terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Bolsonaro reconhece Biden como presidente eleito dos EUA

O presidente brasileiro esperou até que o Colégio Eleitoral sacramentasse a vitória do candidato democrata sobre Donald Trump para enfim congratulá-lo. 

"Saudações ao Presidente @JoeBiden, com meus melhores votos e a esperança de que os EUA sigam sendo 'a terra dos livres e o lar dos corajosos", escreveu o presidente brasileiro em seu perfil no Twitter. "Estarei pronto a trabalhar com o novo governo e dar continuidade à construção de uma aliança Brasil-EUA, na defesa da soberania, da democracia e da liberdade em todo o mundo, assim como na integração econômico-comercial em benefício dos nossos povos", completou Bolsonaro, que dias atrás disse ter ouvido de fontes que "teve muita fraude lá" nas eleições norte-americanas, e que, portanto, preferia esperar o resultado final do pleito.

Twitter / Jair Bolsonaro

Juan Guaidó: “Não quero usar a palavra negociação; causa muitos conflitos dentro da Venezuela”

O líder oposicionista, ainda reconhecido como presidente interino 60 países, diz que manterá a agenda do Parlamento, apesar de o chavismo ter acabado de retomar o controle da Assembleia Nacional

Juan Guaidó posa para uma foto durante uma sessão em setembro de 2019 em seu gabinete na assembleia.CARLOS BECERRA / BLOOMBERG

Já faz quase dois anos desde que Juan Guaidó (La Guaira, 37 anos) assumiu a presidência da Assembleia Nacional da Venezuela. Em questão de semanas, deixou de ser um político quase desconhecido para liderar a oposição ao chavismo. Como chefe do Parlamento, ele se proclamou presidente interino e, com forte apoio da comunidade internacional, tentou forçar a queda de Nicolás Maduro, a formação de um Governo de transição e a realização de eleições com garantias.

No entanto, a revolução bolivariana continua expandindo seu poder. Em 6 de dezembro, recuperou o controle do Legislativo em eleições marcadas por denúncias de fraude e que registraram apenas 30% de participação. Guaidó respondeu com uma consulta alternativa realizada online ao longo da semana passada e concluída no sábado com uma votação presencial. Líder do partido Vontade Popular, o mesmo de Leopoldo López, Guaidó busca conter o desgaste, a desmobilização e as críticas internas motivadas pelo fracasso da estratégia. Nesta entrevista a EL PAÍS, realizada por videoconferência, ele mostra a sua determinação em manter ativa a Assembleia Nacional de maioria oposicionista, a partir de 5 de janeiro, quando os novos deputados tomarão posse.

Pergunta. Qual a confiabilidade da consulta que vocês acabam de convocar?

Resposta. Para além do esforço que o comitê organizador fez, devemos comparar isto com o que é. Um movimento cívico, organizado a partir da sociedade civil, que é claro, no meu caso, eu promovi pessoalmente. Foram cinco dias de participação muito bem-sucedidos porque conseguiram passar mensagens importantes, apesar da pandemia e da perseguição e ao contrário do que foi o dia 6 de dezembro [realização das eleições legislativas]. Primeiro, que a organização e união são fundamentais na Venezuela. Segundo, a rejeição da fraude, mas também elevar a luta e a solução para o conflito em eleições presidenciais e parlamentares. Seria um erro comparar com o 6 de dezembro, até mesmo porque o 6 de dezembro foi feito usurpando as ferramentas e os recursos do Estado.

P. Mas quão fidedigno será um resultado que não foi auditado? Não estão cometendo um erro semelhante ao que criticam?

R. Não, essa é a grande diferença. Não se pode comparar um processo como aquele com um de manifestação de voluntários e participação cívica. Hoje ainda temos pessoas presas por terem entregue um panfleto ou terem armado um local [de votação].

P. Em 5 de janeiro terminará a legislatura da Assembleia Nacional de maioria oposicionista que foi conquistada de modo contundente em 2015, pelo qual você é reconhecido como presidente interino por cerca de 60 países. Desse dia em diante, quem será Juan Guaidó?

Juan Guaidó durante uma entrevista em seu gabinete da Assembleia em 2019. CARLOS BECERRA / BLOOMBERG

R. O reconhecimento internacional e a presidência interina hoje são instrumentos de defesa do que resta de democracia na Venezuela. A continuidade institucional é o princípio que estamos abraçando neste momento, por não ter havido uma eleição válida, para dar continuidade ao mandato da Assembleia Nacional e da presidência interina. Com que base? O artigo 233 da Constituição, a não eleição realizada em 6 de dezembro. Mas o mais importante é a defesa dos venezuelanos, das pessoas. Não podemos permitir um vazio na interlocução. Para chegar a uma solução, vamos necessitar de força interna e do diálogo legítimo do povo da Venezuela, o que significa manter e instalar em 5 de janeiro a continuidade constitucional do Parlamento.

P. A partir de 6 de janeiro, então, você vai continuar se considerando presidente interino?

R. Pela Constituição e a continuidade institucional com base no Parlamento nacional. Não podemos cair na armadilha. O que eles estão querendo? Aniquilar a alternativa democrática, por isso, por exemplo, não aceitaram a oferta muito sensata que a Europa fez recentemente para afastar a fraude e reunir condições para um processo reconhecido e competitivo. Maduro não está interessado na legitimidade desse processo do 6 de dezembro.

P. Você foi proclamado presidente interino e reconhecido para conseguir um objetivo: cessação da usurpação, um Governo de transição, eleições livres. Dois anos depois, nada disso foi alcançado. O seu Governo interino deve ser mantido da forma como está estruturado ou precisa ser modificado e reduzir cargos?

R. Acho que deveria ser melhorado para se tornar mais rápido. A pressão internacional tem que ser facilitada, mas também as garantias para aqueles que hoje apoiam Maduro. Qualquer transição cria incertezas, mesmo nas democracias. Em suma, a partir de 5, 6 de janeiro o que temos que fazer é fortalecer a coalizão internacional, a mobilização interna para fazer pressão, mas também as garantias, o marco para a transição.

P. Todos esses objetivos que você enfatizou muitas vezes também perderam credibilidade. Nestes dois anos, as expectativas foram muito altas e há muitas críticas à estrutura desse Governo interino. Essa estrutura deve ser mantida?

R. A revisão tem a ver com o objetivo e também com o ambiente da Venezuela. Hoje, a vida cotidiana na Venezuela é uma façanha, desde pôr gasolina até comprar comida. Se quisermos ampliar o reconhecimento do Parlamento nacional, a rejeição da fraude e aumentar as pressões, provavelmente não precisamos de 36 embaixadores, precisamos de 44. Mas, na Venezuela, como protegemos aqueles que foram nomeados pelo Governo interino?

P. No ano passado, nós lhe perguntamos sobre o fracasso de seus planos e você pediu para não confundir esse termo com frustração. Você ainda acredita que não fracassou?

R. Continuo acreditando que as pessoas querem a saída de Maduro. Nosso grande mandato é sair da ditadura, conseguir a transição e eleições livres. Tudo o que for orientado nesta direção funcionará. Ver de outra forma é dar razão à ditadura, que torturou, assassinou e roubou eleições. É preciso melhorar processos, mas sem perder de vista o contexto. Por exemplo, a desigualdade de informação. Nas emissoras de âmbito nacional a consulta popular não foi mencionada nenhuma vez, não se falou em fraude e Juan Guaidó não pôde ser citado em nenhum programa.

P. Qual foi seu principal erro nestes dois anos?

R. Acho que há duas coisas a melhorar no curtíssimo prazo. A primeira, produzir a certeza de que haverá uma transição, dar garantias precisas a todos os setores. Um exemplo pontual é como melhorar um processo como o da Noruega ou o que transcorreu em 30 de abril. As garantias são essenciais para gerar pressões e dilemas para a ditadura. E o outro elemento importante é a gestão da construção de consensos efetivos. O que isto significa? Unidade, que tem que ser em dois sentidos: a estabilidade e a governabilidade, mas também tem que ser audaz.

P. Do primeiro se deduz que a força interna talvez tenha sido um pouco deixada de lado pela força internacional, especificamente por causa do grande apoio que os EUA lhes deram. Isso foi um erro?

R. Não, mais do que isso são as garantias. Em nível interno, temos visto grandes mobilizações, grandes manifestações, mas podemos conseguir fortalecer esse quadro. Há muita gente no entorno de Maduro que também está cansada.

P. Até agora apelaram para o imediatismo. Um dos seus lemas era “o momento é agora”, mas se olharmos para o futuro se vislumbra uma espécie de travessia do deserto. O que virá agora e como você vai convencer todo o universo antichavista de que você é a pessoa certa para continuar liderando essa tentativa de forçar a mudança?

R. Aí tudo se resume, em forçar uma solução, o que podemos oferecer no curto prazo. Para poder oferecer garantias, é necessário um diálogo legítimo. Como conseguir isso? Por meio do Parlamento nacional. O Parlamento tem uma liderança e uma direção, que neste caso a presidência interina assume em razão da situação extraordinária que a Venezuela atravessa. E nisso há um consenso político de todos os partidos da alternativa democrática. Para além da pessoa, creio que existe um absoluto consenso político, tirando as diferenças públicas que vocês conhecem e que eu reconheço, mas que são opiniões e casos pessoais.

P. E a solução vai passar por uma negociação?

R. Não quero falar de negociação porque o termo é diferente, pelo que se entende na comunidade internacional e o que vivemos na Venezuela. Quando Maduro fala em negociação, ele o faz de maneira retórica, para diminuir a solução do conflito. A solução para o conflito passa por eleições presidenciais e parlamentares. Mais do que negociação, eu gostaria de falar em garantias para conseguir uma eleição. Para isso precisamos de pressão, de força, porque Maduro mostrou voluntariamente que não concorda com uma negociação. Os exemplos mais próximos são os enviados de Bruxelas a Caracas, a comissão de reivindicações, a mediação do Reino da Noruega. Eu troco a palavra negociação para torná-la mais específica e pôr na mesa garantias a todos os setores para conseguir uma eleição presidencial e parlamentar e assim não distorcer o conceito, porque Maduro até o tornou pejorativo ao fazer mau uso dele.


