domingo, 4 de outubro de 2009

As Cores do Trem

Se você quer a miríade, dez mil estrelas luzindo nas trevas do céu sobre o infinito do mar, e mais aquele vento salpicando o restante do marulhar, então assobie uma canção qualquer, num ritmo de tango, talvez, e deixe escapulir as idéias.

Assim, sem idéia nenhuma, você se sentindo entre o céu e a terra, mas sem os pés no chão, logo levitará com os seus sonhos num movimento pendular como criança na rede, pra lá e prá cá, pra lá e pra cá.

Não dá para cair quando o sonho se embala em consistências letárgicas, os movimentos no derredor parados, as cores em parelhas paradas, o ar parado, os gritos que romperam o sufoco parados no ar, a cena parada como a natureza morta anônima emoldurada na parede sem ninguém notar.

O sonho se faz forte pelas energias captadas, pelas inspirações reencontradas na abundancia de ilusões.

Muito já se falou numa bacia das almas onde só havia espaço para as mais penadas. Imagina só o tamanho da fila em frente a essa bacia enorme ficando pequena para caber as almas todas de tanta gente estupidamente cruel e infeliz.

Não é que tenham que se banhar porque de tão sujas nas suas ações infectaram tanto as suas almas que já não existe mais bacia que dê conta. A tão falada bacia das almas evaporou-se com almas e tudo enquanto derreteu.

Então se você quer outra miríade, por exemplo, aquela dos dez mil sóis do universo, poderá obtê-la, mas não lhe será fácil adormecer e sonhar assim tão intensamente porque sendo o sol o pai de toda cor será inimaginável saber como esses tantos sóis girarão salpicando cores e mais cores em incontáveis tons tudo por sua causa, por causa de você.

Um sol apenas já esparrama tanta luz inventando ate arco- íris em horizontes tamanhos, imagina só nessa pluralidade pipocando clarões.

Ainda assim, tem gente que não enxerga ou porque sendo cego por dentro não tem mesmo como enxergar nada. E aí a frustração por não saber distinguir o verde do abacate do verde dos brócolis, ou o marrom do sorvete de chocolate do marrom da pelugem de um cão.

Isso, se ficarmos somente só nos tons do verde. Meu primeiro carro zero foi um fusca verde garrafa. Havia também o verde folha em nada confundível com aquele respeitável conquanto temível verde oliva então privativo de certas tonalidades.

Em se tratando de azul, recordo o azul pastel, a cor da variante, o meu automóvel com dois carburadores, de quando eu era um dos dois únicos moradores com casa própria na Ponta d'areia. O outro era o Jesus, o Jose de Jesus.

O sol radiante sobre as coisas é capaz de fazer tantas cores, que você nem imagina. Já ouviu falar no amarelo piscando, é claro. No azul cáqui também. No vermelho corado que dá em certas caras envergonhadas também. E também por algumas outras razoes nas caras dos que nem sabem o que é vergonha na cara, também.

O sol é o dono das cores, e nem é oportuno lembrar isso agora, nesse tempo que escorre, nesse clima que faz. Não é bom porque pode ter gente com síndrome de dono de tudo que só para manipular as cores, travando os seus tens, emparedando os poetas, desempregando os pintores, por pura inveja apareça correndo e querendo sentença de usucapião para então tomando para si as cores do trem proclamar-se o dono geral das tonalidades afins, quaisquer que sejam, venham de onde vierem.

Das miríades das dez mil estrelas em pontos de luz nas trevas dos céus ou dos dez mil sóis quase cegando os invejosos, veja o quanto eles ainda são tantos querendo azarar a paz no mundo.

Nenhum comentário: