quinta-feira, 25 de junho de 2020

Educação com Ministro titular

Novo ministro é a derrota dos olavistas e a vitória dos militares da reserva

Conservador, é visto como um profissional pragmático e que deve retomar a interlocução com Estados e municípios

     
O novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, significa a derrota da ala ideológica e uma vitória do grupo moderado militar. Decotelli foi tirado do MEC justamente por Abraham Weintraub, que deixou o cargo na semana passada, mas também havia travado embate com os integrantes ligados a Olavo de Carvalho durante a curta e conturbada gestão de Ricardo Velez.

Carlos Alberto Decotelli, o novo ministro da Educação

Carlos Alberto Decotelli, o novo ministro da Educação.  Foto: Andre Sousa/MEC

Professor da Fundação Getulio Vargas e da Fundação Dom Cabral, o oficial da reserva da Marinha participou do grupo de militares que discutiu a transição para o governo Bolsonaro. Entre eles estão general Villas Bôas e vice-presidente Hamilton Mourão. Foi assim que ganhou o cargo no Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) no começo de 2019.

Decotelli, especialista em gestão com pós doutorado na Alemanha, ficou nove meses no órgão que cuida do dinheiro do MEC. Weintraub o tirou do cargo para acomodar um indicado do DEM, Rodrigo Sérgio Dias, na época da votação da reforma da Previdência. Dias foi exonerado pouco tempo depois, sem nem ser avisado, para que o então ministro colocasse no cargo Karine Silva dos Santos, concursada do próprio fundo. Em junho de 2020, mais uma mudança, entra Marcelo Lopes, indicado pelo Centrão.

Conservador, é visto como um profissional pragmático e que deve retomar a interlocução com Estados e municípios, perdida desde o início do governo Bolsonaro na educação. Ele é bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Enquanto esteve no FNDE tentou modernizar o órgão em processos de prestação de contas e trabalhou muito com as prefeituras.

Sua visão de educação é a de que falta boa gestão para que os sistemas funcionem de maneira adequada, ideia compartilhada por alguns economistas, mas que não é consenso entre educadores que acreditam que é preciso focar na aprendizagem. 

No entanto, vai embora definitivamente do cargo mais alto do MEC a ideia da educação que precisa combater comunistas. A preocupação de especialistas é como devem se comportar os integrantes da área ideológica que continuam por lá, como Carlos Nadalim, secretário de Alfabetização e ligado a Olavo de Carvalho.

 "É um claro sinal de espaço limitado do presidente, que já está reciclando autoridades que ele mesmo demitiu porque ele não tem capacidade de atrair quadros para o seu governo, diz o Diretor de Estratégia Política do Todos pela Educação, João Marcelo Borges. “O mais importante nesse momento é pacificar o diálogo, estabilizar a crise em torno de MEC e construir conjuntamente as soluções”, completou.

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo
25 de junho de 2020 | 16h52

Porandubas Políticas

Por Gaudêncio Torquato

Abro a coluna com uma homenagem a um empreendedor que está na galeria dos grandes perfis que construíram o progresso do país e que nos deu adeus. Um orgulho para o Rio Grande do Norte.

Nevaldo Rocha

Um homem simples que enxergava longe. De origem pobre e nascido em pleno semiárido nordestino. Caraúbas, RN. Um visionário. De uma pequena loja de costura, plasmou um império, um dos maiores pilares do varejo do Brasil, as Lojas Riachuelo. Tive a oportunidade de conhecê-lo, uma vez em seu apartamento em São Paulo, onde ouvi seu desencanto com a política. Homem de poucas palavras. Mas preciso nas convicções. Outra vez, vi-o dirigindo seu carrinho elétrico na fábrica Guararapes, sendo aplaudido por uma multidão de costureiras. Controlava tudo e todos. Seu filho Flávio me dizia: fazia questão de ir à loja todos os dias para ver o andamento das coisas. E fazia mudanças até na disposição, que não gostava, de roupas nos manequins. Pontuou sua história com bons exemplos. Não desperdiçava tempo. Vivia cada momento como se fosse o mais importante de sua vida. Sóbrio. Esbanjava simplicidade. E não gastava dinheiro à toa. Bolso fechado. Dava valor às coisas essenciais, descartando o desnecessário. Dizem que tinha dois pares de sapato: um, velho, para o dia a dia; outro, novo, para comparecer a eventos importantes. Nevaldo Rocha. Um sobrenome que indica um inquebrantável caráter.

Agora, minha costumeira introdução hilária.

Onde mora o doutor?

Quem entra no "Hotel Roma" de Alagoinhas, na Bahia, vai com os olhos a uma tabuleta agressiva em que peremptoriamente se adverte:

PAGAMENTO ADIANTADO, HÓSPEDES SEM BAGAGENS E CONFERENCISTAS

Também, em Pernambuco, o proprietário do hotelzinho de Timbaúba é, com carradas de razão, um espírito prevenido contra conferencistas que correm terras. Notei que se tornou carrancudo comigo quando lhe disseram que eu era conferencista, a pior nação de gente que ele contava em meio à sua freguesia. Supunha o hoteleiro de Timbaúba que eu fosse doutor de doença ou doutor de questão. Por falar em Timbaúba, há ali um sobrado, em cuja parte térrea funciona uma loja de modas, liricamente denominada "A Noiva". O andar superior foi adaptado para residência de uma família. Eu não sabia de nada disso quando, ao perguntar a Ulpiano Ventura onde residia o dr. Agrício Silva, juiz de Direito da comarca, recebi esta informação engraçada:

O Doutô Agriço? O Doutô Agriço está morando em riba d' "A Noiva".

O inverno de nossa desesperança

O inverno chegou, deixando para trás um outono de muito desespero. O título desta nota é do clássico livro de John Steinbeck, publicado em 1961, um ano antes de ele receber o Prêmio Nobel de Literatura, que, por sua vez, puxou a expressão da primeira fase da peça Ricardo III, de Shakespeare. Em sua obra, o magistral escritor norte-americano descreve e interpreta o mundo de um homem atormentado pelos dilemas impostos pelo dinheiro e pela moral, o protagonista Ethan Hawley, empregado de uma mercearia, casado, dois filhos, convivendo em uma comunidade de baleeiros, e atormentado pela ideia de melhorar sua vida e a da família. Até onde vão os escrúpulos e a vida digna e honesta quando se trata de conseguir dinheiro? Um ser humano pode suportar a pressão de seu meio social sem romper com a ética da decência?

A lógica da pecúnia

Façamos outra leitura da ética da decência. A lógica da pecúnia é pontuada em tom de desencanto, a traduzir o dilema entre seguir a trilha da ordem moral ou buscar o conforto material para si e os seus. O tema cai bem nesse momento em que o planeta mergulha em uma catástrofe que já é considerada a maior dos últimos 100 anos. E cai bem por nossas plagas em momentos em que o tema da rachadinha ressurge no palco da polêmica. E também no instante em que avançam as negociações com o Centrão. Afinal, a tal repartição z parte ou não do DNA de nossa política? O balcão de negócios para atender às demandas de partidos que formam o centrão é coisa normal? Tem sentido discutir esse tipo de política no percurso de gigantesca pandemia que já contaminou mais de um milhão de brasileiros e matou mais de 50 mil? E o que dizer da política e de seus conjuntos que disputam assentos nos espaços dos Poderes?

Déficit de ética e pântano da moral

Questões como essas batem em nossa mente nesse início de inverno, a prenunciar tempos de desesperança. O presidente está muito isolado, a tentar administrar a tal rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, no RJ. Fabrício Queiroz, que comandava o esquema, foi encontrado na casa do advogado que até então defendia a causa do atual senador. O presidente ainda teve de se desdobrar para resolver o pepino com nome de Abraham Weintraub, já nos EUA, onde irá ser diretor-executivo do Banco Mundial. Só conseguiu entrar no país com o drible do passaporte diplomático. Comprimido entre muitas paredes, Bolsonaro negocia apoio do centrão para construir uma fortaleza de apoio em caso de pedido de impeachment. Em suma, estampam-se o déficit de ética e o pântano da moral.

Na política, um costume

Pagar a um funcionário registrado apenas uma fração e alguém ficar com o restante é crime. Roubo. Mesmo que o funcionário aceite essa maneira torta de receber seu ganho. E mesmo que a justificativa seja para formar um fundo para a próxima campanha ou ainda ajudar uma organização beneficente, de caridade. Não disponho de dados para dizer que essa falcatrua é realizada por muitos. Mas, conhecendo como são nossos padrões de política, é razoável garantir que essa prática se desenvolve em muitos lugares.

Rachadão I

Assíduo leitor dessa coluna, ante o farto noticiário sobre a rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, e dando ênfase à ideia de que não quer "passar o pano" na sujeira que ali teria sido cometida no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, envia sua explicação para rachadinha ou ao que também chamo de rachadão: "Você cria um programa do governo e intitula com um nome, MAIS MÉDICOS. E aí o governo contrata médicos de Cuba ao custo mensal de R$ 11.000,00 para cada um, aproximadamente.

Rachadão II

Desse valor o governo paga ao médico apenas R$ 3.000,00, o que constitui exploração de mão de obra análoga à escrava, repassando R$ 8.000,00 ao governo cubano, a quem se subordinam esses médicos. Chegando a Cuba o dinheiro é dividido com outros protagonistas servindo para alimentar a corrupção. O programa tinha 12.240 médicos, totalizando 135 milhões por mês. Era o que podemos chamar de "rachadão", o maior do país durante anos".

E o Wassef, hein?

Frederick Wassef desistiu da causa do senador Flávio Bolsonaro. Disse que querem "destruir" a imagem dele. Fabrício Queiroz foi encontrado na casa do advogado em Atibaia. Alega que não conversava com ele. Mas confessou que o abrigou por "questões humanitárias". O presidente se queixou que o advogado "falava demais". Teme ser a bola da vez. Essa história vai rolar. Leio que os Bolsonaros estão com medo. A verdade (ou parte dela) virá à tona. Interrogações multiplicam-se. E o Centrão está de olho nas expectativas.

Desânimo?

