quarta-feira, 26 de maio de 2021

Com UTIs mais cheias, Brasil vê recrudescimento da pandemia

Há 19 dias consecutivos, média móvel de novos registros de covid aumenta a cada 24 horas, enquanto há 7 Estados com ocupação crítica de leitos. SP voltou a passar dos 80% e cinco regiões, incluindo a Grande SP, têm maior contaminação.

 

Mais casos, taxa de contaminação crescente em alguns Estados, como São Paulo, e maior ocupação de leitos de UTI indicam um recrudescimento da pandemia da covid-19 no Brasil. 

Um dos principais dados é a média de diagnósticos por dia, que está acima dos 65 mil positivos, acréscimo de 8% em 14 dias. O avanço em registros leva a risco maior de contaminação e de internação, ampliando a pressão sobre o sistema e a possibilidade de óbitos.

Para definir como a doença vai evoluir, se considera entre o contágio e a possível morte de um paciente no período de até seis semanas. "O aumento do número de casos vai ser precedido obrigatoriamente pelo aumento do número de mortes", explica Alexandre Naime Barbosa, chefe do setor de infectologia da Unesp de Botucatu (SP) e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia.

(Alta de casos de síndrome respiratória em 8 Estados indica risco de piora da pandemia, diz Fiocruz)

Pandemia

Há 19 dias consecutivos, média móvel de novos registros de covid aumenta a cada 24 horas no Brasil. Em São Paulo, a Prefeitura está fazendo uma barreira sanitária no Terminal Rodoviário do Tietê Foto: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Desde 5 de maio, a 19 dias consecutivos, a média móvel de novos registros aumenta a cada 24 horas. Só ontem, houve mais 74.845 relatos positivos, equivalentes a 52 por minuto. Para especialistas, só não há um reflexo maior no número de vítimas, que ainda assim tem média acima de mil desde janeiro, por causa da faceta mais jovem da pandemia este ano.

Segundo o Observatório Covid-19 da Fiocruz, pela primeira vez desde o início dos casos de covid-19, a mediana de idade nas internações está abaixo dos 60 anos. Com isso, exceto nos Estados do Nordeste, a taxa de mortalidade pela doença caiu. Os mais jovens tendem a morrer menos, só que pressionam o sistema por ficar mais tempo internados. "Talvez não seja como já vimos (chegar a um número diário acima de 3 mil mortos), porque o jovem adoece menos, mas também adoece", afirma o médico da Unesp.

E, além dos registros diretos de covid, há os de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Segundo a Fiocruz, oito das 27 unidades da federação apresentam sinais de crescimento de casos. As síndromes respiratórias são, neste momento, na grande maioria, causadas por infecções pelo SARS-CoV-2.

Leitos

O recrudescimento ocorre concomitantemente com o avanço das taxas de ocupação de leitos de UTI para adultos com covid-19. De maneira geral, o Nordeste e o Centro-Sul apresentaram piora nos últimos dias. Sete Estados têm taxas de ocupação iguais ou superiores a 90%: Piauí (91%), Ceará (94%), Rio Grande do Norte (96%), Pernambuco (97%), Sergipe (93%), Paraná (95%) e Santa Catarina (95%).

No Centro-Oeste, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal tiveram as maiores altas. Ao lado de Mato Grosso, estão em estado crítico, mas inferiores a 90%.

No Sul do País, a mesma tendência é observada, com Paraná e Santa Catarina entre os piores Estados. O Rio Grande do Sul permanece na zona de alerta intermediário. No Sudeste, Rio e Minas têm a mesma classificação, com piores índices.

São Paulo estava em estágio intermediário na ocupação de leitos de UTI, com taxa de 79%. Dados da Secretaria de Estado da Saúde, desta terça-feira, porém, colocam esse índice em 80,5%, o que repõe os paulistas no mesmo patamar das piores unidades da federação.

Na capital paulista, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, seis hospitais da administração pública ou com leitos contratados estão com 100% de seus leitos ocupados. E a rede particular também já se preocupa. O Hospital Israelita Albert Einstein se prepara para a abertura de 60 novos leitos na primeira quinzena do próximo mês como medida preventiva. Há duas semanas, o hospital tinha 114 pacientes em leitos de covid. Nesta terça, eram 168, alta de 47%. Já a taxa de ocupação geral, que inclui pacientes sem covid, estava em 103%. No Sírio Libanês, o aumento anteontem, na comparação com o dia 17, foi de 23%, saltando de 141 casos para 174 em uma semana.

Infecção e futuro

No Estado de São Paulo, hoje a pior região em relação à taxa média de transmissão da doença está em São João da Boa Vista, com 1,63. Ou seja, cada cem pessoas contaminadas transmitem o vírus para outras 163. Franca, Grande São Paulo, Araçatuba e São José do Rio Preto completam as cinco regiões com as mais altas taxas de transmissão. Em todo o Estado, a média é de 1,3.


Para Barbosa, a terceira onda da doença vai chegar e sua força está condicionada à forma como a flexibilização das atividades econômicas e o respeito ao isolamento social vai se dar. "Em algumas cidades de São Paulo, como Ribeirão Preto, esse efeito já está sendo sentido (a cidade fechou o comércio, por estar com 96% de ocupação de leitos de UTI)", diz. 

 Emilio Sant’Anna, O Estado de S.Paulo, em 26 de maio de 2021 | COLABOROU PAULA FELIX

Como o aquecimento global ameaça a agropecuária brasileira

Estudo aponta que mudanças climáticas decorrentes de emissões podem afetar um terço da produção mundial de alimentos, inclusive no Brasil. Especialistas alertam sobre efeitos de política ruralista e desmatamento.

Plantação de soja no Mato Grosso: Centro-Oeste e Nordeste seriam particularmente afetados num cenário de alta emissão

Um terço da produção mundial de alimentos está em risco por conta das emissões de gases do efeito estufa e do aquecimento global. Essa é a principal conclusão de um estudo publicado neste mês pelo periódico científico One Earth — e o Brasil, grande produtor agropecuário, deve ser seriamente afetado, se medidas não forem tomadas para reduzir a degradação ambiental.

Os pesquisadores, das universidades de Aalto, na Finlândia, e de Zurique, na Suíça, realizaram projeções considerando três cenários para o futuro: um mundo em que o aquecimento global fique limitado a 2 graus Celsius, chamado de "baixa emissão"; um aumento de 3 graus, a hipótese mais provável de ocorrer ainda neste século, considerando o contexto atual; e um aquecimento global de 5 graus, um cenário de "alta emissão". Todas essas mudanças climáticas foram consideradas em comparação à era pré-industrial.


Os cientistas procuraram avaliar o impacto que tais mudanças climáticas teriam em cada região produtora de alimentos do globo — e, então, concluíram se as atividades econômicas hoje desenvolvidas ali estão em risco ou não. Na pesquisa, convencionou-se chamar de "ambiente climático seguro" aqueles onde ainda é viável desenvolver a produção de alimentos.

Foram avaliadas as 27 culturas alimentares mais importantes do planeta e sete tipos de rebanhos animais utilizados para alimentação humana. Países de áreas subtropicais e temperadas seriam menos afetadas. Dos 177 países analisados, 52 permaneceriam em espaços "seguros" no futuro — boa parte dos países europeus. Mas, no total, o cenário mais pessimista significaria que um terço das áreas hoje agropecuárias do planeta se tornariam improdutivas.

O Brasil, seria bastante afetado, sobretudo nas regiões Centro-Oeste e Nordeste. "Em um cenário de alta emissão, grandes partes do Brasil estariam fora do ambiente climático seguro", esclarece à DW o professor Matti Kummu, da Universidade de Aalto, principal autor do estudo. "De acordo com nossas estimativas, cerca de 17% da produção agrícola brasileira de alimentos e 37% da produção pecuária podem estar fora do espaço climático seguro até o fim deste século."

Isto no pior cenário. Caso o aquecimento global se mantenha na tendência atual, ou seja, com um aumento de 3 graus Celsius, o prejuízo às áreas produtivas brasileiras seria de 6% em relação à agricultura e 22% à pecuária. Já na perspectiva mais otimista, ou seja, manter o aquecimento abaixo de 2 graus, toda a produção de alimentos no Brasil ficaria dentro do espaço climático seguro.

"Seria a melhor opção", diz Kummu. "Isso requer, naturalmente, muitas intervenções. A melhor opção é reduzir pela metade as emissões de gases de efeito estufa e interromper as mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, novas variedades de culturas precisam ser desenvolvidas, adaptadas às futuras condições climáticas."

"Desmatamento predatório"

Se a longo prazo a agropecuária brasileira corre riscos, no atual momento os números são animadores para o setor. De acordo com levantamento divulgado no mês passado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção brasileira de grãos deve superar, pela primeira vez na história, as 270 milhões de toneladas na safra deste ano, um crescimento de 6,5% em relação ao ano anterior.

Especialistas, contudo, acreditam que tal crescimento é sinal de que estamos engrenando em um ciclo vicioso. Oficialmente, a safra recorde é resultante, entre outros fatores, de um aumento de quase 4% da área cultivada. Em outras palavras, um indicativo de aumento de desmatamento.

"No médio e longo prazo, o Brasil deixará de ser uma potência agrícola por conta da política ruralista hoje implementada", diz o biólogo Lucas Ferrante, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Ele afirma que, com a tecnologia existente hoje, o Brasil "já tem área desmatada suficiente para aumentar a produção agrícola como se precisa para dominar o mercado mundial".

