia só agravou esta situação.”

Sen se tornou mundialmente famoso por sua teoria de que as democracias estão imunizadas contra as ondas de fome, já que seus governos têm incentivos para evitar grandes calamidades desse tipo, por seu alto custo eleitoral. Mas será que a catastrófica gestão desta crise na Índia desvirtua essa ideia?

 “Meu argumento é que, se o país que você governa sofre uma onda de fome, você deixará de ser popular e perderá as eleições. E, portanto, você fará todo o necessário para impedir essa catástrofe.” 

Mas em seu país se acrescenta outro elemento à equação: 

“Na Índia, o Governo conseguiu estabelecer um controle ferrenho dos instrumentos do poder, destinando enormes quantidades de dinheiro de uma forma assimétrica. O BJP conseguiu também calar a voz dos protestos. São coisas que a democracia deveria evitar”,

responde, num ataque frontal aos abusos cometidos em nome da preponderância do hinduísmo, a religião majoritária do país, sobre o islamismo.

“A desigualdade e a assimetria do poder têm o potencial de corroer as vantagens da democracia. E isso é o que vemos na Índia”, acrescenta. Diria então que seu país está a caminho de deixar de ser uma democracia funcional? “Não. Seria errôneo afirmar isso. É uma situação muito complexa. Mas acredito que o Governo tenha usado instrumentos que tornam a democracia menos viável”, conclui o premiado economista.

LUIS DONCEL, de Madri para o EL PAÍS, em 29 MAI 2021 - 12:30 BRT

Brasil registra mais de 2,4 mil mortes em 24 horas e passa de 465 mil óbitos pela covid-19

No dia 21/5, a Fundação Oswaldo Cruz alertou para o aumento de casos e o risco de uma terceira onda da pandemia no país.


Homens enterram vítima de covid-19 em Manaus (CRÉDITO,REUTERS)

O Brasil registrou nesta segunda-feira (1/6) 2.408 mortes por covid-19 nas últimas 24h, e o total de óbitos no país chegou a 465.199, segundo boletim do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass). A soma oficial de casos da doença já chega a 16.624.480, sendo 78.926 deles nas últimas 24h. A média diária de mortes nos últimos sete dias ficou em 1.881.

O mês de abril registrou mais de 82 mil óbitos pela covid-19 no Brasil e se tornou o mais letal desde as primeiras mortes pela doença no país, em março de 2020. Até então, março deste ano havia sido o pior período, com 66 mil óbitos.

O Brasil foi o segundo país no planeta a contabilizar mais de 400 mil óbitos causados pelo novo coronavírus. Os Estados Unidos foram os primeiros e, hoje, lideram em números da tragédia no mundo, com mais de 594 mil mortes e 33,2 milhões de casos da doença, segundo a Universidade Johns Hopkins.

BBC Nwes Brasil, em 01.06.2021

Copa América: há mais de 100 anos, Brasil desistiu de sediar evento por causa de pandemia da gripe espanhola

No fim de maio de 1919, a seleção brasileira venceu o Campeonato Sul-Americano, hoje conhecido como Copa América, após disputar a final com o Uruguai. 

A competição, que trouxe o primeiro grande título ao futebol brasileiro, estava programada para o ano anterior, mas foi adiada em razão da grave crise sanitária causada pela gripe espanhola.

Em 1918, pandemia de gripe espanhola afetou todo o mundo e matou milhões de pessoas (CRÉDITO,GETTY IMAGES)

Mais de um século depois, o Brasil está novamente no centro de uma discussão que envolve a competição esportiva e uma grave crise sanitária.

O país enfrenta a pandemia de covid-19 com uma vacinação lenta, mais de 462 mil mortes e regiões nas quais especialistas apontam que os casos da doença têm aumentado nas últimas semanas. Apesar do atual cenário, a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) anunciou na segunda-feira (31/05) que o Brasil sediará a Copa América deste ano.

O ano em que outra epidemia impediu que Brasil sediasse evento esportivo

Segundo a Conmebol, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Rogério Caboclo, foi procurado pela confederação após os outros países desistirem de sediar a competição.

O país foi definido como sede da disputa após Argentina e Colômbia desistirem de abrigar a Copa América.

Os jogos estão previstos para ocorrer entre 13 de junho e 10 de julho. O fato se tornou alvo de duras críticas de especialistas e de membros da oposição ao governo Jair Bolsonaro.

No início da noite de segunda, o ministro chefe da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, afirmou que ainda não há nada decidido e que a realização do torneio dependerá do cumprimento de certas condições.

O imbróglio sobre a Copa América fez com que muitos relembrassem da histórica disputa de 1919.

A gripe espanhola

Presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, disse que Brasil 'vive um momento de estabilidade' na pandemia. (CRÉDITO,REUTERS)

Os primeiros casos de gripe espanhola no Brasil foram registrados por volta de meados de 1918, mesmo ano em que a enfermidade começou a se propagar pelo mundo.

A doença, de rápida propagação e que matava em poucos dias, se espalhou por diversos países por meio dos portos. Estima-se que cerca de 50 milhões de pessoas tenham morrido em decorrência da enfermidade em todo o mundo.

