terça-feira, 9 de agosto de 2011

Sem Choro, Nem Vela


Sempre bonita, bem arrumada, educada, inteligente, foi chamando a atenção dos outros logo no começo, quando se apresentou, moçoila ainda, às provas do concurso para Procuradora do Ministério Público Federal, em Porto Alegre.

E nem era gaúcha.

O Humberto, Humberto Gomes de Barros, Presidente do STJ depois de mim, que a examinou numa das provas para Juiza Federal, me disse que em meio aos outros candidatos ela parecia uma estrela de Hollyoowd.

A Ellen chamava, ainda chama, a atenção mesmo.

Cargo de Juíza, naqueles tempos, quase sempre, era algo assim para as feias inteligentes ou para as megeras autoritárias. Não parecia o melhor lugar para mulher bonita, sensível, bem educada, como a Ellen.

Foi o Humberto quem me apresentou a Ellen há uns 20 anos numa reunião de Juizes Federais em Santa Catarina. Ele é um grande cordelista e eu, vez por outra, me meto a poeta. Fiz uma poesia para aquela Juíza elegante que parecia muito ocupada com a ideia de escolas para a magistratura.

Mostrei a poesia ao Humberto, ela a chamou, eu amarelei de encabulado, mas não mostrei a poesia, que para ela vai continuar inédita. Aquela apresentação começou nossa amizade extensiva à Eurídice, minha mulher e ao Isaac, o amigão gaúcho da Ellen, com quem me dou muito bem ainda hoje.

A Ellen seguia vitoriosa a carreira chegando a Presidente do Tribunal e depois cumprido o mandato, apenas Desembargadora Federal, quando virou consenso no País a ideia de que estava na hora de uma mulher ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.

O Nelson, Nelson Jobim, me contou os detalhes da operação. Ele havia sido o Ministro da Justiça do Fernando Henrique e a Dona Ruth, esposa do Presidente, era quem mais discursava em particular em favor de uma mulher no STF.

Foi o Nelson quem levou a Ellen numa noite ao Palácio do Alvorada apresentando-a formalmente ao Fernando Henrique, que se encantou com ela. A Ellen estudou nos Estados Unidos, foi bolsista da Fulbraight, e o Fernando, como o chama o Nelson, nunca escondeu seu entusiasmo por curriculuns com lastros acadêmicos.

Cabe lembrar que foi o curriculum do Brindeiro, Geraldo Brindeiro, lembram, pós graduado em Yale, por exemplo, que levou FHC a recuar na decisão de nomear Procurador Geral da República o José Arnaldo, o Sub Procurador Geral José Arnaldo da Fonseca, depois de ter prometido ao Senador ACM, que o faria.

Em seguida, abriu-se uma vaga no STJ para onde foi o José Arnaldo, onde realizou trabalho intenso de grande Ministro, Juiz humanista.

Mas voltando à Ellen, o Fernando fez assim com o polegar para cima em aceno positivo ao Nelson. Dona Ruth adorou a moça e ultrapassados os prolegômenos e seus rituais, lá estava no Supremo Tribunal Federal a primeira mulher, uma Juíza Federal, que também fora Procuradora Federal, uma Professora de Direito, a Ellen Gracie Norfield, uma típica cariúcha, nascida carioca e criada gaúcha.

Não sou contra a PEC da Bengala, a que eleva a aposentadoria dos magistrados para 75 anos, e quando a defendi na Câmara e no Senado não o fazia em causa própria, eis que pedi para sair do STJ quando teria pouco mais de 09 anos ainda a vencer no cargo.

Tenho aconselhado a todos a quem encontro que saiam antes. Assim, terão algum tempo de vida util para a liberdade de viver. Quanto a mim, me sentindo livre para escrever o que penso e viver como sempre gostei, trabalhando sempre, mas dono das minhas horas e opções, cada dia me convenço que fiz o certo.

A Ellen já vinha ensaiando sair há algum tempo. Seu sentimento era de missão cumprida. Avisou antes do ultimo recesso que não mais voltaria à sua bancada no plenário e que, dessa vez, era para valer. Esquivou-se das homenagens regimentais dos formatos das despedidas, naqueles rituais renascentistas.

Lembrando o apóstolo Paulo, ela combateu no que lhe foi possivel o seu bom combate. E não conspurcou a sua fé.

Deve ser muito chato ser Ministro do Supremo queimando em ementas, relatórios e votos, à exaustão, as melhores energias do espirito e tendo que ainda manter distancia das melhores alegrias da vida.

Um comentário:

Edson Vidigal disse...

Caro Vidigal,
Bacana, a história da Ellen. Fiquei feliz por você lembrar minha
participação em seu contacto com nossa amiga. Tenho na memória o poema
que V. escreveu na hora. Infelizmente, não pode ser divulgado. Guardei
o texto da crônica ( o que devia ter feito com o poema).
V. continua em forma. Seu texto é uma delícia.
Só uma coisa eu gostaria de acrescentar: além de belíssima, a Ellen
portou-se brilhantemente na arguição.
Vejo que V. recebeu o email em que expliquei minha ausência na
solenidade de sua posse no IAB. Acabo de ler seu discurso: apropriado,
sério e, acima de tudo, delicioso. Pena eu não o ter ouvido.
Receba um abraço do amigo e fã
Humberto