"O que vemos é um desmatamento predatório que tem prejudicado e irá prejudicar as safras nacionais. O Brasil deveria ser o primeiro país a defender medidas para mitigar as mudanças climáticas, porque é um dos países que mais deve sofrer perdas agrícolas por conta delas", complementa ele. "Expandir a agricultura para a região amazônica, por exemplo, é um tiro no pé. Desmatar não aumenta a produção agrícola. Coloca o país em risco e diminui a produção."

Segundo Ferrante explica, tais ações prejudiciais ao meio ambiente, além de acelerar o aquecimento global, acabam interferindo no regime das chuvas, inviabilizando muitas culturas. Exemplos de alterações já são visíveis em algumas regiões — cafezais abortam suas flores sob temperaturas acima dos 27 graus, o que já vem sendo relatado em algumas plantações de Minas Gerais, e a região Sul do país enfrenta, desde o ano passado, um período de estiagem. "Não adianta ter território para plantio se você não tem condições para fazer a lavoura florir e dar frutos. A situação é drástica", argumenta o pesquisador.

Impacto da indústria

Vice-chefe do Departamento de Ciência do Solo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (USP), o engenheiro agrônomo Carlos Eduardo Cerri concorda que o setor agrícola é afetado com as mudanças climáticas e defende práticas conservacionistas para mitigar esses efeitos.

É o caso de técnicas de plantio direto e rotação de culturas, além do uso racional de fertilizantes e outros insumos. "Isso aumenta o sequestro de carbono. E a integração entre lavoura, pecuária e floresta, os sistemas integrados, ajudam na menor emissão de gases na atmosfera", explica.

Cerri aponta para o fato de que, no Brasil, atividades de silvicultura e agropecuária respondem por algo em torno de 20% a 25% das emissões de carbono. "Já a indústria, que usa combustível fóssil, é responsável pela maior parte."

Mas o professor salienta que a indústria não é afetada pelo aquecimento global, enquanto a agropecuária, sim — não só pelo aumento das temperaturas, mas também pela mudança de precipitação.

"A agricultura, a pecuária e a silvicultura estão sofrendo os impactos [das mudanças climáticas] e podem sofrer mais intensamente", ressalta. "Há práticas conservacionistas [feitas pelo setor] que ajudam muito [a mitigar esses efeitos], tanto para reduzir as emissões como para aumentar a fixação do carbono. Mas não vejo o mesmo esforço sendo feito por outros setores que mais emitem gases mas não são impactados."

Edison Veiga para a Deutsche Welle Brasil, em 25.05.2021

Nova variante do coronavírus é identificada em SP

Cepa batizada de P.4 foi detectada em vários municípios do interior do estado de São Paulo, e em ao menos um deles já circula livremente. Variante é derivada da P.1, originária de Manaus.

Mãos com luvas azuis manuseiam amostra de sangue

P.4 foi identificada pela primeira vez na cidade de Itirapina, no interior de São Paulo, a cerca de 215 quilômetros da capital

A Sociedade Brasileira de Virologia (SBV) anunciou nesta terça-feira (25/05) a descoberta de uma nova variante do coronavírus, identificada em municípios do interior estado de São Paulo.

A nova cepa foi batizada de P.4. Segundo a SBV, a variante contém a mutação L452R na proteína "spike" do vírus, alteração também presente na cepa indiana (B.1.617).

De acordo com João Araújo Júnior, vice-presidente da SBV, citado pelo portal de notícias G1, a origem da P.4 ainda é desconhecida, mas ela foi identificada pela primeira vez na cidade de Itirapina, no interior de São Paulo, a cerca de 215 quilômetros da capital paulista.

O pesquisador apontou que a P.4 é derivada da mesma linhagem que deu origem à P.1, detectada pela primeira vez em Manaus e classificada pela Organização Mundial da Saúde como "variante preocupante".

"Essa nova variante é parente da P.1, porque ela tem a mesma origem, a origem é a B.1.1.28, que é uma linhagem que deu origem à P.1, à P.2, que foi identificada no Rio de Janeiro, à P.3, que foi identificada nas Filipinas", afirmou o pesquisador ao G1.

Mês mais mortal em Porto Ferreira

Desde o dia 4 de maio, quando foi identificada pela primeira vez numa amostra, a chamada P.4 foi encontrada em vários municípios do interior paulista e em ao menos um deles, Porto Ferreira, já está circulando livremente, segundo os pesquisadores. Do total de 127 mortes confirmadas no município, 25 ocorreram em maio, o pior mês da pandemia na cidade.

Luiz Nicanor Bettiol Júnior, diretor municipal de saúde de Mococa, uma das cidades onde a variante foi detectada, ressaltou, no entanto, que ainda é cedo para saber se a P.4 é menos ou mais perigosa do que as já existentes. "O que pode se dizer é que foi observada uma característica genética diferente", disse ao jornal Folha de S. Paulo.

Ainda não foi confirmado se a nova cepa é mais transmissível, como ocorre com a P.1, que é três vezes mais infeciosa do que a cepa original do coronavírus, segundo o Ministério da Saúde.

No entanto, a presença da mutação L452R na variante P.4 está associada a um maior poder de infecção e aparentemente permite que o vírus escape de anticorpos produzidos por pacientes que já superaram a covid-19.

Araújo Júnior afirmou que é importante acompanhar com cuidado a P.4, cuja circulação está aumentando, para evitar que se espalhe para outras regiões.

Segundo comunicado da SBV, estiveram envolvidos na descoberta da P.4 o Instituto de Biotecnologia (IBTEC), Instituto de Biociências – UNESP Botucatu, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (IBILCE) – UNESP, São José do Rio Preto, do Laboratório de Pesquisa em Virologia da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP), Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF), Unesp de Araraquara e da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP Pirassununga (FZEA-USP).

Celeiro de variantes

Com mais de 16 milhões de casos e 452 mortes por covid-19 confirmadas, o Brasil é o segundo país com mais óbitos pela doença, atrás apenas dos EUA, e o terceiro com mais infecções, atrás dos EUA e da Índia.

A alta circulação do coronavírus causador da covid-19, o Sars-Cov-2, transformou um país no que cientistas descrevem como um celeiro de novas variantes. Quanto mais o vírus se dissemina, maior a probabilidade de mutações ocorrerem, dando origem a novas cepas.

A Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo informou, segundo o G1, que até o momento a P.4 não foi oficialmente notificada. "Atualmente, somente três [variantes] são consideradas ‘variantes de atenção' pelas autoridades sanitárias devido à possibilidade de aumento de transmissibilidade ou gravidade da infecção, por exemplo. São elas: P.1, B.1.1.7 [variante britânica] e B.1.351 [variante sul-africana]."

A OMS classifica como variantes de preocupação global (VOC, na sigla em inglês) a P.1, do Brasil; a B.1.1.7, primeiramente detectada no Reino Unido; a B.1.351, da África do Sul; e a B.1.617, da Índia. São consideradas preocupantes variantes para as quais há evidência de maior transmissibilidade, mais casos graves, redução da capacidade de neutralização por anticorpos, eficácia reduzida de tratamentos ou vacinas, ou falhas no diagnóstico.

Deutsche Welle Brasil, em 26.05.2021

terça-feira, 25 de maio de 2021

Principais pontos do depoimento da "capitã cloroquina" à CPI

Mayra Pinheiro, secretária do Ministério da Saúde, contradiz Pazuello, defende medicamento sem eficácia contra covid-19 e admite que pasta orientou médicos a adotarem o chamado "tratamento precoce"


"Capitã cloroquina" Mayra Pinheiro durante reunião da CPI da Pandemia do Senado.

O depoimento à CPI da Pandemia da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, nesta terça-feira (25/05), foi marcado por uma série de contradições, além de uma forte defesa do chamado "tratamento precoce” contra o coronavírus, como é conhecido o coquetel bolsonarista formado por drogas ineficazes contra a covid-19, como a cloroquina.

Pinheiro, conhecida como "capitã cloroquina” por sugerir diversas vezes a aplicação do medicamento no tratamento contra a covid-19, foi a nona depoente na CPI que investiga ações e omissões do governo federal e dos estados no combate à pandemia.

Ela disse que jamais recebeu orientação da presidência da República para promover o uso do remédio – sem eficácia cientificamente comprovada contra a covid-19 – e disse que isso tampouco teria ocorrido por sua escolha pessoal.

Algumas de suas declarações contrastaram com o depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello  aos senadores na semana passada.

Pinheiro disse que Pazuello teria sido informado sobre a falta de oxigênio em Manaus no dia 8 de janeiro, dois dias antes da data que ele mencionou à CPI. Ao contrário do ex-ministro, ela disse que a plataforma TrateCov do Ministério da Saúde não foi hackeada, mas sim, teria sido alvo de uma "extração indevida de dados”.

Cloroquina e "tratamento precoce”

Pinheiro disse que o Ministério nunca determinou o uso da cloroquina no tratamento da covid-19, apenas orientou a aplicação de "doses seguras” do medicamento em pacientes infectados.

"O Ministério da Saúde nunca indicou tratamentos para a Covid. O Ministério da Saúde criou um documento juridicamente perfeito, que é a nota orientativa número 9, que depois virou a nota 17, onde nós estabelecemos doses seguras, onde os médicos pudessem utilizar medicamentos, com o consentimento de pacientes, de acordo com o seu livre arbítrio", afirmou a secretária.