Por volta de setembro daquele ano, navios chegaram de outros países e pessoas infectadas pelo vírus causador dessa gripe desceram em diferentes regiões do Brasil. A doença logo se espalhou.

O governo brasileiro chegou a negar a gravidade da enfermidade. Porém, poucos dias depois, nas últimas semanas de setembro de 1918, decidiu adotar medidas preventivas, como a recomendação de que as pessoas ficassem em suas casas.

Muitos reclamaram do pedido de evitar locais públicos. Sem a devida adoção das medidas sanitárias para conter a propagação do vírus, o Brasil enfrentou uma subida vertiginosa no número de mortes pela doença.

A gravidade da situação exigiu a construção rápida de hospitais de campanha e locais para isolamento de indivíduos infectados com o vírus.

Enquanto o vírus avançava, autoridades do Rio de Janeiro passaram a ficar alertas em relação ao evento que seria sediado na então capital da República naquele ano: o Campeonato Sul-Americano, programado para novembro de 1918.

Dados da época apontam que o Rio de Janeiro contabilizou cerca de 15 mil óbitos entre setembro e novembro de 1918.

Cartaz na Argentina critica a realização de competição de futebol no país, em meio ao pior período da pandemia de covid-19. (CRÉDITO,REUTERS)

Diante da alta de casos e mortes, as autoridades decidiram suspender todos os eventos esportivos.

No período, o clima na recém-criada Confederação Brasileira de Desportos (CBD) foi ruim, porque a entidade havia se empenhado em trazer a disputa, que estava em sua terceira edição, para o Brasil naquele ano.

"Mas os principais entretenimentos, como cinema e teatro, e as escolas estavam fechados por causa da pandemia. Os campeonatos locais estavam suspensos. A situação estava muito complicada, então não havia cabimento continuar com o Sul-Americano", detalha João Manuel Casquinha, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e pesquisador sobre a história do esporte no Brasil.

Em meados de outubro de 1918, a CDB enviou um telegrama à Conmebol para comunicar que não havia condições de sediar o campeonato naquele período, em razão da explosão de casos de gripe espanhola no Rio de Janeiro e da orientação para suspender eventos públicos.

Casquinha relata que chegou a haver pressão das confederações das seleções da Argentina e do Chile para que a disputa fosse realizada em outro país. O Uruguai, que também enfrentava um duro período da pandemia de gripe espanhola, chegou a ser cogitado, porque tinha campo apropriado para a disputa. Porém, a disputa acabou adiada.

A competição de 1919

No início de 1919, os números de casos e mortes pela gripe espanhola caíram no país. Diante desse cenário, houve relaxamento nas medidas de prevenção — apesar disso, houve registros de surtos e calamidades em outras regiões do país.

O Carnaval de 1919 se tornou conhecido como uma das maiores festas populares de todos os tempos. O futebol também voltou a ser atração e os estádios dos campeonatos locais passaram a atrair multidões.

O campeonato Sul-Americano daquele ano se tornou um grande sucesso de público. Milhares de pessoas se aglomeraram para assistir aos jogos no Estádio das Laranjeiras, na cidade do Rio de Janeiro, construído para abrigar a competição internacional que reuniu Brasil, Argentina, Uruguai e Chile.

No dia 29 de maio daquele ano, o Brasil venceu por um a zero o Uruguai, que havia sido o campeão nas duas primeiras edições do Campeonato Sul-Americano. Na arquibancada, 27,5 mil pessoas acompanharam o jogo.

"Já naquela época quem não tinha dinheiro para assistir o jogo dava um jeitinho, na maioria das vezes se acomodava num morro existente nas Laranjeiras com vista para o campo do Fluminense", diz trecho do texto da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) sobre o jogo da final.

Mais de um século depois


Casos de gripe espanhola no Rio de Janeiro foram fundamentais para adiar evento esportivo no passado. (CRÉDITO,BIBLIOTECA NACIONAL)

O adiamento da competição de 1919 foi citado diversas vezes nas redes sociais na segunda-feira (31/05), após o anúncio do Brasil como sede da Copa América deste ano.

Isso porque muitos comentaram que o país deveria adotar a mesma postura do passado e adiar o campeonato enquanto a pandemia não for considerada controlada.

A ideia de realizar a Copa América no Brasil surgiu após Colômbia e Argentina recusarem sediar o campeonato. Além de enfrentar a pandemia, o primeiro país passa por intensos protestos políticos, cuja repressão já causou dezenas de mortes, segundo organizações de direitos humanos. Já o governo argentino rejeitou a competição devido ao aumento de casos da covid-19 no país, que enfrenta o pior período da pandemia.

Conforme a Conmebol, o presidente da CBF, Rogério Caboclo, foi o responsável por conduzir o diálogo com o governo federal.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) "imediatamente apoiou a iniciativa, com a aprovação dos Ministérios da Casa Civil, da Saúde, das Relações Exteriores e da Secretaria Nacional do Esporte", disse a Conmebol.

No comunicado, o presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, justificou-se dizendo que o Brasil "vive um momento de estabilidade" na pandemia.

Em entrevista à BBC News Brasil na segunda-feira, o médico Miguel Nicolelis, professor de Neurociência da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, afirmou que a realização da disputa no Brasil pode ser a "gota d'água" para a terceira onda de casos e mortes pela covid-19 no país.