Manifestantes gritam slogans durante um protesto contra o presidente Nicolás Maduro e seu Governo em Caracas, Venezuela, na terça-feira, 10 de março de 2020.CARLOS BECERRA / BLOOMBERG

P. Ou seja, não se vai negociar a saída de Maduro, mas, sim, poderiam negociar as condições para que haja um cenário que permita aos venezuelanos decidir a saída ou não de Maduro.

R. Não quero usar a palavra negociação, de novo, porque isso gera muitos conflitos dentro da Venezuela. E peço ajuda à comunidade internacional para dar significado a isto, porque, se assim não for, alimentamos a narrativa da ditadura. As garantias vão permitir eleições presidenciais e parlamentares. Considero que é importante que Maduro saia e isso passa por outros mecanismos de pressão. Mas as garantias são direcionadas até mesmo ao seu entorno.

P. Durante o processo de paz com as FARC na Colômbia, o Governo comentava sobre o problema que tinha internamente ao usar uma ou outra palavra. Você sabe que a comunidade internacional fala de uma saída negociada, mas essa palavra assusta muito porque talvez o setor extremo, mais conservador, que há na Venezuela o rejeitaria. Você acha que precisa mudar esse equilíbrio entre o que tem que dizer para o lado de fora e o que tem que dizer para o lado de dentro?

R. Não tenho meios na Venezuela para explicar isso. O mecanismo de comunicação com os cidadãos para nós é o Twitter. E apenas oito em cada dez venezuelanos têm acesso diário à Internet.

P. E por essa virtualidade você é mais presidente interino para a comunidade internacional do que para os próprios venezuelanos.

R. Eu não falaria em virtualidade, mas em eficácia para sair de Maduro. No final do dia a grande necessidade do povo da Venezuela é sair de Maduro.

P. Haverá uma mudança em Washington, onde vocês tiveram em Trump seu maior apoiador na comunidade internacional. O que esperam de Joe Biden? Você teria preferido que Trump tivesse vencido a eleição novamente?

R. O mais importante com a Administração do presidente eleito Biden é simples: oferecer aos nossos aliados a oportunidade de resolver o conflito. Queremos a abordagem bipartidária que tivemos até agora. Em relação à Administração do presidente Trump, o agradecimento dos venezuelanos pela determinação na luta pela democracia. Mas, no final das contas, os americanos elegem, nós respeitamos 100% esse processo, antes, durante e depois da eleição. Queremos que a solução do conflito sirva também como segurança para todo o continente.

P. Dias atrás você pediu o reforço das sanções. Por quê? Acha que as medidas tomadas até agora serviram para alguma coisa?

R. Mais do que fortalecer, falei em homologar. Porque a ditadura, através do Irã ou de outros países, tenta contornar as sanções, então as pressões não surtem o efeito desejado. Quando falo em fortalecer, quero dizer melhorar, sustentar de modo eficaz.

P. E as que foram adotadas até agora conseguiram alguma coisa?

R. São a única ferramenta que levaram a ditadura, por exemplo, a sentar-se com a Noruega, a sentar-se com a Europa, são a única ferramenta que há que realmente dói para eles. Hoje não estamos no cenário de um Governo ruim. [Maduro] é um criminoso de lesa humanidade que tortura, assassina e reprime sistematicamente.


O líder da oposição Juan Guaidó chega para dirigir uma sessão legislativa no teatro municipal de San Antonio, em Caracas, Venezuela, na terça-feira, 18 de fevereiro de 2020. MATIAS DELACROIX / AP

P. Você sabe que na UE existem muitas posições diferentes. Teme que a partir de agora alguns países retirem o apoio a seu cargo?

R. Tenho plena confiança no apoio da UE à causa venezuelana e no entendimento da intenção da ditadura de aniquilar a alternativa democrática.

P. Entenderia que a UE mantivesse esse apoio à causa venezuelana, que o mantivesse como interlocutor, mas não continuasse a reconhecê-lo com o título de presidente interino?

R. Acho que o fortalecimento em si mesmo é importante, tanto do cargo como da instituição. E acho que há uma compreensão disso. O contrário seria, novamente, validar a tese da ditadura.

P. Se a UE não continuar lhe reconhecendo como presidente interino, considera que isso valida Maduro?

R. Não valida Maduro, mas é preciso insistir na proteção da alternativa democrática. O que acontece se a ditadura me sequestra? Esse sempre é um risco latente.

P. Não gosta da palavra negociação, mas tanto a UE como a Noruega patrocinaram em várias ocasiões uma espécie de mediação, uma exploração de uma via de saída. Vocês estão dispostos a participar de alguma iniciativa com essas características?

R. Quem não quer a negociação é Maduro. Se quisesse uma negociação, teria concordado com algo. A ditadura joga muito com a propaganda. Estamos dispostos a fazer tudo o que estiver próximo de garantias no menor tempo possível.

P. Há um nome que pairou na conversa, embora não tenha sido citado. Pode-se fazer uma oposição sólida sem que Juan Guaidó e Henrique Capriles estejam juntos?

R. Pode-se fazer oposição, sem dúvida, não é uma questão de pessoas. Acho que isso a facilita, mas não são fatores exclusivos. Por exemplo, Henrique faz parte de um partido político, o Primeiro Justiça, que está absolutamente alinhado com tudo o que temos falado. Não é um fator determinante, mas seria um fator facilitador.

JAVIER LAFUENTE e FRANCESCO MANETTO, da Cidade Do México e de  Bogotá para o EL PAÍS, em 15.12.2020. 

Apagão do Google põe em evidência os riscos da era do teletrabalho

Falha revela a dependência de milhões de empresas e pessoas das gigantes digitais

Tela de um celular com aplicativos do Google. / CHESNOT / GETTY IMAGES

Milhões de pessoas e empresas em todo o mundo dependem do Google para se comunicar, organizar sua agenda ou trabalhar online. Na manhã desta segunda-feira, vários serviços da empresa ―Gmail, Youtube, Google Maps e o serviço de armazenamento em nuvem Google Drive— ficaram fora do ar por 45 minutos. Esta falha, decorrente de um problema de armazenamento interno no sistema de autenticação, revelou a grande dependência que os usuários têm das gigantes tecnológicas. Não é a primeira vez que algo assim acontece. Mas agora, com o boom do teletrabalho resultante da crise do coronavírus, esses acidentes são muito mais graves.

Ricardo Pérez, professor de Sistemas de Informação da IE Business School, diz ser algo “raro” a ocorrência dessas quedas. “O normal é que sejam tão curtas que nem percebamos, sejam solucionadas rapidamente ou inexistam.” Falhas como essa ajudam a entender o enorme impacto que as gigantes da tecnologia têm na vida cotidiana de milhões de pessoas e empresas. “Houve falhas tanto em calefadores de pessoas que têm Nest [linha de produtos de automação residencial do Google] até em televisores com Chromecast ou Android e os serviços usados por mais de seis milhões de empresas”, diz ele.

Google fica temporariamente fora do ar no mundo todo

Esta não é a primeira vez que o Google fica fora do ar neste ano. Outro apagão global no serviço ocorreu em agosto, e a empresa de Mountain View declarou ter sido resolvido 13 horas depois. Naquela ocasião, os usuários não conseguiam anexar documentos às caixas de correio do Gmail e houve falhas quando tentavam fazer videochamadas com o Meet ou editar arquivos armazenados no Google Drive. Outras empresas, como a Amazon Web Services, o WhatsApp, o Facebook e o Instagram também sofreram quedas em 2020.

“Nós necessitamos que esses serviços sejam robustos e funcionem 24 horas por dia, nos sete dias da semana, porque estamos em uma sociedade cada vez mais digital”, afirma Fernando Suárez, presidente do Conselho Geral das Faculdades Oficiais de Engenharia da Computação. “Nós os utilizamos nas relações com a administração pública, o trabalho, a educação ou nas relações pessoais”, acrescenta.

O impacto da queda de serviços como o Google é maior hoje do que antes da pandemia. No caso da Espanha, nos últimos 10 anos apenas 4% da população do país trabalhava em casa. Mas os confinamentos e as restrições de mobilidade fizeram essa fatia disparar em 2020, chegando a 16,4%, de acordo com um estudo publicado em setembro pela Randstad. As empresas dependem principalmente dos serviços da Microsoft, Amazon, Salesforce, Slack ou Zoom. “Se há um ano estivéssemos em uma reunião e esses serviços digitais parassem, continuaríamos a conversar cara a cara. Hoje, isso é impossível para muita gente. O impacto é difícil de medir, mas é muitíssimo maior do que há alguns meses”, diz Pérez, que acredita que essas quedas farão as empresas pensarem em um plano B ou em até que ponto é conveniente para elas depender de apenas um provedor.

Perdas milionárias em horas

Os serviços do Google ficaram inativos por menos de uma hora nesta segunda-feira. Para Guillermo García, doutor em Economia e professor da Universidade San Jorge, esta falha “talvez não represente uma ameaça direta ao teletrabalho, mas deveria nos fazer repensar a tremenda dependência que temos dos grandes da indústria”. Ele considera que nem grandes nem pequenas empresas estão preparadas para essas quedas e seus negócios serão afetados: “Empresas que dependem da tecnologia do Google, como a Uber, com milhões de usuários que usam o Google Maps para contratar seus serviços, podem ter perdas milionárias em questão de horas”.