Questionada pelo relator da CPI, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), se foi pressionada pelo presidente Jair Bolsonaro  para defender a cloroquina, ela respondeu que não. "Nunca recebi ordem, e o uso desses medicamentos não é uma iniciativa minha pessoal", disse a secretária.

O presidente e seus aliados defendem o chamado "tratamento precoce", que tem como base medicamentos que não têm eficácia cientificamente comprovada contra o coronavírus, assim como a cloroquina.

A secretária afirmou que a recomendação desse tratamento para combater a doença deve depender do "livre arbítrio" dos médicos, com o consentimento dos pacientes.

"Eu mantenho a orientação enquanto médica, que a gente possa usar todos os recursos possíveis para salvar vidas”, afirmou, ao ser perguntada se mantem ainda hoje a recomendação do uso da cloroquina.

TrateCov

Pinheiro disse à CPI que o aplicativo Tratecov, elaborado pelo Ministério da Saúde, foi alvo de uma extração de dados, e não um hackeamento, como afirmou Pazuello. Segundo a secretária, este teria sido o motivo que levou o Ministério desativar a ferramenta.

Ao contrário de Pazuello, Pinheiro disse que não houve alterações no aplicativo porque ele era seguro, e que foi desativado para que houvesse uma investigação. Por sua, vez, o ex-ministro havia dito aos senadores que o aplicativo foi manipulado e colocado no ar pelo hacker.

"Ele pegou esse diagnóstico, botou, alterou, com dados lá dentro, e colocou na rede pública. Quem colocou foi ele; tem todo o boletim de ocorrência. Eu vou disponibilizar para os senhores", disse Pazuello.

A secretária, entretanto, disse que o laudo da perícia no aplicativo mostra não ter havido hackeamento. "Ele não conseguiu hackear [...] foi uma extração indevida de dados. O termo usado [pelo ex-ministro] foi um termo de leigos", afirmou.

Pinheiro disse que o TrateCov foi elaborado para ser uma plataforma para auxiliar médicos no diagnóstico da covid-19. Os senadores, entretanto, afirmam que o aplicativo também receitava cloroquina para crianças e adolescentes.

Após o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), criticar o fato de o Ministério ter desativado um dispositivo que poderia ajudar no combate à doença, a secretária afirmou que a ferramenta estaria sendo "organizada” e deve voltar a ser utilizada.

O relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), perguntou quem autorizou a utilização do TrateCov, que ainda era um protótipo. Ela disse que o protótipo era "validado e embasado em estudo internacional” e que a decisão partiu da secretaria comandada por ela, sem citar nomes ou assumir responsabilidade.

Crise do oxigênio em Manaus

Alvo de uma investigação sobre a falta de oxigênio para os pacientes de covid-19 em Manaus, Pinheiro avalia que o Ministério da Saúde não teve nenhuma responsabilidade pelo colapso na saúde na cidade, e jogou a culpa no coronavírus.

"A responsabilidade da doença é o vírus, senador, não é o Ministério da Saúde", disse Pinheiro, ao responder um questionamento de Renan Calheiros. Ela afirmou haver "vários” problemas de gestão no estado do Amazonas, entre estes, a falta de controle e de "planejamento estratégico para o enfrentamento da doença”

"Nas unidades básicas de saúde nós não tínhamos triagem, os pacientes que chegavam com covid eram misturados com pacientes sem covid, se contaminando mais", afirmou.

Pinheiro disse que não foi informada sobre o risco da falta de oxigênio durante visita que fez a cidade, entre 3 e 5 de janeiro. "Durante o período em que eu estive lá, inclusive eu participei de visitas aos hospitais, onde foi o nosso grande choque”, afirmou.

Calheiros quis saber em qual momento ela percebeu que faltaria oxigênio medicinal em Manaus. "Não houve uma percepção que faltaria", respondeu.

"Pelo que eu tenho de provas, é que nós tivemos uma comunicação por parte da Secretaria estadual, que transferiu para o ministro um email da White Martins [empresa fornecedora de oxigênio] dando conta de que haveria um problema de abastecimento, segundo eles mencionado como um problema na rede", disse a secretária.

Ela afirmou ainda que seria "impossível fazer uma previsão" sobre a quantidade de oxigênio que seria necessária para suprir a necessidade de Manaus.

Julgamento de Nuremberg

Renan Calheiros gerou revolta de alguns senadores ao usar como exemplo na CPI o julgamento de Nuremberg, onde oficiais nazistas foram acusados pelas atrocidades cometidas na 2ª Guerra Mundial.

O senador lembrou que Hermann Göring, membro do alto escalão do regime nazista, manteve sua lealdade a Adolf Hitler, e "insistiu que não sabia nada que que tinha acontecido”.

Alguns senadores da situação protestaram e disseram que era indevido comparar o genocídio nazista com o momento atual do país.

"Nuremberg reuniu e puniu inúmeros próceres nazistas e há muitos questionamentos, até hoje, que são feitos sobre o próprio julgamento. Por exemplo, se não foi um julgamento dos vencedores apenas; se a pena de morte dada como sentença não deveria ter sido a pena de prisão pelos crimes cometidos. São balizadores importantes", disse o relator.

Calheiros disse que era sempre bom lembrar que a CPI "não é um tribunal de guerra, nem de exceção", mas sim uma "instituição da democracia".

"Não haverá aqui penas capitais; haverá o respeito absoluto ao devido processo legal e a responsabilização eventual dos culpados será, se for, baseada em provas técnicas e objetivas", afirmou.

O relator negou ter comparado a pandemia com o genocídio nazista. O Holocausto é "assustadoramente comparável na negação dos oficiais nazistas e de algumas autoridades que depuseram aqui nesta CPI”, justificou.

Deutsche Welle Brasil, em 25.05.2021

Brasil registra 2.173 mortes por covid-19 em 24 horas

País teve 73.453 novos casos da doença, o que eleva o total de infectados desde o início da epidemia para 16.194.209. Número acumulado de óbitos aumenta para 452.031.

Vista aérea de cemitério em Manaus, com várias cruzes azuis. Média móvel de novas mortes no Brasil ficou em 1.894, e a de novos casos, em 65.910

Média móvel de novas mortes no Brasil ficou em 1.894, e a de novos casos, em 65.910

O Brasil registrou oficialmente 2.173  mortes ligadas à covid-19 nas últimas 24 horas, segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass) nesta terça-feira (25/05).

Também foram confirmados 73.453 novos casos da doença. Com isso, o total de infecções no país chega a 16.194.209, e os óbitos somam agora 452.031.

Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que os números reais devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação. 

O Conass não divulga número de recuperados. Segundo o Ministério da Saúde, 14.552.024 pacientes haviam se recuperado da doença até esta segunda-feira.

Com os dados de óbitos registrados nesta terça, a taxa de mortalidade por grupo de 100 mil habitantes subiu para 215,1 no país, a 10ª maior do mundo, se excluído o país nanico San Marino.

A média móvel de novas mortes (soma dos óbitos nos últimos sete dias e a divisão do resultado por sete) ficou em 1.894, e a média móvel de novos casos, em 65.910.

Em números absolutos, o Brasil é o segundo país do mundo com mais mortes, atrás apenas dos Estados Unidos, que somam mais de 590 mil óbitos. É ainda o terceiro país com mais casos confirmados, depois de EUA (33,1 milhões) e Índia (26,9 milhões).

Ao todo, mais de 167 milhões de pessoas contraíram o coronavírus no mundo, e 3,47 milhões de pacientes morreram em decorrência da doença, segundo números oficiais.

Deutsche Welle Brasil, em 25.05.2021

Escritório de Ricardo Salles fez operação suspeita de R$ 1,799 milhão após ministro assumir Meio Ambiente, aponta Coaf

Órgão de combate à lavagem de dinheiro destacou que movimentação financeira destoou do perfil histórico de transações; defesa de Salles nega.


O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles Foto: UESLEI MARCELINO/Reuters/19-5-2021

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) diz que o escritório de advocacia de Ricardo Salles realizou uma operação financeira suspeita de R$ 1,799 milhão após o ministro assumir a pasta do Meio Ambiente. Essa transação financeira, de acordo com o órgão de combate à lavagem de dinheiro, teria ocorrido entre outubro de 2019 e abril de 2020. A defesa de Salles nega.

(Três mil carregamentos de madeira da Amazônia deixaram o país sem autorização, dizem técnicos do Ibama)

A principal suspeita apontada pelo Coaf envolve uma operação no mercado financeiro que teria sido realizada pelo escritório de Salles, "destoando do perfil histórico de operações". "Chamou a atenção o volume expressivo movimentado", ressalta o relatório sigiloso do órgão, obtido pelo GLOBO.

Os indícios de irregularidades em movimentações financeiras feitas pelo escritório do ministro do Meio Ambiente foram enviados pelo Coaf à Polícia Federal e serviram como uma das provas para embasar a Operação Akuanduba, deflagrada na semana passada com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF) e que cumpriu busca e apreensão nos endereços de Salles.

(De facilitação para contrabando de madeira até corrupção, entenda as suspeitas que recaem sobre Ricardo Salles)

O Coaf afirma em seu relatório que o escritório do ministro do Meio Ambiente realizou "movimentação de recursos incompatível com o patrimônio". O faturamento médio anual da banca jurídica identificado pelo órgão foi de R$ 350 mil, mas, segundo o relatório, foram realizadas transações superiores à receita da sociedade formada entre Salles e a sua mãe, Diva Carvalho de Aquino.

"Suspeita-se da incompatibilidade entre o volume transacionado a crédito no período e o faturamento médio mensal de cadastro, aparentemente, indicando movimentação de recursos não declarados", diz o Coaf.

(Bela Megale:  Alvo de operação da PF, Salles não entregou seu celular a policiais)

No período de janeiro de 2012 a junho de 2020, o escritório do ministro do Meio Ambiente registrou movimentação financeira total de R$ 14 milhões, considerando entradas e saídas de recursos, segundo o relatório do Coaf. Desse volume, de acordo com o órgão, a banca recebeu R$ 7 milhões em suas contas de diversos clientes. O relatório, porém, não apresentou o detalhamento dos anos referentes a esses pagamentos nem apontou repasses de madeireiras que foram alvos da Operação Akuanduba.

Com base nessas informações, a Polícia Federal solicitou ao ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito no Supremo Tribunal Federal, autorização para quebrar os sigilos bancário e fiscal de Salles para obter mais detalhes das operações suspeitas. O pedido foi deferido. Agora, os investigadores devem cruzar os dados para esclarecer o caso.

(Malu Gaspar:  Diretor-geral da PF não foi informado antes de operação sobre Ricardo Salles)

O relatório do Coaf foi um dos principais elementos utilizados pela Polícia Federal para justificar a inclusão de Salles na investigação. "Cremos que a confirmação da simples existência de operações suspeitas a cargo do ministro Salles, no mesmo período dos fatos em apuração neste IPL, juntamente com os demais elementos coligidos, permitem que seja apreciado por V. Excelência a judicialização destes autos perante este tribunal (o STF)", escreveu a PF.

Procurada, a defesa de Salles negou irregularidades e afirmou que os clientes do escritório do ministro não têm relação com suas atividades políticas. "Todas as questões relativas à investigação serão prestadas nos autos do inquérito, tão logo se tenha acesso. Não existe nenhum movimento suspeito em relação ao escritório de advocacia, que tem clientes sem qualquer relação com atividades políticas. A ética e o sigilo impedem quaisquer comentários", afirmou o advogado Fernando Fernandes, que defende o ministro do Meio Ambiente.

Aguirre Talento e Mariana Muniz, O Globo, em 25/05/2021 - 04:30

Andreazza: Uh! É Pazuello!

Pazuello é o herói bolsonarista que esculacha o Senado e o Supremo com o seu "habeas corpus".

"Uh! É Pazuello!’ Assim gritavam — ante a chegada do ex-ministro da Saúde — os patriotas aglomerados no Aterro do Flamengo para ouvir a pregação de Bolsonaro. O general, também ele motoqueiro, não poderia perder a oportunidade de formar naquele bonde. E que esculacho então deu no Supremo Tribunal Federal, no Senado da República e no Exército de Caxias.

Sobre o carro de som, apostava num habeas corpus da acomodação. Um cálculo bastante fácil, a serviço que esteve — como militar — de um governo militar. Ora, cumprira a missão. Não o deixariam só. Esculacho no Exército de Caxias? Talvez não. Antes de subir à ribalta, decerto pensou no que se passara a Hamilton Mourão quando de seus discursos golpistas — nada, senão a fama que o levaria à Vice-Presidência. E não lhe terá escapado que o próprio Bolsonaro comandaria, em 2021, um governo de generais a seu inteiro dispor mesmo depois de haver conspirado — 34 anos antes, sem qualquer punição à vera — contra a Força.

Esculacho no Exército de Caxias? Não. Pazuello lançara-se ao microfone — sem o menor receio de rasgar os códigos militares — porque encorajado pela história e, mais recentemente, pela partidarização do Exército a partir de Villas Bôas. Aí está. O recado chega, chegou, no guarda da esquina; de modo que o menor dos perigos seria um general "penalizado" com a reserva e livre para se candidatar. É o que quer. Processo disciplinar a valer? Hum...

“Uh! É Pazuello!” Assim gritavam os patriotas aglomerados no Aterro do Flamengo para ouvir a mensagem do libertador Bolsonaro contra os tiranos governadores que nos impingiriam um lockdown só existente na imaginação dos que dependem de forjar inimigos, o clímax de um domingo em que o presidente liderara uma procissão — em que o mito foi o vírus — por uma cidade depauperada pela peste.

Não era pouca gente. Bolsonaro tem base social sólida e competitiva; é aquele que empunha a caneta e que multiplicará a jorração de dinheiros — os orçamentos secretos — para se reeleger. (Alô, general Ramos!) Não era pouca gente. (Em meio à qual o ministro-técnico Tarcísio, o deslumbrado.) E não era pouca a violência. Uma linguagem sectária, de imposição, de atropelamento, não à toa sobre rodas; o tom desde o qual o bolsonarismo — um fenômeno reacionário com rara capacidade de mobilizar ressentidos — já chama 2022. E que não se subestime o impacto da volta de Lula ao tabuleiro como despertador de rejeições amortecidas. Será doente o ano que vem brasileiro, ainda mais do que foi 2018. Todas as condições para a guerra estão dadas; para que adversários se meçam nas ruas, no braço. A ver a forma radicalizada como Bolsonaro — à cata de pautar novamente o debate público — reage à CPI.

Palavras resultam. Mais tarde, no domingo em que se aglomeraram os patriotas pela liberdade, uma parcela dos que seguiram Bolsonaro — representativa da não pequena porção de fascistas que anima o bolsonarismo — cercaria um jornalista, impediria que exercesse a profissão e o veria sair no carro da polícia, como se infrator, como se detido fosse. Havia algo como mil agentes de segurança pública designados para proteger o presidente enquanto cometia sucessivos crimes sanitários, mas não houve um fardado que se mobilizasse para garantir que o repórter pudesse trabalhar. Poucas horas antes, Bolsonaro fora recebido pelo governador Cláudio Castro, que lhe garantia o aparato para que aglomerasse em trânsito sem os riscos que diariamente baleiam os cariocas.

Aliás, tendo o cortejo saído do que outrora foi um Parque Olímpico, ora sabemos que a Comlurb, diante da visita do presidente, motivou-se para podar as árvores e limpar minimamente um terreno que, ao carioca não habitante de Brasília, tornara-se um paraíso baldio para usufruto de criminosos. Seria o caso de agradecer a Bolsonaro, por cuja presença faz-se conservação urbana no Rio de Janeiro? Seria decerto o caso de cobrar do prefeito Eduardo Paes algo que não a covardia, se vige entre nós um decreto que tipifica como infrações várias das barbaridades produzidas pelo presidente. E aí? A alternativa sendo a desmoralização absoluta do pouco respeito que ainda há pelas medidas restritivas. (Até o fechamento desta coluna, ao fim da tarde de segunda-feira, da prefeitura só vinha o silêncio.)

“Uh! É Pazuello! Uh! É Pazuello!” Sobre o carro de som, segundo a versão bolsonarista influente, estava o Pazuello herói, aquele que, mesmo com um habeas corpus, preferiu encarar os senadores e falar à CPI. No mundo real: usara e abusara do habeas corpus para distorcer e dissimular. Poderia ficar calado, mas lhe era dado também mentir — tinha o salvo-conduto para não ser preso. E mentiu. Um general da ativa que pretendeu enganar o Senado. Mas de cujos embustes — enquanto tentava tirar peso do método de difusão bolsonarista, como se a manipulação da linguagem em rede pelo presidente fosse algo irrelevante, inconsequente e mesmo à margem dos rigores da República — sairia a precisa captura do escorregadio modo de expressão de Bolsonaro: “coisa de internet”.

Palavras resultam. O ataque fascista ao jornalismo — o assalto que interditou a um repórter o direito de trabalhar — é produto da “coisa de internet”; o código por meio do qual o presidente dispara comandos e sopra apitos, e que serve tanto para interromper convênios destinados à aquisição de vacinas quanto para cultivar ódios.

Carlos Andreazza, o autor deste artigo, é colunista d'O Globo e apresentador da Rádio CBN. Publicado originalmente em 25.05.2021.

Merval Pereira: Um mau soldado

Bolsonaro está levando os militares a uma situação limite, como, aliás, fez constantemente enquanto estava na ativa. Capitão, planejou atentados terroristas para reivindicar melhores salários, foi condenado por um conselho de justificação, mas absolvido pelo Superior Tribunal Militar (STM) em 1988, meses antes de ir para a reserva, num aparente acordo.

Antes, escrevera um artigo na revista “Veja”, em setembro de 1986, denunciando uma “situação crítica da tropa no que se refere aos vencimentos”. Pegou 15 dias de cadeia por indisciplina. “Um mau soldado”, como o classificou o general Ernesto Geisel. Na política, Bolsonaro fazia panfletagem na porta de quartéis nas eleições. Frequentemente era pedido que se afastasse do quartel para fazer sua campanha. Alguns dos generais hoje no governo fizeram essa intermediação com o então deputado Bolsonaro, que chegou à Presidência da República com o apoio e condescendência dos militares, convencidos de que somente ele poderia derrotar o PT em 2018. Hoje, a possibilidade de um novo confronto entre Lula e Bolsonaro em 2022 fortalece sua posição entre os militares.

Incentivado por Bolsonaro — que já quebrara a regra de ouro de não levar a política para dentro dos quartéis quando fez um comício em frente ao Quartel-General do Exército em Brasília —, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello rompeu com a máxima do Exército, de hierarquia e disciplina, ao participar de um ato político no domingo no Rio, sendo general de divisão da ativa.