O país enfrenta dificuldades relacionadas à pandemia, como o aumento de casos em algumas regiões, após queda nas últimas semanas, e o ritmo da vacinação, considerado lento.

Nicolelis definiu, durante a entrevista à BBC News Brasil, que o anúncio do Brasil como sede do campeonato é um "chute na boca dos brasileiros que perderam familiares, de todos nós que estamos há 14 meses em quarentena em casa. Mas era previsível."

"Nós viramos o escoadouro do lixo do planeta. Tudo que não deve ser feito em questão de pandemia está sendo feito aqui. Essa notícia já correu o mundo, e ninguém consegue acreditar que o segundo país em número de mortes vai sediar um evento continental", acrescentou.

Membros da oposição a Bolsonaro anunciaram medidas para suspender imediatamente a Copa América no país.

Em entrevista coletiva durante a noite de segunda-feira, o ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, afirmou que o governo federal ainda está em fase de negociação sobre a realização do evento no país.

"Ainda não tem nada certo, estamos no meio do processo", disse Ramos. "Mas não vamos nos furtar a uma demanda, caso seja possível de atender", completou o ministro.

O historiador João Manuel Casquinha critica a necessidade de realização da disputa neste ano e afirma que se trata de uma situação puramente financeira.

"Em 1918, havia uma tentativa de não adiar a competição sob o argumento dos contratos que haviam sido firmados com empresas em razão da competição e precisavam ser cumpridos. E nessa época os jogadores eram amadores, não podiam ganhar salários como hoje, recebiam apenas um trocado por fora", diz, ressaltando que mesmo com essas condições a disputa foi adiada por seis meses.

"Hoje, vejo que esse interesse em continuar com a Copa é para render contratos de publicidades, além de adiantamentos de dinheiros recebidos para a competição. Os jogadores precisam trabalhar, as confederações precisam pagar as suas contas e tudo isso precisa acontecer. A questão é que agora, em 2021, o futebol é algo que envolve cifras bilionárias. Isso é um bom exemplo para entender que a vida humana não vale nada perto dos contratos, das movimentações financeiras e do entretenimento", acrescenta o professor de história.

BBC News Brasil, em 01.06.2021

'Jogadores deveriam dizer não à Copa América', defende ex-goleiro Chilavert sobre evento no Brasil

O anúncio da realização dos jogos da Copa América no Brasil levou o ex-goleiro da seleção paraguaia de futebol, José Luis Chilavert, a dizer que os jogadores estarão em perigo diante da gravidade da pandemia no país.

Ex-goleiro da seleção paraguaia, Chilavert afirma que jogadores da Copa América estarão em perigo diante da situação da pandemia (Crédito: Simon M Bruty / Getty Images)

"É uma loucura, uma aberração fazer uma Copa América neste momento. E pior ainda no Brasil, o país que todos sabemos como está na pandemia. O país com a pior situação sanitária, com mais casos (de coronavírus) na região", disse Chilavert à BBC News Brasil.

Os argumentos da Argentina para recusar a Copa América no país

Para ele, o campeonato deveria ser adiado, pelo menos por alguns meses, até que o quadro pandêmico atual possa estar mais controlado.

No domingo, a Argentina, que seria a sede originalmente, comunicou à Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) que decidiu não abrigar o evento, seguindo passo similar ao da Colômbia - que também receberia jogos, segundo o plano original.

Na Argentina, o presidente Alberto Fernández tinha declarado que o país "vive o pior momento da pandemia", mas a possibilidade de que realizasse o campeonato foi mantida até domingo.

'Saúde deve estar em primeiro lugar'

"É uma loucura, uma aberração fazer uma Copa América neste momento. E pior ainda no Brasil, o país que todos sabemos como está na pandemia", declara ex-goleiro. (Crédito: Jerome Prevost / Tempsport / Corbis / VCG VIA GETTY IMAGES)

Na visão do ex-goleiro Chilavert, que mora na Argentina, a situação em torno da realização da Copa América, em plena pandemia, mostra a "vulnerabilidade" a que os jogadores estão sendo submetidos.

Chilavert disse que os jogadores deveriam se rebelar e não participar do evento - "porque a saúde deve estar em primeiro lugar".

"Se eu estivesse hoje na seleção paraguaia, diria que não jogaria a Copa América no Brasil", afirmou. O ex-atleta paraguaio entende que os jogadores estarão "em risco" durante o evento no Brasil.

"Se algum jogador for infectado, voltará para casa e poderá infectar a família, além de poder ficar com sequelas e não poder mais jogar. Quem se responsabiliza por este perigo?", disse Chilavert.

Ele citou o jogador argentino Lionel Messi, do Barcelona, dizendo que, se o goleador for infectado, não seria a Argentina quem arcaria com sua situação sanitária e que, mesmo com possíveis seguros, a prevenção e a saúde devem falar mais forte.

"Os jogadores, se têm coragem e personalidade, deveriam dizer não à Copa América e pedir que ela seja realizada mais para frente", afirmou.

Contradição com orientações da ciência

Protestos demonstraram insatisfação de moradores com possibilidade de Argentina sediar a Copa América. Diante da grave situação da pandemia, governo do país desistiu de receber os jogos. (Crédito: Reuters / Nathalia Angarita).