Quanto maior e mais tecnológica for a empresa, “maiores serão as perdas sofridas”, diz García. Ele acrescenta que Netflix, Uber ou Cabify sofreriam graves consequências se os seus serviços digitais ficassem fora do ar. Contudo, “nas empresas com uso menos intensivo de tecnologia e de menor porte, essas perdas serão pequenas e com pouco impacto no negócio principal”.

Apurar responsabilidades

Calcular o impacto econômico desse tipo de queda é complicado. E também apurar responsabilidades. Sergio de Juan-Creix, advogado especialista em direito digital da Croma Legal e professor da UOC, observa que, embora normalmente ao pagar por um serviço que apresentou falhas o cliente tenha o direito de solicitar reembolso, as empresas de tecnologia geralmente têm contratos nos quais não assumem a responsabilidade se o problema estiver além de seu controle. “Teríamos que descobrir a origem do problema e se a culpa é do Google”, diz ele. “Além do mais, há danos que são muito difíceis de provar, praticamente impossíveis”, acrescenta. Ele se refere à perda de negócios que poderia ocorrer por causa do serviço fora do ar: “Imagine que por causa dessa queda eu não tenha conseguido enviar um e-mail confirmando um contrato que teria que fechar dentro de 30 minutos e, assim, perdi essa oportunidade”.

No entanto, existe um vazio jurídico que isenta essas empresas online de responsabilidade e que representa um tratamento desigual em relação a outros serviços essenciais, como telefonia ou eletricidade. Por exemplo, se o serviço de telefonia móvel cair ou houver um corte de energia, as empresas são obrigadas a indenizar seus clientes, de acordo com a legislação espanhola de proteção ao consumidor. Mas se o WhatsApp for cortado ou o Google Maps não funcionar, não há nenhuma compensação regulamentada, por se tratar de um serviço teoricamente gratuito.

Diante da dependência inevitável dos serviços digitais, os gigantes da tecnologia concentram seus esforços em evitar esses acidentes. Embora não ocorram com muita frequência, poderia acontecer de serviços como Google, Microsoft ou Zoom ficarem fora do ar por uma semana, por exemplo? Para Pérez, isso parece “praticamente impossível”. “Teria que haver um desastre de proporções mundiais”, afirma. As gigantes da tecnologia se empenham muito em evitar esses problemas porque há muito em jogo: “Há uma briga pela confiança do usuário. Cada falha do Google é uma grande vitória para a concorrência”, conclui.

Isabel Rubio, de Madrid para o EL PAÍS, em 15.12.2020

Aras diz que suposto uso da Abin por Flávio Bolsonaro "é grave"

No entanto, procurador-geral da República afirmou que denúncia carece de provas. "Nós não trabalhamos com narrativas. Nós trabalhamos com fatos e provas, por enquanto temos fatos transmitidos pela imprensa", ressaltou.


Augusto Aras, Procurador Geral da República
                                                            (crédito: LeonardoPrado)

O procurador-geral da República, Augusto Aras, afirmou que solicitou informações à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI) sobre o suposto uso da entidade de inteligência para auxiliar a defesa do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). Relatórios produzidos pela instituição teriam sido repassados aos advogados do parlamentar na tentativa de anular investigações que correm contra ele por suspeitas de corrupção no caso das rachadinhas.

Aras afirmou que os fatos são "graves", mas que até o momento, "não existem provas", apenas informações publicadas na imprensa. “O fato em si narrado é grave, o que nós não temos são provas desses fatos. Nós não trabalhamos com narrativas. Nós trabalhamos com fatos e provas, por enquanto temos fatos transmitidos pela imprensa”, disse o procurador-geral ao ser questionado por jornalistas.

Ele afirmou que o Supremo tem entendimento de que denúncias feitas na imprensa não consistem em provas e que é necessário elementos que embasem a abertura de investigação formal. Mais de 50 parlamentares enviaram pedidos para que a PGR investigue o caso.

“Na verdade, nós recebemos somente ontem (segunda-feira) as representações do deputado Marcelo Freixo (PSol-RJ) e mais 50 deputados. Estas representações não trazem elementos materiais, trazem apenas notícias de jornal", disse o procurador.

Chefe do Ministério Público afirmou, contudo, que uma investigação será aberta para tratar do caso. “O MP vai ter de fazer a investigação. Vamos fazer perguntas aos órgãos competentes, ficamos à mercê dessas respostas. Sem os elementos ao menos indicados pela imprensa estaremos com dificuldade para fazer essas investigações, mas a imprensa contribuiria muito se fornecesse os elementos materiais”, completou Aras.

Prazo de 24 horas

A ministra Cármen Lúcia deu prazo de 24 horas para que a Abin e o GSI expliquem as denúncias. A determinação foi emitida em nome do ministro Augusto Heleno e do diretor-geral da Agência, Alexandre Ramagem. A produção de dois relatórios para auxiliar a defesa de Flávio foi revelada pela revista Época.

A publicação afirma que o setor de inteligência do governo orientou a abertura de uma notícia-crime na Procuradoria-Geral da República pelos advogados questionando suposta defesa, sem autorização da Justiça, nas contas pessoais do senador Flávio Bolsonaro. Além disso, teria orientado a demissão de auditores da Receita e servidores da Controladoria-Geral da União (AGU). De fato, pelo menos um servidor da Receita foi desligado, "a pedido".

Renato Souza / Correio Braziliense, 15.12.2020.   

Mutação do coronavírus não é razão para pânico

Nova variante do Sars-Cov-2 descoberta no Reino Unido parece ser capaz de se espalhar mais rapidamente, mas isso não a torna necessariamente mais perigosa.


       Micrografia eletrônica de transmissão de covid-19, com uma célula apoptótica fortemente                                                     infectada com partículas de coronavírus.

Os vírus estão em constante mutação, e essas mutações costumam ter efeitos mínimos

A mutação do novo coronavírus recentemente confirmada no sul do Reino Unido está se espalhando mais rapidamente do que a variante anterior, afirmou o ministro da Saúde britânico, Matt Hancock. Já há mil casos de pessoas infectadas pelo vírus com a mutação.

"Identificamos uma nova variante do coronavírus, que pode estar associada à disseminação mais rápida no sudeste da Inglaterra", disse ele, numa declaração na Câmara dos Comuns. Segundo Hancock, porém, isso não significa que a nova variante seja necessariamente mais perigosa.

Mutações como essa não são raras. Na China, por exemplo, origem da pandemia, uma nova variante do patógeno circulava há seis meses. No verão europeu, outra variante rapidamente se espalhou por metade da Europa a partir da Espanha.

Os vírus estão em constante mutação, e essas mutações geralmente têm efeitos adicionais mínimos.

Como o corpo reage a mutações?
Normalmente, o corpo humano é capaz de se proteger de vírus. Ele produz anticorpos que o defendem de ataques e o tornam imune aos patógenos. No entanto, caso o vírus já tenha sofrido alguma mutação e os anticorpos formados estejam programados para uma variante mais antiga, esses anticorpos serão menos eficazes.

É por esse motivo que se fica resfriado com tanta frequência. O corpo já produziu os anticorpos contra o resfriado anterior, mas não para a variante que sofreu mutação.

Mas não há razão para pânico, porque um vírus não se torna necessariamente mais perigoso devido a uma mutação. Algumas delas podem até mesmo enfraquecer um vírus.

Como ocorrem as mutações?
Quando o corpo humano desenvolveu anticorpos contra um determinado patógeno, sendo assim capaz de evitar o surgimento de uma doença, o vírus precisa mudar seu invólucro para não ser reconhecido pelos anticorpos e células do sistema imunológico. Para sobreviver, portanto, ele tem que alterar suas proteínas externas e desenvolver novas cepas.

Para se multiplicar, os vírus usam uma célula hospedeira. Quando a atacam, eles levam a informação genética de seu próprio núcleo para a célula infectada. É assim que as células do corpo geram milhões de cópias virais. Porém, com essas reproduções ocorrem também pequenos erros de cópia, e cada um desses erros altera o código genético do vírus, ou seja, ele sofre uma mutação.

Por que a nova variante se espalha mais rapidamente?
Como todos os coronavírus, o Sars-Cov-2, responsável pela covid-19, é um vírus RNA com uma taxa de mutação quase mensal.

Essas diferentes variantes também ajudam a explicar por que um patógeno desencadeia ondas de infecções de gravidade diferente em certas regiões do mundo e por que as infecções podem se desenvolver de maneira tão distinta de uma pessoa para outra.

A nova variante registrada no Reino Unido tem várias mutações na proteína spike do coronavírus – devido a uma deleção de gene faltam dois aminoácidos, o que pode facilitar a propagação do patógeno.

Uma deleção semelhante já havia sido observada no Leste Asiático. Lá, no entanto, a variante do Sars-Cov-2 causou infecções mais leves, pois aparentemente a mutação enfraqueceu o coronavírus.

As novas vacinas se tornam assim ineficazes?
O Reino Unido foi o primeiro país da Europa Ocidental a iniciar uma campanha de vacinação em grande escala. A mutação recém-registrada não torna as novas vacinas ineficazes. Elas são todas projetadas para codificar a informação da proteína spike do coronavírus de tal forma que nosso sistema imunológico é estimulado a despeito de eventuais mutações.

Felizmente, são necessárias mais do que algumas mutações para que um vírus altere suas proteínas de maneira que possam contornar a proteção imunológica.

No entanto, sabe-se que os vírus da gripe, por exemplo, sofrem mutações muito rapidamente, e por isso as vacinas precisam ser reajustadas a cada nova temporada para permanecerem eficazes.

Consequentemente, as vacinas contra a covid-19 terão que ser ajustadas em algum momento. Mas as informações coletadas durante a crise e as capacidades de produção recém-desenvolvidas garantirão um fornecimento rápido de vacinas também no futuro.