A partir dessa evidência, o ministro da Defesa, general Braga Netto, e o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, tentam achar uma saída que não desmoralize o Exército, nem crie uma crise institucional com a Presidência da República. Mas Pazuello não pode ser tratado com excepcionalidade.

Não puni-lo seria péssimo sinal de que a política está tomando conta dos quartéis. O que não pode, e é o que Bolsonaro está fazendo, é usar o Exército como instrumento político. Está na hora de os militares levarem isso a sério, sob o risco de desmoralização completa da ideia de uma corporação de Estado, hierarquicamente bem definida, e de todos se sentirem autorizados a fazer política nos quartéis.

O ministro Luiz Eduardo Ramos, hoje no Gabinete Civil, teve a sensibilidade de pedir para ir para a reserva quando se viu envolvido, na rampa do Palácio do Planalto, numa manifestação política conduzida por Bolsonaro.

Estava “disfarçado”, em meio a vários assessores, quando o presidente o chamou para a frente da manifestação. Admitiu que não poderia estar ali como general da ativa e pediu para ir para a reserva para poder continuar no governo. Durante muito tempo, tentou convencer Pazuello a fazer o mesmo, sem ter tido sucesso, muito porque Bolsonaro não considerava necessário.

A presença do presidente Bolsonaro em, na média dos primeiros dois anos de seu governo, uma formatura por mês de militares membros das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) e das polícias Militar, Federal e Rodoviária Federal indica uma tentativa de sua parte de politização dos quartéis. O especialista Adriano de Freixo, professor do Departamento de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (Inest-UFF), num estudo já analisado aqui sobre os militares no governo Bolsonaro, ressalta que uma variável que não deve ser ignorada nessa conjuntura é a “bolsonarização” dos estratos inferiores da corporação.

Outro aspecto da “bolsonarização” que começa a se tornar motivo de preocupação, para o professor da UFF, são as polícias militares estaduais, definidas na Constituição como forças auxiliares e reservas do Exército. Ele considera que “o quadro se torna mais complicado quando se leva em consideração a simbiose que existe em diversos estados da Federação entre parte das corporações policiais e forças parapoliciais, as chamadas “milícias” — que, no Rio de Janeiro, já têm o controle efetivo de vastos territórios —, e os crescentes indícios de ligação entre elas e figuras relevantes do entorno de Jair Bolsonaro”.

Merval Pereira participa do Conselho Editorial do Grupo Globo. É membro das Academias Brasileira de Letras, Brasileira de Filosofia e de Ciências de Lisboa. Recebeu os prêmios Esso de Jornalismo e Maria Moors Cabot, da Columbia University. Este artigo foi publicado n'O Globo, em 25.05.2021.

Inflação mais desemprego

Esses dois infortúnios raramente ocorrem ao mesmo tempo – e juntá-los tem sido um dos feitos memoráveis do atual governo
 
Inflação esfola o trabalhador, o desemprego o esmaga. Esses dois infortúnios só raramente ocorrem ao mesmo tempo – e juntá-los tem sido um dos feitos memoráveis do atual governo. Enquanto o presidente passeia sem máscara, provoca ajuntamentos e comanda desfiles a cavalo ou de motocicletas, como se houvesse algo para celebrar, dezenas de milhões de brasileiros enfrentam as durezas da ocupação escassa, do dinheiro curto e do aumento do custo de vida. A inflação ficará acima da meta neste ano e no próximo, segundo as últimas projeções, e, pior que isso, poderá estourar em 2021 o limite de tolerância – de 5,25% – fixado pelas autoridades.

Passado o primeiro choque da pandemia, a atividade econômica voltou a crescer, embora em ritmo ainda insuficiente para zerar o recuo do ano passado. A desocupação permanece elevada e o custo de sobrevivência das famílias, já em alta sensível nos meses finais de 2020, continua avançando. Mesmo com algum recuo no segundo semestre, a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), poderá fechar o ano com alta acumulada de 5,3%, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério da Economia. No mercado, a mediana das projeções aponta 5,24% para este ano, taxa bem superior à meta (3,75%) e muito próxima do limite superior de tolerância, de acordo com a pesquisa Focus, do Banco Central (BC).

A mesma pesquisa registra, com base num grupo menor de instituições, uma projeção mais atualizada: 5,36%. Para 2022 o relatório indica uma alta de preços – de 3,67% – superior ao centro da meta, fixado em 3,5%. Só em 2023 o aumento do IPCA deverá voltar ao centro do alvo, de 3,25%, mas essa previsão está longe de ser tranquilizante. As pressões continuarão fortes e, se nada tornar o quadro mais complicado, a alta de preços baterá na meta. Uma folga significativa no ritmo da inflação parece improvável, num ambiente de incerteza e dólar instável.

A novidade mais favorável no front inflacionário é um certo arrefecimento dos custos da comida – à primeira vista, uma bênção para os pobres. Nos 12 meses até abril os preços de alimentos consumidos em casa aumentaram 15,5%, 3,6 pontos porcentuais a menos que no período até janeiro. Mas esse grupo permaneceu, como observam os autores do estudo do Ipea, como principal foco de pressão inflacionária. Excluído o impacto dos preços dos alimentos, a inflação nos 12 meses até abril caiu de 6,76% para 5,34%. Mas o quadro muda quando se observam certos detalhes.

No caso da comida, o arrefecimento pode ter sido passageiro. Além disso, os novos aumentos, mesmo quando mais moderados, ocorrem sobre uma base muito elevada, sem proporcionar de fato um alívio. Além disso, os aumentos de preços monitorados, como os de eletricidade e gás, também complicam severamente a situação das famílias pobres. Não basta pôr algum alimento na panela. É preciso ter meios para cozinhá-lo. Todos esses problemas se tornam mais graves quando afetam pessoas desocupadas, sem renda ou com renda comprimida.

Os últimos números do desemprego são do trimestre dezembro-fevereiro. Nesse período havia 14,4 milhões de desempregados, equivalentes a 14,4% da força de trabalho. Nenhuma informação dos meses seguintes sugere mudança significativa nas condições de emprego. Se tiver ocorrido alguma melhora, deve ter sido muito moderada, a julgar pelas condições fracas do consumo e da atividade na indústria e no setor de serviços. Também quanto a esse ponto a situação brasileira é uma das piores, quando se observam as economias emergentes e as desenvolvidas.

Nos 37 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) a inflação nos 12 meses até março estava em 2,4%. Na União Europeia havia chegado a 1,7%. Nos Estados Unidos havia atingido 2,6%. No Brasil havia batido em 6,1%. Na OCDE, em março, o desemprego médio havia recuado para 6,5%. Nenhum chefe de governo dos países desse grupo foi filmado em aglomerações ou comandando um desfile de motociclistas.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de S.Paulo, em 25 de maio de 2021 | 03h00

Principais pontos do depoimento da "capitã cloroquina" à CPI

Mayra Pinheiro, secretária do Ministério da Saúde, contradiz Pazuello, defende medicamento sem eficácia contra covid-19 e admite que pasta orientou médicos a adotarem o chamado "tratamento precoce.

"Capitã cloroquina" Mayra Pinheiro durante reunião da CPI da Pandemia do Senado.

O depoimento à CPI da Pandemia da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, nesta terça-feira (25/05), foi marcado por uma série de contradições, além de uma forte defesa do chamado "tratamento precoce” contra o coronavírus, como é conhecido o coquetel bolsonarista formado por drogas ineficazes contra a covid-19, como a cloroquina.

Pinheiro, conhecida como "capitã cloroquina” por sugerir diversas vezes a aplicação do medicamento no tratamento contra a covid-19, foi a nona depoente na CPI que investiga ações e omissões do governo federal e dos estados no combate à pandemia.

Ela disse que jamais recebeu orientação da presidência da República para promover o uso do remédio – sem eficácia cientificamente comprovada contra a covid-19 – e disse que isso tampouco teria ocorrido por sua escolha pessoal

Algumas de suas declarações contrastaram com o depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello  aos senadores na semana passada.

Pinheiro disse que Pazuello teria sido informado sobre a falta de oxigênio em Manaus no dia 8 de janeiro, dois dias antes da data que ele mencionou à CPI. Ao contrário do ex-ministro, ela disse que a plataforma TrateCov do Ministério da Saúde não foi hackeada, mas sim, teria sido alvo de uma "extração indevida de dados”.

Cloroquina e "tratamento precoce”

Pinheiro disse que o Ministério nunca determinou o uso da cloroquina no tratamento da covid-19, apenas orientou a aplicação de "doses seguras” do medicamento em pacientes infectados.

"O Ministério da Saúde nunca indicou tratamentos para a Covid. O Ministério da Saúde criou um documento juridicamente perfeito, que é a nota orientativa número 9, que depois virou a nota 17, onde nós estabelecemos doses seguras, onde os médicos pudessem utilizar medicamentos, com o consentimento de pacientes, de acordo com o seu livre arbítrio", afirmou a secretária.

Questionada pelo relator da CPI, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), se foi pressionada pelo presidente Jair Bolsonaro  para defender a cloroquina, ela respondeu que não. "Nunca recebi ordem, e o uso desses medicamentos não é uma iniciativa minha pessoal", disse a secretária.

