domingo, 14 de fevereiro de 2021

Brasil registra mais 713 mortes por covid-19

Com mais de 24 mil novos casos confirmados em um dia, total de infectados supera 9,8 milhões. Ao todo, mais de 239 mil pessoas morreram no país em decorrência do coronavírus.

Profissionais da saúde percorrem o rio Solimões para aplicar vacinas em populações ribeirinhas

O Brasil registrou oficialmente 24.759 casos confirmados de covid-19 e 713 mortes ligadas à doença neste domingo (14/02), segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass).

Com isso, o total de infecções identificadas no país desde o início da epidemia subiu para 9.834.513 casos, enquanto os óbitos somam 239.245.

Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que as cifras reais devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação. Os números divulgados no domingo também costumam ser mais baixos, já que equipes responsáveis pela notificação trabalham em escala reduzida.

O Conass não divulga número de recuperados. Segundo o Ministério da Saúde,  8.710.840 pacientes haviam se recuperado da doença até a noite de sábado.

A taxa de mortalidade por grupo de 100 mil habitantes é de 113,8 no Brasil.

Em números absolutos, o Brasil é o terceiro país do mundo com mais infecções, atrás apenas dos Estados Unidos, que somam mais de 27,6 milhões de casos, e da Índia, com 10,9 milhões. Mas é o segundo em número absoluto de mortos, atrás apenas dos EUA, que já contabilizam mais de 485 mil óbitos.

Ao todo, mais de 108,7 milhões de pessoas já contraíram o coronavírus no mundo, e 2,39 milhões de pacientes morreram.

Deutsche Welle Brasil, em 14.02.2021

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Brasil registra 1.043 mortes por covid-19 em 24 horas

Com mais de 44 mil novos casos confirmados em um dia, total de infectados passa de 9,8 milhões. Ao todo, mais de 238 mil morreram no país em decorrência do coronavírus.

Paciente é transferido de hospital no Pará

O Brasil registrou oficialmente 44.299 casos confirmados de covid-19 e 1.043 mortes ligadas à doença neste sábado (13/02), segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass).

Com isso, o total de infecções identificadas no país subiu para 9.809.754, enquanto os óbitos chegam a 238.532. A taxa de mortalidade por grupo de 100 mil habitantes subiu para 113,5 no Brasil.

Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que os números reais devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação.

O Conass não divulga número de recuperados. Segundo o Ministério da Saúde, 8.710.840 pacientes haviam se recuperado da doença até este sábado.

Em números absolutos, o Brasil é o terceiro país do mundo com mais infecções, atrás apenas dos Estados Unidos, que somam mais de 27,5 milhões de casos, e da Índia, com 10,8 milhões, segundo dados da Universidade Johns Hopkins. Mas é o segundo em número absoluto de mortos, atrás apenas dos EUA, que já registraram mais de 483 mil óbitos.

Ao todo, mais de 108 milhões já contraíram o coronavírus no mundo, e mais de 2,38 milhões de pacientes morreram.

Deutsche Welle Brasil, em 13.02.2021

Senado dos EUA absolve Trump em processo de impeachment

Votação terminou em 57 votos a favor e 43 contra, mas eram necessários 67 votos para que ex-presidente fosse condenado. Trump era acusado de "incitação a insurreição", pelo episódio que culminou na invasão ao Capitólio.

O Senado dos Estados Unidos absolveu neste sábado (13/02) o ex-presidente republicano Donald Trump de seu segundo processo de impeachment, dessa vez por "incitação a insurreição", no episódio que culminou com a invasão ao Capitólio, sede do Congresso americano.

Foram 57 votos a favor e 43 contra – eram necessários 67 votos para aprovar o impeachment. A maioria dos republicanos votou contra, mas ocorreram sete dissidências.

O julgamento havia começado na terça-feira, quando a maioria dos senadores considerou o processo de impeachment constitucional, por 56 votos a favor e 44 contra.

O resultado deste sábado já era esperado, pois em nenhum momento do processo de impeachment houve indicativos de que a maioria dos 50 senadores republicanos se voltaria contra Trump.

Como o mandato do republicano já havia terminado, o objetivo maior dos democratas era abrir caminho para a cassação dos direitos políticos de Trump, impedindo-o de concorrer novamente à presidência no futuro, já que, se condenado, ele poderia ficar impedido de se candidatar novamente a cargos políticos. 

Neste sábado, os democratas tiveram a oportunidade de estender o processo, com a decisão de aprovar a convocação de testemunhas. No entanto, após um acordo com a defesa de Trump, a medida foi revogada.

Com nenhum indicativo de condenação de Trump, também era de interesse dos democratas encerrar o julgamento, já que um processo de impeachment trava a pauta do Congresso -  e prioridade do governo de Joe Biden agora é a aprovação de outras medidas, como o pacote econômico.

Votação na Câmara

Há exatamente um mês, a Câmara dos Representantes havia aprovado, por 232 votos a favor e 197 contra a abertura do processo de impeachment.

Trump era acusado de incitação a insurreição por instigar seus apoiadores a marcharem em direção ao Capitólio para pressionar legisladores. A ação ocorreu ao mesmo tempo em que a Câmara e o Senado se reuniam para oficializar a vitória do democrata Joe Biden nas eleições presidenciais de novembro – e consequentemente a derrota de Trump no mesmo pleito.

Os procedimentos foram interrompidos quando centenas de manifestantes, entre eles neonazistas e supremacistas brancos, invadiram o prédio. Eles vandalizaram gabinetes e agrediram policiais. Cinco pessoas morreram, incluindo um agente de segurança, que foi agredido com um extintor de incêndio.

O episódio foi a conclusão de dois meses de tentativas de Trump de minar a confiança no sistema eleitoral e reverter sua derrota nas eleições presidenciais de 2020, alegando ter sido vítima de fraude, mesmo sem apresentar provas.

Segundo o pedido de impeachment, Trump "deliberadamente fez declarações que encorajaram ações ilegais" e "continuará sendo uma ameaça à segurança nacional, à democracia e à Constituição se for autorizado a permanecer no cargo".

O documento ainda cita outras ações de Trump, como a pressão exercida sobre uma autoridade eleitoral da Geórgia, a quem Trump pediu para que "encontrasse votos" para mudar o resultado da eleição no estado.

Após o ataque ao Congresso, Trump não demonstrou arrependimento, e na terça-feira, na véspera da votação do impeachment, disse que seu discurso para apoiadores foi "totalmente apropriado".

Apesar de o processo ter sido aprovado na Câmara, Trump não foi afastado do cargo, como ocorre pelas regras brasileiras de impeachment. Nos EUA, o presidente só é afastado após o aval do Senado, responsável pelo julgamento do caso.

Trump foi o primeiro presidente da história dos EUA a enfrentar dois processos de impeachment. Em dezembro de 2019, a Câmara já havia votado pelo afastamento de Trump no caso conhecido como a "pressão na Ucrânia", que envolveu manobras do presidente para intimidar o governo ucraniano a iniciar uma investigação contra o então ex-vice-presidente e agora presidente Joe Biden e seu filho, Hunter, que era membro do conselho de uma empresa ucraniana. O episódio rendeu a Trump duas acusações: abuso de poder e obstrução dos poderes investigativos do Congresso.

No entanto, o processo anterior acabou sendo barrado em fevereiro de 2020 pelo Senado, que na época contava com maioria republicana. Apenas um senador republicano, Mitt Romney, votou contra o presidente em relação a uma das acusações.

Deutsche Welle Brasil, em 13.02.2021

Bolsonaro avança por filiação ao Patriota, que resiste a entregar partido de 'porteira fechada'

Presidente se reuniu com representantes do partido em encontro fora da agenda; ida esbarra no controle da legenda

Reunião do presidente Jair Messias Bolsonaro, com Catia Presa, presidente do Mulher Patriota do Paraná e Evandro Roman Foto: Reprodução

Sem constar na agenda oficial, o presidente Jair Bolsonaro recebeu ontem um grupo de representantes do Patriota para discutir sua possível filiação à legenda. Na conversa, segundo relatos feitos ao GLOBO, o chefe do Executivo prometeu que nos próximos dias delegará dois auxiliares para conduzir as negociações com a diretoria da legenda.

No encontro, Bolsonaro teria reafirmando o interesse em ingressar no Patriota para disputar a reeleição de 2022, mas não pediu diretamente o controle do partido.

A intenção do presidente e de seu grupo é assumir o controle do Patriota, mas um racha na cúpula da legenda ameaça os planos do chefe do Executivo. Na reunião, Bolsonaro já teria sido avisado que há resistência em entregar diretórios como do Rio, São Paulo, Minas Gerais e Maranhão.

A reunião, inicialmente marcada para 10h, começou com uma hora de atraso. De acordo integrantes do partido e também do governo, estiveram no Planalto o presidente nacional da sigla, Adilson Barroso, e o vice, Junior Marreca, ex-deputado e amigo de Bolsonaro. Também compareceram o coordenador do Conselho Político do Patriota, Nilton Silva, o Niltinho, e os deputados Pastor Eurico (PE) e Evandro Roman (PR), além da presidente do Mulher Patriota do Paraná, Cátia Presa. Roman e Cátia registraram o encontro em suas redes sociais.

Questionado pelo GLOBO, Barroso, que está em Brasília, negou que tenha se encontrado com Bolsonaro, apesar de confrontado com a informação de que ele foi visto na sede do Executivo. O dirigente se limita a dizer que tem apenas orado para receber a filiação de Bolsonaro como uma “bênção.”

— Os parlamentares foram e devem ter levado algum assessor que acharam que era eu, mas não fui. A conversa hoje era só com deputados, nada sobre partido. Isso só vai ocorrer em março — disse Barroso.

Fusão com o PRP

A filiação de Bolsonaro, no entanto, não depende apenas de Barroso, que atualmente não tem maioria na sigla. Em 2018, o Patriota, para cumprir a cláusula de barreira e ter direito ao fundo partidário, anunciou a fusão com o PRP, controlado por Ovasco Resende. Barroso, embora se mantenha na presidência, tem apenas cerca de 30% da sigla, enquanto Resende domina 50%. Os cerca de 20% restante estão nas mãos de parlamentares.

Barroso afirma querer retomar a história interrompida em fevereiro de 2018. No ano anterior, ele havia mudado o nome da sigla de Partido Ecológico Nacional (PEN) para Patriota para receber o então deputado federal Bolsonaro como candidato à Presidência. Após interferência do advogado Gustavo Bebianno, ex-ministro morto em 2020, Bolsonaro se filiou ao PSL.

