quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O Jovem Predador

Há quem diga na minha idade já não me cabe mais fazer isso ou aquilo. Ora, o mais grave a partir de certa idade não está em não fazer isso ou aquilo.

O mais grave na maturidade, e pior ainda na velhice, não é a perda das capacidades oftálmicas ou auditivas, que vão se reduzindo de forma inexorável, ou da memória. E quejandas.

O mais grave a partir de certa idade, digamos assim,  chegando à maturidade até alcançar a velhice, é a perda da noção do ridículo. Não há nada mais ridículo do que um velho arrogante e ridículo.

Mas eu quero é falar bem dos velhos, melhor dizendo dos mais vividos, louvando - lhes a sabedoria, a prudência, essas coisas resultantes da experiência que se transmudam e ficam em grandes lições de vida.

Eu pensava nisso quando o Luiz Raimundo, meu quase irmão de uma vida inteira, manda essa historinha, a qual para mim, e com certeza para você aí também, vem a calhar bem no tema.

Uma idosa senhora foi a um safári na África levando o seu velho cão vira latas. Um dia, caçando borboletas, o velho cão, de repente, se deu conta de que se perdera.

Vagando a esmo, em busca do caminho de volta, remoendo aquele verso de José Américo, no caminho da volta ninguém se perde, ninguém se perde, o velho cão percebeu que um jovem leopardo o seguia.

Vendo uns ossos espalhados, restos da mesa farta de algum outro inimigo, o velho cão chegou mais perto, um olho nos ossos e outro olho no jovem predador que se aproximava e passou a fazer de conta que os roía.

Ao notar que o jovem predador contava a regressiva para lhe dar o bote, o velho cão calmamente, ajeitando aquela ossada com odor de véspera, falou alto e compassado, palavra por palavra que nem um rei gago lendo um discurso. Oh cara, este leopardo estava delicioso. Será que há outros por aí?

Ouvindo isso, o jovem leopardo, com um arrepio de terror, sustou o seu ataque e saiu arrancando a cem por hora como quem busca asas para se esconder nas nuvens. Carrajo! Exclamou num alivio. Essa foi por pouco. O velho vira lata quase me pega.

Aqui entra em cena um macaco. Historia de leão que não tem macaco fica insossa. E o que faz o nosso distante ancestral? Esse jovem leopardo é um perigo e eu preciso da proteção dele. Engendrou.

O macaco contou então ao jovem predador que aquilo tinha sido uma inteligente jogada do velho cão. Fulo de raiva, o leopardo como se brincasse de surrão, quer comprar surrão, quer comprar, sai com o macaco nos ombros atrás do velho cão. Canalha, vais me pagar. Resmungou raivoso.

Novamente o velho cão surpreende. Ao ver os dois correndo, o macaco se pendurando nos ombros do leopardo, os dois correndo, mancomunados, querendo agarrá-lo, o velho cão fica na sua, de costas para o perigo. Parado.

E só quando os dois estão bem perto, o velho cão novamente quase soletrando as palavras, que nem um rei gago, indaga num tom firme. E cadê o filho da puta daquele macaco? Estou quase morrendo de fome! Ele me disse que ia trazer outro leopardo para eu comer e não chega nunca!

Moral da história. Completa o Luiz. Não subestime um cachorro velho. Idade e habilidade são mais que juventude e intriga. Sabedoria não vem apenas com a idade. Vem com a experiência. Vale ser astuto. Nunca ridículo.

Um comentário:

blog do Walney Batista disse...

Olá amigo,em estou começando um trabalho e gostaria que voc~e também mim seguisse no blog do Walney Batista,sua presença só vem enriquecer ainda mais minha página.De já agradeço e um abraço.