O presidente e seus aliados defendem o chamado "tratamento precoce", que tem como base medicamentos que não têm eficácia cientificamente comprovada contra o coronavírus, assim como a cloroquina.

A secretária afirmou que a recomendação desse tratamento para combater a doença deve depender do "livre arbítrio" dos médicos, com o consentimento dos pacientes.

"Eu mantenho a orientação enquanto médica, que a gente possa usar todos os recursos possíveis para salvar vidas”, afirmou, ao ser perguntada se mantem ainda hoje a recomendação do uso da cloroquina.

TrateCov

Pinheiro disse à CPI que o aplicativo Tratecov, elaborado pelo Ministério da Saúde, foi alvo de uma extração de dados, e não um hackeamento, como afirmou Pazuello. Segundo a secretária, este teria sido o motivo que levou o Ministério desativar a ferramenta.

Ao contrário de Pazuello, Pinheiro disse que não houve alterações no aplicativo porque ele era seguro, e que foi desativado para que houvesse uma investigação. Por sua, vez, o ex-ministro havia dito aos senadores que o aplicativo foi manipulado e colocado no ar pelo hacker.

"Ele pegou esse diagnóstico, botou, alterou, com dados lá dentro, e colocou na rede pública. Quem colocou foi ele; tem todo o boletim de ocorrência. Eu vou disponibilizar para os senhores", disse Pazuello.

A secretária, entretanto, disse que o laudo da perícia no aplicativo mostra não ter havido hackeamento. "Ele não conseguiu hackear [...] foi uma extração indevida de dados. O termo usado [pelo ex-ministro] foi um termo de leigos", afirmou.

Pinheiro disse que o TrateCov foi elaborado para ser uma plataforma para auxiliar médicos no diagnóstico da covid-19. Os senadores, entretanto, afirmam que o aplicativo também receitava cloroquina para crianças e adolescentes.

Após o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), criticar o fato de o Ministério ter desativado um dispositivo que poderia ajudar no combate à doença, a secretária afirmou que a ferramenta estaria sendo "organizada” e deve voltar a ser utilizada.

O relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), perguntou quem autorizou a utilização do TrateCov, que ainda era um protótipo. Ela disse que o protótipo era "validado e embasado em estudo internacional” e que a decisão partiu da secretaria comandada por ela, sem citar nomes ou assumir responsabilidade.

Crise do oxigênio em Manaus

Alvo de uma investigação sobre a falta de oxigênio para os pacientes de covid-19 em Manaus, Pinheiro avalia que o Ministério da Saúde não teve nenhuma responsabilidade pelo colapso na saúde na cidade, e jogou a culpa no coronavírus.

"A responsabilidade da doença é o vírus, senador, não é o Ministério da Saúde", disse Pinheiro, ao responder um questionamento de Renan Calheiros. Ela afirmou haver "vários” problemas de gestão no estado do Amazonas, entre estes, a falta de controle e de "planejamento estratégico para o enfrentamento da doença”

"Nas unidades básicas de saúde nós não tínhamos triagem, os pacientes que chegavam com covid eram misturados com pacientes sem covid, se contaminando mais", afirmou.

Pinheiro disse que não foi informada sobre o risco da falta de oxigênio durante visita que fez a cidade, entre 3 e 5 de janeiro. "Durante o período em que eu estive lá, inclusive eu participei de visitas aos hospitais, onde foi o nosso grande choque”, afirmou.

Calheiros quis saber em qual momento ela percebeu que faltaria oxigênio medicinal em Manaus. "Não houve uma percepção que faltaria", respondeu.

"Pelo que eu tenho de provas, é que nós tivemos uma comunicação por parte da Secretaria estadual, que transferiu para o ministro um email da White Martins [empresa fornecedora de oxigênio] dando conta de que haveria um problema de abastecimento, segundo eles mencionado como um problema na rede", disse a secretária.

Ela afirmou ainda que seria "impossível fazer uma previsão" sobre a quantidade de oxigênio que seria necessária para suprir a necessidade de Manaus.

Julgamento de Nuremberg

Renan Calheiros gerou revolta de alguns senadores ao usar como exemplo na CPI o julgamento de Nuremberg, onde oficiais nazistas foram acusados pelas atrocidades cometidas na 2ª Guerra Mundial.

O senador lembrou que Hermann Göring, membro do alto escalão do regime nazista, manteve sua lealdade a Adolf Hitler, e "insistiu que não sabia nada que que tinha acontecido”.

Alguns senadores da situação protestaram e disseram que era indevido comparar o genocídio nazista com o momento atual do país.

"Nuremberg reuniu e puniu inúmeros próceres nazistas e há muitos questionamentos, até hoje, que são feitos sobre o próprio julgamento. Por exemplo, se não foi um julgamento dos vencedores apenas; se a pena de morte dada como sentença não deveria ter sido a pena de prisão pelos crimes cometidos. São balizadores importantes", disse o relator.

Calheiros disse que era sempre bom lembrar que a CPI "não é um tribunal de guerra, nem de exceção", mas sim uma "instituição da democracia".

"Não haverá aqui penas capitais; haverá o respeito absoluto ao devido processo legal e a responsabilização eventual dos culpados será, se for, baseada em provas técnicas e objetivas", afirmou.

O relator negou ter comparado a pandemia com o genocídio nazista. O Holocausto é "assustadoramente comparável na negação dos oficiais nazistas e de algumas autoridades que depuseram aqui nesta CPI”, justificou.

Deutsche Welle Brasil, em 25.05.2021

Ministro do STF ordena que governo federal proteja terras indígenas

Em decisão, Barroso determina que União destaque "todo o efetivo necessário" para garantir segurança das terras Yanomami e Munduruku. Territórios são alvo de garimpo e extração de madeira ilegais.

Garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami se intensificou nos últimos anos

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso determinou nesta segunda-feira (24/05) que o governo federal adote medidas imediatas para garantir a proteção à vida, à saúde e à segurança dos indígenas que vivem nas terras indígenas Yanomami, em Roraima e Amazonas, e Munduruku, no Pará.

Com a decisão, o ministro atendeu a um pedido feito pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), pela Defensoria Pública da União e por organizações de direitos humanos e partidos políticos, que solicitaram a proteção aos indígenas citando uma escalada de violência nas regiões e os riscos de transmissão da covid-19 nestes territórios. A ação pediu ainda a retirada de garimpeiros dos territórios indígenas.

Barroso determinou que o governo deve destacar "todo o efetivo necessário" para proteger os indígenas e permanecer na região enquanto houver risco. O ministro afirmou ainda que os territórios são alvo de mineração e extração de madeira ilegais, além de desmatamento.

"Entendo suficientemente demonstrados os indícios de ameaça à vida, à saúde e à segurança das comunidades localizadas na TI Yanomami e na TI Mundurucu. Tais indícios se expressam na vulnerabilidade de saúde de tais povos, agravada pela presença de invasores, pelo contágio por covid-19 que eles geram e pelos atos de violência que praticam", destacou o ministro.

Sigilo de operações

Na decisão, o magistrado proíbe que o governo de divulgar datas ou informações que comprometam o sigilo de operações contra grupos invasores na região, determina que a da Procuradoria-Geral da República acompanhe essas ações e solicita um relatório da União sobre a situação nas terras indígenas e resultado da operação.

Barroso autorizou ainda fiscais ambientais a destruir maquinário e instrumentos usados pelos infratores. O ministro criticou também a falta de transparência sobre a atuação do governo federal para a proteção dos indígenas.

"O risco à vida, à saúde e à segurança de tais povos se agrava ante a recalcitrância e a falta de transparência que tem marcado a ação da União neste feito, o que obviamente não diz respeito a todas as autoridades que oficiam no processo, muitas das quais têm empenhado seus melhores esforços, mas diz respeito a algumas delas, suficientes para comprometer o atendimento a tais povos", afirma.

O magistrado acrescenta que a demora na tomada de ações "pode ser fatal e implicar conflitos, mortes ou contágio".

A comunidade de Palimiú, na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, está sob tensão por conta de ataques por parte de garimpeiros armados desde ao menos 10 de maio. De acordo com a Associação Yanomami Hutukara, ao menos cinco pessoas ficaram feridas, sendo quatro garimpeiros e um indígena. Policiais federais também foram alvo de disparos no local, no dia 11, quando estiveram na comunidade para apurar o ataque dos garimpeiros. Lideranças indígenas afirmam que duas crianças morreram afogadas ao fugirem dos garimpeiros.

Desde a década de 1980, a região é alvo de garimpo ilegal, mas nos últimos anos essa exploração se intensificou. No território, vivem cerca de 27 mil indígenas, incluindo grupos isolados. Além da ameaça da covid-19, trazida pelos garimpeiros, os yanomami enfrentam ainda um surto de malária, agravado pela escassez de cloroquina.

Deutsche Welle Brasil, em 25.05.2021

Covid: por que Taiwan e Cingapura vivem alta de infecções, após serem vistos como exemplos de sucesso

Eles foram exaltados como histórias de sucesso contra o coronavírus, e registravam quase nenhum caso de covid-19 no começo de 2021

Mas neste mês, Cingapura e Taiwan passaram a enfrentar um aumento repentino e agressivo no número de infecções. O primeiro teve 248 novos casos na semana passada, e o segundo, 1.200.

Pessoas oram no Templo Lungshan, em Taiwan. (GETTY IMAGES)

Para os padrões internacionais (o Brasil tem quase 80 mil por dia), esses números podem parecer irrisórios. Mas para esses países eles eram impensáveis meses atrás. O que deu errado, afinal?