— Agora, se der certo, não tem essa de namoro mais não. Tem que ir direto para o cartório. Já conhece, então tem que casar logo de papel passado — disse Barroso.

Na época, Bolsonaro e  Bebianno só negociaram ficar no comando do PSL durante o período eleitoral. Após a disputa, o partido nanico virou a segunda maior bancada federal com um fundo partidário que pode chegar a R$ 500 milhões até 2022. A briga pelo controle do caixa culminou na saída do presidente do partido em novembro de 2019.

Na última segunda-feira, em entrevista à TV Band, Bolsonaro disse que quer definir sua nova legenda em março e que está “namorando alguns partidos, dentre eles, um tal de Patriota”. O presidente disse, então, que não poderá ir para um partido que não seja “autoridade”, como ocorreu no PSL.

Ovasco Resende sinaliza que não está disposto a entregar o controle da legenda para Bolsonaro. Em entrevista à revista Época, o dirigente afirmou que tudo deverá ser decidido pelos integrantes do partido, mas não cogita entregar o poder.

— Trabalhamos com construção e com o tempo, que vai alinhavando uma relação. Não existe possibilidade nenhuma de qualquer liderança vir para tomar o comando do partido. Isso é fora de qualquer mesa de conversa. Ou se confia no partido para o qual você vem ou não. Somos um partido sério — disse Ovasco Resende.

Jussara Soares, O GLOBO, em 13/02/2021 

‘Para perder de Bolsonaro, a gente tem que errar muito’, diz Flávio Dino

Maranhense admite que projeto do presidente é hoje o mais estruturado e diz que se a esquerda tiver quatro candidatos é um erro ‘monumental’

Governador do Maranhão, Flávio Dino Foto: Governo do Maranhão

Colocado por seu partido como nome para 2022, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), evita se apresentar publicamente como pré-candidato para não dificultar o debate com o centro. Ele criticou a decisão do petista Fernando Haddad de anunciar que passaria a viajar o país.

Nos últimos dias, foram expostas a fragmentação na centro-direita e na esquerda. Há como reverter?

É uma fragmentação típica de um período em que o velho já morreu e o novo não nasceu. Acho que essa fragmentação vai continuar por mais uns anos até a gente ter um redesenho do quadro partidário. Então, tem que aglutinar o que der.

Diante desse quadro, o Bolsonaro tem hoje o projeto mais estruturado para 2022?

Hoje, sim. Não há dúvida. É o adversário a ser batido. A força gravitacional do Poder Executivo é muito grande e ele hoje tem um projeto mais nítido. De 2018 para cá, ele perdeu muitos setores sociais, mas conseguiu manter um núcleo mais cristalizado, fiel, o que coloca a sua candidatura numa condição muito forte.

A gestão Bolsonaro tem muitos problemas. A atração do poder em si é maior?

Se a popularidade se depreciar mais, essa força atrativa diminui. Ele é um candidato forte, sólido, mas acho que perde a eleição. Para perder dele, a gente tem que errar muito. É um candidato que pode ir ao segundo turno, mas perde no segundo turno porque faz um governo muito frágil.

Quando o Haddad se apresentou como candidato, o senhor escreveu que mais importante para derrotar Bolsonaro era ter programa e alianças. A escolha do nome deveria ficar para depois?

Se bate o martelo muito precocemente, em se tratando de um partido importante como o PT, pode criar interdições ao debate. A chave da derrota do Bolsonaro em 2022 é atrair setores que foram lulistas até 2014, depois bolsonaristas, se descolaram e estão hoje numa posição de centro. Se diz que o candidato é fulano pode criar uma interdição nesse segmento que vai decidir a eleição. Por isso, colocar o nome na frente não é uma tática eleitoral que parece ajustada.

Os partidos de esquerda já não têm seus programas?

O que eu quero chamar a atenção é que o programa que existe não serve. Os programas políticos que nossos partidos têm não dão conta da largueza que precisa para atrair esses segmentos. Um exemplo: o nosso discurso clássico da esquerda não abrange os novos segmentos da classe trabalhadora, os precarizados, os uberizados. Tem que modular o programa porque a realidade mudou. O programa de 2022 não pode ser o mesmo do Lula em 2002. Não é verdade que programa já tem.

Temos quatro pré-candidatos da esquerda: o senhor, Fernadno Haddad (PT), Ciro Gomes (PDT) e o Guilherme Boulos (PSOL). É difícil uma união?

Como ponto de partida não vejo como problema. O problema é se virar ponto de chegada.Se a esquerda fragmentar muito corre riscos, um perigo que não pode correr. A candidatura do Bolsonaro, embora marcada para perder, é forte. Provavelmente, vai para o segundo turno. Então, temos que fazer uma mesa, um seminário, um debate, e tentar aglutinar. Se não der em um nome, em dois. Mas quatro realmente acho um excesso, um erro monumental.

Alguém está tomando uma atitude nesse sentido?

Tomo o tempo inteiro. O PT (em sua festa de aniversário desta semana) fez uma sinalização. A Gleisi (Hoffmann, presidente da sigla) citou o meu nome, o do Boulos. Achei o gesto importante. A esquerda com quatro candidatos não pode ser o desenho na urna. Aí, realmente, eu não participo.

O senhor tem conversado também com o centro?

Sim. No segundo turno em 2018, esse campo mais liberal, de centro, foi todo com Bolsonaro. Ninguém foi com Haddad. E ninguém não é excesso retórico, é literalmente. Nem o Ciro foi. Então, não pode chegar na eleição de 2022 com o ambiente tal que se o segundo turno, por hipótese, for entre Ciro e Bolsonaro, ninguém apoia o Ciro. Essa tragédia deve ser evitada. Precisa distensionar.

Se o Lula recuperar os direitos políticos, deve concorrer?

Da minha parte, sim. Considero que ele teria uma precedência, mesmo tendo críticas de um lado ou de outro. Ele tem uma trajetória política mais forte. E geraria uma polarização quase que automática com o Bolsonaro. Não deixaria nem espaço para outras alternativas.

Ele não afasta essa parcela do eleitorado de centro?

Mas ele teria condições de atrair mostrando o que foi o governo dele, um governo amplo. Hoje, de fato há essa rejeição, mas por outro lado ele saiu com 80% de aprovação e fez um governo bem amplo, com líderes empresariais, do agronegócio, com muitos partidos. Ele teria condições de recompor.

Sérgio Roxo, O Globo, em 13/02/2021 - 03:30 / Atualizado em 13/02/2021 - 09:08

Sérgio Fausto: O realismo oportunista do Centrão e a distopia bolsonarista

Violência, boçalidade e patrimonialismo têm um passado vistoso. Terão futuro promissor?

O saldo da primeira metade da Presidência de Jair Bolsonaro é muito ruim. Mas pior do que os resultados é o espírito que preside à gestão do governo em seu conjunto. A sua marca é o ânimo destrutivo.

Nada é mais simbólico desse fato do que a genuína paixão do presidente pelas armas. Bolsonaro banaliza a vida (“a morte é o destino de todos nós”), dá de ombros para as vítimas da covid-19 (“eu não sou coveiro”) e duvida dos benefícios da vacina (“se virar jacaré, não vem reclamar”), mas não esconde seu entusiasmo com o grande aumento do número de armas nas mãos da população civil, objetivo que vem perseguindo desde o início de seu mandato. Segundo reportagem do jornal O Globo publicada em 31 de janeiro, já são mais de 1 milhão de armas, um aumento de 65% em comparação com 2018.

A paixão pelas armas é correspondida pelo desprezo à cultura, outro traço de Bolsonaro, visível nas escolhas feitas por ele para essa área em seu governo. O elo que une a paixão pelas armas e o desprezo pela cultura é a intolerância, pois a cultura reclama pluralidade e valorização da diferença. “Quando ouço falar em cultura, puxo o meu revólver”, diz um personagem da peça Schlageter, do dramaturgo e poeta nazista Hanns Johst, escrita em 1933, logo após a chegada de Hitler ao poder. Bolsonaro não é nazista, mas compartilha com o personagem a mesma ojeriza à transgressão criativa, que é própria da criação cultural.

O uso do polegar e do indicador para simular uma arma é a marca registrada do presidente. Do gesto derivam dois discursos, que não são exatamente iguais, mas convergem no enaltecimento de virtudes viris. Um deles apela ao instinto de autodefesa do cidadão amedrontado: defenda-se você mesmo, pois o Estado não é capaz de fazê-lo (por suposta culpa da “turma dos direitos humanos”, que amarraria as mãos da polícia). O outro aponta para o uso da violência contra adversários políticos. No início deste mês ele mais uma vez voltou a bater nessa tecla ao anunciar novos decretos para facilitar a compra de armas: “Eu não tenho medo do povo armado, me sinto muito bem ao lado de um povo armado, isso evita que o governante se torne um ditador”.

O alvo real da suposta preocupação democrática do presidente não é, obviamente, ele próprio, mas os seus adversários. Não há como esquecer a reunião ministerial de 22 de abril, em que, alterado, disse que “um povo armado” não acataria as medidas de restrição ao comércio adotadas por prefeitos e governadores.

A distopia bolsonarista projeta na tela do imaginário nacional uma espécie de faroeste caboclo, protagonizado por homens rudes, incultos e indomáveis, um mundo onde a saliva cedeu definitivamente lugar à pólvora e no qual manda quem tem a maior pistola.

A referência do presidente não é Adam Smith e A Riqueza das Nações. Não é a mão invisível do mercado que faz Bolsonaro sonhar à noite e despertar com energia na manhã seguinte para desincumbir-se do seu ofício do presidente. Uma economia de mercado requer uma rede complexa de instituições que regule, contenha, sem sufocar, o espírito animal dos empreendedores. Supõe regras estáveis e agentes estatais “neutros” com capacidade jurídica e operacional para fazê-las valer. Exige também o reconhecimento da ciência como parâmetro fundamental da ação reguladora do Estado, a começar pelas questões elementares do que é ou não nocivo à saúde humana. Exige ainda, como ensina Smith na Teoria dos Sentimentos Morais, uma ética da solidariedade, baseada na empatia. Nada disso é compatível com a distopia do “povo armado” e do “negacionismo científico”. Só se for para um liberalismo de fancaria, mero véu para encobrir interesses mesquinhos e grandes preconceitos.