Paulo Guedes dá ares de desânimo. Rodrigo Maia, em suas falas, expressa um tom queixoso. O melhor quadro da área técnica, Mansueto Almeida, está de saída do governo. Alcolumbre parece cansado. Tenta ser ponte de diálogo, não consegue. STF parece incomodado com os recados do governo. Os ministros não vão transigir. Alexandre de Moraes está demonstrando firmeza. Os processos que afligem e incomodam Bolsonaro dão sinais de que seguirão adiante. O Centrão tem um olho à direita e outro à esquerda. As massas estão cansadas de ouvir lorotas, briguinhas e conflitos entre alas. Seu bolso está quase vazio. O presidente demonstra aborrecimento. Parece cansado da mesmice. Trump falou para seis mil pessoas em Tulsa, Oklahoma, EUA, no primeiro comício de campanha. Fracasso. Seis mil pessoas. Leio que Trump tem dito: se eu perder farei as coisas que sempre fiz e gosto de fazer. Sinal de conformismo. E uma eventual derrota em novembro aumentará o desânimo por aqui no verão de fim de ano.

A força da palavra

Não subestimem o poder da palavra. Certa feita, um amigo do poeta Olavo Bilac queria vender uma propriedade, que considerava um sítio que dava muito trabalho e despesa. Reclamava ser um homem sem sorte. Suas propriedades davam-lhe dores de cabeça e não valia a pena conservá-las. Pediu então ao amigo poeta para redigir o anúncio de venda do sítio. Acreditava que se ele descrevesse sua propriedade com palavras bonitas, seria muito fácil vendê-la. Olavo Bilac, que conhecia bem o sítio, redigiu o seguinte texto: "Vende-se encantadora propriedade onde cantam os pássaros, ao amanhecer, no extenso arvoredo. É cortada por cristalinas e refrescantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda." Meses depois, o poeta encontrou o amigo e perguntou-lhe se tinha vendido a propriedade. "Nem pensei mais nisso. Quando li o anúncio que você escreveu, percebi a maravilha que eu possuía". Algumas vezes, só conseguimos enxergar o que possuímos quando pegamos emprestados os olhos alheios.

Os generais

A imagem das Forças Armadas, principalmente a do Exército, com a maior visibilidade, está em descenso. É oportuno que a cúpula dessa Força analise com acuidade a questão e reforce o conceito: sua missão é a favor do Estado, não a favor de governos. Manter a segurança, a harmonia, a paz social e a defesa do país. Deveriam ter pensado em comedimento, razoabilidade. Locupletar as estruturas com quantidade exagerada de militares é um desatino.

 Os prefeitos

Muitos devem permanecer, principalmente aqueles que administraram com eficiência o combate ao novo coronavírus. Mas a revoada será grande. O sentimento de renovação grassa por toda a parte.

As mulheres

O gênero feminino está ascendendo na política. As mulheres estarão em alta no próximo pleito. Centenas serão candidatas com boas possibilidades de eleição. E muitas serão convidadas a compor a chapa como vice. Em São Paulo, o nome de uma mulher para vice de Bruno Covas (PSDB) está sendo procurado. Marta Suplicy cairia como uma luva. Mas é provável que ela venha compor uma chapa de oposição.

Nome para 2020

Ainda não apareceu um nome altamente competitivo para enfrentar Bolsonaro em 2022. Os que desfilam na passarela estão muito desgastados. E alguns são inexperientes.

O bolsonarismo

Tende a decrescer. Os bolsonaristas de raiz - firmes na ponta direita do reacionarismo conservador - continuarão firmes. Algo como 10%. Os bolsonaristas por conveniência – que votaram no atual presidente por ojeriza ao PT – tendem a procurar outro nome para enfrentar o lulopetismo. Algo como 15%. Os bolsonaristas que viram em Bolsonaro a possibilidade de corrigir certos padrões da política estão decepcionados e tendem a caminhar numa linha de independência, buscando um nome limpo, que encarne a nova realidade brasileira. Algo como 10%. São os racionais. Se as crises sanitária, econômica e política projetarem seus danos sobre o eleitorado até margens do pleito de outubro de 2022, nem candidato de extrema direita nem perfil de extrema esquerda terão chance. A polarização já deu o que tinha que dar.

O livro de John Bolton

Ontem foi lançado nos EUA o livro do ex-assessor de Segurança de Donald Trump, John Bolton, aquele do bigodão que foi recebido por Bolsonaro num café da manhã em sua casa, onde degustaram pão com doce de leite. O livro - The Room Where It Happened – coloca o Brasil no papel de coadjuvante de segunda classe. E fala mal do caráter do presidente. Deverá ter impacto (não tão forte) na campanha americana. Pequeno trecho: "O presidente elogiou Xi pela construção de campos de concentração em Xinjiang – vimos Trump fazer algo semelhante em relação à covid-19, elogiando muito a atuação de Xi, provavelmente, na esperança de preservar seu acordo comercial. Bolton descreve Trump "negociando com Xi para garantir sua reeleição".

Gaudêncio Torquato, Professor Titular na USP, é cientista político e consultor de marketing político.

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quarta-feira, 24 de junho de 2020

Enquanto isso, o Brasil tem 52.951 mortes por coronavírus confirmadas

Levantamento aponta que o país tem mais que o dobro de Índia, China, Paquistão e Indonésia juntos; e 1.157.451 casos confirmados.

O Brasil tem 52.951 mortes por coronavírus confirmadas até as 13h desta quarta-feira (24), aponta um levantamento feito pelo consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde.

Veja os dados atualizados às 13h desta quarta-feira (24):

52.951 mortos
1.157.451 casos confirmados

Antes da atualização das 13h, o consórcio divulgou um primeiro boletim, às 8h. Naquele horário, o Brasil contava 52.788 mortos e 1.152.066 casos confirmados.

Às 20h de terça-feira (23), o consórcio divulgou o 16º balanço, com os dados mais atualizados das secretarias estaduais naquele momento. Desde então, CE, DF, GO, MG, MS, PE e RR divulgaram novos dados.

(Na terça-feira, 23, às 20h, o balanço indicou: 52.771 mortes, 1.364 em 24 horas; e 1.151.479 casos casos confirmados. Esse foi o 2º maior registro de mortes divulgadas pelas secretarias estaduais de Saúde em 24 horas desde o início da pandemia. O recorde anterior foi de 1.470 mortes no dia 4 de junho)

O número de mortes no Brasil é mais que o dobro de Índia (14.476), China (4.640), Paquistão (3.755) e Indonésia (2.535) somados, segundo dados da Universidade Johns Hopkins.

Os dados sobre casos e mortes de coronavírus no Brasil foram obtidos após uma parceria inédita entre G1, O Globo, Extra, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e UOL, que passaram a trabalhar de forma colaborativa para reunir as informações necessárias nos 26 estados e no Distrito Federal.

O objetivo é que os brasileiros possam saber como está a evolução e o total de óbitos provocados pela Covid-19, além dos números consolidados de casos testados e com resultado positivo para o novo coronavírus.

Na segunda-feira, o diretor de emergências da Organização Mundial de Saúde (OMS), Michael Ryan, afirmou que, mesmo com os altos números registrados nos últimos dias, o Brasil provavelmente tem mais casos de Covid-19 do que os que são oficialmente relatados.

Parceria

A parceria entre os veículos de comunicação foi feita em resposta à decisão do governo Jair Bolsonaro de restringir o acesso a dados sobre a pandemia da Covid-19. Personalidades do mundo político e jurídico, juntamente com entidades representativas de profissionais e da imprensa, elogiaram a iniciativa.

Mudanças feitas pelo Ministério da Saúde na publicação de seu balanço da pandemia reduziram por alguns dias a quantidade e a qualidade dos dados. Primeiro, o horário de divulgação, que era às 17h na gestão do ministro Luiz Henrique Mandetta (até 17 de abril), passou para as 19h e depois para as 22h. Isso dificultou ou inviabilizou a publicação dos dados em telejornais e veículos impressos. “Acabou matéria no Jornal Nacional”, disse o presidente Jair Bolsonaro, em tom de deboche, ao comentar a mudança.

A segunda alteração foi de caráter qualitativo. O portal no qual o ministério divulga o número de mortos e contaminados foi retirado do ar na noite de 4 de junho. Quando retornou, depois de mais de 19 horas, passou a apresentar apenas informações sobre os casos “novos”, ou seja, registrados no próprio dia. Desapareceram os números consolidados e o histórico da doença desde seu começo. Também foram eliminados do site os links para downloads de dados em formato de tabela, essenciais para análises de pesquisadores e jornalistas, e que alimentavam outras iniciativas de divulgação.

Entre os itens que deixaram de ser publicados estão: curva de casos novos por data de notificação e por semana epidemiológica; casos acumulados por data de notificação e por semana epidemiológica; mortes por data de notificação e por semana epidemiológica; e óbitos acumulados por data de notificação e por semana epidemiológica.

No dia 7 de junho, o governo anunciou que voltaria a informar seus balanços sobre a doença. Mas mostrou números conflitantes, divulgados no intervalo de poucas horas.

Na terça (23), o Ministério da Saúde divulgou os dados completos, obedecendo a ordem do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a pasta, houve 1.374 novos óbitos e 39.436 novos casos, somando 52.645 mortes e 1.145.906 casos desde o começo da pandemia.

Fonte: G1

Caça acuada, caçadores em vigília

Os fatores que sustentam a mudança de rumo estão em plena ebulição, informa Rosângela Bittar em artigo n'O Estado de São Paulo, edição de hoje

Aparentemente, há fatos e indícios demais que justificam o afastamento do presidente Jair Bolsonaro. O consenso na política, porém, é de que o cenário ainda exige cautela. A caça foi avistada, está acuada, mas ainda não pode ser alcançada.

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O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de inauguração das instalações do Centro de Operações Espaciais Foto: Dida Sampaio/ Estadão

Os fatores que sustentam a mudança de rumo estão em plena ebulição. Apenas a reeleição, que Bolsonaro sempre considerou favas contadas, está fora de cogitação. Sucumbiu junto com os milhões de vítimas da covid-19 e dos desempregados por ela. Ainda há quem acredite na reabilitação do candidato nesses próximos dois anos e pouco, mas estes são raros.

Ninguém mais discute, porém, se o presidente resistirá até o fim do mandato. A dúvida é sobre como vai sair, se pela impugnação da chapa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ou pela deposição via Congresso, o impeachment. Para os dois desfechos ainda não existem as condições necessárias, em provas, perdas de apoio, enfraquecimento político.