Deutsche Welle, 15,12,2020

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Mourão: ‘Campanha para 2022 foi colocada na rua cedo demais e não dá mais para ser recolhida’

Vice-presidente afirma que disputa entre o presidente Bolsonaro e o governador João Doria deve continuar ‘até o desfecho das urnas’

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, afirmou, em entrevista exclusiva ao “Papo com Editor”, do Estadão/Broadcast, que a disputa eleitoral de 2022 foi colocada em pauta “cedo demais”. Para ele, o embate entre o presidente Jair Bolsonaro e seu adversário político João Doria (PSDB), governador de São Paulo e um dos pré-candidatos à sucessão, deve continuar até o “desfecho nas urnas”.

“A campanha eleitoral para 2022 foi colocada na rua cedo demais. Então, a partir daí, é aquela história, ela partiu e não dá mais para ser recolhida. Na minha visão, vai continuar esse clima (de embate)”, avaliou. O vice-presidente opinou que Doria “vem fazendo uso dos mais variados meios para se colocar em evidência e sempre buscando ser um contraponto ao nosso governo”.

Apesar disso, a briga política se mantém no campo declaratório e da retórica, segundo Mourão. “Esse embate está muito nas palavras. Quando vocês forem olhar ações concretas, não tem ação concreta. Nem o governo federal está prejudicando o governo de São Paulo e nem o governo de São Paulo vai fazer uma nova Revolução de 32”, comentou.

Mourão é presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal


Vice da República, Hamilton Mourão Foto: Adriano Machado/Reuters

Vacina contra covid-19

Na visão do vice-presidente, a discussão está pautada, em especial, na questão da vacina contra a covid-19, que para ele é usada como “instrumento político”. “Está havendo uma discussão muito grande em torno de algo que ainda não existe”, opinou Mourão, ao lembrar que o Brasil ainda não tem imunizantes certificados.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro e Doria divergem sobre a estratégia de combate ao vírus. Ao contrário do chefe do Executivo, o governador também defende a obrigatoriedade da vacina e a adoção do imunizante de origem chinesa, a Coronavac, produzida em parceria com o Instituto Butantan. Apesar das constantes críticas públicas entre os dois, Mourão aposta que a briga possa “cansar” e esfriar até 2022. “O embate está nas palavras, não tem ação concreta e já vem cansando. Vamos aguardar os próximos passos. Julgo que vai ficar nessa figura de retórica e talvez em determinado momento até dê uma arrefecida”, acrescentou.

‘Faz algum tempo’ que não temos conversa particular, diz Mourão sobre Bolsonaro

Em mais um sinal do distanciamento com o chefe do Executivo, Mourão disse, durante a entrevista, que “faz algum tempo” que não tem conversas particulares com o presidente Bolsonaro. Questionado sobre planos para uma reunião privada com o presidente sobre temas fora do Executivo, Mourão respondeu: “Se for provocado, sim”.

“A realidade é que faz algum tempo que não temos uma conversa particular”, disse. O vice-presidente também negou possíveis planos de passar o Natal junto do presidente. “É um momento que é mais da família”, disse. Nesta semana, o vice-presidente disse que pretende despachar com Bolsonaro sobre a decisão sobre a reestruturação da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban).

Em relação às eleições de 2022 e uma possível repetição da chapa de 2018, Mourão negou que tenha tratado sobre o assunto com Bolsonaro. Mas, se mostrou disponível caso seja convidado. “Até o presente momento, o presidente Jair Bolsonaro não tocou nesse assunto comigo. Estou pronto para acompanhá-lo caso ele deseje e vá ser candidato em 2022, porque tudo é possível daqui para lá”, disse.

Apesar de ser mais receptivo com a imprensa do que Bolsonaro, o vice-presidente afirmou que prefere uma “posição secundária” no governo e não de evidência. “Desde o primeiro momento sempre me coloquei numa posição para assessorar o presidente Bolsonaro da melhor forma possível e buscar facilitar as ações dele”, explicou.

No início de novembro, contudo, Bolsonaro e Mourão divergiram sobre as eleições nos Estados Unidos. Enquanto o vice-presidente disse que eventualmente o governo reconheceria a vitória de Biden nos EUA, o chefe do Executivo negou que tivesse conversado com Mourão sobre o assunto, expondo o distanciamento entre os dois. A vacina contra a covid-19 e, recentemente, a tecnologia 5G também já foram temas de opiniões opostas de Bolsonaro e Mourão.

Emilly Behnke, Silvia Araujo e Gustavo Porto, O Estado de S.Paulo  / 4 de dezembro de 2020 


Colégio Eleitoral dos EUA confirma vitória de Joe Biden

Com votação dos 55 delegados da Califórnia, democrata supera a maioria de 270 votos necessária para chegar à Casa Branca, Trump anuncia saída do procurador-geral William Barr de seu governo.


Presidente e vice presidente eleitos dos EUA, Joe Biden e Kamala Harris

O Colégio Eleitoral dos Estados Unidos confirmou nesta segunda-feira (14/12), como era previsto, a vitória do democrata Joe Biden na eleição presidencial frente ao atual presidente, o republicano Donald Trump.

Com a votação dos 55 delegados da Califórnia, onde Biden venceu com cerca de 63% de votos, o democrata superou amplamente a maioria de 270 votos necessária para chegar à Casa Branca, horas depois do início das votações do Colégio Eleitoral em cada estado.

Com isso, o democrata se aproximou de confirmar os 306 delegados do Colégio Eleitoral, contra 232 de Trump. Considerando o voto popular, Biden teve 81,3 milhões de votos (51,3%) contra 74,2 milhões (46,8%) de Trump.

A cerimônia de posse de Biden enquanto o 46.º Presidente dos Estados Unidos está agendada para o dia 20 de janeiro. 

No sistema eleitoral dos Estados Unidos, os delegados do Colégio Eleitoral confirmam, em suas reuniões em cada estado, o que foi votado nas urnas pelos milhões de americanos nas eleições, realizadas há um mês e meio.

A grande mídia já previa em 7 de novembro que Biden alcançaria 306 votos eleitorais e arrancaria a presidência de Trump, mas o atual presidente desde então se recusou a admitir a derrota, alegando, sem apresentar provas, ter ocorrido fraude eleitoral maciça, o que foi repetidamente refutado pelas autoridades eleitorais.

Essa campanha inédita realizada por Trump deu especial significado à votação no Colégio Eleitoral, que normalmente costuma ser um mero passo burocrático para ratificar um resultado já amplamente conhecido e aceito.

Trump anuncia saída de Barr

Trump não reagiu de imediato às notícias do Colégio Eleitoral, mas em uma aparente tentativa de tirar o foco, foi ao Twitter logo depois para anunciar que o procurador-geral do país, William Barr deixará o cargo nos próximos dias.

"Bill vai sair [do cargo de procurador-geral dos EUA] pouco antes do Natal para passar os feriados com a família", escreveu o presidente, acrescentando que Barr vai ser substituído por Jeff Rosen, "uma pessoa excecional" que era até agora procurador-geral adjunto.

Trump vinha expressado repetidamente sua insatisfação com Barr nas últimas semanas, devido às questões legais relacionadas com a eleição presidencial.

O presidente americano se irritou que Barr tenha declarado não ter encontrado evidências de fraudes eleitorais generalizadas e também com o fato de o procurador-geral não tê-lo informado durante a campanha eleitoral que o Departamento de Justiça tinha aberto uma investigação contra Hunter Biden, um dos filhos do presidente eleito. 

Deutsche Welle, em 14.12.2020

Brasil registra mais 526 mortes por covid-19

País contabiliza quase 182 mil óbitos em decorrência da doença. Autoridades de saúde reportam 25.193 novos contágios. Total de infectados passa de 6,9 milhões.

Equipe de desinfecção contra coronavírus no Rio de Janeiro

O Brasil registrou oficialmente 25.193 casos confirmados de covid-19 e 433 mortes ligadas à doença nesta segunda-feira (13/12), segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass) e pelo Ministério da Saúde.

Com isso, o total de infectados no país subiu para 6.927.145, enquanto os óbitos chegam agora a 181.835. Ao todo, 5.982.953 pacientes se recuperaram da doença, segundo o ministério. O Conass não divulga número de recuperados.


Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que os números reais devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação. As cifras também costumam ser mais baixas no fim de semana, já que equipes responsáveis pela notificação trabalham em escala reduzida.

São Paulo é o estado brasileiro mais atingido pela epidemia, com 1.337.016 casos e 44.050 mortes. O total de infectados no território paulista supera os registrados na maioria dos países do mundo, exceto Estados Unidos, Índia, Rússia, França, Reino Unido, Itália, Turquia, Espanha, Argentina, Colômbia e Alemanha.

Minas Gerais é o segundo estado com maior número de casos, somando 469.003, seguido de Bahia (447.126), Santa Catarina (432.050), Rio de Janeiro (389.893) e Rio Grande do Sul (378.893).

Já em número de mortos, o Rio é o segundo estado com mais vítimas, somando 23.740 óbitos. Em seguida vêm Minas Gerais (10.711), Ceará (9.786), Pernambuco (9.299) e Bahia (8.635).

A atual taxa de mortalidade por 100 mil habitantes é de 50,6 no Brasil.

Em números absolutos, o Brasil é o terceiro país do mundo com mais infecções, atrás apenas dos Estados Unidos, que somam mais de 16,4 milhões de casos, e da Índia, com mais de 9,8 milhões. Mas é o segundo em número de mortos, já que mais de 300 mil pessoas morreram nos EUA.

A Índia, que chegou a impor uma das maiores quarentenas do mundo no início da pandemia e depois flexibilizou as restrições, é a terceira nação com mais mortos, somando mais de 143,3 mil.

Ao todo, mais de 72,6 milhões de pessoas já contraíram o coronavírus no mundo, e 1,61 milhão de pacientes morreram em decorrência da doença.