A distopia bolsonarista é também inconciliável com a ordem e o progresso, lema de inspiração positivista inscrito em nossa bandeira com o advento da República e no espírito das Forças Armadas desde então. Não pode haver ordem sem monopólio estatal da violência exercido por forças armadas e policiais regidas pelos princípios da hierarquia e da disciplina e, no Estado Democrático de Direito, submetidas ao império de direitos e garantias individuais. E não pode haver progresso sem reconhecimento da importância da ciência para o desenvolvimento econômico e social. O que já era uma verdade inquestionável no século 19, quando o positivismo desembarcou no Brasil e fez escola entre os militares, é hoje ainda mais verdadeiro.

A distopia bolsonarista não é inconciliável, porém, com a realidade de um Estado patrimonialista, tomado pelos interesses de corporações e clientelas políticas e gerenciado por profissionais da intermediação política cujo principal propósito é maximizar o poder e a renda que a intermediação lhes permite extrair. O impulso destrutivo do bolsonarismo e o oportunismo do Centrão podem se acomodar mutuamente, à custa do que resta de republicano no Estado brasileiro.

A violência, a boçalidade e o patrimonialismo têm um passado vistoso no país. Terão um futuro promissor?

Sergio Fausto, o autor deste artigo, é Diretor Geral da Fundação FHC e membro do GCINT-USP,. Publicado originalmente n'O Estado de São Paulo, edição de 13 de fevereiro de 2021. 


Mariz de Oliveira: Pátria mal amada, pátria maltratada

É hora de remover os entulhos que impedem a construção do Brasil dos nossos sonhos

Nelson Rodrigues disse que somos “narcisos ao inverso” e temos complexo de “vira-lata”. Ele nos comparou a essa espécie de cão possivelmente porque ela não constitui uma raça, tal como o povo brasileiro, que é a junção de várias raças, não provem de uma única.

Quanto à mitologia de Narciso, posta ao inverso, significa que não apreciamos a nossa figura quando refletida nas águas ou no espelho. Ao contrário de Narciso, não nos aceitamos e chegamos a nos rejeitar.

Na base dessas duas afirmações há duas realidades: não sabemos, ainda, com precisão quem somos e como somos, assim como nos acompanha historicamente um sentimento de autodepreciação. O desconhecimento leva muitos segmentos a serem carentes de autoestima, autoconsideração, apego ao nosso modo de ser e ignorância quanto às nossas qualidades. A não aceitação, por parte das elites, da multiplicidade de raças, o racismo, a desigualdade e a discriminação sociais, as carências no campo da educação e da cultura, entre outros fatores, têm impedido um mergulho profundo nas nossas raízes.

Houve um esforço da parte de intelectuais para nos decifrar. Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Raymundo Faoro, Gilberto Freire e outros empreenderam estudos nesse sentido, mas não foram acompanhados pela elite, que jamais se preocupou com a própria origem, mas sim com a que gostaria de ter tido.

Uma das questões que mais intrigam os estudiosos da sociedade brasileira é o chamado “fenômeno patológico da psicologia brasileira”, representativo da nossa tendência a adotar padrões culturais e estéticos de outros povos. E até uma tendência clara a sair do País e viver em outras plagas.

Em sua obra O Elogio do Vira-Lata e Outros Ensaios, obra indispensável para uma avaliação realista e desprovida de preconceitos do nosso povo, e especialmente de suas potencialidades, Eduardo Giannetti analisa as origens dessa crônica visão depreciativa que a sociedade brasileira tem de si mesma, acentuadamente parte das elites. Extrai-se dessa obra que estamos aptos a solucionar problemas, a superar obstáculos em razão de nossa criatividade, inteligência criativa, facilidade de percepção e outros dons, que poderiam estar sendo utilizados para a supressão de nossas carências e o aprimoramento da sociedade, em vez de copiarmos modelos e soluções que não se amoldam a nós.

A analogia, para Giannetti, ao contrário do dramaturgo, se justifica porque no seu mundo o vira-lata é dotado também de grande habilidade para ultrapassar dificuldade e sobreviver, tal como nós. O autor mostra que a raiz do nosso complexo de inferioridade está nos filhos aqui nascidos dos primeiros portugueses que vieram para o Brasil. Passaram a ser denominados mazombos, designação de iletrado, bruto, grosseiro. Esses primeiros brasileiros deploravam ter nascido fora de Portugal e almejavam ir para lá. Segundo afirma Giannetti, a característica dos mazombos era a falta do “senso de pertencimento”

O mesmo acontece com o que chamo de “brasileiros envergonhados”, que tal como seus antecessores são estranhos ao país de nascimento, resistem a assimilar sua cultura e a desprezam. Portadores de um individualismo que os impede de participar dos projetos coletivos, não admitem nenhuma responsabilidade, mas apontam o dedo acusador contra terceiros pelas nossas dificuldades.

Ao mal da pátria mal amada junta-se o mal da pátria maltratada. Talvez esses males decorram um do outro e se completem.

A malquerença levou as elites dirigentes a não empreenderem os esforços necessários para nos governarem, prevalecendo os interesses pessoais em detrimento do coletivo. As consequências dessa incúria histórica são pontualmente bem identificadas.

Assim, após a libertação os escravos foram deixados ao léu e a República foi proclamada sem a participação do povo; antes de 1988 as instituições estavam fragilizadas, resultando como decorrência duas ditaduras em curto tempo. O desprezo pela educação, o adesismo, o clientelismo, a corrupção maculam a atividade política. E atualmente há o exemplo patente de um governo que chega às raias da desumanidade, por seu total desleixo com a saúde pública e a pandemia do novo coronavírus.

Talvez nunca como na atualidade a pátria tenha sido tão maltratada. O desprezo, a arrogância e a autossuficiência no trato dos problemas sociais, o desrespeito aos direitos humanos, à cultura, à educação e à imagem do País, e outras mazelas, têm uma origem: o poder pelo poder, desvinculado dos interesses e das necessidades nacionais. O poder para o desempenho do mando, sem nenhuma consideração pelos anseios e aspirações do povo. Mando refletido numa retórica irreal, falaciosa e odienta.

A catástrofe conta com o beneplácito de políticos interesseiros uns e omissos outros, assim como de parcelas da sociedade cujo apoio ao desgoverno, para mim, constitui um grande enigma.

Está na hora de substituir o desamor pelo amor ao Brasil, que é o nosso país. E na hora de removermos os entulhos que impedem a construção da pátria dos nossos sonhos.

António Cláudio Mariz de Oliveira, o autor deste artigo, é advogado criminalista. Publicado originalmente n'O Estado de São Paulo, em 13.02.2021.

13 de fevereiro de 2021 | 03h00

'Mercado irritadinho'

Diante da escalada inflacionária, Jair Bolsonaro cultiva a narrativa segundo a qual a culpa é dos governadores, do vírus e dos investidores

O presidente Jair Bolsonaro declarou que quer “tratar de diminuir impostos num clima de tranquilidade, não num clima conflituoso”, numa referência à sua intenção de reduzir os impostos federais sobre os combustíveis para baratear o diesel e agradar aos caminhoneiros. Queixou-se de que “o pessoal do mercado” fica “irritadinho” com “qualquer coisa que se fala aqui”. E insistiu: “Vamos deixar de ser irritadinhos, que isso não leva a lugar nenhum. Uma das maneiras de diminuir (o preço do) combustível é com o dólar caindo aqui dentro. Mas qualquer negocinho, qualquer boato na imprensa, tá o mercado irritadinho, sobe o dólar”. Arrematou dizendo que “o mercado tem que dar um tempinho também” e que “um pouquinho de patriotismo não faz mal a eles”.

É preciso um esforço considerável para traduzir o dialeto primitivo do sr. Bolsonaro, mas presume-se que o presidente da República tenha tentado expressar sua contrariedade com o fato de que o mercado reage mal sempre que se fala em intervir em preços.

Bolsonaro nunca escondeu que não entende nada de economia. Ainda na campanha, avisou aos eleitores que era um ignorante completo sobre o assunto, deixando todas as questões relativas a esse tema para serem respondidas pelo hoje ministro da Economia, Paulo Guedes.

Já na condição de presidente, disse que não era economista e que, por esse motivo, não conseguia entender por que razão a Petrobrás eventualmente reajustava os preços dos combustíveis acima da inflação. Em abril de 2019, a Petrobrás havia majorado o preço do diesel em 5,7%, e Bolsonaro informou ter mandado a estatal suspender o aumento até que lhe explicasse “o porquê dos 5,7% quando a inflação projetada para este ano está abaixo de 5%”. Ato contínuo, as ações da Petrobrás despencaram, ante a óbvia intervenção do presidente.

Passados quase dois anos, aparentemente nenhum dos auxiliares de Bolsonaro foi capaz de explicar-lhe que um presidente da República, por mais poderoso que se considere, não deve interferir na formação dos preços da Petrobrás.

Na última vez em que isso foi feito explicitamente, durante o governo de Dilma Rousseff, a estatal contabilizou um dos maiores prejuízos de sua história, por ter sido obrigada a subsidiar os preços dos combustíveis para tentar conter a escalada da inflação às vésperas da eleição presidencial de 2014. Como a Petrobrás é uma empresa com ações em Bolsa e deve satisfações a investidores privados, não pode estar sujeita aos humores políticos, naturalmente instáveis, a ponto de tornar imprevisível o processo decisório da empresa.

Mas o problema transcende a Petrobrás. Um governo que interfere diretamente nos preços dos combustíveis cruza uma espécie de Rubicão da administração pública, pois deixa claro que não respeita os fundamentos da economia de mercado e é capaz de tudo para satisfazer aos interesses políticos.

Um presidente da República não precisa entender de economia, mas deve saber de cor quais são os limites de seu poder. O fato, contudo, é que é ocioso esperar que Bolsonaro algum dia aprenda o que é uma economia de mercado, assim como é perda de tempo esperar que ele aprenda os fundamentos da democracia – cuja plenitude só é atingida quando os agentes econômicos são livres.

Bolsonaro já disse reiteradas vezes – e repetiu agora – que são impatriotas os “irritadinhos” do mercado. De acordo com essa concepção, não gostam do Brasil os investidores que esperam transparência e racionalidade das empresas nas quais põem seu dinheiro. Também não gostam do Brasil aqueles que exigem responsabilidade fiscal e têm ojeriza ao populismo perdulário. Por conseguinte, o bom brasileiro, na visão bolsonarista, seria aquele que aceita perder dinheiro em nome dos interesses eleitorais do presidente.

Mas Bolsonaro compensa largamente seu apedeutismo econômico com sua astúcia política: diante da escalada inflacionária, o presidente vem cultivando a narrativa segundo a qual não tem culpa de nada – a conta é dos governadores, do vírus e, agora, dos investidores “irritadinhos”. Se há algo previsível neste governo, é a ânsia de Bolsonaro de fugir de toda e qualquer responsabilidade.