A novidade atual é a troca de posição das probabilidades. A impugnação no TSE, que até há duas semanas era vista como a hipótese mais fácil, perdeu favoritismo. A equação se inverteu.

Duas razões se destacam para a desistência desta aposta. A cassação eleitoral padece de provas incontestáveis. Robôs espalhando notícias falsas, com formação de rede do ódio e seus efeitos decisivos na eleição, são provas “tênues” politicamente, questões áridas e técnicas, de difícil compreensão, até mesmo para os juízes da corte eleitoral.

A impugnação da chapa tornou-se menos palatável. Também, pelo longo tempo que se passou desde a eleição e a extensão da punição ao general Hamilton Mourão, vice-presidente, que não assumiria o poder. Está prevalecendo, no momento, o argumento oposto ao de um grupo da oposição que prefere esta saída exatamente para se livrar de Mourão. Mas já não é a mais realista.

Não por temor de um levante militar. Como mostrou reportagem de Tânia Monteiro, no Estadão, na segunda-feira, o chamado poder militar, representado pelos 11 comandantes que têm o controle das tropas, não tem gabinete no Palácio do Planalto. Atingir Mourão na derrubada de Bolsonaro pode ser um passo em falso e desnecessário.

Quanto ao impeachment, há muita coisa para se imaginar, mas ainda pouca coisa a ver.

A pandemia impede que os líderes e negociadores realizem reuniões. Ninguém articula deposição de presidente da República via internet. Bolsonaro está sendo favorecido justamente pela avassaladora e cruel doença que renegou, desprezou e ironizou. A pandemia da covid-19 tende a manter a política sob pressão até o fim do ano, no mínimo.

Por isto, a análise de pedidos de impeachment é considerada sem viabilidade no momento. Depois das eleições municipais, quem sabe?

A imagem do presidente dificilmente se reerguerá. Foi contaminada pelos piores símbolos do seu governo: os apoiadores presos por atos antidemocráticos, os empresários periféricos financiadores da baixaria, os advogados saídos de becos de arranjos. A tradução do governo, hoje, são as Saras, os Queiroz, os Hangs, os Wassefs.

Estão apenas no começo as investigações sobre os escândalos da “rachadinha”, do gabinete do ódio e dos atos que pedem a volta do AI5.

A equipe econômica pioneira já começou a se dissolver. Até quando o ministro da Economia resistirá?

O presidente fez um cálculo objetivo ao apostar todas as suas fichas no Centrão, alimentado pelos melhores cargos políticos, como os Ministérios das Comunicações, possivelmente o da Educação, os bem nutridos Fundos de financiamento da Educação e da Saúde.

Com este arsenal, o Centrão entra forte na campanha municipal. O que fará depois, são outros quinhentos. Se o cofre a proteger estiver vazio, enfraquecido, isolado, o grupo embarcará, como é de sua natureza, na expectativa de poder futuro.

Nova linhagem do vírus da zika está circulando no Brasil, aponta estudo

Pesquisa da Fiocruz Bahia afirma que a maior parte da população ainda não tem os anticorpos específicos para o novo tipo do vírus

Uma nova linhagem do vírus da zika está em circulação no Brasil, revelou uma pesquisa da Fiocruz Bahia, publicada no início de junho. O estudo detectou sequências genéticas de um tipo africano da zika, que até então não tinha circulado no País —  por ser novo, os pesquisadores alertam que o vírus tem potencial para gerar uma epidemia, uma vez que a maior parte da população não tem os anticorpos específicos. Neste ano, porém, o total de infecções por zika ainda é menor do que o número de registros de dengue e chikungunya.

A novo tipo de zika foi identificado em duas regiões diferentes no Brasil: no Sul, especificamente no Rio Grande do Sul, e no Sudeste, no Rio de Janeiro. A descoberta foi feita a partir de uma ferramenta de monitoramento genético que analisa sequências disponíveis em banco de dados públicos.


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O Brasil teve um surto de zika associado à microcefalia entre 2015 e 2016. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Larissa Catharina Costa, uma das autoras do estudo, destacou em comunicado à imprensa a importância de continuar pesquisando sobre outras doenças em meio à pandemia de covid-19. “Atualmente, com as atenções voltadas para a covid-19, este estudo serve de alerta para não esquecermos outras doenças, em especial zika. A circulação do vírus no país, bem como a realização de estudos genéticos devem continuar sendo realizados a fim de evitar um novo surto da doença com o novo genótipo circulante”, disse.

De acordo com a Fiocruz, são conhecidas duas linhagens do vírus zika no mundo: a asiática e a africana. O estudo em questão, que analisou 248 sequências genéticas brasileiras submetidas a base de dados desde 2015, mostrou que, até 2018, os dados genéticos encontrados aqui eram majoritariamente cambojanos, um tipo asiático.

Segundo o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, foram notificados 3.692 casos prováveis de zika no Brasil em 2020 (taxa de incidência 1,8 casos por 100 mil habitantes), número menor se comparado a outras doenças causadas pelo Aedes aegypt, como a chikungunya (47.105 casos prováveis) e a dengue (823.738 casos prováveis). O Brasil teve um surto de zika associado à microcefalia entre 2015 e 2016.

Giovanna Wolf, O Estado de S.Paulo
24 de junho de 2020 | 17h56

Associação de funcionários do Banco Mundial pede suspensão de nomeação de Weintraub

Grupo quer que a nomeação do brasileiro para assumir uma diretoria executiva do banco fique suspensa até a conclusão de uma investigação do Comitê de Ética

A Associação de Funcionários do Banco Mundial enviou uma carta nesta quarta-feira, 24, ao Comitê de Ética da instituição pedindo uma investigação sobre o ex-ministro da educação do Brasil, Abraham Weintraub. O grupo que representa os funcionários do organismo internacional quer que a nomeação do brasileiro para assumir uma diretoria executiva do banco fique suspensa até a conclusão desta investigação. O motivo do pedido são falas preconceituosas do ministro sobre a China e minorias, além do posicionamento a respeito da prisão de ministros do Supremo Tribunal Federal.

"O Banco Mundial acaba de assumir uma posição moral clara para eliminar o racismo em nossa instituição. Isso significa um compromisso de todos os funcionários e membros do Conselho de expor o racismo onde quer que o vejamos. Confiamos que o Comitê de Ética compartilhe dessa visão e faremos tudo ao alcance para aplicá-lá", afirma a associação de funcionários. O e-mail com o pedido de investigação foi direcionado ao Comitê de Ética do banco e encaminhado a todos os funcionários da instituição nesta quarta-feira.

Weintraub

O (ex) ministro da Educação, Abraham Weintraub Foto: Dida Sampaio/Estadão

Weintraub foi indicado pelo Ministério da Economia para assumir a diretoria executiva que r
representa o Brasil e mais oito países no banco. Sua confirmação depende de uma eleição interna do grupo, mas é considerada meramente protocolar, já que o País tem mais de 50% do poder de voto e por isso pode emplacar o nome que desejar para a função. Não houve até o momento oposição formal por parte dos outros países que formam o consórcio junto com o Brasil, que são Colômbia, Filipinas, Equador, República Dominicana, Trinidad e Tobago e Suriname.

Na carta, os funcionários afirmam que, "de acordo com múltiplas fontes, o senhor Weintraub publicou um tuíte de carga racial, ridicularizando o sotaque chinês e culpando a China pela covid-19, e acusando os chineses de 'dominação mundial'; levando a Suprema Corte a abrir uma investigação por crime de racismo". A carta também cita que Weintraub sugeriu que ministros do Supremo Tribunal Federal deveriam ser presos – fala do então ministro da Educação na reunião ministerial de 22 abril cujo vídeo veio à público. A associação de funcionários também alega que ele diz abertamente ser contra a proteção dos direitos de minorias e a promoção de igualdade racial.

"Embora sua indicação tenha sido condenada por vários países clientes, a Associação de Funcionários entende que a escolha deste diretor executivo é do Brasil e somente do Brasil", afirmam os funcionários. Apesar disso, eles argumentam que são exigidos padrões de integridade e ética na conduta pessoal e profissional alinhados com políticas do banco, como a política sobre populações indígenas.

O Banco Mundial prevê, por exemplo, que comunidades indígenas sejam ouvidas quando um projeto de desenvolvimento pode afetar um território indígena. Os projetos financiados pela instituição levam em contas prerrogativas como redução de desigualdades e proteção ambiental.

"Solicitamos formalmente ao Comitê de Ética que reveja os fatos subjacentes às múltiplas alegações, com intenção de (a) colocar sua indicação em espera até que essas alegações possam ser revisadas e (b) garantir que o Sr. Weintraub seja avisado de que o tipo de comportamento pelo qual ele é acusado é totalmente inaceitável nesta instituição", pede a associação. Se eleito, Weintraub vai servir até 31 de outubro de 2020, quando será necessário nova nomeação e eleição.

Viagem para os Estados Unidos

Weintraub desembarcou em Miami, nos Estados Unidos, no sábado, 20, dois dias depois anunciar, ao lado do presidente Jair Bolsonaro, sua saída da Educação. Após a suspeita de que o ex-ministro tenha usado o cargo do qual já havia saído para desembarcar em Miami e, assim, driblar as restrições de viagem impostas pelos EUA aos brasileiros, em decorrência da pandemia do novo coronavírus, o governo retificou ontem, no Diário Oficial, a data de sua exoneração, que passou a valer “a partir de 19 de junho”, um dia antes do que constava no decreto anterior.

Na segunda-feira, 22, em rede social, Weintraub agrdeceu às "dezenas de pessoas" que o "ajudaram a chegar em segurança aos EUA". O Tribunal de Contas da União (TCU) vai investigar se houve gasto de dinheiro público e participação do Itamaraty na ida do ex-ministro aos Estados Unido

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo
24 de junho de 2020 | 13h34

Salve-se quem puder

Presidente confirma que não compreendeu a dimensão da crise que lhe coube administrar

O presidente Jair Bolsonaro disse que o governo não tem como pagar mais duas parcelas de R$ 600 de auxílio emergencial para os trabalhadores que sofreram drástica perda de renda em razão da pandemia de covid-19. Segundo Bolsonaro, “a União não aguenta outro (pagamento) com esse mesmo montante”. Desse modo, o presidente confirma que não compreendeu a dimensão da crise que, quiseram os fados, lhe coube administrar.