Deutsche Welle, em 14.12.2020

Fachin suspende tarifa zero para importação de revólver e pistola

Decisão marca nova derrota do governo Bolsonaro no Supremo. Ministro do STF atende ação movida pelo PSB, argumentando que isenção contradiz o direito à vida. Regra deveria vigorar a partir de janeiro.

Ações do governo para facilitar acesso a armas são criticadas por especialistas e vão na contramão da opinião pública

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin suspendeu nesta segunda-feira (14/12) a resolução do governo federal que zera a tarifa de importação de revólveres e pistolas. A isenção, anunciada pelo Ministério da Economia na semana passada passaria a valer a partir do próximo dia 1º de janeiro.


Com a decisão, fica mantido o atual imposto de importação de 20% sobre o valor da arma. Fachin também determinou que a decisão individual seja submetida à análise do plenário do Supremo, em data a ser definida.

A suspensão foi determinada atendendo um pedido do PSB, que contestou o ato do governo. O partido afirma que, ao zerar a alíquota, o governo facilita o acesso da população a armas de fogo, "contradizendo não apenas as tendências mundiais de mitigação de conflitos de natureza armada, senão também as próprias políticas públicas nacionais", como o Estatuto do Desarmamento. A ação também criticou a diminuição da arrecadação de impostos para os cofres públicos, em um momento de crise econômica devido à pandemia de coronavírus.

"Contradiz direito à vida"

Em sua decisão, Fachin argumenta que a redução a zero da alíquota de importação sobre pistolas e revólveres "viola o ordenamento constitucional brasileiro", por contradizer o direito à vida e o direito à segurança.

"O risco de um aumento dramático da circulação de armas de fogo, motivado pela indução causada por fatores de ordem econômica, parece-me suficiente para que a projeção do decurso da ação justifique o deferimento da medida liminar", justifica o ministro.

Fachin também avalia que a finalidade da isenção é pouco evidente. "Há razões para entender que seus objetivos podem não se coadunar com os mecanismos de legitimação constitucional e a diligência devida", ressalta.

Acesso a armas é promessa de campanha

Desde o início de seu mandato, Bolsonaro tomou medidas para flexibilizar o acesso a armamentos e munições para a população – uma de suas principais promessas de campanha. Em conversa com aliados, Bolsonaro já lamentou inúmeras vezes não ter conseguido facilitar mais o acesso a armas por depender de apoio do Congresso.

Em agosto, a Polícia Federal (PF) formalizou a autorização para que cada cidadão brasileiro possa comprar até quatro armas. O decreto governamental tinha sido publicado 2019, mas ainda faltava a definição das regras sob quais iriam ser feitos os registro de armas de fogo, cuja expedição é responsabilidade da PF.

Na contramão da opinião pública

Todas as ações do governo para facilitar o acesso a armas de fogo têm sido criticadas por ONGs e especialistas em segurança pública. As medidas vão na contramão da opinião pública. Em dezembro de 2018, pesquisa Datafolha mostrou 61% dos brasileiros querem que posse de armas seja proibida. O levantamento ainda mostrou que 68% são contra facilitar acesso a armas. Em 2019, uma pesquisa Ibope apontou que  que 73% dos brasileiros são contrários à flexibilização de porte.

Até agosto, o número de registros de armas de fogo em poder de colecionadores, atiradores e caçadores no Brasil mais do que duplicou na comparação com o ano anterior. Segundo dados do Exército e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2019 foram registradas 225.276 armas no país. Entre janeiro e agosto deste ano o número de armas de fogo registradas no país disparou para 496.172 unidades.

Deutsche Welle, em 14.12.2020

Agenda profícua, governo indiferente

O governo Bolsonaro não apenas releva os dados relativos à covid-19, como ignora reflexões sobre políticas públicas que surgiram por ocasião da pandemia

Ao expor e potencializar uma série de desafios do Estado em sua tarefa de prover as condições para o desenvolvimento social e econômico do País, a pandemia do novo coronavírus suscitou na sociedade um profícuo debate sobre políticas públicas. Nos últimos meses, surgiram interessantes reflexões e propostas sobre saúde pública, formação e educação das novas gerações, aprimoramento de programas e gastos sociais, caminhos para o reequilíbrio fiscal, entre outros temas. O País viu florescer aquilo que é considerado elemento essencial de uma sociedade madura e responsável: a participação ativa da população, com suas variadas especialidades e capacidades, no debate público.

Na discussão das políticas públicas, é sempre necessário um pluralismo de ideias e perspectivas. Nunca há, tampouco é desejável, consenso absoluto sobre os caminhos a serem seguidos. De toda forma, deve-se reconhecer que existe hoje um panorama claro das prioridades do País que só não é percebido pelo presidente Bolsonaro e vários de seus ministros. Por exemplo, é urgente assegurar a capacidade de investimento do Estado no Sistema Único de Saúde (SUS) e nas redes públicas de ensino, que atendem cerca de 80% das crianças e adolescentes. Por ocasião das eleições deste ano, entidades civis apresentaram propostas consistentes para as próximas gestões municipais sobre saúde e educação; por exemplo, a Agenda Saúde na Cidade, do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, e o estudo Educação Já Municípios, do Todos Pela Educação.

Outro tema que não apenas foi objeto de muitas discussões e propostas neste ano, mas ganhou, em razão da pandemia, uma nova dimensão foi a desigualdade social. O novo coronavírus gerou restrições e adversidades sobre as famílias de todas as classes e condições sociais, mas ficou evidente que o impacto da pandemia foi desproporcionalmente maior sobre as faixas da população mais vulneráveis.

Logicamente, não se trata de um tema novo. A redução das desigualdades sociais e regionais é, segundo a Constituição, um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil. Mas essa mais apurada percepção sobre as disparidades sociais oferece, sem sombra de dúvida, uma importante oportunidade para que o Estado reveja sua atuação. Dada sua transversalidade, o tema da desigualdade joga luzes, por exemplo, sobre a urgência de muitas reformas; como a reforma tributária, a administrativa e a PEC Emergencial. Mas é lamentável que o governo Bolsonaro não desenvolva tais programas.

“Para lidar com isso (o aumento da desigualdade em razão da crise) e ao mesmo tempo manter a regra fiscal, ter credibilidade de que os gastos não vão crescer acima do PIB, o Brasil precisa fazer alguma reforma de curto prazo. Precisa fazer cortes de gastos obrigatórios que permitam aumentar o gasto social. É essa a discussão da PEC Emergencial”, disse Solange Srour, economista-chefe do Credit Suisse no Brasil, ao Estado.

Outro importante ponto, reforçado pela pandemia do novo coronavírus, é a necessidade de revisão dos programas sociais existentes, como Bolsa Família e Seguro-Defeso. “Há uma série de programas que podem ser reformulados para lidarmos com a desigualdade sem aumentar o gasto”, lembrou a economista-chefe do Credit Suisse.

Se é alvissareiro o protagonismo de setores da sociedade em apresentar caminhos e soluções para os grandes problemas sociais e econômicos do País, é inexplicável a ausência do Executivo federal nesse debate. O governo Bolsonaro não apenas releva os dados relativos à covid-19, como ignora as evidências e reflexões sobre políticas públicas que surgiram por ocasião da pandemia.

Estados e municípios podem e devem realizar uma relevante agenda social. No entanto, a atuação do poder público fica muito limitada se o Executivo federal não cumpre seu papel. Como lembrou Solange Srour na entrevista ao Estado, “não vai sair nenhuma revisão de gasto social ou corte de despesa obrigatória se a liderança não for do Executivo”.

Incapaz de formular propostas, o governo Bolsonaro poderia ao menos aproveitar as que lhe são oferecidas pela sociedade. No entanto, até agora, segue alheio à crise e às possíveis soluções.

Editorial - Notas & Informações, O Estado de São Paulo  / 14 de dezembro de 2020

domingo, 13 de dezembro de 2020

O alto custo da desconfiança

O serviço público, como o nome sugere, deve funcionar de maneira exemplar e, sobretudo, impessoal, seja qual for o governo

Nenhum Estado supera suas crises mais profundas sem que haja confiança dos cidadãos tanto no governo como na estrutura burocrática. A crença no serviço público é essencial para que a sociedade respeite as determinações das autoridades em situações críticas como a pandemia de covid-19. 

Foi o que se viu recentemente em países como Nova Zelândia, Coreia do Sul, Alemanha e Taiwan, lembrados pela historiadora norte-americana Anne Applebaum, em entrevista ao Estado, como exemplos de nações com alto grau de “fé na burocracia pública, nos serviços e nos servidores públicos” e que, não por coincidência, foram bem-sucedidas no controle da doença

Os contraexemplos são óbvios: Brasil e Estados Unidos estão entre os países com mais mortes pelo coronavírus justamente porque, entre outras razões, suas autoridades, em diversos níveis do serviço público, não inspiram confiança na sociedade.

No Brasil, não se trata apenas da confusão criada pelo negacionismo do presidente Jair Bolsonaro, que desde o início faz pouco da doença, desrespeita as orientações sanitárias universalmente aceitas como as mais eficientes no combate ao coronavírus e desestimula a vacinação – embora só isso já seja suficiente para minar todos os esforços para convencer a população a aceitar as limitações da vida cotidiana sob uma pandemia. 

Trata-se da sensação mais ou menos generalizada de que o serviço público, no caso do combate à pandemia, está dominado por interesses políticos – sejam os do presidente Bolsonaro, sejam os de seus desafetos, como o governador de São Paulo, João Doria.

Assim, por exemplo, se a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) demorar-se um pouco mais na análise da vacina contra a covid-19 apresentada pelo governo paulista, atrasando sua liberação e prejudicando o calendário de imunização anunciado com estardalhaço pelo governador Doria, não serão poucos a ver nisso um estratagema político do presidente Bolsonaro. Neste caso, pouco importam as razões científicas que a Anvisa possa ter, pois o ambiente já está contaminado de desconfiança a respeito da independência da agência.