Editorial / Notas&Informações, O Estado de São Paulo, em 13 de fevereiro de 2021 

No menu de militares, dinheiro público pagou de lombo de bacalhau a uísque 12 anos

Em representação à PGR, deputados detalham gastos de militares com alimentação e bebida

O cardápio de iguarias consumidas pelas Forças Armadas não se limitou à aquisição de milhares de quilos de picanha e garrafas de cerveja ao longo de 2020. Os dados oficiais mostram que a dieta verde oliva também incluiu, no ano passado, a compra de itens como milhares de quilos de lombo de bacalhau – lombo, não o peixe desfiado, que é bem mais em conta –, além de uísques 12 anos e garrafas de conhaque.

As novas informações reunidas pelos deputados do PSB serão anexadas à representação que o partido fez à Procuradoria-Geral da República (PGR), para pedir esclarecimentos sobre os gastos alimentares das Forças Armadas, os quais incluíram a compra de mais de 700 mil quilos de picanha e 80 mil cervejas.

Os dados oficiais, obtidos a partir de informações que são repassadas pelos próprios militares ao Painel de Preços do Ministério da Economia, mostram que, no ano passado, foram aprovados processos de compra de 140 mil quilos de lombo de bacalhau, além de outros 9,7 mil quilos de filé do peixe salgado.

Em uma das compras registradas pelos militares, consta um pedido homologado pelo Comando da Aeronáutica, para aquisição de 500 quilos de lombo de bacalhau, em que o preço de referência usado pelo órgão público foi de nada menos que R$ 150 o quilo. Esses pedidos, uma vez homologados, ficam à disposição dos órgãos, para que façam suas compras com os fornecedores aprovados.

Muitos copos de uísques e conhaques também foram brindados com o uso do dinheiro público. O 38.º Batalhão de Infantaria, por exemplo, comprou dez garrafas do uísque Ballantine’s, mas desde que fosse com 12 anos de envelhecimento. O preço da garrafa proposto foi de R$ 144,13.

Já o Comando da Marinha preferiu adquirir 15 garrafas de Johnnie Walker, também com 12 anos de envelhecimento, o chamado “Black Label”. O valor que se dispôs a pagar para cada unidade foi de R$ 164,18.

Conhaques mais populares também entraram na lista do Batalhão Naval da Marinha. Em setembro do ano passado, o órgão aprovou o registro para compra de até 660 garrafas de conhaque das marcas “Presidente” e “Palhinha”, com preço unitário proposto de R$ 27,06.

“É um poço sem fundo. Quanto mais investigamos, mais absurdos e irregularidades encontramos. Se não bastasse o governo comprar picanha e cerveja, ainda tem o corte mais caro do bacalhau, uísque e conhaque e com indícios de superfaturamento”, diz o deputado Elias Vaz de Andrade (PSB-GO), que está entre aqueles que assinam a representação enviada ao procurador-geral da República, Augusto Aras, para que investigue os gastos militares. “Além da PGR, eu e mais nove deputados do PSB vamos levar essas informações ao Tribunal de Contas da União. Também estamos discutindo propor a instalação da CPI das compras do governo na Câmara Federal.”

Defesa

A reportagem questionou o Ministério da Defesa sobre cada uma das novas informações. A pasta, no entanto, não se manifestou sobre esses dados até a conclusão desta reportagem. Na quinta-feira, por meio de nota, o ministério afirmou que “reitera seu compromisso com a transparência e a seriedade com o interesse e a administração dos bens públicos” e que “eventuais irregularidades são apuradas com rigor”.

Segundo o Ministério da Defesa, “existe sempre uma significativa diferença entre processos de licitação e a compra efetivamente realizada, cuja efetiva aquisição é concretizada conforme a real necessidade da administração”.

Assim, “é imprescindível que se faça essa segmentação adequada, quando se faz a totalização dos valores, interpretação e principalmente a divulgação pública destes dados, de modo a evitar a desinformação”, afirma o ministério.

De acordo com a pasta, “apresentar valores totais de processos licitatórios homologados como sendo valores efetivamente gastos constitui grave equívoco”, afirma a nota, referindo-se aos dados incluídos na representação. No documento apresentado à PGR, entretanto, os deputados exibem dados detalhados com a identificação da compra realizada e seu referido fornecedor.

Elias Vaz afirmou que se trata de processos já concluídos e com fornecedores escolhidos pelos militares. “Estamos denunciando esses processos licitatórios. Essas empresas tiveram suas propostas aprovadas, por esses valores. Há processos de compra concluídos e, inclusive, já efetivamente pagos. Todos eles foram homologados pelas Forças Armadas”, disse o deputado.

André Borges, O Estado de São Paulo, em 13 de fevereiro de 2021 

Brasil tem que 'livrar-se da Coronavirus-19 e do Bolsonavirus-22', diz Augusto de Campos, que completa 90 anos


Avesso a entrevistas, Augusto de Campos, único remanescente do trio que criou a poesia concreta em São Paulo, critica Bolsonaro e se diz cansado. (CRÉDITO: DIVULGAÇÃO)

Para muitos, ele é o maior poeta brasileiro vivo. Único remanescente do trio original de poetas que, chamado de Noigandres, criou em 1952 a poesia concreta em São Paulo, Augusto de Campos completa 90 anos neste domingo e se diz cansado.

Pelo menos oficialmente. "Agradeço muitíssimo a você o convite, mas diante dos inúmeros pedidos de entrevista que tenho recebido, e solicitações as mais diversas, impossibilitado de responder a todos, e de ter que repetir-me, em face de minha avançada idade, cansado, esgotado mesmo, decidi optar, e resumir depoimento ao seguinte", foi a gentil resposta que a reportagem recebeu dele.

Em seu texto pronto enviado à guisa de depoimento, ele poetiza sua crítica ao governo Jair Bolsonaro. "Tudo o que tem o Brasil a fazer hoje é livrar-se da Coronavirus-19 e do Bolsonavirus-22 (e por este último entendo toda a corja que acompanha o nosso "presidemente"). Um vírus mata. O outro imbeciliza", escreveu. "Et tout le rest est littérature."

Mas, de seu apartamento no bairro das Perdizes, o agora nonagenário segue em plena ebulição intelectual. Encontrou no Instagram (@poetamenos) uma plataforma para suas experimentações verbivocovisuais — é seguido por quase 23 mil leitores. Está lançando, pelo Selo Demônio Negro, ExtraPound, antologia de traduções de poemas do americano Ezra Pound (1885-1972). E será homenageado, pelo aniversário, por eventos no Brasil e no exterior.

Em 2020, recluso pela pandemia, gravou com o filho Cid Campos sua tradução de Up From The Skies, de Jimi Hendrix (1942-1970). Batizada de Visitante dos Céus, a música foi produzida, interpretada e arranjada por Cid — voz, guitarra e baixo. Augusto toca gaita. Segundo o poeta, foi "para fugir à depressão" que gravou "a canção que traduzi do Jimi Hendrix, de quem sou grande admirador".

O poeta E. M de Melo e Castro, o editor Vanderley Mendonça e o poeta Augusto de Campos, em 2012. (CRÉDITO: VANDERLEY MENDONÇA)

Concreto

O paulistano Augusto Luís Browne de Campos começou a conquistar seu espaço no cânone literário brasileiro nos anos 1950. Seu primeiro livro, O Rei Menos o Reino, foi lançado quando ele tinha 20 anos e cursava Direito na Faculdade do Largo São Francisco. No ano seguinte, com o irmão Haroldo de Campos (1929-2003) e o amigo Décio Pignatari (1927-2012), criou a revista Noigandres — e a poesia concreta.

Era uma reação ao formalismo academicista da chamada geração de 1945. E, ao mesmo tempo, um resgate do espírito revolucionário dos poetas de 1922. Antenados com experiências europeias, como as que vinham sendo realizadas pelo poeta boliviano naturalizado suíço Eugen Gomringer (1925-), o trio buscava uma poesia que ultrapassasse os limites do verso.

Conforme explica o poeta e professor de literatura Frederico Barbosa, para tanto eles precisavam lançar mão de um arcabouço cultural "descomunal" — e, assim, realizar "a proeza sonhada pelo 'antropófago' Oswald de Andrade" (1890-1954), ou seja, "produzir, no Brasil, uma literatura de teor, qualidade e importância universais".

Em uma de suas raras entrevistas. concedida em 2010 e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, o poeta concordou que São Paulo era o berço necessário para o nascimento do concretismo.

"Como o Movimento de 22, tinha de nascer em São Paulo. Nos anos 50, aqui se concentraram os museus de arte moderna, a cinemateca, as bienais, as importadoras de livros e discos estrangeiros. O Rio, maior rival, sempre encantador, não era tão avançado e multi-informativo e era mais sentimental e francês (leia-se: surrealizante)", afirmou Augusto.

Em 1953, o lançamento do livro Poetamenos garantiu a Augusto um lugar na história da literatura brasileira. Mas sua vasta produção não se limitaria ao fazer poético. O paulistano tornou-se um reconhecido ensaísta e tradutor — principalmente de autores como o inglês John Keats (1795-1821), o francês Paul Valéry (1871-1945), o russo Vladimir Maiakovski (1893-1930), o americano E. E. Cummings (1894-1962) e o irlandês James Joyce (1882-1941), além do já citado PounReprodução da capa do novo livro de Augusto de Campos

                                                    

Reclusão

Enquanto produz, contudo, Augusto costuma ser avesso a aparições públicas. Neste aspecto, sua reclusão é bem anterior à pandemia. Na entrevista publicada em 2010, ele disse passar "a maior parte do tempo no computador".

"Dentro ou fora do universo digital, leio, ouço e vejo muito mais do que escrevo", comentou. "O meu fazer poético é, antes, como disse, um 'a-fazer' e a minha criação propriamente dita, um acidente de percurso."

Na época, dizendo-se "quase-oitenta", enfatizou: "fico muito em casa". "Não vou mais a livrarias e casas de disco. Compro tudo na internet. Cinema, não dá mais: sou da geração pré-'pipococa'. Prefiro zapear a TV, onde, a par de futebol e noticiário, entrevejo, com atraso, os filmes da moda, de preferência sob a forma de montagem (dois ou três ao mesmo tempo)", contou. "Melhor ainda: o meu Mac e o YouTube, onde assisto a coisas que nunca imaginei rever."