Nenhum chefe de Estado digno do cargo que ocupa poderia sequer imaginar a hipótese de deixar à própria sorte milhões de concidadãos que repentinamente se viram privados de quase tudo por motivos alheios à sua vontade. E esses motivos não cessaram - muito ao contrário, como mostram os terríveis números do avanço da doença no País.

Para Bolsonaro, contudo, é preciso ter “responsabilidade”. E por “responsabilidade” o presidente entende que é a preservação das contas nacionais à custa da penúria de seus concidadãos.

Isso, numa hipótese benevolente, mostra que o presidente não entendeu nem seu papel na condução do País nem o risco que correm seus desafortunados governados. Já numa hipótese menos benevolente, pode-se especular, dada a insistência de Bolsonaro no erro mesmo diante de inquestionáveis evidências, que haja aí algum propósito político inconfessável - como, por exemplo, o de atribuir a governadores, muitos deles seus desafetos, a responsabilidade pela privação que afeta milhões de eleitores.

Afinal, desde sempre o presidente insiste, como tornou a fazer agora, que “talvez tenha havido um certo exagero no trato dessa questão”, referindo-se à imposição de isolamento social nos Estados, medida que desacelerou brutalmente a economia. O consenso entre todos os que prezam a ciência e não a irresponsabilidade é o de que esse, afinal, é o custo de salvar milhares de vidas e que cabe aos governos encontrar maneiras de mitigar os efeitos econômicos.

O auxílio emergencial é uma dessas maneiras, e uma das mais importantes. Seu custo integra o chamado “orçamento de guerra”, que dá ao governo liberdade de gastar o que for necessário para enfrentar a crise, sem as amarras fiscais do Orçamento regular e enquanto durar o estado de calamidade pública - que originalmente vai até o fim do ano.

Ou seja, o presidente não tem razão quando invoca o risco de insolvência da União como pretexto para deixar de pagar o auxílio emergencial no atual valor. “É exagero de quem diz isso”, afirmou, com razão, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ao comentar a observação do presidente. “O governo não pode esperar mais para prorrogar o auxílio. A ajuda é urgente e é agora”, enfatizou o deputado, que defende o pagamento dos R$ 600 por mais dois ou três meses, enquanto o governo estuda pagar mais duas parcelas, mas com valor inferior - especula-se algo em torno de R$ 200 ou R$ 300.

Em vez de tratar do auxílio emergencial como uma questão puramente fiscal e de tentar transformar a pandemia em ativo eleitoral, Bolsonaro - que, nunca é demais lembrar, é também presidente do comitê de gestão da crise criado junto com o “orçamento de guerra” - deveria empenhar-se para que esse auxílio chegue a quem precisa desesperadamente dele. Deveria assumir a coordenação dos esforços para lidar com a doença e com o impacto econômico. Deveria lamentar por cada um dos mais de 50 mil mortos nessa tragédia. Assim faria um estadista.

Mas Bolsonaro sempre preferiu fazer pouco da doença, dos doentes e dos que cuidam deles, investindo as energias nacionais em debates inúteis sobre remédios miraculosos e sobre supostas fraudes nos números de mortos para prejudicá-lo. Desfez-se de dois ministros da Saúde porque estes se recusaram a avalizar seus devaneios e segue dizendo que “não podemos deixar que o efeito colateral do tratamento da pandemia”, isto é, a paralisia econômica, “seja mais danoso do que a própria pandemia” - como se o fechamento de fábricas fosse mais grave do que a morte de milhares de cidadãos. Para Bolsonaro, cabe a seus desafortunados governados encontrar maneiras de sobreviver como puderem à pandemia, porque, se depender da disposição do presidente, o máximo que os milhões que correm o risco de ficar sem auxílio emergencial ouvirão de seu governo é: “E daí?”.

Editorial / O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo
24 de junho de 2020 | 03h06

terça-feira, 23 de junho de 2020

"Brasil se tornou o pior exemplo internacional contemporâneo"

Ex-embaixador e ex-ministro Rubens Ricupero aponta "falência total da liderança" de Bolsonaro em meio à pandemia. Para ele, "anti-ministro" comanda política ambiental, e "seita lunática" influencia parte do Itamaraty.

    Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro
"Nosso presidente não quis ver a realidade", comenta Ricupero sobre a pandemia de covid-19

O Brasil é governado por um presidente que não está preocupado com as qualificações profissionais, talento e preparo cultural de seus ministros, tendo os interesses de sua família como foco, e nos meios diplomáticos mundiais, o país é hoje motivo de gozação. Essa é a opinião de Rubens Ricupero, que foi diplomata de carreira entre 1961 e 2004, representante do Brasil junto aos órgãos da Organização das Nações Unidas (ONU) em Genebra (1987-1991) e embaixador em Washington (1991-1993).

Ricupero foi também ministro do Meio Ambiente e da Amazônia Legal no governo Itamar Franco e Ministro da Fazenda durante o período de implantação do Plano Real, em 1994. Atualmente, é presidente honorário do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial e diretor da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).

Em entrevista à DW Brasil, Ricupero comenta a maneira como o governo Jair Bolsonaro vem enfrentando a pandemia do coronavírus, potenciais consequências de críticas de aliados do presidente à China e a atual política ambiental brasileira, que afirma ser uma "catástrofe" comandada por um "anti-ministro".

Ricupero também aborda a forte presença das ideias de Olavo de Carvalho no Itamaraty, que define como "uma influência nefasta, vinda de uma seita lunática".

Em meio à atual pandemia, Ricupero aponta uma "falência total da liderança". "Nosso presidente não quis ver a realidade, acabou brigando com os ministros da Saúde. Isso enviou uma mensagem confusa à população [...] O Brasil está descontrolado e se tornou o pior exemplo internacional contemporâneo", afirma.

DW: Na última quinta-feira (18/06), o senhor divulgou uma carta aberta com outros oito ex-ministros do Meio Ambiente, na qual denunciam um "desgoverno" no país, afirmando que a gestão do presidente Jair Bolsonaro representa uma ameaça tanto à saúde e à vida de brasileiros em meio à epidemia de covid-19 quanto às instituições democráticas, aos povos indígenas e ao meio ambiente. Como avalia a atual política ambiental brasileira?

Rubens Ricupero: A política ambiental é uma catástrofe. O homem que está lá [Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente] não é um ministro, é um "anti-ministro". Ele foi convocado para destruir tudo o que os que vieram antes fizeram. O que está acontecendo, a destruição da Amazônia e os incêndios, é uma consequência direta dessa política do governo. Boa parte do que destrói a Amazônia e o Cerrado é, justamente, a produção de alimentos que são exportados para a Europa. Isso vai acabar produzindo consequências graves.

Que consequências poderão ser sentidas no curto prazo?

Muitos fundos de investimento já declararam estar examinando a situação brasileira e que, se não houver uma melhora, vão suspender investimentos por aqui. O governo até reinstalou o Conselho da Amazônia na vice-presidência, com o general Hamilton Mourão. Foi anunciado um plano contra o desmatamento, que seria um "ambientalismo de resultados", mas até agora não se viu nada além de intenções no papel. O anti-ministro continua no cargo, não há verbas nem ações concretas. O único resultado que se viu até agora foi o de destruição. E isso agravará ainda mais a imagem do Brasil no exterior.

Pessoas próximas ao presidente Bolsonaro não têm poupado críticas à China. Em que medida esses episódios podem prejudicar essa relação?

Isso mostra bem o caráter irracional da política externa do atual governo. Além disso, a China não é apenas o maior parceiro comercial do Brasil, mas cada vez mais nós dependemos da China. Em maio passado, as exportações do Brasil para os Estados Unidos tiveram queda de 43%, mas para a China aumentaram 35%. No período, do total que o Brasil vendeu para o mundo inteiro, 40% foram para a China. Não tem sentido hostilizar o país.

Brasilien | PK von Human Rights Watch (HRW) zu der Abholzungs-Mafia - Rubens Ricupero

Rubens Ricupero
"Lá atrás, o presidente já indicava o que viria: um governo com base nos interesses da própria família", diz Rubens Ricupero

Até agora, a China tem revelado uma atitude de relativa autocontenção. Mas isso tem um limite. Se continuarmos a assistir a episódios insultuosos, é claro que a China vai ter um comportamento cada vez mais distante. E na primeira alternativa que surgir para o país se abastecer de grãos ou de carne, ele não hesitará em abandonar os supridores brasileiros.

Isso nos deixaria em situação muito delicada, porque o outro grande mercado para esses produtos é a União Europeia, que se mostra cada vez mais resistente a comprar do Brasil por conta da política ambientalista que já abordamos, que está destruindo a Amazônia. Se isso acontecer, o Brasil talvez se encontrará praticamente sem alternativas no mercado externo.

No primeiro ano do governo Bolsonaro, um dos assuntos mais polêmicos foi a possibilidade de um dos filhos do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), ser indicado ao posto de embaixador dos EUA. Como enxerga esse movimento de o governo federal indicar uma pessoa sem experiência comprovada na diplomacia? Fora isso, agora temos a indicação do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub para o Banco Mundial.

Lá atrás, o presidente já indicava o que viria: um governo com base nos interesses da própria família. Ele revela essa mesma inclinação com a indicação do Weintraub. As qualificações profissionais, talento e preparo cultural não significam nada. O que vale para ele é apenas a lealdade política e a mesma posição ideológica dentro dessa facção a que ele pertence.

No caso do Eduardo Bolsonaro, ele teve que desistir porque provavelmente o Senado Federal rejeitaria a indicação. No caso do Weintraub, temos uma situação semelhante. No início, Bolsonaro cogitou indicar o ex-ministro para uma embaixada, mas ele sabia que no Senado Weintraub seria rejeitado, então acabou encontrando esse posto que não depende de aprovação interna.

Todas essas escolhas revelam uma visão que não tem relação alguma com o interesse nacional, pois esses postos devem representar não apenas o interesse do governo, mas do país como um todo. É inadequado nomear, em um caso, o filho que não tem nenhum preparo especial para isso, e, no outro, uma pessoa que se define como militante. São pessoas desqualificadas para esses cargos. E isso contamina toda a política externa. É uma visão completamente alucinada.