Ex-goleiro do time argentino Vélez Sarsfield e três vezes eleito melhor goleiro do mundo pela Federação Internacional da História e Estatística de Futebol (IFFHS, na sigla em inglês), Chilavert observa contradições entre as orientações cientificas - e em alguns países, políticas - de defender que as pessoas fiquem em casa e tomem todas as precauções contra o coronavírus, mas permitam que a Copa América aconteça.

"As crianças não vão à escola, nem todos os idosos e pessoas de risco já foram vacinados, e, mesmo assim, se está defendendo a realização do evento. Continua o pão e circo e isso não é bom", afirmou.

Ele acha que o Brasil tem "bons estádios" para as partidas, mas que o panorama sanitário é o que importa neste momento. "Espero que a Justiça impeça (a realização da Copa América)", disse.

Na entrevista, ele fez fortes críticas à Conmebol, dizendo que a questão financeira, que envolve compromissos com os patrocinadores, está falando mais alto do que a prevenção contra a covid-19 e os cuidados dos jogadores e toda a equipe envolvida nos jogos.

"Vejam o que aconteceu com o time River Plate. Os jogadores voltaram da Colômbia infectados e, de volta, na Argentina, o time teve que jogar até sem goleiro. Um motorista do time foi infectado e morreu. Por que isso? Pra quê isso?", declarou o ex-goleiro. Ele entende que o que aconteceu com o River Plate é mais um exemplo de que os jogadores da América do Sul "estão sem proteção".

Procurada pela reportagem, a Conmebol, com sede em Assunção, no Paraguai, afirmou que era aguardada apenas a definição das sedes que realizarão o evento no Brasil.

Quando perguntados sobre as críticas contra o evento no país, diante da situação da pandemia, fontes da instituição afirmaram que "os protocolos têm 99% de efetividade", que os jogadores ficarão em "bolhas" (espécie de ilhas de isolamento) e não terão contatos com os demais.

"Desde o ano passado, quando não foi possível realizar a Copa América, por causa da pandemia, temos trabalhado, revisado e ajustado nossos protocolos, intensamente, com os médicos de forma constante. E os protocolos são efetivos", disseram as fontes, falando da capital paraguaia.

Nos bastidores da Conmebol, há críticas sobre "falhas" no protocolo do time argentino depois que pelo menos vinte integrantes do River Plate foram infectados após um jogo pela Copa Libertadores na Colômbia.

Num comunicado, depois dos contágios em série, o clube afirmou ter tomado todas as precauções, incluindo concentrações isoladas em hotéis, mas que ainda assim foi ampla a lista de infectados.

"O Clube Atlético River Plate possui hoje um time que, apesar de ter cumprido todos os protocolos, tem 25 casos positivos de coronavírus. É desalentador confirmar que não foi suficiente desenhar processos específicos e ampliar cuidados para evitar uma espiral de contágios desse tipo", afirmou-se no comunicado, que destacou ainda as conversas com a Conmebol para participar dos jogos com a menor quantidade de jogadores (aqueles sem problemas de saúde).

No texto, foi dito ainda que a principal preocupação do Clube é a "saúde e bem-estar" dos jogadores, corpo técnico e suas famílias.

Procurada pela BBC News Brasil para comentar as críticas do ex-goleiro paraguaio à realização da Copa América no Brasil, a assessoria de imprensa da CBF respondeu que a competição é coordenada pela Conmebol, quem tem os protocolos também de saúde para o evento.

Marcia Carmo, de Buenos Aires para a BBC News Brasil, em 01.06.2021

Carlos Melo: O outro lado da rua surgiu na foto

No delicado momento de pandemia, foi Jair Bolsonaro quem acionou o dispositivo das ruas. Insistiu em mostrar força e pouco caso com a Covid-19. 

Natural que cedo ou tarde o antibolsonarismo revidasse, na convicção de que mais letal que o vírus é a postura do presidente. A resistência explodiria inevitavelmente e retiraria o monopólio que ilusoriamente o bolsonarismo acreditava ter sobre o que chama de “povo”.

Foto: Taba Benedicto/Estadão

As jornadas do antibolsonarismo não devem parar por aí. Quem vacinado foi às ruas tende a repetir a dose; quem, sem a vacina, correu riscos continuará com a mesma disposição. E quem por falta de vacina se absteve, vacinado, pode aderir a novos protestos. A paisagem se alterou, o lado da Rua que faltava surgiu na foto.

Imagens aéreas sugerem que a rua oposicionista é maior que a governista – embora o extremismo possa contar com recursos espúrios, como a repressão policial. Ações como da PM de Pernambuco podem, paradoxalmente, potencializar o repúdio ao governo — como em 2013, quando uma jornalista foi igualmente baleada no olho, em São Paulo.

A aceleração da contaminação frearia o processo, mas o aumento de casos tampouco seria favorável ao governo. Também interesses eleitorais se colocam e há a quem a eventual queda de Bolsonaro em nada interesse. Mas lideranças do tipo já têm sido atropeladas e vão a reboque da indignação incontida de manifestantes.

Apostar na recuperação econômica é a bala de prata do governo. Resta saber em qual ritmo se daria e o que seria o efeito do desemprego e do recrudescimento da fome, a pouco mais de um ano da eleição. No momento, não há respostas. E, mesmo assim, restarão os mortos — que, infelizmente, não voltarão.