Segundo o editor Vanderley Mendonça, que além de ExtraPound também reeditou três obras de Augusto (ColidouEecapo, Reduchamp e Poemóbiles), a aparente reclusão de Augusto é "coerente com seu discurso poético".

"Ele se interessa por quem trilha as mesmas sendas da invenção, como leitor, tradutor e poeta. E, muito particularmente, como homem, em suas amizades", assinala o editor.

"Augusto transita entre duas tradições: o amor e a política. Fazer poemas políticos sem ser maniqueísta ou mesmo discursivo é o mais difícil desafio do poeta. Augusto, assim como Maiakovski, vai muito além do discurso político, inventa novas formas de versificação, de composição tipográfica ou agregam elementos novos no poema — cartaz, som, movimento."

"Augusto, para quem não sabe, não apenas recusa entrevistas — há anos, acredita que 'não tem nada a dizer, tudo está dito'. Recusa homenagens — embora seus leitores as façam. Recusa prêmios — como recusou o Prêmio Camões [edição de 2019], pois jamais o aceitaria vindo de um governo com fortes sintomas autoritários [a premiação é instituída pelos governos de Brasil e Portugal]", prossegue Mendonça.

"Assim, ao contrário do que parece, Augusto está mais interessado na obra do que no eu. Um poeta como ele jamais faria parte de uma Academia Brasileira de Letras, ou de qualquer academia. É o mais crítico e refinado teórico da poesia sem ser acadêmico. Sua obra é sua voz."


São icônicos os livros-objetos criados por ele. Do encontro de Augusto com o artista espanhol Julio Plaza (1938-2003) nasceu Poemóbiles.

"Sublinhou um novo aspecto visual às palavras impressas num livro, coloridas, fazendo com que se descolem da sintaxe tradicional numa configuração tridimensional para o texto, que se move e multiplica os sentidos", avalia o editor Mendonça. "Uma das mais inovadoras parcerias e de fundamental importância para as relações entre artes gráficas e poesia no Brasil."

Frederico Barbosa ressalta a importância da inovação das plataformas na obra de Augusto.

"Após escrever os primeiros poemas concretos do mundo, a série de poemas de amor baseados na música de Anton Webern, Poetamenos, ele experimentou novas formas de suporte para a poesia, em obras da década de 1970, como a Caixa Preta, literalmente uma caixa contendo diversos poemas soltos e os Poemóbiles série de poemas tridimensionais e coloridos", recorda.

"Nos anos 1980 e 1990 continuou a dedicar-se a investigar novos meios para a poesia, como a holografia e a computação gráfica e lançou, em parceria com seu filho, o músico Cid Campos, um CD com leituras criativas de seus poemas e traduções, 'Poesia é Risco'."

"No livro 'Não', de 2005, já apresenta poemas escritos diretamente na linguagem [de programação] flash e recentemente Augusto tem publicado seus poemas na internet, principalmente por meio do Instagram", completa Barbosa. "Ou seja, trata-se de um jovem de 90 anos que não para de experimentar e inventar."

"Não há nada mais fascinante do que conviver com Augusto durante o processo de produção de um livro seu. Não apenas por que ele conhece profundamente artes gráficas — repare que esse aspecto é comum nos poetas inventores, como Apollinaire, Mallarmé, Maiakovski, que conheciam muito tipologia e composição tipográfica —, mas porque cada livro dele é um desafio para editores, artistas gráficos e também leitores", conta Mendonça.

"Augusto, certa vez, me disse: 'a grande poesia não nos dá nada, só nos tira'. Talvez seja mesmo a poesia o último bastião da arte para resistir ao mercado. É um código e como tal precisa ser decifrada."

"Aprendi mais com Augusto fazendo seus livros do que com todos os livros de crítica já escritos", acrescenta. "Augusto é muito reservado, como se sabe. Sua retidão intelectual, suas atitudes e afirmações não se contradizem. Ele não tem essas características de intelectuais de terceiro mundo, ufanistas, que vivem em completa contradição, como era o caso do Ferreira Gullar. É um internacionalista."

Para Frederico Barbosa, "a importância para a poesia mundial" de Augusto "jamais pode ser ignorada".

"Campos é o último remanescente vivo de um trio que criou a poesia concreta, o último dos movimentos poéticos de vanguarda surgidos no século 20", afirma ele.

"Assim, pode ser considerado o único poeta vivo do mundo que corresponde àquela definição de Ezra Pound de 'poeta inventor': aquele que criou uma nova forma de escrever poesia, novos processos poéticos."

Marcelino Freire e Augusto de Campos (CRÉDITO: VANDERLEY MENDONÇA)

Reconhecimento internacional

Mas mesmo que ele diga não gostar, Augusto será celebrado pelos 90 anos. A Casa das Rosas, em São Paulo, tem uma programação dedicada a obra dele neste mês de fevereiro.

Organizada pelo escritor Marcelino Freire, a Balada Literária também terá edição online para homenagear o poeta — será no dia 27, no canal do Youtube do evento.

No dia 20, a celebração será internacional. Via Zoom, críticos e acadêmicos internacionais irão debater a obra de Augusto — evento das universidades de Yale, Zurique e Lausanne.

O reconhecimento internacional não é novidade. Augusto já teve sua obra exposta em museus como o Guggenheim de Nova York e a Galeria Maddox de Londres, além de ter integrado a Bienal de Lyon. Boa parte dos seus trabalhos foi traduzida para o francês e o espanhol. Em 2015, tornou-se o primeiro brasileiro a ganhar o Prêmio Latinoamericano de Poesia Pablo Neruda, oferecido pelo Chile.

"Ele é considerado um dos maiores poetas brasileiros por causa de sua longa devoção à poesia, sempre em busca do rigor formal aliado ao conteúdo inventivo", avalia Kenneth David Jackson, professor de Literatura e Cultura Luso-Brasileira na Universidade de Yale.

Ele enfatiza o fato de que a carreira de Augusto já soma sete décadas de produção ininterrupta. "Isso é mais longo do que qualquer outro poeta latino-americano que conheço", diz.

O professor conheceu Augusto em 1968, nos Estados Unidos. Desde então, nunca perderam contato. "Ele é importante porque sabe o que está fazendo e por quê. [Augusto] tornou a poesia brasileira relevante em perspectiva mundial", completa Jackson, lembrando que aos 90 anos, Augusto usa o computador para criar seus poemas, o que faz dele um poeta consumado, intimamente ligado com sua época.

"Para mim, Augusto de Campos é o poeta da contemporaneidade. Sua obra mantém-se atual por que a matéria-prima de sua criação é a forma — que, para ele, é também criação", define Mendonça.

"O domínio da arte e tecnologia gráfica é elemento predominante na composição de seus poemas. Das composições em Letraset, nos anos 50, às atuais incursões nas mídias sociais — Instagram —, passando por móbiles que compõem livros-objeto, ou mesmo holografia, seu domínio sobre a língua, a versificação e as tecnologias gráficas é impressionantemente moderno, atual. No século 20, nenhum poeta chegou tão longe. Eu diria que Augusto é o único poeta concreto, ou do que se chama concretismo."

Professora emérita da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, a crítica literária Marjorie Perloff diz que "Augusto de Campos conferiu à poesia um novo alcance, muito mais amplo, ao mostrar como o poético pode se transformar em obras de arte e performance e ao fazer da tradução parte integrante do universo da poesia concreta".

"Seus dons linguísticos são notáveis. Ele é capaz de pegar uma única palavra e fazê-la ressoar. Criou um novo universo de palavras e frases por 'semelhança familiar', transformando-as em parte de um discurso mais amplo", contextualiza ela. "Pense em 'Viva Vaia' ou 'Luxo/Lixo'. A obra de arte que valoriza a poesia é linda."

Professor de literatura brasileira na Universidade de Zurique, Eduardo Jorge de Oliveira acredita que os dois grandes legados de Augusto, "pelo menos para os poetas", são "a recusa e a margem".

"Ele soube articular como ninguém esses dois pontos. O primeiro porque os poetas têm uma grande capacidade de dizer não das mais variadas maneiras, declinando este termo: 'não', o que só enriquece a linguagem através da arte da subtração. Não à toa, Augusto de Campos adota o termo 'poetamenos', em referência a uma série dele de 1953", explica ele.

"Sobre o segundo ponto, pela arte de criar margens, dizer não implica em criar tempo para dedicar-se à arte da palavra, ainda que dela emane cores, visualidades, ritmos diversos. Augusto de Campos é um grande mestre nesse sentido."


Poema Tensão de 1956, de Augusto de Campos

Oliveira frisa também a importância das traduções realizadas por Augusto.

"Nesse sentido, a contribuição dele para a língua portuguesa, como a de Haroldo de Campos, seu irmão, e Décio Pignatari, foram enormes. No caso preciso do Augusto, ele continua a nos oferecer novas traduções, seja do russo, do espanhol, do inglês, do francês, do italiano, do latim ou do provençal", enumera.

"Ele é um poeta-arqueólogo dos sentidos. Ele é o maior para o menor, ou seja, para buscar nos sentidos mais ínfimos, desapercebidos, um tipo de elaboração verbal que não vem unicamente dele, mas dos outros poetas de sua eleição. Além disso, ele contribui para a crítica literária e musical. O Balanço da Bossa e os dois volumes de Música de Invenção são livros para ler com o Youtube. São livros para ler e escutar", comenta.

"Assim, pela dimensão musical e/ou sonora, táctil e/ou visual e dentro do grande leque da arte verbal, Augusto de Campos alia conhecimento e técnica. É curioso, pois ao mesmo tempo em que ele pode ser considerado um poeta dos poetas no âmbito experimental, ele também é um dos que mais contribuem para a língua portuguesa, o que chega a ultrapassar o caráter puramente nacional. Espero que ele continue assim pelos próximos 90 anos como já foi dito em um dos eventos que celebram seu aniversário no próximo dia 14."

O alcance cultural internacional de Augusto de Campos não se resume às rodas literárias.

O médico e historiador Vincent Barras, diretor do Instituto de Humanidades em Medicina da Universidade de Lausanne é grande admirador da obra do brasileiro.

"Augusto de Campos é definitivamente um dos maiores poetas do nosso mundo contemporâneo", afirma ele.

"Como escritor, teórico, tradutor e intérprete, ele nos dá toda a gama do que deve ser considerado poesia: não contente com o sentido usual e clássico do termo, ele abre as dimensões da poesia a todos os sentidos: verbivocovisual, como ele mesmo diz."

Para o escritor Marcelino Freire, Augusto é um poeta necessário aos dias atuais.

"A gente deve muito a esse eterno poeta inquieto", comenta.