Temos hoje no Itamaraty diversas pessoas que não escondem a influência de Olavo de Carvalho em sua formação cultural. Como essa presença do "olavismo" influencia nossas relações internacionais? Como está o clima no Itamaraty?

O clima no Ministério [das Relações Exteriores] é muito negativo. A maioria dos diplomatas, diria que mais de 90%, é contra essa orientação. Há uma minoria que apoia e se divide: em um grupo, há os carreiristas tradicionais, que aderem a qualquer governo apenas porque têm interesse em fazer carreira, mas não acreditam em nada; e um grupo ínfimo de pessoas como o Ernesto Araújo, influenciados pelas ideias do Olavo de Carvalho. É uma influência nefasta, vinda de uma seita lunática.

Nas últimas semanas, a Fundação Alexandre de Gusmão, do Itamaraty, promoveu vários seminários com indivíduos dessa tendência, figuras que ninguém conhece no Brasil e que sustentam teses completamente absurdas, de que a terra é plana e de que a pandemia é uma conspiração chinesa, por exemplo. É uma pena que o Ministério do Exterior se veja contaminado por esses fanáticos.

Nos meios diplomáticos mundiais, o Brasil hoje é motivo de gozação, é uma piada. O que ocorre aqui é pior do que o que ocorre nos EUA. Não tem nenhum paralelo com nenhum outro país. Na verdade não há nação que esteja em situação tão inacreditável quanto a nossa.

O presidente afirmou que, passada a epidemia do coronavírus, estudará a saída do Brasil da Organização Mundial da Saúde (OMS). O que representaria esse movimento?

Seria um absurdo. O Brasil foi um dos fundadores da organização. Um dos primeiros grandes diretores da OMS foi um médico brasileiro, o doutor Marcolino Gomes Candau, que ficou no cargo de 1953 a 1973. E o Brasil sempre teve uma relação muito próxima com a agência. Caso o governo tente, de fato, levar adiante essa ideia, penso que o Congresso deveria impedir. Da mesma forma que para entrar em uma organização o Congresso precisa aprovar, para sair a mesma lógica deveria se impor. Uma ação dessas afetaria o Brasil como um todo, e não apenas o Poder Executivo.

Dados citados pelo senhor já demonstram queda no comércio com os EUA. Isso nos leva à outra questão: quais os impactos de um alinhamento total e irrestrito do atual governo com a gestão Trump?

Esse alinhamento é mais com a pessoa do Trump do que com os EUA. Tanto isso é verdade que se o Trump perder as eleições em novembro, como parece possível pelas pesquisas de opinião atuais, ficaremos em uma situação bastante difícil, porque os democratas e o próprio Joe Biden são muitos críticos ao governo brasileiro. O Biden já fez declarações duras sobre o desmatamento e os incêndios na Amazônia. E há duas semanas, deputados democratas da Comissão de Orçamento e Tributos da Câmara dos EUA se opuseram a um acordo comercial com o Brasil.

Além do mais, não há muita lógica em buscar esse estreitamento tão forte de relações com os EUA porque a estrutura do comércio exterior brasileiro é muito concentrada no agronegócio. E nessa área os americanos são nossos concorrentes; os EUA não abrem mercado para nós. Os mercados para nós são União Europeia, China, Japão e países asiáticos em geral. Isso não faz nenhum sentido, trata-se apenas de uma elucubração devido à ideologia.

O Itamaraty também tem demonstrado apoio incondicional a Israel. Recentemente, o governo votou de forma contrária a uma resolução da ONU para reconhecer o direito internacional em territórios ocupados da Palestina. Em que essa aproximação com Israel ajuda o Brasil?

Essa política é uma consequência da pressão de um setor dos evangélicos. Há um setor evangélico que tem essa postura um pouco utópica de acreditar que Israel é uma espécie de encarnação do ideal religioso deles. Aí, apoiam medidas como a transferência da Embaixada do Brasil de Tel-Aviv para Jerusalém, que o governo chegou anunciar e depois não executou. Essa política que abandonou a postura de equidistância, de equilíbrio, que tínhamos antes, é muito prejudicial, pois aliena todo o mundo árabe e muçulmano – e nesse mundo estão importadores relevantes dos produtos do agronegócio brasileiro, como Egito, Arábia Saudita e Irã. Ao adotar essa posição, o Brasil mais uma vez prejudica os seus próprios interesses comerciais.

Segundo a revista Veja, o ministro Ernesto Araújo estaria articulando com o Ministério da Economia para derrubar as regras que proíbem a contratação de assessores no Itamaraty que não sejam da carreira diplomática. Quais os impactos para o Itamaraty?

Seria um golpe muito grave, porque o Itamaraty, há muitos anos, tem sido uma das raras exceções do serviço público brasileiro. Foi um dos primeiros que se profissionalizou, no qual o ingresso passou a ser exclusivamente na base do concurso, do Instituto Rio Branco. Isso há mais de 70 anos. Desde então, a lei que criou o Itamaraty não permitiu outros tipos de ingresso. É claro que nada impede que se possa solicitar alguma contribuição técnica de especialistas na base de consultoria, mas não são cargos permanentes.

Mais grave ainda é o fato de que essa manobra visa, sobretudo, nomear um cidadão, que, embora tenha pai brasileiro e mãe americana, nunca viveu aqui, chamado Gerald Brant. É um empresário ligado ao Steve Bannon, espécie de Olavo de Carvalho americano. Seria um absurdo colocar no próprio coração do Itamaraty, onde os assuntos mais importantes da política externa brasileira são tratados, um estranho. Acho isso violador à própria soberania brasileira. Se isso acontecer, acredito que haverá uma reação grande, até em matéria de ações junto ao Supremo Tribunal Federal, porque vai contra a própria Constituição Federal.

EUA e Europa fecharam fronteiras para brasileiros em meio à atual pandemia. O que perdemos ao sermos visto como um país incapaz de controlar a covid-19?

No caso brasileiro, deve-se muito a uma falência total da liderança. Nosso presidente não quis ver a realidade, acabou brigando com os ministros da Saúde. Isso enviou uma mensagem confusa à população, já que os governadores e prefeitos têm outra postura. E o resultado é esse: não são só os EUA e países da Europa, mas nossas nações vizinhas, viraram as costas para nós. Os três presidentes do Mercosul – Argentina, Uruguai e Paraguai – já fizeram declarações públicas de que estão preocupados e enxergam o Brasil como uma ameaça. Eles estão lutando para controlar a doença, mas o Brasil está descontrolado. O Brasil se tornou o pior exemplo internacional contemporâneo.

Fonte: Deutsche Welle, a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. 

Enquanto isso, o Brasil tem 1.364 mortes por coronavírus em 24 horas; são 52.771 no total

É o 2º maior registro em 24 horas desde o início da pandemia. 

No dia 4 de junho, houve 1.470, segundo dados das secretarias totalizados pelo G1 naquele dia. Levantamento mostra que Brasil tem mais que o dobro de mortes de Índia, China, Paquistão e Indonésia juntos – quatro países mais populosos.

O Brasil teve 1.364 novas mortes registradas em razão do novo coronavírus em 24 horas, mostra levantamento feito pelo consórcio de veículos de imprensa junto às secretarias estaduais de Saúde. Com isso, são 52.771 óbitos pela Covid-19 até esta terça-feira (23) no país.

Veja os dados, consolidados às 20h:

52.771 mortes; eram 51.407 até as 20h de segunda (22), uma diferença de 1.364 óbitos

1.151.479 casos confirmados; eram 1.111.348 até a noite de segunda, ou seja, houve 40.131 novos casos

Esse é o 2º maior registro de mortes divulgadas pelas secretarias estaduais de Saúde em 24 horas desde o início da pandemia. 

O recorde anterior foi de 1.470 mortes no dia 4 de junho.

São Paulo também teve mais uma vez o recorde diário de mortes (434).

Desde o dia 8 de junho, o G1 faz parte de um consórcio de veículos de imprensa que soma os registros de casos e mortes divulgados pelas secretarias estaduais da Saúde. O balanço diário do consórcio leva em conta os dados divulgados entre as 20h de um dia e de outro. Antes do consórcio, o G1 também contabilizava os dados divulgados pelas secretarias estaduais, com balanço fechado da 0h às 23h59 de cada dia.

O Brasil já tem mais que o dobro de mortes de Índia, China, Paquistão e Indonésia juntos – quatro países mais populosos –, de acordo com dados compilados pela Universidade Johns Hopkins. O país só fica atrás dos EUA em número de vítimas.

Consórcio de veículos de imprensa

Os dados divulgados nesta terça (23) foram obtidos após uma parceria inédita entre G1, O Globo, Extra, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e UOL, que passaram a trabalhar de forma colaborativa desde o dia 8 para reunir as informações necessárias nos 26 estados e no Distrito Federal.

O objetivo é que os brasileiros possam saber como está a evolução e o total de óbitos provocados pela Covid-19, além dos números consolidados de casos testados e com resultado positivo para o novo coronavírus.

A parceria entre os veículos de comunicação foi feita em resposta à decisão do governo Jair Bolsonaro de restringir o acesso a dados sobre a pandemia da Covid-19. Personalidades do mundo político e jurídico, juntamente com entidades representativas de profissionais e da imprensa, elogiaram a iniciativa.

Mudanças feitas pelo Ministério da Saúde na publicação de seu balanço da pandemia reduziram por alguns dias a quantidade e a qualidade dos dados. Primeiro, o horário de divulgação, que era às 17h na gestão do ministro Luiz Henrique Mandetta (até 17 de abril), passou para as 19h e depois para as 22h. Isso dificultou ou inviabilizou a publicação dos dados em telejornais e veículos impressos. “Acabou matéria no Jornal Nacional”, disse o presidente Jair Bolsonaro, em tom de deboche, ao comentar a mudança.

A segunda alteração foi de caráter qualitativo. O portal no qual o ministério divulga o número de mortos e contaminados foi retirado do ar na noite da quinta-feira (4). Quando retornou, depois de mais de 19 horas, passou a apresentar apenas informações sobre os casos “novos”, ou seja, registrados no próprio dia. Desapareceram os números consolidados e o histórico da doença desde seu começo. Também foram eliminados do site os links para downloads de dados em formato de tabela, essenciais para análises de pesquisadores e jornalistas, e que alimentavam outras iniciativas de divulgação.