O potencial de piora é impressionante, eis agora a Copa América, no País. Na Colômbia, o evento que lá se realizaria já estimulou protestos; em 2013, a Copa das Confederações, no Brasil, foi explosiva. Difícil saber seus efeitos por aqui, mas positivo não será. O gás dos protestos, uma vez liberado, tende a se expandir.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper. Publicado originalmente n'O Estado de S. Paulo, em 31.05.2021

Volta às ruas para novas manifestações divide oposição a Bolsonaro

Possível terceira onda de covid-19 pode frear novos atos contra governo após os de 29 de maio, avaliam organizadores; governistas minimizam atos

    

Manifestantes anti-Bolsonaro no sábado, em SP: movimentos debatem hoje novas convocações Foto: Taba Benedicto / Estadão

Uma eventual convocação de novas manifestações contra o governo Bolsonaro divide organizadores dos protestos de 29 de maio. A maior parte dos movimentos que organizaram as passeatas vai se reunir ao longo da semana para decidir se novos atos serão, ou não, convocados. O temor, como da primeira vez, é com o avanço dos casos da covid-19 no País. 

As manifestações seguiram agendas próprias e reuniram dezenas de milhares de pessoas em mais de 200 cidades – em muitos locais, gerando aglomerações. A avaliação entre os organizadores é de que as manifestações surpreenderam ao levar mais pessoas do que o esperado às ruas. Atitudes e reações do presidente Jair Bolsonaro são apontadas como razões que podem impulsionar novos protestos, incluindo a possibilidade de realização da Copa América no Brasil.

Um dos organizadores do atos do último sábado, Raimundo Bomfim, da Frente Brasil Popular, disse que, apesar da repercussão da mobilização nacional, é preciso ter calma ao se falar em novas manifestações por causa da terceira onda da pandemia. “Não é uma competição de rua. Não há de nossa parte esse campeonato de quem leva mais (pessoas) para a rua a cada fim de semana”. Segundo Bonfim, os coordenadores da frente devem anunciar uma decisão até, no máximo, o início da próxima semana. Protestos simbólicos ou em outros formatos não estão descartados.

Mas na pauta de uma assembleia virtual convocada para hoje está a discussão de uma possível nova data para atos nas ruas. O evento é divulgado pelo partido Unidade Popular (UP). Porém, a ideia não ganhou adesão de outras frentes. Entre os demais partidos de esquerda que levaram sua militância às ruas, há cautela. 

“O PT apoiará a decisão coletiva. As pessoas que foram às ruas, cientes dos riscos, não estavam erradas em protestar. Errado está Bolsonaro e seu governo criminoso”, disse a presidente da sigla, Gleisi Hoffmann. “Não descartamos a realização de novos protestos”, afirmou Paula Coradi, Secretária Nacional de Movimentos Sociais do PSOL. "Já está mais que provado que o Bolsonaro debocha da vida dos brasileiros, a mais recente prova disso é a realização da Copa América no Brasil, rejeitada pela Argentina justamente por conta da pandemia."

Provocações

O governo tenta minimizar os atos contra Bolsonaro. "Sabe por que teve pouca gente nessa manifestação de esquerda neste fim de semana? Porque estão apreendendo muita maconha pelo Brasil. Faltou erva para o movimento", disse o presidente a apoiadores na segunda. Os filhos do presidente, o senador Flávio (Patriota), o deputado federal Eduardo (PSL–SP) e o vereador carioca Carlos (Republicanos), passaram o fim de semana ironizando as manifestações nas redes sociais. Integrantes de “tropa de choque” bolsonarista na Câmara, deputados como Vitor Hugo, Carla Zambelli e Bia Kicis foram na mesma linha.

Além das provocações, a estratégia de desacreditar as manifestações passa por apontar contradições no discurso de oposicionistas e de questionar o número de pessoas que participaram dos atos. “Nunca fomos hipócritas de dizer que defendemos isolamento, lockdown”, disse Zambelli.

O Estadão mostrou que bolsonaristas disseminarem fake news para emplacar nas redes sociais e em aplicativos de mensagens a ideia de que imagens da manifestação na Avenida Paulista seriam na verdade de atos de 2016, de quando a militância pró-Dilma Rousseff (PT) foi às ruas contra o impeachment. Porém, é possível ver nas imagens das publicações faixas contra Bolsonaro e o boneco inflável gigante em que o presidente é representado como a morte segurando uma caixa de cloroquina.

“A tendência é que o governo continue na defensiva que o caracteriza. Bolsonaro sempre se defendeu atacando. Ao ser contrariado, grita”, disse o cientista político Humberto Dantas. “Se essa quantidade de pessoas foi às ruas mesmo com as restrições impostas pela pandemia, imagine em situações normais. Essa conta o presidente e seu entorno fizeram.”