Um caso de complacência: Taiwan

Taiwan foi um dos primeiros lugares a proibir turistas estrangeiros assim que a China relatou o surgimento do vírus no fim de 2019, e essas duras restrições de fronteira permanecem em vigor até hoje.

No entanto, localmente, tanto a população quanto o governo começaram a se tornar condescendentes, complacentes.

Hospitais pararam de testar massivamente as pessoas para covid, mesmo aquelas com febre, um dos sintomas mais comuns do coronavírus

De acordo com o portal Our World in Data, da Universidade de Oxford, Taiwan realizava apenas 0,57 testes de vírus a cada 1.000 pessoas em meados de fevereiro. Em comparação, Cingapura realizava 6,21 e o Reino Unido, 8,68.

Distrito da luz vermelha de Taiwan, repleto de casas de chá e casas de massagem. (Getty Images)

"Havia uma suposição geral, mesmo com pessoas apresentando sintomas, de que a probabilidade de ter o covid-19 era essencialmente zero", disse o professor associado Lin Hsien-ho da Universidade Nacional de Taiwan à BBC, acrescentando que derivava da crença de que o vírus não poderia atravessar as fortes barreiras levantadas por Taiwan.

"Os médicos não estavam levando isso a sério, os hospitais não estavam alertas, não faziam muitos rastreamentos de contatos. Definitivamente, havia uma certa sensação de complacência."

Isso se mostrou especialmente quando Taiwan relaxou suas exigências de quarentena para pilotos de companhias aéreas não vacinados de 14 para 5 dias. E depois para só 3 dias.

Pouco depois, surgiu uma série de casos conectada a um grupo de pilotos da China Airlines que estavam hospedados em um hotel perto do aeroporto de Taoyuan. Depois, descobri-use que muitos dos infectados ligados a essa série de casos tinham contraído a variante achada no Reino Unido, conhecida como B.1.1.7.

O vírus então se espalhou pela comunidade, chegando às "casas de chá" de Taiwan, que são locais de entretenimento para adultos.

"Você tinha pessoas cantando, bebendo, entrando em contato frequente em um ambiente interno não muito ventilado. Não era apenas uma casa de chá, mas muitas na mesma rua. Foi um evento super espalhador enorme", disse Lin, da Universidade Nacional de Taiwan.

O professor Chen Chien-jen, epidemiologista e ex-vice-presidente de Taiwan, diz que o fato de muitos daqueles que tiveram diagnóstico positivo não quererem declarar que visitaram esses locais de entretenimento para adultos tornou ainda mais difícil o rastreamento das pessoas com quem eles encontraram.

"Isso apenas nos lembra que mesmo quando uma proporção muito pequena da população quebra as regras, isso levará a escapes", disse o Dr. Chen.

Ele também acrescenta que Taiwan falhou em aprender com a indústria de entretenimento adulto do Japão, que também foi um foco de infecções em um dado momento.

"Não aprendemos a lição com o Japão e refletimos que Taiwan pode ter esses mesmos problemas", disse ele.

Segundo o professor Alex Cook, da Universidade Nacional de Cingapura (NUS), a situação de Taiwan é "um reflexo do risco constante de uma estratégia que enfatiza demais o controle de fronteiras e não o suficiente em medidas de prevenção à disseminação dentro do país".

Rachaduras no muro: Cingapura

Em Cingapura, no entanto, a história foi diferente.

A medidas no país sempre foram rigorosas, apesar dos poucos casos registrados ao longo da pandemia. Encontros públicos podem reunir até oito pessoas, os clubes noturnos não foram reabriram e ainda há um limite para reuniões coletivas, como casamentos.

Mas ainda havia lacunas em sua estratégia de vacinas e, no final de maio, o Aeroporto Changi de Cingapura, que também possui um popular shopping center, havia se transformado no maior centro de covid do país em 2021.

Aeroporto de Cingapura se tornou um ponto de espalhamento de covid-19. (Getty Images)

Tempos depois, as autoridades de Cingapura descobriram que vários funcionários infectados do aeroporto estavam trabalhando em uma zona que recebia viajantes de países de alto risco, incluindo os do sul da Ásia.

Alguns desses funcionários passaram a fazer suas refeições nas praças de alimentação do aeroporto, que são abertas ao público, espalhando ainda mais o vírus.

Como resultado, o país decidiu fechar seus terminais de passageiros para o público.

Mais tarde, descobriu-se que muitos dos infectados tinham uma variante altamente contagiosa que foi descoberta na Índia, conhecida como B.1.617.

Cingapura também anunciou que iria separar voos e passageiros de países e regiões de alto risco daqueles que chegam de lugares de menor risco. A equipe de funcionários também será segregada por zonas.

Muitos no país se perguntam por que tais medidas não foram tomadas antes, observando que essas brechas foram apontadas há semanas.

Mas especialistas dizem que era "inevitável" que uma nova variante chegasse ao país.

"Eu entendo porque as pessoas estão se sentindo frustradas porque a maioria dos cingapurenses tem sido extremamente complacente", disse o professor Teo Yik Ying, reitor da Escola de Saúde Pública (NUS).

"Mas não somos como a China, que consegue manter suas fronteiras completamente fechadas. Nossa reputação como país, nossa economia, está ligada à nossa posição de centro comercial. Além disso, se olharmos para os EUA no ano passado, seus piores casos de vírus não vieram da China, mas de viajantes da Europa. Então, para quantos países Cingapura pode fechar suas fronteiras?"

Mas Cook, da Universidade Nacional de Cingapura, diz que o país ainda está em uma "posição muito boa" para conter seu surto.

"Hesito em dizer que 'as coisas deram errado', já que Cingapura ainda está, apesar da intensificação das medidas, em uma posição muito boa", disse ele.

"Se compararmos com o Reino Unido, os casos diários típicos são cerca de 10% do nível do Reino Unido se considerarmos proporcionalmente o tamanho da população. Em outras palavras, Cingapura está endurecendo as medidas para prevenir chegar a um ponto em que o vírus possa se descontrolar."

Vacinação lenta

Há um problema que atingem por igual Cingapura e Taiwan: vacina.

Muitos em Taiwan não queriam tomar a vacina quando as coisas estavam indo bem, com temores em torno de eventuais efeitos colaterais da vacina AstraZeneca-Oxford, a principal disponível no país, o que ampliou ainda mais a hesitação vacinal.

O atual aumento de casos, entretanto, mudou isso, e as pessoas em Taiwan agora estão ose aglomerando para receber a vacina. Mas o problema é: não há doses para todos.

Até agora, Taiwan recebeu apenas 300 mil vacinas, ante sua população de 24 milhões.

"Tentamos nosso melhor comprando vacinas de empresas internacionais, mas não conseguimos muito. A única maneira de sustentar nosso fornecimento é fabricando nós mesmos, isso é muito importante para Taiwan", disse Chen, ex-vice-presidente de Taiwan.

Muito em Taiwan evitaram receber vacina AstraZeneca-Oxford por temer efeitos colaterais, mas depois fizeram fila quando casos aumentaram no país. (Getty Images)

Taiwan está trabalhando atualmente na produção de duas vacinas locais, que podem estar disponíveis no final de julho.

A história é um pouco diferente em Cingapura, mas sofre da mesma escassez.

Cerca de 30% da população recebeu pelo menos uma dose da vacina, de acordo com a Universidade de Oxford, e isso representa a maior taxa de vacinação do Sudeste Asiático. Mas o país está de mãos atadas com a oferta limitada de vacinas. De todo modo, o governo espere vacinar toda a sua população até o final do ano.

"Em última análise, somos limitados pelo fornecimento. Em países como o Reino Unido, EUA, China, eles têm a capacidade de produzir suas próprias vacinas", disse Teo, da Escola de Saúde Pública de Cingapura.

"Prevemos que a necessidade de vacinas será de longo prazo, por isso estamos caminhando para ter nossas próprias capacidades de fabricação. Então não seremos mais dependentes."

Teo acrescenta que o pico em ambos os lugares é uma lição para os países que agora podem estar vendo uma queda nos casos.

"Quando vemos países na Europa ou nos Estados Unidos começando a flexibilizar as medidas de restrição à circulação de pessoas, acho que eles deveriam ser muito cautelosos e olhar ao redor do mundo para ver o que está acontecendo", disse ele.

"O que aconteceu em Taiwan e Cingapura é um sinal de que não devemos baixar a guarda."

Yvette Tan, de Cingapura para a BBC News, em 21 maio 2021

Para conter variante indiana do coronavírus, SP inicia triagem de passageiros do Maranhão

A Prefeitura de São Paulo anunciou que começará a fazer nesta terça-feira (25/05) uma triagem de passageiros oriundos do Maranhão, por meio de ônibus ou avião, para tentar conter a entrada de novas variantes na capital paulista.

Adotada em diversas partes do mundo, aferição de temperatura têm alcance limitado porque muitos infectados por covid não apresentam sintomas da doença (Getty Images).

Na última quinta-feira (20/05), o governo estadual maranhense confirmou a detecção em seu território de seis pessoas infectadas com a variante B.1.617, descoberta na Índia. Eles eram tripulantes do navio MV Shandong da Zhi, ancorado no Estado, e constituem os primeiros casos da variante no Brasil. Apenas um dos infectados segue hospitalizado, em estado grave — outros já tiveram alta ou não precisaram ser internados.