Entre os itens que deixaram de ser publicados estão: curva de casos novos por data de notificação e por semana epidemiológica; casos acumulados por data de notificação e por semana epidemiológica; mortes por data de notificação e por semana epidemiológica; e óbitos acumulados por data de notificação e por semana epidemiológica.

No domingo (7), o governo anunciou que voltaria a informar seus balanços sobre a doença. Mas mostrou números conflitantes, divulgados no intervalo de poucas horas.

Apenas na terça (9) o ministério voltou a divulgar os dados completos, obedecendo a ordem do STF.

Nesta terça (23), o órgão publicou um novo balanço. Segundo a pasta, houve 1.374 novos óbitos e 39.436 novos casos, somando 52.645 mortes e 1.145.906 casos desde o começo da pandemia – números totais menores que os apurados pelo consórcio.

Fonte: G1
23/06/2020 20h00  Atualizado há um minuto

Um golpe que passa do delírio à farsa

Com a descoberta de Queiroz, devem ganhar nitidez ligações perigosas do clã Bolsonaro com o submundo das milícias

Os delírios golpistas do bolsonarismo que surgiram com ares de tragédia se aproximam da farsa. O fraseado do ex-capitão, modulado nos 28 anos de baixo clero na Câmara, em favor de torturadores do ciclo de chumbo da ditadura militar, as ameaças ao Supremo, as palavras de ordem de pequenos grupos por um novo regime de exceção verde-oliva gritadas em manifestações bolsonaristas, mantendo o ex-capitão no Planalto, prenunciavam um impossível retorno ao início dos anos 1960, sem Guerra Fria e sem comunistas escondidos em todos os lugares, mas prontos para conseguir o que não foi possível no levante fracassado de 35, a Intentona.

Ainda houve tentativas de criá-los usando redes sociais e seus robôs. Sem sucesso, porque não há mais União Soviética e nem existe o comunismo. A verdade é que não se sustenta algum discurso pretensamente civilizado para justificar o estrangulamento da democracia. Uma das virtudes inalcançáveis deste regime é que ele pode ser aperfeiçoado sem cataclismos políticos, econômicos, sociais, humanitários. No Brasil, o golpe bolsonarista, se fosse possível, implicaria um regime de força, truculento, isolado no mundo, com uma economia já conectada a mercados globais, em um país com mais de 200 milhões de habitantes, repleto de desníveis sociais, mas com todas as condições de reduzi-los dentro das liberdades constitucionais.

Bolsonaro sempre foi transparente ao pregar inconstitucionalidades. Não deveria surpreender. Na crise da saída de Moro, afirmou que desejava fazer trocas na sua “segurança” — era na Polícia Federal, nunca se teve dúvida —, porque queria “interagir” com o comando da PF, a diretoria-geral e a superintendência do Rio, área sensível para o presidente e família — sabe-se cada vez mais por quê —, sempre preocupado com que investigações e denúncias pudessem ser feitas contra “amigos” e filhos.

Porém, amigos e um filho já haviam entrado no radar de instituições que coíbem crimes, o que explica a sensibilidade presidencial ao tema. Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz são investigados pelo Ministério Público do Rio, e Fabrício desde o final de 2018. O noticiário sobre o roubo de dinheiro público por meio do esquema na Assembleia Legislativa fluminense batizado de forma singela como “rachadinha” concorreu por espaço na imprensa com a formação do governo e a posse do presidente.

Não deixaram de ser veiculadas informações sobre o caso, mas o novo governo era insuperável como fator de atração das atenções. O caso da “rachadinha” criou tensões no Supremo, depois da decisão monocrática do presidente da Corte, ministro Dias Toffoli, tomada a pedido da defesa de Flávio, de paralisar todas as investigações iniciadas com base em relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), sobre movimentações bancárias atípicas que não houvessem tido autorização da Justiça em todas as suas etapas de elaboração.

Muitos inquéritos sobre lavagem de dinheiro ficaram em suspenso junto com os de Flávio e Queiroz, já então desaparecido. O Brasil chegou a ser ameaçado com a saída de acordos multilaterais que facilitam a troca de informações entre os Estados nacionais, para coibir crimes financeiros, crescentemente globais, cometidos para esconder grandes volumes de dinheiro gerados na corrupção, no tráfico de drogas e armas, em todo tipo de operação gerenciada pelo crime organizado. O plenário da Corte reviu aquela decisão, e o próprio Toffoli recuou no julgamento final.

O processamento das informações sobre as traficâncias financeiras de Flávio Bolsonaro, com a ajuda de Fabrício, terminou sendo retomado no MP do Rio de Janeiro, e parte das descobertas foi conhecida com o resgate de Queiroz, que se escondia numa casa em Atibaia, próximo a São Paulo, de propriedade de Frederick Wassef, advogado do presidente da República. O imóvel parecia receber uma maquiagem para parecer um escritório de advocacia do novo frequentador assíduo do Alvorada e do Planalto, e dessa forma se beneficiar da inviolabilidade legal do espaço de trabalho dos advogados. Mas a polícia chegou antes, na quinta-feira.

O PM aposentado, amigo de Jair Bolsonaro e depois dos filhos, comprovadamente pagou despesas de Flávio e família com dinheiro de origem desconhecida. Todas as evidências indicam que veio do desfalque nos cofres públicos dado com a subtração de parte dos salários dos assessores do ainda deputado estadual Flávio, muitos deles da família de Queiroz e de Bolsonaro. Este tem de ser um negócio em família, literalmente.

Junto com a descoberta de Queiroz sob proteção do advogado presidencial devem ganhar nitidez ligações no mínimo arriscadas do clã Bolsonaro com o submundo das milícias cariocas. O próprio Queiroz explorava transporte de vans em Rio das Pedras, Zona Oeste do Rio, QG de uma quadrilha de bandidos fardados — da ativa ou da reserva. É preciso muita intimidade com os homens fortes do pedaço para entrar nesses negócios.

Editorial de O Globo
edição de 23/06/2020 - 00:00

Confundindo as coisas

Talvez não passe pela cabeça do presidente que os problemas que ele e os bolsonaristas enfrentam na Justiça sejam fruto de suspeitas de malfeitos diversos

O presidente Jair Bolsonaro enviou três representantes graduados para conversar com o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes na sexta-feira passada. Consta que foi um gesto político de Bolsonaro para tentar construir um canal de diálogo com o Supremo, depois de sucessivos reveses judiciais de bolsonaristas, do próprio presidente e de seus familiares.

Bolsonaro parece, mais uma vez, confundir as coisas. Talvez imagine que seus dissabores no Judiciário tenham sido motivados por ressentimento dos magistrados diante dos constantes reptos que há tempos lança contra o Supremo – inspirando inclusive seus seguidores e até um ministro de Estado a defender explicitamente o fechamento da Corte e a prisão de seus ministros.

Talvez não passe pela cabeça do presidente que os problemas que ele e os bolsonaristas enfrentam na Justiça sejam na verdade fruto de consistentes suspeitas de malfeitos diversos, que devem ser devidamente investigadas. Bolsonaro parece julgar que um gesto seu de apaziguamento seria suficiente para interromper esses processos, que os bolsonaristas entendem ser “políticos”.

Nesse sentido, a escolha do ministro Alexandre de Moraes para receber a visita dos emissários de Bolsonaro tinha o objetivo específico de afagar aquele que hoje concentra alguns dos mais espinhosos casos envolvendo bolsonaristas no Supremo. Não se sabe se o ministro Alexandre de Moraes se deixou comover pela atitude de Bolsonaro, mas é improvável que a embaixada bolsonarista tenha o efeito desejado pelo presidente.

Tampouco há notícias de que o ministro pretenda mudar o curso dos processos que preside depois que Bolsonaro, como suposta prova de disposição ao diálogo, sacrificou seu ministro mais bolsonarista, Abraham Weintraub, porque este havia ofendido os integrantes do Supremo.

O Supremo já deixou claro, em diversas oportunidades, que não se dobra nem às ameaças nem às artimanhas de Bolsonaro. Há hoje na Corte clara disposição de seguir adiante com as investigações que podem comprometer os camisas pardas bolsonaristas, alguns dos parlamentares mais fiéis ao presidente e um punhado de empresários acusados de financiar a máquina de destruição de reputações a serviço do bolsonarismo. Um dos processos, inclusive, pode levar a questionamentos a respeito da lisura da campanha que elegeu Bolsonaro em 2018.

A esta altura, é preciso ser muito ingênuo para acreditar que o presidente queira realmente distender sua relação com o Supremo, especialmente depois de ter dito, quase sempre aos gritos, que era preciso impor “limites” àquela Corte, que não cumpriria ordens judiciais “absurdas” e que “está chegando a hora de tudo ser colocado no seu devido lugar”. E ingenuidade não parece ser um traço encontradiço entre os ministros do Supremo.

Bolsonaro não está, como nunca esteve, interessado em “harmonia” com os demais Poderes, pois essa palavra não consta do léxico de um movimento que surgiu com o objetivo explícito de desmoralizar as instituições democráticas que se interpuserem em seu caminho. É o confronto permanente que justifica e alimenta esse movimento liberticida, razão pela qual todo recuo é apenas tático, quando não simplesmente um embuste para enganar incautos.

O aceno do presidente ao Supremo é, assim, somente uma encenação de maus atores, incapazes sequer de fingir que aceitam a democracia. Um presidente que espera que a mais alta Corte do País se submeta a seus caprichos só porque mandou ministros para uma visita de cortesia ou porque demitiu um ministro inconveniente é um presidente que não entendeu nem seu papel institucional nem a Constituição do País que governa.

Confiar na disposição de Bolsonaro para buscar uma “trégua” é o mesmo que crer em sua capacidade de se tornar o estadista que ele jamais foi. O único propósito do presidente é atrair o Supremo para seu pantanoso território, em que os interesses privados de sua encrencada família são confundidos com os mais altos interesses públicos.

Espera-se que o Supremo resista a mais essa tentativa do presidente de envolvê-lo em politicagem rasteira e, estritamente conforme a lei, determine diligentemente a punição dos que cometeram crimes, sejam eles quem forem.