Do mesmo modo, não se pode condenar quem interprete o anúncio do calendário de vacinação em São Paulo, feito sem que todos os testes necessários para averiguar sua eficiência tenham sido completados, como um gambito do governador Doria para prejudicar o presidente Bolsonaro – incapaz de apresentar um plano de imunização decente. Aqui também pouco importa se o anúncio de Doria está respaldado por pareceres técnicos e científicos, como é provável que esteja, porque sempre haverá quem desconfie que o serviço público envolvido no plano de imunização pode ter se dobrado aos imperativos políticos do governador.

Numa atmosfera impregnada de suspeitas como essas, o trabalho de mobilização da sociedade na direção do bem comum, difícil por definição, fica praticamente impossível. Não se consegue obter consenso nem mesmo em relação ao que seria, de fato, o bem comum. É algo que transcende a natural divergência política numa democracia.

O serviço público não pode ser confundido com o grupo político que ascendeu ao poder. Como seu próprio nome sugere, deve funcionar de maneira exemplar e, sobretudo, impessoal, seja qual for o governo de turno. Não pode sinalizar inclinações a esta ou àquela agenda partidária, tampouco servir de instrumento de manobras para prejudicar inimigos do governante.

Infelizmente, são muito comuns as tentativas de aparelhamento do serviço público por partidos e políticos, o que colabora decisivamente para manchar sua reputação, muito mais do que sua ineficiência – de resto causada por essa sua relação promíscua com o poder.

Não à toa, portanto, o serviço público no Brasil é objeto de forte desconfiança do público a quem deveria servir. Isso pode ser injusto com milhares de servidores que procuram fazer o melhor que podem, em condições muitas vezes bastante precárias, mas o fato é que essa percepção negativa colabora para deslegitimar as orientações emanadas do Estado aos olhos dos cidadãos – e o preço a pagar por isso é uma soma de desorganização, depauperação e mortes.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de S.Paulo, em 12.12.2020


Bolsonaro tem “estupidez assassina” e Pazuello é “fantoche apalermado”, diz Folha

Editorial cobra “vacinação já”

 “Chega de molecagens”, diz

“Círculo de patifes” comanda


Bolsonaro no Planalto em cerimônia de inauguração de exposição do terno que usou em sua posse

O jornal Folha de S.Paulo publicou um editorial em sua edição deste domingo (13.dez.2020) no qual cobra do governo federal providências para vacinação de toda a população.

Com o título “Vacinação já”, o texto afirma que “passou de todos os limites a estupidez assassina do presidente Jair Bolsonaro diante da pandemia de coronavírus”. Para a Folha, “é hora de deixar de lado a irresponsabilidade delinquente, de ao menos fingir capacidade e maturidade para liderar a nação de 212 milhões de habitantes num momento dramático da sua trajetória coletiva”. Em tom exaltado, cobra: “Chega de molecagens com a vacina!”.

A Folha diz que Bolsonaro está “cego por sua ambição política e com olhos apenas em 2022” e “não percebe que o ciclo vicioso da economia prejudica inclusive seus próprios planos eleitorais”.

O jornal afirma que o presidente se engajou numa “cruzada irresponsável contra o governador João Doria esbulhou a confiança dos brasileiros na vacina”. Cita uma pesquisa que fez por telefone, por meio de sua empresa Datafolha, mostrando que apenas 73% dizem ter confiança para tomar alguma vacina contra a covid-19, doença que já matou mais de 180 mil pessoas no Brasil.

A tendência de menos brasileiros estarem confiantes na vacina já havia sido antecipada pelo PoderData, numa pesquisa mais ampla (2.500 entrevistas contra 2.016 do Datafolha) realizada de 23 a 25 de novembro de 2020. Apenas 67% afirmaram ter interesse no imunizante.

Entre outros termos usados para classificar o presidente da República, o jornal usa “sabotador”, afirma que Bolsonaro é protagonista de um “descaso homicida” e afirma que ele tem ao seu lado um “círculo de patifes”.

O ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, é chamado de “fantoche apalermado” que teria ajudado a produzir um “curto-circuito numa máquina acostumada a planejar e executar algumas das maiores campanhas de vacinação do planeta”.

“Não faltarão meios jurídicos e políticos de obrigar Bolsonaro e seu círculo de patifes a adquirir, produzir e distribuir a máxima quantidade de vacinas eficazes no menor lapso temporal”, diz o jornal paulista.

Reprodução da 1ª página do jornal “Folha de S.Paulo” de 13 de dezembro de 2020, com o editorial em que critica a atuação de Jair Bolsonaro.

Fonte: Poder 360.

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Bolsonaro, um genocida

Ninguém mais deve ter dúvida de que Bolsonaro é um maldito genocida

Quanto mais demorarmos a vacinar a população contra a Covid-19, mais gente morrerá. Se antes a responsabilidade de Jair Bolsonaro era subjetiva, no momento em que vários países começam a imunizar seus cidadãos, não resta dúvida: a incompetência, o desdém e a demora do governo, na figura do presidente, serão culpados por cada morte que poderia ser evitada com uma vacina.

Para alguém que tinha tanta pressa de que o país voltasse "à normalidade", um dirigente que se preocupava tanto com a economia, é curioso que Bolsonaro não tenha sido um dos primeiros líderes a garantir a compra de vacina. Senão por causa da vida das pessoas, que fosse pela saúde da economia.

Bem, seria curioso, se fosse alguém razoável e não um idiota, que resolve inaugurar um brechó no Palácio do Planalto quando o mundo vive um acontecimento histórico. Enquanto Jair e a dona "por que Queiroz depositou R$ 89 mil na conta de Michelle?" usavam a estrutura palaciana para seu momento "memorável", eu chorava ao ver gente sendo vacinada no Reino Unido.


Exposição de trajes de Bolsonaro e Michelle virou memes nas redes sociais - Foto: @DeputadoFederal

Bolsonaro completa dois anos na Presidência e continua sem a menor ideia do que faz lá. E quem se ferra de verde e amarelo somos nós. Sua campanha não teve proposta, além de baboseiras, como acabar com a ideologia de gênero, com o comunismo, com o PT, liberar armas, "rasgar e jogar na latrina" o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Ele não sabia o que fazer quando a pandemia chegou a não ser negar sua existência e gravidade, assim como não consegue organizar a claque de incompetentes do seu governo. Nesta quarta (9), o Ministério da Saúde anunciou que o plano de vacinação deve ser apresentado na semana que vem. Alguém me explica, como se eu fosse uma criança de cinco anos: não era para estar pronto? Se alguém tinha alguma dúvida de que Bolsonaro é um maldito genocida, não precisa mais ter.

Mariliz Pereira Jorge é Jornalista e roteirista de TV. Este artigo foi publicado originalmente na Folha de São Paulo, edição de 09.12.2020.

Exclusivo: a Abin paralela dos Bolsonaro

Relatórios para defender Flávio podem ter sido produzidos por Abin paralela dentro própria agência.

Os relatórios produzidos pela Agência Brasileira de Inteligência para alimentar a defesa de Flávio Bolsonaro são um indício de que há um aparato clandestino de espionagem e polícia política funcionando nos porões do governo Jair Bolsonaro.

O colunista Guilherme Amado, da revista Época, publicou reportagem nesta sexta-feira mostrando que a Abin produziu pelo menos dois relatórios. Eles instruíram Flávio Bolsonaro e seus advogados sobre como agir para conseguir documentos capazes de anular o processo judicial a que o senador responde pela acusação de desviar salários de funcionários de gabinete. 

O caso conhecido como o das rachadinhas envolve o ex-assessor Fabrício Queiroz, amigo do presidente da República, preso em junho na casa do advogado Frederick Wassef, que trabalhou para Jair Bolsonaro e para o próprio Flávio.

Nesses dois documentos, segundo a Época, a Abin descreve o que diz ser uma organização criminosa na Receita Federal, de onde partiram as informações que deram início à investigação. O objetivo dos relatórios era contribuir com a tese da defesa de Flávio de que houve uma devassa ilegal dos dados fiscais dele. 

Um dos relatórios traz no campo destinado a esclarecer sua finalidade a descrição “Defender FB no caso Alerj demonstrando a nulidade processual resultante de acessos imotivados aos dados fiscais de FB”, segundo a Época.

A existência de uma Abin clandestina era uma suspeita alimentada há tempos em Brasília. Ela existia publicamente desde que o próprio presidente Bolsonaro revelou ter um "sistema particular de informações" em uma reunião com ministros. Agora, a história ganha um novo caminho para a possível descoberta desse aparato ilegal.

Nesta sexta-feira, o Intercept conversou com uma fonte da Abin, que deu detalhes do caso. A fonte revelou que tanto ela como seus colegas desconfiam da mesma pessoa como sendo a responsável pelo relatório. Trata-se de Marcelo Bormevet, um policial federal cedido à agência que é também um bolsonarista entusiasmado nas redes sociais.


Marcelo Bormevet está na Abin desde 24 de setembro de 2019. Ocupa um posto-chave no Centro de Inteligência Nacional, o CIN, que surgiu formalmente em agosto de 2020, mas vinha sendo estruturado às escondidas desde pelo menos o início do ano. Bormevet é coordenador-geral de Credenciamento de Segurança e Análise de Segurança Corporativa. 

O CIN tem a atribuição de acompanhar "assuntos de inteligência estratégica", aí incluídos segurança pública, crime organizado e manifestações políticas. Goza ainda a prerrogativa de fazer o que, na Abin, se chama de ‘pesquisas sociais’ – a investigação prévia sobre indicados para cargos no governo.