Segundo a Prefeitura de São Paulo, a triagem funcionará por até 14 dias, envolvendo a verificação de temperatura e questionamentos a passageiros, além de cadastro de todos os ocupantes dos voos e viagens de ônibus — de forma a facilitar o controle e a comunicação em caso de transmissões suspeitas ou confirmadas.

"As medidas são essenciais no controle da população que chega à cidade de São Paulo, principalmente para evitar a entrada de novas cepas e aumentar o risco de um novo aumento de casos na Capital", diz um texto da prefeitura, que tem apoio da Anvisa, do município de Guarulhos, de concessionárias de rodovias, entre outros órgãos envolvidos na ação.

Vale lembrar que medidas como aferição de temperatura têm alcance limitado porque, segundo estudo publicado no periódico Jama, pelo menos 30% dos infectados por covid não apresentam sintomas da doença.

Em nota publicada nesta segunda-feira (24/5), a secretária de Saúde do Maranhão afirmou que não há transmissão local da variante no Estado (quando a infecção já ocorre no próprio território mas pode ter a cadeia de transmissão identificada, diferente da comunitária, quando o vírus circula livremente) e que está realizando exames e monitorando pessoas que tiveram contato com tripulantes do MV Shandong da Zhi.

O que se sabe sobre essa variante

Os primeiros relatos da B.1.617 foram publicados ainda em outubro de 2020, mas a preocupação com a variante aumentou recentemente conforme piorou a crise causada pela covid-19 na Índia, seu provável local de origem.

A partir de abril, o país asiático passou a bater recordes relacionados à doença, passando neste 24 de maio de 26,7 milhões de casos e 303 mil mortes pela covid.

Uma análise da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicada no dia 9 reconhece que a guinada e a aceleração da transmissão da covid-19 na Índia tem como uma das explicações "a proporção de casos provocados por variantes com maior transmissibilidade".


Gráfico sobre variantes do coronavírus

Mas o relatório destaca outros ingredientes fundamentais para entender a crise, como "aglomerações relacionadas a eventos religiosos e políticos e a redução da aderência às medidas preventivas de saúde pública e sociais", como o uso de máscaras e o distanciamento físico.

Além do alerta acendido na Índia, a B.1.617 foi detectada em mais 44 países de todos os seis continentes.

Em algumas regiões da Inglaterra, como Bolton, Blackburn, Bedford e Sefton, ela já representa a maioria dos casos analisados e se tornou dominante.

A variante possui três versões, com pequenas diferenças: a B.1.617.1, a B.1.617.2 e a B.1.617.3. Elas apresentam mutações importantes nos genes que codificam a espícula, a proteína na superfície do vírus que é responsável por se conectar aos receptores das células humanas e dar início à infecção.

Mas cientistas ainda não sabem a real velocidade de transmissão da B.1.617 e nem o quanto ela influencia na gravidade da doença.

BBC News Brasil, em 25.05.2021

Apoio de Pazuello a Bolsonaro 'põe em xeque disciplina do Exército', diz ministra do Superior Tribunal Militar

A participação do general Eduardo Pazuello, ex-ministro na Saúde, em um ato político de apoio ao presidente Jair Bolsonaro no Rio de Janeiro "colocou em xeque a disciplina do Exército", afirma a ministra do Superior Tribunal Militar (STM) Maria Elizabeth Rocha.


Pazuello participa de ato em apoio a Bolsonaro no Rio de Janeiro (Fernando GFrazão / Ag. Brasil).

No domingo, Pazuello subiu em um caminhão de som ao lado do presidente, agradeceu o apoio do público e elogiou Bolsonaro — ambos estavam sem máscara, embora uma lei estadual estabeleça uso obrigatório da proteção no Rio de Janeiro.

Para a ministra, a atitude significou "várias transgressões" ao Regulamento Disciplinar do Exército, que proíbe o militar da ativa de se manifestar publicamente a respeito de assuntos de natureza político-partidária sem que esteja autorizado previamente.

Segundo Elizabeth Rocha, cabe ao comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, definir se Pazuello deve receber uma punição, que pode variar de advertência até uma prisão disciplinar, segundo as normas militares. Ela lembra, porém, que o presidente Jair Bolsonaro, como chefe supremo das Forças Armadas, tem o poder de reverter decisões de Nogueira.

"Seria muitíssimo complicado. Por isso, talvez uma passagem (de Pazuello) pra reserva seja o melhor caminho. Porque aí o general Pazuello, como todo cidadão civil, vai poder manifestar livremente as suas convicções ideológicas", defende Rocha.

"Sem dúvida alguma ele colocou em xeque a disciplina do Exército, porque ele se posicionou publicamente, sem estar autorizado, em assuntos de natureza político-partidária, quando ele subiu naquele carro e defendeu o governo", acrescenta ela.


"Sem dúvida alguma ele colocou em xeque a disciplina do Exército", diz Rocha sobre Pazuello (Divulgação | Superior Tribunal Militar)

Por outro lado, a ministra diz que a atitude do ex-ministro não chega a configurar um crime militar, o que manterá seu caso longe da alçada do STM. Já eventuais crimes cometidos por Pazuello enquanto comandou o Ministério da Saúde durante a pandemia de coronavírus estão sendo apurados pelo Ministério Público Federal e a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid. O general, que depôs à CPI na semana passada, deve ser novamente convocado após sua presença no ato político que provocou aglomeração no domingo.

Crítica da "politização das Forças Armadas", Elizabeth Rocha considera que Pazuello já devia ter saído da ativa desde que se tornou ministro. Ela ressalta que a proibição para a atuação política não é apenas uma norma disciplinar, mas está prevista na própria Constituição Federal.

"Um militar não pode, enquanto estiver na ativa, se filiar a partido político. E por que isso? Porque os militares detêm as armas da nação. Eles são investidos do monopólio da força legítima do Estado. O Estado os arma pra defender a pátria e a sociedade. Então, realmente, não é possível que discursos ideológicos, que discursos político-partidários, adentrem os quartéis, porque isso pode comprometer toda a cadeia de comando", explica Rocha.

"É evidente que (os militares) estão subordinados ao Presidente da República como chefe supremo. Mas ele é o chefe supremo das Forças Armadas sob o ponto de vista funcional, operacional, de defesa da pátria, e só. A questão política tem que ficar apartada desse discurso", diz ainda.

Apesar da grande repercussão em torno da participação de Pazuello no ato político, o comando do Exército e o Ministério da Defesa não se manifestaram publicamente sobre o caso ao longo de toda segunda-feira.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, Bolsonaro telefonou para o ministro da Defesa, general Braga Netto, proibindo a divulgação de qualquer nota ou manifestação pública a respeito do caso.

Ainda de acordo com a reportagem, o Exército abriu um processo para apurar se houve transgressão disciplinar e Pazuello terá até quatro dias para manifestar sua defesa.

Ameaças à democracia?

Bolsonaro promoveu uma forte militarização da administração federal no seu governo, em patamares inéditos para o atual regime democrático. Um relatório do Tribunal de Contas da União do ano passado identificou mais de seis mil militares ocupando cargos civis, sendo cerca de metade deles composta por oficiais da ativa.

Generais ocupam alguns dos principais ministérios, como a Casa Civil (Luiz Eduardo Ramos), Defesa (Braga Netto) e o Gabinete de Segurança Institucional (Augusto Heleno).

Em momentos desafiadores para seu governo, com queda da sua popularidade, com frequência Bolsonaro apela para o apoio dos militares, falando em "meu Exército" ou "minhas Forças Armadas".


Pazuello foi acusado por senadores de ter mentido durante depoimento na CPI da Covid (Reuters).

Para a ministra Elizabeth Rocha, esse cenário "não é saudável para a democracia".

"O poder civil deve prevalecer sobre o poder militar. Todos os regimes democráticos apoiam isso, e a criação do Ministério da Defesa (como um órgão civil acima das três forças) foi uma sinalização do presidente Fernando Henrique Cardoso nesse sentido", lembra ela.

"Mas isso não significa que o poder civil possa chamar os militares e se valer da atuação da força militar toda vez que ele se sinta fragilizado ou comprometido. A destinação das Forças Armadas não é defender os regimes políticos, é defender o Estado nacional", reforça.

Apesar dessa preocupação, a ministra diz que não considera que a democracia brasileira esteja hoje "ameaçada" pela politização das Forças Armadas.

Enquanto alguns analistas políticos temem o uso dos militares por Bolsonaro em caso, por exemplo, de o presidente contestar uma eventual derrota na sua tentativa de reeleição em 2022, Elizabeth Rocha diz que o contexto mundial atual é muito diferente do de 1964, quando ocorreu um golpe militar com apoio do governo dos Estados Unidos.

"Eu acho que a nossa democracia, apesar de todos os percalços, está consolidada. E também (não vejo ameaça) porque as contingências geopolíticas mundiais são completamente diferentes de 64, quando havia uma Guerra Fria e o mundo estava dividido em dois blocos de influência", afirma.

"Eu não acredito que o Joe Biden (presidente dos EUA) tenha interesse em reviver a operação Brother Sam (uso da Marinha americana para apoiar o golpe de 64). Então, esses riscos eu acho que realmente o Brasil não corre mais. Mas o fato é que essa promiscuidade do militar na política acaba por comprometer a independência, a imparcialidade e o profissionalismo na caserna", critica.

Mariana Schreiber - @marischreiber, de Brasília para a BBC News Brasil, em 25.05.2021