Impeachment

Apesar de opositores apostarem no fortalecimento da pauta pró-impeachment no Congresso após os atos, Dantas diz que é improvável que o tema avance na Câmara. Um dos motivos é a relação construída pelo governo com o presidente da Casa, Arthur Lira (Progressistas/AL), a quem cabe decidir sobre o andamento de uma eventual abertura de processo. Ele cita ainda o apoio sólido de cerca de 28% da população, que têm avaliado o governo como bom ou ótimo em pesquisas recentes apesar da gestão da pandemia, e o "trauma" político deixado pelo impeachment de Dilma. "Partidos que se opuseram a Dilma também foram levados para o buraco. Foi traumático", diz o cientista político.

O líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressistas/PR), avalia que a campanha para 2022 foi antecipada e o País deve viver em clima eleitoral de agora até o final do próximo ano. Ele defende que o governo siga com a mesma postura de mobilização dos bolsonaristas que tem marcado o último mês. “O governo não tem de reagir, a esquerda está reagindo à mobilização bem-sucedida do governo. O governo continua com seu jogo, o presidente tem sua agenda e está cumprindo”, diz. Ele avalia, ainda, que muitos oposicionistas que foram às ruas não devem votar em apenas um candidato de oposição. “Vamos assistir, daqui e até a eleição, essas mobilizações e esses discursos que se dirigem, cada um, à sua base. Ninguém fala com a sociedade como um todo.”

Na semana passada, Lira disse em entrevista à Rádio Bandeirantes que há condições dadas para o impeachment de Bolsonaro. "O impeachment se faz por diversas circunstâncias: quando você perde a capacidade política, quando você perde a capacidade de gestão econômica, quando você cria no Brasil uma condição de desemprego absurda, quando você cria no Brasil uma condição de inflação incontrolável, quando a economia vai mal, quando o povo está na rua. Não enxergamos essa situação no Brasil", afirmou. Até agora, 118 pedidos de impeachment contra Bolsonaro já foram protocolados na Câmara.

Matheus Lara e Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo, em 01 de junho de 2021 

As manifestações contra Bolsonaro

Foram muito significativas as manifestações contra Jair Bolsonaro. Não é trivial ir às ruas para expressar descontentamento com o governo em meio à pandemia

Foram muito significativas as manifestações do sábado passado contra o presidente Jair Bolsonaro, não somente em razão da dimensão – houve passeatas em quase todas as capitais e no Distrito Federal, além de cidades menores – e da numerosa participação, mas principalmente pela realização, em si mesma, do protesto.

Afinal, não é trivial ir às ruas para expressar descontentamento com o governo em meio a uma pandemia, que dá todos os sinais de um novo recrudescimento. Até agora, as ruas eram uma espécie de monopólio da militância radical bolsonarista, desde sempre à vontade para desafiar as orientações sanitárias para demonstrar seu apreço por Bolsonaro e sua hostilidade às instituições democráticas.

Já a oposição ao presidente, com a fundada preocupação de que aglomerações poderiam contribuir para a disseminação ainda maior do vírus, demorou a mobilizar os muitos descontentes com Bolsonaro; afinal, não era uma decisão fácil ir às ruas depois de passar meses criticando os bolsonaristas e o presidente por incentivarem ajuntamentos irresponsáveis. Como resultado dessa hesitação, os bolsonaristas investiram na narrativa segundo a qual as manifestações promovidas por eles – sem nenhuma resposta da oposição, salvo inócuos panelaços – provavam que o “povo” estava com o presidente.

Mas isso agora mudou. A detalhada exposição pública, na CPI da Pandemia, da irresponsabilidade do governo Bolsonaro na condução da crise certamente encheu muitos brasileiros de vergonha. Ao mesmo tempo, o presidente mais uma vez causou indignação ao participar ativamente de um comício no Rio de Janeiro em que a pandemia foi ignorada, coadjuvado pelo sorridente ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, símbolo da desídia na administração da pandemia.

Essa caracterização explícita do desprezo bolsonarista pelos brasileiros em geral parece ter sido a gota d’água que levou parte dos grupos de oposição a Bolsonaro a deixar de lado a prudência e convocar manifestações de rua.

Muito se dirá sobre os organizadores desses atos e suas motivações. Não se pode ignorar que o protesto do sábado passado serviu para dar força à campanha de Lula da Silva à Presidência, tão antecipada e fora de hora quanto a de Bolsonaro. Embora o chefão petista tenha silenciado a respeito da manifestação, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, deu o ar da graça, bem como dirigentes de partidos que orbitam o lulopetismo. Ademais, a maioria absoluta dos organizadores era de partidos e movimentos de esquerda, o que tende a reduzir a representatividade do protesto.

Mas seria um erro entender, a partir disso, que o antibolsonarismo seja uma exclusividade da esquerda. As pesquisas de opinião mostram que parte significativa da população rejeita Bolsonaro, e é lícito supor que, se não fossem as reticências sanitárias motivadas pela pandemia, muito mais cidadãos, de diversos credos políticos, poderiam se animar a participar de manifestações contra o presidente.

O mais importante, contudo, é constatar que os protestos da oposição tendem a marcar uma inflexão na atmosfera política. Para muita gente, o risco da continuidade do governo de Bolsonaro é maior do que o perigo representado pelo coronavírus, razão pela qual valeria a pena arriscar-se em manifestações de rua se isso causar problemas para o presidente. Exagerado ou não, esse ânimo é significativo do cansaço com a irresponsabilidade de Bolsonaro, não apenas durante a atual crise, mas praticamente desde a posse.