Editorial / Notas & Informações, O Estado de S.Paulo
23 de junho de 2020 | 03h00

Relações entre civis e militares

Seria importante comandantes das FFAA se dissociarem de atos contra as instituições

As relações entre civis e militares ao logo da História republicana nunca foram bem resolvidas. O pensamento e as atitudes de cada lado se aproximam ou se distanciam por interesses comuns ou por questões ideológicas momentâneas.

Não faltam exemplos de cada uma dessas situações, a começar da Proclamação da República, passando pelo tenentismo, pelo período Vargas, pelo movimento de 64 e, agora, com a forte presença militar num governo civil eleito democraticamente. Nos últimos 35 anos, cabe ressaltar, as Forças Armadas cumpriram exemplarmente seu papel constitucional, mas não se pode negar a ocorrência de tensões, de tempos em tempos, em grande medida por desconhecimento da sociedade civil de suas atividades, prioridades e ações.

No tocante à política interna, do lado militar ainda não foi claramente resolvida a diferença da ação política entre militares da ativa e da reserva. Do lado civil, para ficar nos tempos mais contemporâneos, desde as “vivandeiras de quartéis” até hoje, com os que pedem a intervenção das Forças Armadas e o fechamento do Congresso e do STF, prevalece a tentativa de ignorar os limites do papel dos militares na política. Do lado militar, não está explicitada claramente a separação entre o profissionalismo das Forças Armadas como instituição do Estado, sem manifestação de apoio a partidos ou grupos políticos, e a atuação política de militares que, ao passarem para a reserva, incorporam valores civis e deixam de representar a instituição. Do lado civil, Congresso e sociedade deveriam ter maior presença nas discussões sobre questões de interesse das Forças. A Estratégia e a Política Nacional de Defesa, que deverão ser submetidas a exame do Congresso, deveriam ser discutidas em profundidade e merecer a atenção da classe política, ao contrário de até aqui. A ideia de um centro para o estudo das relações civis e militares, de defesa e segurança, sugerida pelo ministro Raul Jungmann e apoiada pelo Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), viria a preencher uma lacuna com a criação de um fórum privado para exame e discussão de temas relacionados com a despolitização das Forças Armadas, fortalecimento do controle civil e papel dos militares no processo decisório do Estado brasileiro.

No atual governo surgiu uma situação diferente dos governos anteriores a partir de 1985. Superado o período de governos militares, nos últimos 30 anos podem ter surgido tensões esporádicas, mas recentemente elas se acentuaram pela participação de grande número de militares da reserva e da ativa em cargos públicos no governo federal (mais de 2.900) e pelo estímulo de setores governamentais a ataques a instituições democráticas. No início julgou-se que os militares no governo poderiam servir de anteparo e de fator de moderação de políticas extremadas com forte viés ideológico, em especial na política externa, com graves e potenciais repercussões para os interesses brasileiros. 

Com o passar do tempo cresceu a dubiedade de afirmações de militares ministros (“consequências gravíssimas”, “esticar a corda”, “não cumprem ordens absurdas, como a tomada de poder por outro Poder da República por conta de julgamentos políticos”, sempre ressaltando o respeito à Constituição) e a percepção de que as Forças Armadas estão associadas ao governo e o apoiam. Isso resultou no desgaste da instituição e na crescente rejeição de ideias antidemocráticas.

Diferentes interpretações sobre o papel das Forças Armadas, estimuladas tanto por setores civis como por militares, trouxeram a público a discussão sobre o poder moderador dos militares, à luz do artigo 142 da Constituição. O presidente do STF, Dias Toffoli, havia se manifestado no sentido de que “as FFAA sabem muito bem que o artigo 142 da Constituição não lhes confere o papel de poder moderador”. O voto do ministro Luiz Fux, ao fixar regras e limites de atuação das Forças Armadas, conforme a Constituição, tudo indica, deverá ser respaldado pelo plenário do STF. A nota assinada pelo presidente da República, pelo vice-presidente e pelo ministro da Defesa aceita essa interpretação, ao lembrar que “as FFAA destinam-se à defesa da pátria, à garantia dos Poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. A decisão da Suprema Corte poderá ser a pedra angular do novo relacionamento entre civis e militares.

Militares em funções políticas de ministros e altos funcionários do governo observam seguidamente que as atitudes políticas de militares com postos no governo são de lealdade e não podem ser confundidas com a postura isenta das Forças Armadas como instituições de Estado. É do vice-presidente, militar da reserva, a afirmação de que “precisa acabar essa história de que as FFAA estão metidas na política”.

Essas afirmações seriam corroboradas pelo silêncio dos comandantes das três Forças, militares profissionais em função no Ministério da Defesa. Para encerrar de vez esse capítulo seria importante que os comandantes das três Forças se manifestem publicamente, dissociando-as de demonstrações contra as instituições, caso venham a se repetir. Com isso ficaria claro o não envolvimento da instituição na política interna e seu total respeito à Constituição.

O autor deste artigo, embaixador Rubens Barbosa, aposentado do serviço diplomático, escolheu como tema "As relações entre civis e militares" para a sua tese de Mestrado na London School of Economics. Publicado originalmente pelo O Estado de São Paulo, edição de 23.06.2020.

Governo altera data de exoneração de Weintraub do Ministério da Educação

Decreto diz que ex-ministro foi exonerado um dia antes de chegar aos Estados Unidos. MP pediu para investigar eventual atuação do Itamaraty na ida dele para Miami.

Bolsonaro retifica data de exoneração de Abraham Weintraub

Um decreto do presidente Jair Bolsonaro publicado no “Diário Oficial da União” desta terça-feira (23) alterou a data de exoneração do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub. Inicialmente, o governo havia publicado a exoneração de Weintraub no sábado (20), quando ele já estava nos Estados Unidos. Agora, a data oficial é sexta-feira (19), um dia antes de Weintraub chegar a Miami.

Weintraub deixou o governo depois de se envolver em uma série de polêmicas e de ofender ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele é alvo de duas investigações na Corte: uma apura a ofensa aos ministros e a outra apura suspeita de declarações racistas contra o povo chinês. Weintraub chegou a dizer que, quando saísse do governo, deixaria o país o "mais rápido possível".

O governo retificou a data da exoneração um dia depois de o Ministério Público pedir para o Tribunal de Contas da União (TCU) apurar a eventual atuação do Itamaraty na viagem de Weintraub aos EUA.

De acordo com um decreto do governo norte-americano, cidadãos de algumas nações, entre as quais o Brasil, devem fazer quarentena antes de entrar no país.

O MP quer saber se Weintraub se aproveitou da condição de ministro, mesmo não estando mais no governo, para obter um visto especial que autoriza entrada imediada nos EUA.

O vídeo abaixo explica que, dentre as exceções do decreto norte-americano sobre quarentena para a entrada de brasileiros nos Estados Unidos, estão ministros de Estado.




Explicação do governo

Em nota divulgada nesta terça, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República disse que a exoneração de Weintraub foi publicada no sábado porque foi nesse dia que o pedido dele de saída do governo chegou às mãos da Secretaria-Geral.

No entanto, explicou a Secom, o comunicado de Weintraub pedia a demissão a partir da sexta-feira. Por isso, o ato oficial foi retificado.

Veja a íntegra da nota da Secom:

NOTA À IMPRENSA

Quanto à retificação da data de exoneração de Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub do cargo de Ministro de Estado da Educação, publicada em 23 de junho de 2020, esta Assessoria informa:

- A carta em que o então Ministro da Educação solicitou ao Presidente da República a exoneração do cargo de Ministro de Estado foi entregue ao Secretário-Geral no dia 20 de junho, sábado, que determinou a publicação em Diário Oficial da União extra.

- A entrada oficial do documento na Secretaria-Geral da Presidência da República ocorreu no dia 22 de junho, segunda-feira.

- Entretanto, na carta, o então Ministro da Educação solicitou exoneração do cargo a contar de 19 de junho de 2020, motivo pelo qual o ato foi retificado.

ASSESSORIA ESPECIAL DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

Fonte: G1
23/06/2020 06h40  Atualizado há 52 minutos

Justiça federal obriga Bolsonaro a usar máscara em espaços públicos no DF

A decisão obriga ainda a União a exigir de seus servidores e colaboradores o uso de máscara enquanto estiverem prestando serviços

A Justiça Federal determinou, nesta terça-feira (23/6), que o presidente Jair Bolsonaro use máscara de proteção em espaços públicos no Distrito Federal. Caso descumpra, o chefe do Executivo poderá pagar multa diária de R$ 2 mil, conforme decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).

O pedido foi feito por um advogado, em uma ação civil pública. A decisão obriga ainda a União a exigir de seus servidores e colaboradores o uso de máscara enquanto estiverem prestando serviços, sob pena de multa diária de R$ 20 mil. Além disso, o GDF deverá fiscalizar o uso efetivo do equipamento em toda a população, também sob pena de multa a ser fixada.

Na decisão, o juiz Renato Borelli destaca que mesmo sem consenso na comunidade científica sobre a disseminação da covid-19 por pacientes assintomáticos, "mostra-se, no mínimo, desrespeitoso o ato de sair em público sem o uso" do equipamento, "colocando em risco a saúde de outras pessoas".

"Inúmeras imagens"

"Basta uma simples consulta ao Google para se ter acesso a inúmeras imagens do réu Jair Messias Bolsonaro, transitando por Brasília e entorno do Distrito Federal, sem utilizar máscara de proteção individual, expondo outras pessoas à propagação de enfermidade que tem causado comoção nacional", pontua.       

O uso de máscara no DF é obrigatório desde o dia 30 de abril. A partir do dia 18 de maio, o governo passou a multar em R$ 2 mil aqueles que não a utilizam em espaços públicos. No dia 15 de junho, o governo do DF multou o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub por andar sem máscara.

Fonte: Sarah Teófilo para o Correio Braziliense
postado em 23/06/2020 10:21 / atualizado em 23/06/2020 10:50

Livro de John Bolton: 4 revelações sobre Trump nas polêmicas memórias do ex-assessor presidencial que a Casa Branca quer proibir

É provavelmente o livro mais esperado do ano nos Estados Unidos.

A sua publicação foi anunciada em janeiro e desde então há leitores que já encomendaram suas cópias.


                                       Direito de imagemREUTERS
John Bolton
John Bolton foi o assessor de Segurança Nacional do governo de Donald Trump


Trata-se do livro de memórias de John Bolton, ex-assessor de Segurança Nacional do governo de Donald Trump, que promete revelar informações relevantes que não vieram à tona durante o processo de impeachment.