"Note o Instagram do Augusto e veja que ele não parou: está no enfrentamento ao desgoverno que aí está. Augusto, com 90 anos, é mais jovem do que todos nós. Só gratidão ao autor que não para de pulsar."

Edison Veiga, de Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil, em 12 fevereiro 2021

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Cantanhede: Militares podem até lucrar com Bolsonaro, mas o ônus para as Forças Armadas é imenso

No caso do ministro Eduardo Pazuello, todo atrapalhado e respondendo à PF, ao MP e ao Congresso, o risco é um general da ativa no foco de uma CPI da Pandemia  

A conta do mergulho na política e da adesão ao candidato e agora presidente Jair Bolsonaro começa a chegar para as Forças Armadas, obrigadas a explicar milhões de reais em chiclete e leite condensado e agora a defender seus churrascos em 2020, com 700 mil quilos de picanha e, como ninguém é de ferro, 80 mil cervejas puro malte. O preço foi bem salgado, R$84,14 o quilo da carne, R$ 9,80 cada cervejinha.

Também é desanimador os hospitais do Exército e da Aeronáutica bloquearem só para militares e deixarem vazios 72% (84 de 116) dos seus leitos no Amazonas, segundo o UOL, enquanto 276 pacientes de Covid aguardavam vagas ontem e 529 tiveram de ser “exportados” para outros Estados e o DF desde 15 de janeiro. Leito vazio? Pago com dinheiro público, mas só para militares? Coisa feia!

Militares brasileiros na Base Aérea de Brasília embarcando para o Haiti em 2004  Foto: Sergio Dutti/AE

O vice Hamilton Mourão anunciou que a Operação Verde Brasil 2, prevista para até 2022, vai acabar em 30 de abril, com a retirada de militares das ações contra queimadas e desmatamentos na Amazônia. Com a volta desses contingentes às suas bases, serão mantidas as montanhas de chiclete e leite condensado? E as carnes nobres e o puro malte são para quem?

A sensação é de que a retirada foi uma puxada de tapete em Mourão. Indagado se foi um pedido (ou retaliação?) de Bolsonaro, Defesa e ou Comando do Exército, ele respondeu à coluna: “Fim da missão, apenas isso”. E, assim, após pisoteados pela “boiada” do ministro Ricardo Salles, o Ibama e o ICMBio, atualmente cheios de militares, vão retomar a dianteira na proteção da Amazônia, com Inpe, Polícia Federal e Polícia Rodoviária.

Não é exclusivo do Meio Ambiente, porque o capitão Bolsonaro levou generais para a Vice e todos os cargos relevantes do Planalto, expôs um general da ativa a vexame público na Saúde numa pandemia e encheu diferentes pastas – até a pobre Secretaria de Cultura – com militares. Toma lá, dá cá de cargos com político não podia, mas com militar e agora com Centrão é uma festa.

O resultado nem sempre é engrandecedor para as FA, particularmente para o Exército, como no caso do ministro Eduardo Pazuello, todo atrapalhado e respondendo à PF, ao MP e ao Congresso por falta de oxigênio e vacinas, excesso de cloroquina inútil, descaso com seringas, agulhas e testes de Covid. O risco é um general da ativa no foco de uma CPI da Pandemia (que pode chegar até aos 73 mil militares que receberam ilegalmente o auxílio emergencial).

Pazuello gosta de cantar de galo e o secretário-geral da Saúde, coronel Elcio Franco, entrou de mau jeito na guerra política de Bolsonaro com João Doria. Quando o governador anunciou a vacinação em janeiro, o militar chamou de “devaneio” e o acusou de “estar sonhando acordado”. E ainda ensinou: “Não será com discursos de ódio ou tendenciosos que serão encontradas soluções”. Pois é...

Em meio à confusão, vem aí um livro-entrevista em que o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Boas confirma que o Alto Comando participou diretamente da advertência (ou ameaça) que ele fez ao Supremo, em 2018, na véspera do julgamento de um habeas corpus contra a prisão do ex-presidente Lula.

Por essas e outras, as Forças Armadas são suspeitas de atuar politicamente para tirar Lula do páreo e dar a vitória a um capitão que dá poder a generais e empregos e reformas (previdenciária e administrativa) diferenciadas para militares, enquanto discursa num ato golpista com o QG do Exército ao fundo e sobrevoa outro em helicóptero militar e com o ministro da Defesa, general de quatro estrelas.

Bolsonaro lucra muito com essa parceria, mas o ônus de médio e longo prazos para as Forças Armadas, inclusive para sua imagem, tende a ser muito maior do que o bônus fugaz para dez, cem ou milhares de seus integrantes. A História dirá.

Eliane Cantanhêde é colunista do jornal O Estado de São Paulo. Este artigo foi publicado originalmente na edição de 12 de fevereiro de 2021.

Oposição autofágica

Os partidos com potencial para construir uma alternativa ao mesmo tempo viável e responsável para derrotar Jair Bolsonaro parecem perdidos

A confortável vitória dos candidatos governistas ao comando do Congresso parece ter tido o condão de pôr a nu as profundas divergências internas em partidos que teoricamente serviriam de oposição ao presidente Jair Bolsonaro. Nem é preciso dizer o mal que essa autofagia oposicionista faz ao País, justamente no momento em que se faz mais necessário um obstáculo político sólido à razia bolsonarista.

O mais recente entrevero se deu no PSDB, protagonizado pelo governador de São Paulo, João Doria, e pelo deputado federal Aécio Neves. O parlamentar, ex-presidente da sigla, acusa o governador de oportunismo e autoritarismo por, segundo ele, tentar impor sua candidatura à Presidência na eleição de 2022.

Em nota duríssima, Aécio Neves não deixou dúvida sobre o mal-estar: “Se o senhor João Doria, por estratégia eleitoral, quer vestir um novo figurino oposicionista para tentar apagar a lembrança de que se apropriou do nome de Bolsonaro para vencer as eleições em São Paulo, através do inesquecível Bolsodoria, que o faça, sem utilizar indevidamente e de forma oportunista outros membros do partido”.

O governador Doria respondeu no mesmo tom, lembrando que o deputado é suspeito de corrupção no escândalo estrelado pelo empresário Joesley Batista, em 2017: “O deputado Aécio Neves precisa entender que o novo PSDB não pode se subordinar a projetos pessoais, que se perderam pela conduta inapropriada em relação à ética pública”.

O fulcro da querela é o papel do PSDB ante o governo Bolsonaro. O governador paulista trabalha para isolar os focos bolsonaristas no partido e identificou no deputado Aécio Neves um dos tucanos que operaram pela candidatura vitoriosa do deputado Arthur Lira, apoiado por Bolsonaro, à presidência da Câmara. Doria quer a presidência do PSDB para consolidar sua candidatura à Presidência da República, que seria, em sua visão, a vanguarda da oposição de centro a Bolsonaro.

A acrimônia do atrito entre os tucanos já havia se verificado, em igual medida, na implosão do DEM, provocada pelo dissídio entre o presidente do partido, ACM Neto, e o deputado Rodrigo Maia, ex-presidente da Câmara. Rodrigo Maia acusou ACM Neto de “traição” por ter entregado o DEM “de bandeja” a Bolsonaro, trabalhando para que o partido fosse “anexado” ao governo. Em resposta, ACM Neto chamou Maia de “descontrolado”.

A exemplo dos tucanos, o busílis é a atitude que o DEM deveria adotar em relação ao governo Bolsonaro. Enquanto Rodrigo Maia presidia a Câmara e, nessa função, parecia ter grande influência no partido, o DEM era tido como pilar de uma possível frente de centro, junto com o PSDB, para desafiar Bolsonaro em 2022. Derrotado fragorosamente em sua sucessão, Maia foi atropelado – e o DEM retomou um papel que parecia esquecido no passado.

No que diz respeito aos interesses maiores do País, é ocioso discutir quem tem razão no meio desse banzé. O que importa é que os partidos com potencial para construir uma alternativa ao mesmo tempo viável para derrotar Bolsonaro e responsável o bastante para construir um projeto civilizado de País parecem perdidos. Nessa toada, o eleitor pode se ver novamente diante da terrível tarefa de escolher entre a delinquência bolsonarista e o embuste lulopetista.

Rusgas internas não são necessariamente sintomas de fragilidade de um partido. Ao contrário, partidos dignos do nome costumam consolidar suas bandeiras a partir de francos debates internos. Mas o que está acontecendo no DEM e no PSDB é de outra natureza: trata-se do desdobramento natural da crise de identidade que tomou de assalto o centro democrático desde a ascensão irresistível do imoral populismo lulopetista e de seu congênere, a demagogia brucutu bolsonarista.

Pode até ser que, em meio a essa depuração a céu aberto, as forças que deveriam estar na oposição consigam se reorganizar em bases mais firmes e coerentes que as atuais. Hoje, contudo, é preciso candura excessiva para apostar nisso; o mais provável é que a maior oposição a Bolsonaro continue a ser seu próprio desgoverno.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de São Paulo, em 12 de fevereiro de 2021

Bolsonaro nomeia deputado João Roma, do Republicanos, como novo ministro da Cidadania

Onyx Lorenzoni foi deslocado para a Secretaria Geral da Presidência na primeira fase da reforma ministerial
 
O deputado João Roma (Republicanos-BA) foi escolhido como novo ministro da Cidadania do governo Jair Bolsonaro. O parlamentar assume a vaga deixada por Onyx Lorenzoni (DEM-RS), que foi deslocado para a Secretaria Geral da Presidência, numa primeira fase da reforma ministerial. A nomeação foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União nesta sexta-feira, 12.

Roma, de 48 anos, venceu uma espécie de corrida interna no partido, que também avaliava para o Ministério da Cidadania os deputados Márcio Marinho (RJ) e Jhonatan de Jesus (RR). Ele foi escolhido por ter maior experiência em gestão pública e pela capacidade de articulação nos bastidores. Nos anos 1990 e 2000, passou por cargos de confiança nos governos de Pernambuco, Ministério da Administração, Ministério da Cultura e Agência Nacional de Petróleo (ANP).


João Roma é o novo ministro da Cidadania Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados - 2/7/2020

Antes de ser deputado, João Roma foi chefe de gabinete na prefeitura de Salvador, durante a administração de ACM Neto, presidente do Democratas. Em cinco anos no cargo, era considerado um dos homens fortes da gestão de ACM Neto e teve seu apoio para disputar o primeiro mandato de deputado federal, eleito em 2018. Por causa da crise no DEM, o ex-prefeito apelou para que Roma não aceitasse a indicação, mas o deputado ponderou que tinha aspirações pessoais e que sua indicação fazia parte de um acordo partidário do Republicanos com o Palácio do Planalto.