Tudo indica que, no momento em que o País corre o risco de uma nova onda de contaminações na pandemia, as ruas voltaram a ser a arena política nacional – o que vem se repetindo com frequência desde 2013. O embate entre o bolsonarismo e o antibolsonarismo, que antes estava restrito ao universo das redes sociais, a partir de agora poderá ser travado ao ar livre, com ou sem vírus.

Bolsonaro menosprezou os protestos da oposição, dizendo que “teve pouca gente nessa manifestação de esquerda” porque a polícia está “apreendendo muita maconha” e “faltou erva para o movimento”. A troça infantil trai um certo nervosismo.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de S.Paulo, em 01 de junho de 2021 | 03h00

Protestos contra Bolsonaro: 5 possíveis consequências da mobilização, segundo analistas

Os protestos contra o governo de Jair Bolsonaro (sem partido), realizados em todo o país neste sábado (29/05), representam uma novidade no já bastante conturbado ambiente político nacional.

Foi a primeira vez, desde o início da pandemia do coronavírus no Brasil, em março de 2020, que um número significativo de manifestantes contrários à atual gestão tomou as ruas, rompendo um longo período marcado por atos políticos realizados apenas por simpatizantes do governo.

Impeachment de volta à mesa e aumento da 'fatura' do Centrão estão entre os possíveis efeitos das mobilizações contrárias ao governo, dizem analistas (Getty Images)

Os atos aconteceram em pelo menos 180 municípios, de 24 Estados e do Distrito Federal, mostrando que há uma ampla diversidade geográfica na parcela da população que se opõe ao atual mandatário.

Também contaram com vasta repercussão na imprensa internacional, com cobertura de veículos tão diversos como Guardian, Economist, Al Jazeera, Le Monde, NY Post, La Nación e Indian Times, contribuindo para ampliar o desgaste da imagem internacional de Jair Bolsonaro.

As manifestações de rua da oposição acontecem num momento em que Bolsonaro se vê pressionado pela queda de sua popularidade nas pesquisas de opinião mais recentes e pelo avanço das investigações da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que avalia a resposta do governo à pandemia que já matou mais de 461 mil pessoas no país.

Mas o que essa novidade política deve trazer de consequências práticas para Bolsonaro?

A BBC News Brasil ouviu Carlos Melo, cientista político e professor do Insper; Pablo Ortellado, coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital e professor da USP (Universidade de São Paulo); e Claudio Couto, cientista político e professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) para saber o que podemos esperar do "dia seguinte" das manifestações.

1. Bolsonaro perde o 'monopólio das ruas'

Uma primeira consequência das mobilizações deste sábado, segundo os analistas, é que Bolsonaro perde o "monopólio das ruas", uma situação confortável em que apenas os seus apoiadores ocupavam o espaço público para se manifestar.

"Agora ele não pode mais falar que o povo está na rua em seu apoio. Aquela ideia de 'eu autorizo, presidente' [slogan usado por manifestantes governistas] não é mais tão simples, porque tivemos um contingente grande de pessoas dizendo que não autorizam o presidente", observa Melo, do Insper.

"Bolsonaro vinha até aqui com uma certa tranquilidade em mencionar essa figura abstrata chamada 'povo', porque havia uma situação em que apenas os seus apoiadores iam para a rua", diz o cientista político. "Agora, ele perdeu o monopólio da mobilização popular e da manifestação."

Cartaz em tecido diz Impeachment, sobre uma imagem de Jair Bolsonaro, com um boneco de Lula usando uma faixa presidencial escrita 'Lula Livre' ao fundo.

"O tamanho da manifestação e sua difusão pelo território nacional colocam de novo no horizonte um impeachment que parecia um pouco 'enterrado'", diz Pablo Ortellado, da USP (Buda Mendes / Getty Images)

2. Impeachment volta à mesa

Para Pablo Ortellado, da USP, uma outra consequência dos protestos deste fim de semana é que aumenta a pressão pelo impeachment no Congresso Nacional.

"O tamanho da manifestação e sua difusão pelo território nacional colocam de novo no horizonte um impeachment que parecia um pouco 'enterrado' pela persistência da aprovação do Bolsonaro", avalia o pesquisador.

Para Ortellado, isso gera diversas consequências, que vão desde novas movimentações para que o impeachment aconteça, até o aumento do "preço" que os deputados e senadores do Centrão cobram pelo apoio ao governo.

Carlos Melo avalia que o fato de o PT, principal partido da oposição, não ter interesse no impeachment nesse momento - já que o partido vê benefícios no desgaste de Bolsonaro para seu próprio projeto eleitoral de 2022 - não é um fator impeditivo para que o clamor pelo impedimento presidencial avance.

"O impeachment é sempre algo que depende muito mais da insatisfação popular e da mobilização de massas do que da vontade dos atores pura e simplesmente", diz o professor do Insper, lembrando dos casos de Fernando Collor e Dilma Rousseff.

"Com isso, não quero dizer que vai ter impeachment, mas não posso afirmar de forma alguma que simplesmente não vai ter porque o establishment não quer. Não é assim que a coisa ocorre."

Claudio Couto, da FGV, por sua vez, avalia que o impeachment volta como uma bandeira de mobilização, mas não necessariamente como "um item real do cardápio".