Ex-agente penitenciário no Distrito Federal, Marcelo entrou para a Polícia Federal em 2005. No Twitter, é um bolsonarista típico: retuíta posts de Jair e Carlos Bolsonaro e faz proselitismo para o Aliança pelo Brasil, partido que não saiu do papel. Também compartilha notícias falsas sobre a eficácia da cloroquina no tratamento da covid-19 e lança dúvidas sobre as vacinas que o governo federal se esforça para barrar no Brasil.

Um mistério até mesmo para os colegas

O detalhe é que pouca gente na Abin sabe exatamente o que faz a coordenação tocada por Bormevet. Não há sequer uma descrição das funções dela no organograma da agência, algo incomum mesmo no setor de inteligência.

O detalhe é que pouca gente na Abin sabe exatamente o que faz a coordenação tocada por Bormevet. Não há sequer uma descrição das funções dela no organograma da agência, algo incomum mesmo no setor de inteligência.

A criação do CIN, em agosto passado, causou desconfiança. O deputado Alessandro Molon, do PSB do Rio, tenta sustá-la com um projeto de decreto legislativo que apresentou dias depois do novo departamento da Abin aparecer no Diário Oficial. Na justificativa, ele argumentou que ela "pode dar respaldo para perseguição de opositores políticos". Até agora, porém, o projeto de Molon não saiu do lugar. 

No mesmo decreto que criou o CIN, Bolsonaro também autorizou a Escola de Inteligência, o centro de preparação dos agentes da Abin, a dar treinamento a quem não é servidor da agência. Para a oposição, as mudanças abrem brecha para que a agência funcione como um órgão de governo e não de Estado – justamente o que se vê no caso Flávio Bolsonaro. 

O autor dos relatórios, porém, não parece ter passado pela escola da Abin. Os olhos treinados do pessoal da inteligência de quem levantamos informações estranharam a redação dos relatórios produzidos para Flávio Bolsonaro. A linguagem nada tem em comum com o padrão adotado pela Abin. 

"Todos os analistas de inteligência passam por um treinamento para seguir uma espécie de manual de redação", nos disse a fonte. A ideia é justamente adotar uma linguagem que não identifique quem produziu um determinado papel, uma linguagem neutra e burocrática.

Basta querer para identificar o autor

Chama a atenção, ainda, o fato dos relatórios não terem sido gerados em nenhum dos dois sistemas usados pelos analistas para produzir esse tipo de documento. Não é à toa: por meio deles seria muito fácil identificar o autor. Os documentos foram enviados ao filho 01 do presidente por WhatsApp, segundo a Época.

Ainda assim, uma investigação daria conta de identificar quem usou a estrutura da Abin para salvar o pescoço de Flávio Bolsonaro. "Basta procurar os logs em bases de dados à disposição de analistas da Abin e rastrear pedidos feitos a outros órgãos em nome da agência", nos revelou a fonte. Neste caso, já se sabe até onde procurar – a Receita Federal. Isso, claro, se o governo estivesse disposto a esclarecer alguma coisa. Não está. 

Em nota divulgada hoje, o gabinete do ministro Augusto Heleno, a quem a Abin está subordinada, segue tentando negar suas digitais no caso. "As acusações são desprovidas de veracidade, se valem de falsas narrativas e abordam supostos documentos que não foram produzidos pela Agência Brasileira de Inteligência", diz o texto.

Ocorre que a defesa de Flávio Bolsonaro confirmou à Época que os documentos foram de fato produzidos pela Abin. Enviamos perguntas ao e-mail funcional de Bormevet e à assessoria de comunicação da agência. Ninguém nos respondeu.

A sexta-feira foi um dia de confusão na sede da Abin, em Brasília. O caso Flávio Bolsonaro tem o potencial de colocar uma bomba atômica no colo do presidente da República e de Augusto Heleno, seu ajudante de ordens. Mas, na Abin, são poucos os que veem chance de que o diretor-geral da agência, Alexandre Ramagem, um delegado da PF que é amigo da família presidencial, seja demitido por causa dele. 

Os tempos, afinal, são sombrios.

The Intercept_Brasil, 12.12.2020.

Mandetta: “Estamos sob uma intervenção militar burra”

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante a coletiva de imprensa sobre à infecção pelo novo coronavírus

Luiz Henrique Mandetta voltou a disparar contra o presidente Jair Bolsonaro e criticou a atuação do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, no enfrentamento do combate à pandemia de Covid-19.

“Se colocar um médico ou um padre para comandar uma guerra, médico e padre não sabem matar. Militar não sabe cuidar, não sabe curar, não sabe promover saúde”, disse em entrevista à GloboNews.

“É um capitão e um general, e ninguém sabe para que lado a saúde pública vai. Estamos sob uma intervenção militar burra.”

O Antagonista, 12.12.2020

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Aliado de Bolsonaro diz que governo pretende confiscar vacina dos estados

Governador Ronaldo Caiado afirma ter ouvido de Pazuello que Bolsonaro vai publicar uma MP para "requisitar" e "centralizar" todos os imunizantes importados e produzidos no país, num recado ao governo de SP.

Bolsonaro e Pazuello. Governo federal ficou para trás na corrida das vacinas, e alguns estados firmaram acordos paralelos para compra e produção com laboratórios internacionais

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, aliado do presidente Jair Bolsonaro, disse nesta sexta-feira (11/12) que o governo federal vai publicar uma medida provisória (MP) visando a centralização e a distribuição igualitária das doses de vacina contra a covid-19 entre os estados.

Segundo o político do DEM, a informação veio do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que esteve em visita a Goiânia nesta sexta-feira.

Caiado afirmou que, com a medida, o governo federal poderá confiscar vacinas importadas ou produzidas no país, como a Coronavac, desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac e que começou a ser fabricada em São Paulo pelo Instituto Butantan nesta semana. No momento, o governo federal vem travando uma disputa com o governo de São Paulo pelo protagonismo da aplicação de vacinas, numa queda de braço que já rendeu ao presidente Jair Bolsonaro acusações de tentativa de sabotagem dos esforços paulistas. 

"Toda e qualquer vacina registrada, produzida ou importada no país será requisitada, centralizada e distribuída aos estados pelo Ministério da Saúde. Pazuello me informou isso aqui em Goiânia, hoje. Nenhum estado vai fazer politicagem e escolher quem vai viver ou morrer de covid", escreveu o governador goiano no Twitter.

Em outra mensagem, ele disse que Pazuello garantiu-lhe que "nenhum goiano, nenhum brasileiro será deixado para trás" no que diz respeito à vacinação contra a covid-19

Na terça-feira, Caiado já havia dito que "não vai ter essa de nenhum estado 'sair na frente'", após uma reunião entre governadores e Pazuello.

Após a fala de Caiado, o governador paulista João Doria reagiu. "Os brasileiros esperam pelas doses da vacina, mas a União demonstra dose de insanidade ao propor uma MP que prevê o confisco de vacinas. Esta proposta é um ataque ao federalismo. Vamos cuidar de salvar vidas e não interesses políticos", escreveu no Twitter. Ele também lembrou que Goiás é um dos 12 Estados brasileiros que já manifestaram interesse na Coronavac.

Supremo já barrou tentativa semelhante

Segundo apurou o jornal O Globo, a MP que trata dessa centralização já está sendo preparada pelo governo Bolsonaro, mas seu texto ainda não foi finalizado.

Há chances, contudo, de tal confisco ser barrado pela Justiça. Em maio, uma decisão semelhante foi tomada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

À época, o ministro Luís Roberto Barroso decidiu que a União não poderia confiscar respiradores já adquiridos pelos governos estaduais para o enfrentamento da epidemia de coronavírus.

Isso porque o governo federal havia feito a requisição compulsória de todos os equipamentos comprados da empresa de tecnologia médica Magnamed, que incluíam 50 respiradores adquiridos pela Secretaria de Saúde de Mato Grosso.

Em sua decisão, Barroso determinou que todos os ventiladores pulmonares fossem entregues à administração do estado que os comprou, e não ao governo federal.

Segundo o ministro, ao confiscar itens essenciais para o combate à covid-19 nos estados, a União faz "uso abusivo" de suas prerrogativas e compromete a autonomia dos governos regionais, ignorando que eles também têm competência de adotar medidas para proteger a saúde da população.

A declaração de Caiado ocorre no mesmo dia em que o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, foi acusado de usar a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em benefício próprio, uma sincronia que pode ser vista como uma tentativa do governo de tirar a atenção da denúncia.

Segundo reportagem da revista Época, a Abin produziu ao menos dois relatórios para Flávio Bolsonaro com informações e estratégias para a sua defesa no processo em que ele é acusado de receber parte do salário de funcionários de seu gabinete, conhecido como rachadinha.

Vacinas nos estados

Nesta sexta-feira, Caiado afirmou também que, segundo Pazuello, o Ministério da Saúde firmou um acordo para a compra de 70 milhões de doses da vacina desenvolvida pela farmacêutica Pfizer em parceria com o laboratório alemão Biontech. Testado no Brasil, o imunizante já está sendo usado em massa na população do Reino Unido e foi aprovado no Canadá.

No entanto, por enquanto, o único acordo oficialmente divulgado pelo governo federal foi com a anglo-sueca AstraZeneca, que desenvolveu uma vacina com a Universidade de Oxford. E mesmo a empresa Pfizer já informou que só terá capacidade de entregar um número pequeno de doses no primeiro trimestre de 2021.

Paralelamente, governos estaduais firmaram suas próprias parcerias com outros laboratórios. O estado de São Paulo tem um acordo com a chinesa Sinovac para compra e transferência de tecnologia da Coronavac, enquanto a Sputnik V, do laboratório russo Gamaleya, é negociada num acordo à parte com os governos do Paraná e da Bahia.