Em uma conversa recente com a cúpula de seu partido, Roma foi aconselhado a “cortar o cordão umbilical” com ACM Neto. A direção do Republicanos estava incomodada e via na tentativa de barrar Roma uma questão de vaidade do ex-prefeito de Salvador, que veria o “pupilo” assumir um cargo que nunca ele mesmo ocupou e em voo próprio, sem ser pelas suas mãos. Bolsonaro já havia definido a escolha. O ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, chegou a telefonar ao presidente do Republicanos, Marcos Pereira (SP), para relatar sobre a interferência do presidente do DEM.

Roma é católico, embora o partido seja um dos mais fortes na bancada evangélica e tenha vínculos com a Igreja Universal do Reino de Deus. O deputado é formado em Direito. Nascido em Recife (PE), é casado e tem dois filhos. Ele foi filiado ao antigo PFL, no qual militou na juventude. É neto do ex-deputado federal por três mandatos João Roma (PE), de quem herdou o nome. Nos anos 1960, o avô foi filiado ao PSD e à Arena, partido de sustentação do regime militar - ele deixaria a secretaria-geral da Arena em 1968, em discordância com o Ato Institucional Número 5 (AI-5). 

O ingresso do Republicanos no primeiro escalão de Bolsonaro é a primeira “entrega” a partidos do bloco do Centrão que apoiaram a eleição de Arthur Lira (Progressistas-AL) como presidente da Câmara dos Deputados. A costura foi realizada por Pereira, presidente nacional do Republicanos, que deixou o grupo do ex-presidente da Casa Rodrigo Maia (DEM-RJ), em que era um dos nomes cotados para a disputa, para aderir à campanha do candidato do Palácio do Planalto. 

O movimento do Republicanos e de outras siglas em favor de Lira ocorreu após o governo distribuir recursos e cargos para que deputados apoiassem seus candidatos ao comando do Congresso. O Estadão revelou que apenas do Ministério do Desenvolvimento Social foram repassados R$ 3 bilhões.

Pereira se reuniu com Bolsonaro na terça-feira, dia 9, para tratar da autonomia do Banco Central, pauta conduzida por outro deputado da bancada, Silvio Costa Filho (PE).

O acordo para dar mais espaço ao Republicanos, partido conservador, vinha sendo construído numa aproximação desde o ano passado. Dois filhos do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (RJ) e o vereador no Rio Carlos Bolsonaro ingressaram no partido. O partido também indicou, no ano passado, o presidente da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) José Samuel de Miranda Melo Júnior.

Fundado com apoio de bispos da Igreja Universal do Reino de Deus, o Republicanos nasceu durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva e apoiou os governos Dilma Rousseff e Michel Temer. Políticos filiados ao partido foram ministros da Pesca, do Esporte e da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

Tia Eron

O licenciamento de Roma para assumir o ministério da Cidadania abrirá uma nova vaga ao Republicanos na Câmara. A suplente imediata é a ex-deputada Tia Eron (BA). Ela foi secretária nacional de Políticas para as Mulheres em 2019, tendo sido demitida pela ministra Damares Alves, da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Tia Eron foi secretária de Promoção Social e Combate à Pobreza na prefeitura de Salvador, durante a gestão de ACM Neto. Na Câmara, notabilizou-se em 2016 por dar um voto, no Conselho de Ética, que abriu caminho para a cassação do ex-deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ). O ex-presidente da Câmara foi preso e condenado na Operação Lava Jato.

Felipe Frazão, O Estado de São Paulo, em 12 de fevereiro de 2021, Atualizado 12 de fevereiro de 2021 | 19h46

Após DEM indicar apoio a Bolsonaro, Mandetta pede reunião com cúpula do partido

Ex-ministro da Saúde deixou governo após atritos com o presidente na condução da pandemia de covid-19

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta se reunirá nos próximos dias com o presidente do DEM, ACM Neto, para decidir se continua ou não na sigla. O encontro está marcado para a última semana de fevereiro.

O médico sul-mato-grossense se irritou com ACM Neto depois que o ex-prefeito de Salvador incluiu o atual presidente da República, Jair Bolsonaro, entre as opções do partido para 2022.

“A base do partido virou uma geleia. ‘Posso estar com Doria, Bolsonaro, Mandetta, Huck ou Ciro’. Daqui a pouco até Lula vai aparecer como cotado para receber o apoio”, disse Mandetta no começo da semana.

O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta; médico é cotado como presidenciável em 2022 Foto: Dida Sampaio/Estadão

Primeiro ministro da Saúde de Bolsonaro, Mandetta deixou o governo em abril de 2020 depois de um mês de atritos com o presidente da República sobre como enfrentar a pandemia da covid-19. 

Meses depois de deixar o ministério, o médico disse que o comportamento de Bolsonaro durante a pandemia contribuiu para elevar o número de mortes no país. Até agora, mais de 230 mil brasileiros foram vitimados pela doença, segundo dados oficiais.

“Nós ainda não confirmamos quando vai acontecer, mas já sinalizamos uma conversa. Sem ser essa semana, a partir da outra. Ainda sem local ou data, mas ainda este mês, para tratar sobre o presente e o futuro”, disse ACM Neto ao Estadão.

“É natural que aconteça esse papo aí nos próximos dias, ainda este mês. Mas não é uma reunião formal do partido. É um bate-papo dele comigo e algumas pessoas (do DEM)”, afirmou o ex-prefeito de Salvador. 

A reportagem apurou que devem estar presentes o ex-governador do Rio Grande do Norte José Agripino Maia e o ex-ministro da Educação Mendonça Filho, entre outros. 

O Estadão questionou ACM Neto e Mendonça Filho sobre qual caminho deverá ser seguido por Mandetta, mas ambos evitaram comentar. A possibilidade de o ex-ministro deixar o DEM, acompanhando a provável saída do ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), é debatida nos bastidores. No caminho inverso, uma outra hipótese em discussão é a da sigla lançar Mandetta como pré-candidato à presidência da República. 

Maia e Mandetta reclamaram publicamente da aproximação do DEM com o governo Bolsonaro durante a eleição para a presidência da Câmara, quando o partido abandonou a aliança de Baleia Rossi (MDB-SP), favorecendo o candidato do Palácio do Planalto, Arthur Lira (Progressistas-AL).

Depois de deixar o cargo de ministro, Mandetta passou a ver seu nome incluído em pesquisas de intenção de voto para 2022. No fim de janeiro, pesquisa Atlas mostrou o médico com 3,4% das intenções de voto, porcentual próximo daquele obtido pelo governador tucano de São Paulo, João Doria (3,6%), e maior que o apresentador Luciano Huck (1,9%). 

Bancada do DEM não tem disposição de seguir Maia, diz ACM Neto

O ex-prefeito de Salvador também comentou o levantamento do Estadão com a bancada do DEM na Câmara. A reportagem mostrou que dos 22 deputados que responderam às perguntas, só dois – Alexandre Leite (SP) e Kim Kataguiri (SP) – descartaram apoiar Bolsonaro em 2022. Um discurso que contraria o que Neto teria dito a Doria nesta semana, quando garantiu ao tucano que o DEM não estará com o atual ocupante do Planalto na próxima disputa presidencial.

André Shalders, O Estado de São Paulo, em 12 de fevereiro de 2021

Brasil registra 1.204 mortes por Covid em 24 horas; total vai a 237,6 mil

País contabilizou 9.765.694 casos e 237.601 óbitos por Covid-19 desde o início da pandemia, segundo balanço do consórcio de veículos de imprensa. Já são 23 dias com a média móvel de mortes acima da marca de 1 mil.

O consórcio de veículos de imprensa divulgou novo levantamento da situação da pandemia de coronavírus no Brasil a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde, consolidados às 20h desta sexta-feira (12).

O país registrou 1.204 mortes pela Covid-19 nas últimas 24 horas, chegando ao total de 237.601 óbitos desde o começo da pandemia. Com isso, a média móvel de mortes no Brasil nos últimos 7 dias foi de 1.068. Já são 23 dias com essa média acima da marca de 1 mil. A variação foi de 0% em comparação à média de 14 dias atrás, indicando tendência de estabilidade nos óbitos pela doença.

Em casos confirmados, desde o começo da pandemia 9.765.694 brasileiros já tiveram ou têm o novo coronavírus, com 49.396 desses confirmados no último dia. A média móvel nos últimos 7 dias foi de 45.229 novos diagnósticos por dia. Isso representa uma variação de -12% em relação aos casos registrados em duas semanas, o que indica tendência de estabilidade nos diagnósticos.

Dez estados estão com alta nas mortes: MG, GO, AC, PA, RO, RR, TO, BA, MA e RN.

O estado do Ceará não divulgou novos dados até as 20h desta sexta-feira.


Brasil, 12 de fevereiro

Total de mortes: 237.601

Registro de mortes em 24 horas: 1.204

Média de novas mortes nos últimos 7 dias: 1.068 (variação em 14 dias: 0%)

Total de casos confirmados: 9.765.694

Registro de casos confirmados em 24 horas: 49.396

Média de novos casos nos últimos 7 dias: 45.229 por dia (variação em 14 dias: -12%)

(Antes do balanço das 20h, o consórcio divulgou um boletim parcial às 13h, com 236.638 mortes e 9.725.231 casos confirmados.)


Estados

Subindo (10 estados): MG, GO, AC, PA, RO, RR, TO, BA, MA e RN

Em estabilidade (10 estados e o Distrito Federal): RS, SC, SP, DF, MS, MT, AM, AL PE, PB e PI

Em queda (5 estados): PR, ES, RJ, AP e SE

Não divulgou (1 estado): CE

Essa comparação leva em conta a média de mortes nos últimos 7 dias até a publicação deste balanço em relação à média registrada duas semanas atrás (entenda os critérios usados pelo G1 para analisar as tendências da pandemia).

Vale ressaltar que há estados em que o baixo número médio de óbitos pode levar a grandes variações percentuais. Os dados de médias móveis são, em geral, em números decimais e arredondados para facilitar a apresentação dos dados.

G1, em 12.02.2021.

Fuga de eleitores e planos de cisão: o dramático final de Trump abre uma fissura no Partido Republicano

Agremiação perdeu filiados, enquanto ex-dirigentes debatem a criação de um novo partido de centro-direita.