Segundo ele, são duas as razões para isso: a proximidade das eleições de 2022 e o fato de o vice-presidente Hamilton Mourão não se apresentar como uma alternativa confiável.

"Tem um ditado da política brasileira que diz que 'o Centrão ninguém compra, só aluga'", cita Claudio Couto, da FGV (Cleia Viana - Ag. Câmara de Noticias)

3. Aumenta a 'fatura' do Centrão

Se têm visões distintas sobre as perspectivas para o impeachment, em uma coisa os analistas são unânimes: a demonstração de força da oposição deve aumentar o preço cobrado pelo apoio do chamado "Centrão" - grupo de partidos de centro-direita que costuma estar na base de qualquer governo do país, independentemente da posição ideológica, mediante troca de favores como cargos e verbas.

"Os políticos são sensíveis às mobilizações e entendem elas como uma forma de pressão da população", avalia Melo.

"Isso aumenta a 'fatura' do Centrão e também a possibilidade de o Centrão, depois que 'resgatar essa fatura', não entregar o que prometeu, porque o Centrão é antes de tudo pragmático", observa o analista.

"Conforme a perspectiva de reeleição entra em risco, esses setores tendem a abandonar o barco, para embarcar em projetos mais promissores. Tem uma frase do Tancredo Neves que diz o seguinte: todo político vai com outro até a sepultura, mas não se joga."

Claudio Couto, da FGV, também escolhe uma frase de efeito para falar sobre essa questão.

"Tem um ditado da política brasileira que diz que 'o Centrão ninguém compra, só aluga'", cita o cientista político.

"Essa é uma ideia interessante porque ela mostra o seguinte: o Centrão não está ali para ser um partido orgânico do governo, que vai apoiá-lo até o final. Ele é importante para a aprovação de projetos, para proteger o presidente, por exemplo, de uma tentativa de impeachment, mas ele é insuficiente quando o governo enfrenta dificuldades reais. Se o Centrão perceber que o barco está afundando, ele corre para outro lado."

4. Dificulta a reeleição de Bolsonaro

A debandada do Centrão pode ter uma outra consequência para Bolsonaro: dificultar a aprovação no Congresso de projetos que o governo deve tentar encaminhar nos próximos meses com objetivo de melhorar sua popularidade para as eleições do próximo ano.

Em entrevista publicada pela Folha de S. Paulo na última segunda-feira (24/05), o ministro da Economia Paulo Guedes deixou clara essa intenção.

"Agora vem a eleição? Nós vamos para o ataque. Vai ter Bolsa Família melhorado, BIP [Bônus de Inclusão Produtiva], o BIQ [Bônus de Incentivo à Qualificação], vai ter uma porção de coisa boa para vocês baterem palma", disse o ministro, citando programa planejado pelo governo de incentivo à qualificação para jovens, tendo como contrapartida uma bolsa paga em parte pelo governo (que seria chamada de BIP) e em parte pelas empresas (BIQ).

"O projeto de reeleição depende de uma série de fatores, inclusive da aprovação de medidas na Câmara e no Senado e as manifestações enfraquecem a agenda do governo dentro do Congresso Nacional", avalia Carlos Melo.

"O governo tem desempenho frágil, é pouco realizador - não à toa Bolsonaro tem inaugurado ponte de madeira -, enfrenta o problema seríssimo da pandemia, com 460 mil mortos até agora, e uma economia que dá sinais de recuperação, mas com milhões sem emprego. Nada disso ajuda."

"De alguma forma, legitima a atuação da CPI, produz um efeito favorável no sentido de facilitar que a comissão avance no seu trabalho", diz Claudio Couto, da FGV (Ag. Senado)

5. Empodera a CPI da covid

Por fim, uma última consequência apontada pelos analistas deve afetar o novo entretenimento preferido dos brasileiros: a CPI que investiga a resposta da atual gestão à pandemia.

"A manifestação demonstra que há um grande descontentamento. Que esse setor que não gosta do Bolsonaro está com muito ímpeto", avalia Ortellado. "Isso dá mais respaldo para o bloco de oposição da CPI, porque ele se sente simbolicamente apoiado pela população."

Segundo o professor da USP, isso também deve permitir aos políticos não identificados com a oposição serem mais críticos, caso, por exemplo, do presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM).

Carlos Melo avalia que o clamor das ruas também pode retrair parte da base de apoio ao governo.

"Não acho que o Fernando Bezerra [senador pelo MDB-PE e líder do governo no Senado] amanhã estará intimidado, ou que o Flavio Bolsonaro estará intimidado. Mas uma série de nomes na CPI que andam ali no fio da navalha, fazendo discursos ambíguos, terão um pouco mais de cuidado."

Para Claudio Couto, mais do que as ruas empoderarem a CPI, são os achados da CPI que podem ajudar a esquentar a temperatura das ruas.

"A tendência é muito mais esse tipo de mobilização ser alimentada pela CPI do que o oposto. Mas, é claro, que isso também de alguma forma legitima a atuação da CPI, produz um efeito favorável no sentido de facilitar que a comissão avance no seu trabalho."

Thais Carrança, de S. Paulo para a BBC News Brasil, em 30.05.2021