Com o título O Quarto onde Aconteceu (The Room Where It Happened), de 577 páginas, o livro deve chegar às lojas no dia 23 de junho - caso a Casa Branca não consiga impedir a sua publicação.

De acordo com o Departamento de Justiça, o livro contém "informações confidenciais". Na quarta-feira, o governo pediu que um juiz impeça a sua publicação.

Trump acusou Bolton, em uma entrevista na televisão na quarta-feira, de infringir as leis ao publicar o livro.

Bolton, que tinha sido embaixador dos EUA na ONU durante o governo de George W. Bush, trabalhou com Trump na Casa Branca de abril de 2018 até setembro de 2019. Ela nega que esteja cometendo algum crime.

A BBC conta abaixo algumas das revelações mais polêmicas do livro que já foram divulgadas pela imprensa americana até agora:

1. Trump buscou apoio da China para garantir sua reeleição

De acordo com o livro de Bolton, o presidente americano pediu ajuda ao seu colega chinês, Xi Jinping, para conseguir se reeleger neste ano.


Donald Trump e Xi Jinping

Donald Trump e Xi Jinping  / Direito de imagemREUTERS

Segundo Bolton, Trump pediu ajuda ao presidente chinês Xi Jinping para se reeleger
A mensagem havia sido transmitida em diversas oportunidades.

Em uma cúpula de 2019, Trump teria dito a Xi que o aumento de compras agrícolas e de grãos americanos por parte dos chineses melhoraria suas perspectivas eleitorais.

Também em junho de 2019, durante um encontro bilateral na Cúpula do G20 no Japão, Trump teria falado com Xi sobre os comícios presidenciais nos Estados Unidos "referindo-se à capacidade econômica da China para influenciar a campanha em curso, pedindo a Xi que assegurasse que ele ganharia".

"(Trump) Destacou a importância dos agricultores e de um aumento das compras chinesas de soja e trigo no resultado eleitoral. Eu publicaria as palavras exatas de Trump, mas o processo de revisão prévia do governo me impediu", diz Bolton no livro, segundo o The Washington Post.

Quando Xi concordou em dar prioridade aos produtos agrícolas durante as negociações comerciais, Trump se referiu a ele como "o maior líder da história da China".

Na quarta-feira pela tarde, o representante comercial dos Estados Unidos, Robert Lighthizer, refutou a versão de Bolton e disse que o pedido de ajuda para a reeleição "nunca ocorreu".

2. Invadir Venezuela seria 'legal'

De acordo com o relato de Bolton, que era um dos críticos mais ferrenhos ao presidente venezuelano Nicolás Maduro nos EUA, muitos dos governantes ajudados por Trump em troca de apoio tiravam proveito do presidente, na tentativa de manipulá-lo.

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Um exemplo citado no livro foi uma ligação telefônica em maio de 2019 na qual o presidente da Rússia, Vladimir Putin, comparou o líder da oposição venezuelana Juan Guaidó a Hillary Clinton, candidata democrata rival de Trump nas eleições de 2016.

Bolton classifica essa jogada como "uma brilhante amostra da propaganda no estilo soviético", que teria como objetivo assegurar apoio a Maduro, que é aliado do Kremlin.

E o resultado disso? Segundo Bolton, os argumentos de Putin "persuadiram Trump em grande parte".

O governo Trump, no entanto, mantém seu apoio firme a Guiadó como presidente interino e até aumentou as sanções contra o governo de Maduro.

Ao mesmo tempo, Bolton atribui a Trump uma série de afirmações escandalosas, como por exemplo, de que seria "cool" ("legal") invadir a Venezuela e que o país sul-americano é "na verdade parte dos Estados Unidos".

3. 'Ajudar os ditadores'

No livro, Bolton faz referência a várias ocasiões em que - segundo sua versão - Trump manifestou disposição em impedir investigações penais "para, na verdade, fazer favores pessoais a ditadores que lhe agradam".

O ex-assessor de Segurança Nacional diz que, em maio de 2018, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, entregou a Trump um documento no qual defendia a inocência de uma empresa turca que estava sendo investigada por promotores do Distrito Sul de Nova York por supostas violações a sanções contra o Irã.

"Trump então disse a Erdogan que tomaria as rédeas das coisas, explicando a ele que as pessoas da promotoria do Distrito Sul não eram pessoas suas, mas sim de Obama [ex-presidente Barack Obama, antecessor de Trump na Casa Branca], um problema que estaria solucionado quando fossem substituídos por pessoas suas", escreve Bolton, que diz que a obstrução de Justiça parecia ser padrão no governo, o que informou o procurador geral William Barr sobre isso.

4. Obsessão por reeleição

Bolton assegura que Trump tinha um único objetivo acima de todos: garantir sua permanência na Casa Branca por mais quatro anos.

"É difícil achar alguma decisão significativa de Trump durante meu período com ele que não estivesse motivada por cálculos sobre sua reeleição", escreve.

Um exemplo disso foi a decisão de Trump de falar publicamente sobre seu desejo de tirar Maduro do poder durante 2018, o que - segundo o livro - estava motivado por seu desejo de agradar eleitores republicanos na Flórida.

No entanto, Bolton descreve Trump como hesitante na hora de apoiar Juan Guaidó, que se declarou presidente interino da Venezuela com apoio americano em janeiro de 2019.

Mesmo tendo apoiado a proposta de Bolton para reconhecer Guaidó como presidente legítimo da Venezuela, em apenas 30 horas, Trump já estava considerando voltar atrás, pois considerava Guaidó frágil como um "menino" em comparação com o "robusto" Maduro.

Com a mesma motivação eleitoral, Bolton diz que, em 2018, Trump gritou em uma reunião com um dos seus principais assessores, indicando que o muro da fronteira do México precisava ser construído e que a imigração ilegal precisava cair.

"Fui eleito por causa deste tema e agora não vou ser reeleito por causa disso", teria dito Trump, segundo Bolton.

Fonte: BBC News Brazil

Bispos e pastores da Universal em Angola tomam controle de templos e rompem com direção brasileira


                                       Direito de imagemALAN SANTOS/PR

Bispo Edir Macedo

A Universal é liderada pelo bispo brasileiro Edir Macedo e está presente hoje em mais de 95 países

Um grupo de bispos e pastores da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola informou ter assumido na segunda-feira (22/6) o controle de 35 templos da instituição em Luanda e cerca de 50 em outras províncias do país, como Lunda-Norte, Huambo, Benguela, Malanje e Cafunfo.

A Universal é liderada pelo bispo brasileiro Edir Macedo e está presente hoje em mais de 95 países, com cerca de 10 mil templos. Tem 500 mil fiéis em Angola.

Os religiosos angolanos declararam ruptura com a gestão brasileira. É um movimento sem precedentes, que começou em novembro de 2019, com a divulgação de um manifesto com críticas à direção brasileira da igreja.

De sucessor oficial de Edir Macedo, ex-número 2 da Igreja Universal vira concorrente
De herege a ícone contemporâneo: há 100 anos, a Igreja canonizava Joana d'Arc
O controle da Universal em Angola será assumido agora, segundo o grupo rebelado, pelo bispo Valente Bezerra Luiz, então vice-presidente da igreja.

Eles dizem que a igreja no país passará a ser chamada de Igreja Universal de Angola. Os dissidentes dizem já ter o comando de 42% dos templos.

Procurada pela BBC News Brasil nesta segunda-feira (22), a Universal não respondeu aos pedidos de entrevista até a publicação desta reportagem.

Acusações

Os bispos e pastores angolanos acusam a direção brasileira da igreja de evasão de divisas, expatriação ilícita de capital, racismo, discriminação, abuso de autoridade, imposição da prática de vasectomia aos pastores e intromissão na vida conjugal dos religiosos.

Reclamam ainda de privilégios dados aos bispos brasileiros e pediam uma maior valorização do episcopado angolano.

O manifesto elaborado em novembro — com a assinatura de 320 bispos e pastores —, foi encaminhado ao principal líder da igreja no país, o bispo brasileiro Honorilton Gonçalves, ex-vice-presidente da TV Record.

Os religiosos dizem não ter sido atendidos. No manifesto, já pediam aos líderes brasileiros da igreja que deixassem o país para que a instituição passasse a ser administrada apenas por angolanos.

Dinis Bundo, identificado como obreiro da Universal e porta-voz do grupo rebelado, reclamou das benesses aos religiosos brasileiros.

Segundo ele, as melhores igrejas sempre foram designadas aos brasileiros, que seriam beneficiados também com bons salários e carros modernos.

Resistência

                                       Direito de imagem DIVULGAÇÃO/IURD
Culto da Universal (IURD) em Angola

Igreja Universal do Reino de Deus iniciou suas operações em Angola em 1992 e tem mais de 230 templos no país

Bundo informou que, além das 35 igrejas em Luanda, os manifestantes passaram a controlar 18 igrejas em Benguela, 14 em Malanje, 10 em Huambo e 8 em Luanda-Norte.

O grupo tomou o controle também da Catedral do Morro Bento e do Cenáculo do Patriota, principais centros religiosos da instituição em Luanda.

Em alguns templos houve resistência. Os religiosos angolanos tomaram as chaves dos estabelecimentos e, em meio a discussões e empurrões, os responsáveis até aquele momento foram expulsos.

Em nota divulgada à imprensa, o corpo de pastores denunciou "atos de arbitrariedades" que estariam sendo praticados pela direção da Universal em Angola.

O bispo Honorilton Gonçalves, segundo a nota, estaria perseguindo, punindo e intimidando bispos e pastores angolanos.

Além da vasectomia imposta a pastores, mulheres dos religiosos estariam sendo obrigadas a abortar, conforme a nota.

Entre outras queixas dos religiosos, o documento denuncia ainda a "falsificação de ata de eleição de órgãos sociais da IURD", emissão de procurações com plenos poderes a cidadãos brasileiros para exercer atos reservados à assembleia geral, proibição às mulheres de pastores de terem acesso à formação acadêmica-científica e técnico-profissional, irregularidades no pagamento de segurança social dos pastores e falta de projeto de desenvolvimento pastoral em formação teológica específica.

Gilberto Nascimento
De São Paulo para a BBC News Brasil
Há 6 horas