A senadora republicana Susan Collins fala com membros da Guarda Nacional no Capitólio. Foto deJIM LO SCALZO / EFE

Mais de 33.000 eleitores registrados como republicanos na Califórnia deixaram o partido nas três semanas seguintes ao ataque do Capitólio. Na Pensilvânia, foram mais de 12.000 deserções no último mês. Arizona, Flórida... o padrão se repete em todos os Estados que divulgaram dados. São números pequenos em escala nacional, mas a tendência preocupa os dirigentes partidários.

As assustadoras imagens do ataque ao Capitólio por parte de seguidores do ex-presidente Donald Trump, que os democratas vêm há três dias exibindo no julgamento do seu impeachment, dificilmente servirão para alterar a postura dos senadores republicanos. Mas talvez o destinatário real dessas imagens não sejam eles, e sim os eleitores conservadores tradicionais, cuja fuga colocaria o Partido Republicano em sérias dificuldades.

Segundo um levantamento do The New York Times, quase 140.000 republicanos deixaram o partido desde 6 de janeiro nos 25 Estados que divulgaram os dados. É o dobro das deserções democratas no mesmo período. Sempre há movimentos nos registros depois das eleições, em alguns casos porque os Estados atualizam as bases de dados e retiram os falecidos ou quem mudou de domicílio. Mas os especialistas concordam que, depois do ataque ao Capitólio, os republicanos sofreram um abandono maior que o habitual.

A tendência preocupa os quadros atuais e antigos do Grand Old Party. E também entre eles se nota o descontentamento. Dezenas de ex-dirigentes, conforme publicou a Reuters na quarta-feira, estão conversando para formalizar uma ruptura e criar um partido de centro-direita. Entre participantes desse debate inicial, segundo essa mesma notícia, haveria ex-altos-funcionários dos Governos Reagan, Bush pai e Bush filho, assim como diplomatas e marqueteiros do partido.

Mais de 120 deles participaram na semana passada de uma teleconferência para debater a cisão. A ideia, sempre segundo a Reuters, é apresentar candidatos próprios em algumas circunscrições e, em outras, apoiar candidatos centristas de qualquer filiação política. Debateu-se sobre formar um partido ou uma corrente, dentro ou fora da formação republicana. E se cogitam os nomes de Partido da Integridade e Partido de Centro-Direita, segundo a Reuters.

A iniciativa ilustra a que ponto os acontecimentos do final do mandato de Trump aprofundaram a fissura na formação. O trumpismo continua sendo uma força dominante no Partido Republicano. Segundo uma pesquisa da ABC News e The Washington Post feita entre 10 e 13 de janeiro, 69% dos norte-americanos consideram que os republicanos deveriam levar o partido para outra direção. Entre os republicanos, 60% insistem em seguir o rumo determinado por Trump. Esse percentual era de 83% em 2018.

O traumático final do mandato de Trump torna mais difícil a tolerância passiva de seus excessos, o que terminou por alienar uma parte do setor moderado. Os republicanos ampliaram sua presença na Câmara de Representantes depois das eleições de novembro, e entre os novos integrantes entraram perfis em sintonia com as bases mais extremistas do trumpismo. Até 139 membros da Câmara Baixa e oito senadores votaram a favor de bloquear a certificação da vitória eleitoral de Joe Biden horas antes do ataque ao Capitólio. Mas exatamente uma semana depois da violenta insurreição, 10 congressistas republicanos votaram pelo impeachment de Trump. Não é uma proporção grande entre os 211 deputados do partido, mas é o número mais elevado na história de votos dados por deputados pela destituir um presidente do seu próprio partido.

Na cabeça dos deputados, e também na dos senadores que terão que condenar ou absolver o ex-presidente, há outros cálculos. Neste momento, a força mobilizadora de Trump nas bases republicanas continua sendo grande, por isso a vontade de enfrentá-lo tende a ser proporcional à distância temporal que separa os atuais parlamentares da disputa por um novo mandato.

PABLO GUIMÓN, de Washington DC,  para o EL PAÍS, em 12 FEV 2021.

Com DEM em crise, Huck se aproxima do PSB: veja os cenários para 2022

Articulações para eventual candidatura à Presidência incluem fusões de legendas e a construção de proposta de um centro liberal e democrático; apresentador conversa com João Campos

A vitória de Arthur Lira (Progressistas-AL) na Câmara dos Deputados reforçou a percepção no grupo mais próximo a Luciano Huck de que é necessário construir uma estrutura partidária consistente para viabilizar o projeto presidencial do apresentador e empresário. No cálculo para uma eventual candidatura ao Palácio do Planalto são levadas em conta fusões de legendas e um arranjo que sustente a proposta de um centro liberal e democrático, capaz de se contrapor à polarização entre bolsonaristas e petistas. Desde o ano passado, ao menos quatro partidos já sondaram Huck.

Com o DEM fragmentado e mais governista, uma opção que passou a ser avaliada com atenção extra por aliados do apresentador é o PSB. As conversas ocorrem desde o ano passado e têm sido estimuladas pelo prefeito do Recife, João Campos (PSB), e por sua namorada, a deputada federal Tabata Amaral (SP), que está rompida com seu partido, o PDT. Tabata tem relação próxima com Huck e foi a ponte entre ele e Campos. Os dois jovens políticos integram o RenovaBR, grupo de renovação e formação política que tem o apoio do apresentador.

O empresário e apresentador Luciano Huck é apontado como possível candidato à Presidência em 2022 Foto: Renato Bueno/Divulgação

O filho do ex-governador e ex-presidenciável Eduardo Campos (que morreu em um acidente aéreo na campanha de 2014) e Huck também estreitaram a relação quando o pessebista assumiu, aos 27 anos, o mandato de deputado federal e adotou uma agenda ambientalista e progressista. No Congresso, o atual prefeito da capital pernambucana foi relator da CPI do Óleo e também presidiu a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Renda Básica.

O DEM, que flertava com o apresentador, mergulhou em uma crise interna após a eleição da presidência da Câmara, quando a bancada liberou seus deputados para votarem em Lira - candidato do presidente Jair Bolsonaro.  A aproximação da legenda com o Palácio do Planalto e a iminente saída de Rodrigo Maia (RJ) tem o potencial de esfriar as conversas do DEM com Huck.


A alternativa PSB tem como pano de fundo uma possível fusão entre a sigla socialista e o PCdoB, o que resultaria na criação de uma nova legenda de centro-esquerda. Apesar de ainda embrionária, a tese tem sido bem recebida por quadros dos dois partidos. Segundo interlocutores de Campos, há consenso de que é preciso construir pontes no campo da esquerda além do PT.

"A fusão do PSB com o PCdoB  é uma possibilidade. Há conversas entre os líderes dos dois partidos", disse o deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP). "Assim como em 2018, a eleição de 2022 também não será convencional. A ideia é buscar uma pessoa da sociedade e acima dos partidos, mas ainda não aconteceu nenhuma conversa da direção do PSB com o Huck", afirmou o presidente do PSB, Carlos Siqueira.

Huck tem revelado em conversas reservadas ter admiração pelo governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), com quem também tem mantido conversas regulares nos últimos dois anos. O governador fez duas visitas ao apresentador no Rio de Janeiro antes da pandemia de covid-19. Durante a pandemia, organizaram ao menos cinco reuniões virtuais fechadas com públicos diferentes: empresários, políticos e ativistas. Dino vê em Huck um quadro "liberal progressista", que, uma vez eleito, não adotaria uma agenda de esquerda “puro sangue”, mas faria um governo associado à pauta de proteção social e ambiental. Em uma das conversas que tiveram, Huck chegou a perguntar a Dino sobre sua experiência de deixar um “porto seguro” (ele era juiz) para se aventurar na política.

Uma outra hipótese de união partidária - entre Cidadania, PV e Rede - poderia servir de guarida a uma candidatura de Huck. A ex-ministra Marina Silva mantém interlocução com o apresentador, mas a Rede resiste à ideia de fusão. "Essa conversa já foi feita com eles (Rede) e a decisão que tomaram foi negativa. Não tenho informação de que isso tenha mudado", afirmou Roberto Freire, presidente nacional do Cidadania. Ele reconhece que há um alinhamento com o PV e que, no futuro, isso pode caminhar para uma proposta formal. "Mas não é pauta ainda." O Cidadania era considerado um destino confortável para o apresentador e abrigou diversos quadros dos movimentos de renovação política. Mas a avaliação corrente entre aliados de Huck é que o partido ainda carece de capilaridade e recursos para uma disputa presidencial.

Cláusula de barreira

Fusões partidárias estão no radar de legendas médias ou pequenas por causa da cláusula de desempenho (conhecida também como cláusula de barreira). Criada em 2017, ela funciona como uma espécie de filtro e usa como base de cálculo as eleições gerais – quando são escolhidos o presidente da República, governadores, deputados federais e senadores. Na disputa de 2018, a exigência foi para que os partidos somassem ao menos 1,5% dos votos válidos em nove Estados, com 1% dos votos em cada um deles. O porcentual aumenta de forma progressiva e no próximo ano será de 2%.

Na articulação político-partidária, o projeto de Huck concorre com o do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que também tenta formar uma rede de apoios com partidos da centro-direita e passou a fazer acenos à centro-esquerda na busca por uma frente anti-Bolsonaro.

O apresentador abriu um leque amplo de interlocutores. Nas conversas, porém, é econômico e geralmente escuta mais do que fala. Segundo aliados, entre os partidos que já lhe sondaram ou fizeram convites, está o Podemos, que costuma ser identificado com a defesa da Lava Jato. Huck se reuniu com o ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro no fim de outubro do ano passado. O encontro não foi bem recebido por boa parte dos seus apoiadores. A avaliação é que o ex-magistrado de Curitiba contamina o seu projeto, trazendo para dentro dele a polarização PT x Bolsonaro. Alérm disso, Moro afasta da articulação de Huck as forças políticas da esquerda.

Uma possível filiação de Huck é algo tratado num horizonte ainda distante. Conforme a legislação, a data-limite é o início de abril do ano que vem, seis meses antes das eleições. Por enquanto, o apresentador continuará se colocando “à disposição” do País em manifestações pontuais. Aos poucos, pretende definir sua questão profissional na TV Globo (ele ainda é cotado como um possível substituto de Fausto Silva nas tardes de domingo em 2022) e fazer a transição de celebridade para o político. 

Procurados, Huck, Campos, Tábata Amaral e Renata Abreu, presidente do Podemos, não quiseram se manifestar./ COLABORARAM EDUARDO KATTAH e ADRIANA FERRAZ

Pedro Venceslau, O Estado de São Paulo, em 12 de fevereiro de 2021 | 11h07