Aliado de Bolsonaro, o governador de Goiás declarou que o estado não comprará vacinas contra a covid-19 por conta própria e que seguirá o calendário do Ministério da Saúde.

Nesta quinta-feira, o governador paulista, João Doria (PSDB), anunciou o início da produção da Coronavac no Brasil, em uma fábrica do Instituto Butantan, ligado ao governo de São Paulo.

Um plano de vacinação também foi apresentado por Doria nesta semana, prevendo o início da campanha no estado já em 25 de janeiro de 2021. O governo federal, por sua vez, ainda não tem previsão de datas para seu programa de imunização.

Disputa política

As declarações desta sexta-feira acirram ainda mais a disputa política que se criou em torno da vacina contra o coronavírus no país, tendo como protagonistas Bolsonaro e Doria, possíveis adversários nas eleições presidenciais de 2022.

Um dos primeiros episódios desse conflito ocorreu no fim de outubro, quando Pazuello anunciou a intenção do governo federal de comprar 46 milhões de doses da Coronavac. Algumas horas após o anúncio, Bolsonaro desautorizou seu ministro da Saúde e disse que o país não compraria a vacina chinesa.

Em meados de novembro, o presidente elevou ainda mais a polêmica em torno do imunizante ao declarar vitória após a suspensão dos testes da Coronavac pela morte de um voluntário. "Mais uma vitória de Jair Bolsonaro. Morte, invalidez, anomalia. Essa é a vacina que Doria queria obrigar o povo paulista a tomar", escreveu Bolsonaro nas redes sociais.

A posição do presidente gerou várias críticas de políticos e de profissionais de saúde, que o acusaram de politizar o imunizante e de festejar a morte de uma pessoa.

A Anvisa autorizou a retomada dos testes no Brasil após as autoridades terem concluído que o óbito não estava relacionado à vacina.

Depois de várias críticas, Bolsonaro recuou e admitiu a possibilidade de adquirir a Coronavac, caso seja aprovada pela Anvisa e pelo Ministério da Saúde, e vendida a um preço que considere adequado.

Na quarta-feira, Pazuello também garantiu que o imunizante chinês fabricado no Butantan será usado no plano nacional de vacinação se for aprovado pela agência reguladora.

No entanto, no mesmo dia, o governador paulista João Doria questionou Pazuello se o governo Bolsonaro menospreza a vacina chinesa por uma "questão ideológica, política ou por falta de interesse".

"O que difere, ministro, a condição e a sua gestão como ministro da Saúde de privilegiar duas vacinas em detrimento de outra vacina? É uma razão de ordem ideológica, é uma razão de ordem política ou é uma razão de falta de interesse em disponibilizar mais vacinas", disse Doria.

Os anúncios do governo de São Paulo sobre o início da produção da sua vacina também têm levado o governo federal a rever sua estratégia. Inicialmente, o governo Bolsonaro não demonstrou interesse na vacina da Pfizer, mas nos últimos dias passou a afirmar que espera que a farmacêutica entregue algumas doses até o fim de dezembro. O governo federal ainda mudou sua estimativa sobre a aprovação de vacinas. Inicialmente, falou em março, depois fevereiro, e agora citou até mesmo janeiro ou dezembro, embora nenhum acordo com a Pfizer tenha sido fechado ainda.

Deutsche Welle, em 11,12,2020


O Brasil confirmou 179. 897 mortes por Covid-19 até as 13h desta sexta-feira (11)

Desde o balanço das 20h de quinta-feira (10), 6 estados atualizaram as informações: CE, GO, MG, MS, PE e TO.

Veja os dados atualizados

179.897 mortes confirmadas

6.794.910 casos confirmados

Às 20h de quinta-feira, o balanço registrou 179.801 óbitos desde o começo da pandemia, 769 em 24 horas. Com isso, a média móvel de mortes no Brasil nos últimos 7 dias foi de 642. A variação foi de +35% em comparação à média de 14 dias atrás, indicando tendência de alta nos óbitos pela doença.

Em casos confirmados, desde o começo da pandemia 6.783.543 brasileiros já tiveram ou têm o novo coronavírus, com 53.425 desses confirmados no último dia. A média móvel nos últimos 7 dias foi de 42.290 novos diagnósticos por dia. Isso representa uma variação de +34% em relação aos casos registrados em duas semanas, o que indica tendência de alta também nos diagnósticos.

Brasil, 10 de dezembro

Vinte e um estados e o Distrito Federal apresentaram alta na média móvel de mortes: PR, RS, SC, ES, MG, RJ, SP, DF, GO, MS, MT, AC, RO, RR, TO, BA, CE, PB, PE, PI, RN e SE. É o segundo dia seguido em que tantos estados aparecem simultaneamente com tendência de alta nas mortes pela doença desde que o consórcio começou a acompanhar essas tendências, em 9 de julho. Antes disso, o máximo de estados em alta ao mesmo tempo havia sido de 18.

Estados

Subindo (21 estados + o DF): PR, RS, SC, ES, MG, RJ, SP, DF, GO, MS, MT, AC, RO, RR, TO, BA, CE, PB, PE, PI, RN e SE

Em estabilidade, ou seja, o número de mortes não caiu nem subiu significativamente (3 estados): AP, PA e AL

Em queda (2 estados): AM e MA

Essa comparação leva em conta a média de mortes nos últimos 7 dias até a publicação deste balanço em relação à média registrada duas semanas atrás (entenda os critérios usados pelo G1 para analisar as tendências da pandemia)

Vale ressaltar que há estados em que o baixo número médio de óbitos pode levar a grandes variações percentuais. Os dados de médias móveis são, em geral, em números decimais e arredondados para facilitar a apresentação dos dados.

Por G1 / Em 11.12.2020

'Finalzinho da pandemia'

São absurdos demais, provocações demais... Alguma Bolsonaro está aprontando

 Por Eliane Cantanhêde

Lá atrás, no início da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro tinha um ministro da Saúde competente, informações privilegiadas e todas as condições do mundo para fazer a coisa certa, combater a contaminação do coronavírus e evitar milhões de doentes e milhares de mortes. Bolsonaro, porém, optou por entrar para a história como o presidente que, entre a vida e a morte, ficou com a morte. E, em nenhum momento, reviu, tentou acertar. Começou errado e vai errado até o fim. À custa de vidas.

Entre hoje e amanhã, a realidade confirma a previsão desesperada do então ministro Luiz Henrique Mandetta de 180 mil mortes. E vai aumentar. O número volta ao patamar de 800 a 900 em 24 horas, 21 Estados e DF registram aumento de vítimas e os leitos vão se esgotando na rede pública e privada por toda a parte. Se você for contaminado, o risco é não ter onde cair morto – nem vivo. E vem aí Natal, Ano Novo, festas e viagens.

O erro de Mandetta foi ser realista, transparente, formar uma bela equipe e manter a população bem informada e alerta o tempo todo. Bolsonaro não suportou o sucesso e a popularidade (maior que a dele) do subordinado. Em vez de premiá-lo, demitiu-o. O ciúme e a inveja foram maiores do que a responsabilidade com a população brasileira.

Em vez de Mandetta, Bolsonaro preferiu ouvir ignorantes, negacionistas, terraplanistas, lunáticos que previam no máximo 2.500 mortes, empinavam o nariz para dizer que a covid mataria menos do que a gripe e condenavam isolamento social, máscaras, qualquer cuidado reconhecido pelo mundo inteiro. Mesmo com a confirmação da tragédia, o presidente continuou sempre dobrando a aposta. “E daí?”

Tal qual um tenente abilolado capaz de fazer planos e croquis para explodir quartéis, Jair Bolsonaro não sossegou até nomear um general da ativa sem qualquer brio para fazer tudo o que seu mestre mandar. É para explodir quartel? Exploda-se. Impor cloroquina? Imponha-se. Politizar a vacina? Politize-se. Permitir a morte de milhares? Permita-se. Afinal, “um manda, o outro obedece”.

O Brasil chega ao final de 2020 doente, irritado, estupefato e sem perspectiva, chocando o mundo, enquanto o general-ministro Eduardo Pazuello fala em vacina para março, ou janeiro, ou fevereiro, ou dezembro... E ninguém acredita numa palavra do que ele diz. E que tal ouvir o presidente falar em “finalzinho da pandemia”? Um soco no estômago.

Era uma “gripezinha”, “histeria da mídia”, “e daí?”, “eu não sou coveiro”. Virou aglomeração, manifestação golpista e cloroquina. Enfim, a guerra pessoal contra a “vacina do Dória”, ou “da China”, e agora o delírio de que a pandemia está no “finalzinho” quando o vírus explode por toda a parte e os brasileiros assistem, aterrorizados, à vacinação na Inglaterra e nos países que têm presidente, ministro da Saúde e juízo.

O presidente vive de testar limites, irritar, chocar e o que ainda surpreende é seis ministros fazerem claque para a exposição de trajes do “rei” e da “rainha” e que, enquanto a sociedade só pensa em vacina, o presidente passe sua “boiada” e derrube as alíquotas de importação de armas para comprar a fidelidade de sua base eleitoral e da “bancada da bala”, que só pensam em tiro. A população quer vida, o presidente promove a morte.

Bolsonaro não percebe que ameaça tanto a vida dos brasileiros quanto o próprio mandato. Ou acha que pagar “um preço nunca visto antes na história” (segundo o então ministro do Turismo) basta para evitar o impeachment. Ou... pensa em convocar milicianos e armamentistas para guerrear a favor dele e contra a democracia. O fato é que ele só pode estar aprontando alguma. É erro demais, absurdos demais, provocações demais para ser normal. E ainda faltam dois anos, uma eternidade.

Eliane Cantanhede é Comentarista da Rádio Eldorado, da Rádio Jornal (PE) e do Telejornal Globo News Em Pauta. Este artigo foi publicado originalmente por O Estado de São Paulo, edição de 11.12.2020.